aniversário I

Thomas acordou cedo naquele sábado para fazer uma última caminhada na vizinhança. Colocou sua calça de moletom cinza, sua camiseta branca e o tênis de corrida e saiu em direção à escola. Era sábado, mas queria ver pela última vez o lugar onde havia conhecido seus amigos e, claro, Grace. Mesmo que as coisas que aconteciam no último andar ficassem no último andar, ele ainda pensava em cada momento daquela conversