avaliando
— Grace. Sério mesmo! Acho que você deveria ir com a gente.
— Você tá louca, Lydia? Ficar segurando vela? — Grace retruca.
— Tecnicamente, eu e o Thomas não estaremos sozinhos. Então, tecnicamente — repetiu —, você não vai segurar vela alguma.
— Para de falar tanto tecnicamente, amigona.
— Tá, tá! Mas eu fico muito triste em te deixar sozinha.
Já havia duas semanas que Matthew, o namorado de Grace, não viajava para North Adams. As provas estavam acabando com ele.
— Deixa comigo. Eu estava pensando em voltar a malhar hoje mesmo... — Grace falou.
— Malhar? Sexta? À noite?
Grace fez uma cara de quem fora pega na mentira.
— Tá! Eu não ia mesmo malhar. Mas eu arrumo algo pra fazer.
— Eu imploro para ir com a gente. Você tem que conhecer o Thomas. Ele é muito legal. E eu falo tanto de você para ele!
— Ele não parece ser tão legal assim — Grace desdenhou.
— Ele é sim. Ele é muito engraçado com as ironias dele. E ele até curte música boa.
— Ele? Curtindo música boa?
— É! Ele não tem cara de quem curte apenas rock?
— Não. Ele tem cara de curtir Canto Gregoriano. Blé. Ele é meio careta, você não acha, não? — Grace disse, mexendo em sua mochila.
— Não, absolutamente. E você vai mudar de opinião hoje à noite!
As duas, depois da escola, foram direto para a casa de Grace. Lydia, toda animada, entrou no quarto da amiga só para pegar o vestido que mais gostava.
— Este aqui é tão lindo. Não entendo porque nunca usou, Grace. Ficaria ótimo em você.
— Você sabe que eu odeio vestidos curtos e colados no corpo. Se quiser, pode ficar com ele pra você.
— Sério? Sua tia não vai ficar brava? — Lydia perguntou enquanto colava o vestido no corpo.
— Ela nem lembra que me deu isso — Grace disse dando de ombros.
Era um vestido de grife italiana, completamente preto e curto, com uns cortes bem na altura dos seios. Extremamente estranho para Grace, que gostava de vestidos floridos e rodados: gosto que herdou da avó. Grace aprendera a costurar e, desde então, comprava tecidos e fazia as suas próprias roupas.
Resultado: Lydia estava vestida de um modo completamente chique e atraente. O que era aceitável, afinal estava num pseudo-segundo-encontro, apesar do fato de estar levando sua melhor amiga. E Grace usava um leve vestido branco, com estamapa de flores tropicais, e um tênis branco.
As duas estariam extremamente lindas se estivessem em ambientes diferentes, era como se uma fosse para uma boate e outra para um piquenique.
— Ele chegou — Lydia conseguiu dizer antes mesmo que a buzina de Thomas soasse.
— E lá vamos nós... — Grace disse desanimada.
Lydia entrou no banco do carona e Grace, se sentindo completamente desconfortável, se sentou no assento da janela atrás da amiga. Não havia Luke nenhum ali; o que fez suas antenas de alerta ficarem acionadas. "Esse cara vai matar a gente, como faço para sair daqui viva?"
— Vocês estão lindas, meninas — Thomas disse, por fim. — Quero pedir desculpas pelo Luke. Ele está com dor de barriga; muito embora tenha pedido para que eu dissesse que ele teve que ficar cuidando da irmã.
Grace quase soltou uma gargalhada, mas se conteve.
Lydia tentou ignorar o comentário infeliz.
— Tudo bem. Melhoras para ele. Obrigada pelo elogio! Você também não está nada mal, Thomas.
Grace estava convencida a não falar nada durante o trajeto e prometeu a si mesma que se esforçaria para ser agradável na lanchonete: o que consistia em dar uns sorrisos — sem mostrar os dentes possivelmente sujos de alface — para qualquer coisa que falassem.
♡
Depois de fazerem seus pedidos, Thomas e Lydia começaram a conversar entre si baixinho, de modo que Grace não conseguia ouvir nada da conversa.
Grace resolveu dar mais uma olhada no celular, essa seria a centésima vez naquela mesa. Ela havia enviado uma mensagem de texto para o namorado avisando que lancharia com Lydia e o namorado — sim, ela categorizou Thomas já como namorado de Lydia —, mas ainda não havia recebido retorno algum.
Thomas, por vezes, pensou em iniciar alguma conversa com Grace. Mas, por algum motivo, Grace estava evitando olhar para ele. Isso ele não entendia. Ora, ela havia sorrido para ele hoje mesmo de manhã.
— Grace, é verdade que vocês subiram numa mangueira no ano passado e você quase quebrou o braço? — Thomas, de repente, falou mais alto para incluir a amiga de Lydia na conversa.
— É.
— A Grace é muito desastrada. Eu já te contei da vez em que ela—.
— Ei, Lydia. Não — Grace interrompeu.
Lydia sabia muito bem tocar na ferida de sua amiga. Grace odiava ser considerada desastrada, o que realmente era. Lydia sabia que uma vez que implicasse com Grace, ela não iria parar de se defender.
— Ah, que isso! Agora eu quero saber — Thomas instigou.
— É que, um dia... — Pela primeira vez na noite, Grace olhou diretamente nos olhos de Thomas. Um olhar que Thomas classificou, mais tarde, como caloroso. Um olhar que o alegrou tanto em receber, que não conseguiu desviar sequer um segundo. — Eu grampeei o meu próprio dedo quando estava estudando para uma prova. Mas nada foi mais tosco do que a Lydia rindo da minha cara e tentando mostrar para a minha mãe como eu havia conseguido grampear meu próprio dedo... e aí ela acabou grampeando o próprio dedo, também. Quem ganhou no quesito idiotice?
— Lydia, obviamente — Thomas concordou.
E, assim, todos estavam rindo e sendo legais na mesa. A noite não seria assim tão ruim, afinal.
— Não! — Lydia estava soluçando de tanto rir. — Não era disso que eu ia falar.
— Ela acha que consegue ser mais normal que eu. — Grace, sem querer, viu que estava dirigindo-se a Thomas e esperando por seu apoio, coisas que ela só fazia quando estava na defensiva. Ele, para o desespero dela, ainda estava olhando para ela, acenando com a cabeça. Antes de desviar o olhar, ela viu os olhos de Thomas viajarem por uns segundos de seu rosto para suas mãos, onde ela segurava nervosamente uma fina pulseira de prata com um pingente escrito "Jesus" em grego. Sentiu-se estranha por ser observada daquele jeito por ele.
— Eu ia dizer daquela vez em que o Matthew, o namorado dela, fez uma serenata de amor para a Grace, e ela, de alguma maneira, quase o matou porque achou que era um ladrão. — Lydia interrompeu o momento estranho.
— Eu disse para ele que não sou muito boa em receber surpresas... — Grace pegou mais uma vez o celular. Finalmente uma mensagem de Matthew.
"Tudo bem, amor.
Desculpa a demora. Estudando muito.
Se divirta.
Chegando em casa, me liga: tenho novidades.
Te amo."
— E, pra receber uma surpresa, as pessoas precisam ser boas nisso? — Todos só riram, não responderam à pergunta de Lydia.
— Onde está seu namorado, Grace? — perguntou Thomas, agora curioso pelo fato de Grace ter um namorado.
— Boston... Faculdade.
— Uau! Vocês namoram à distância? — Ele pareceu realmente interessado.
— Praticamente, sim — Lydia respondeu por Grace. — Mas eles são uma graça quando estão juntos, sabe? Almas gêmeas, você tem que ver!
— É, somos — Grace confirmou e sorriu, meio sem graça.
Thomas a olhava com um pouco de ceticismo. Alguma coisa estava errada ali naquela garota, só não sabia o quê. Grace lançava um olhar deprimido para o casal à sua frente.
Uma coisa Thomas gostaria de confessar: estava há tempos avaliando-a. E, sendo ele um homem sério, tinha mesmo que observar muito bem antes de se interessar por alguém. Mesmo que tivesse gostado dela no início, da personalidade dela, das suas roupas e do modo de se portar, ele ainda não sabia muito dela para dizer com todas as letras que era alguém que valeria a pena investir. Ele estava quase certo de que ela era cristã, mas ainda não existia nenhuma prova concreta. De qualquer forma, todo seu interesse primário deveria ir embora pelo fato de ela ter um namorado.
E quanto a Grace? Falar sobre Matthew era um problema para ela. E nunca havia se sentido tão estranha por falar dele quanto naquele momento. Ela ainda não entendia o porquê de aquele olhar de Thomas sobre si ser tão constrangedor.
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Espero que eles resolvam logo essa situação. Porque estão se complicando demais.
Não esquece a estrelinha. ⭐
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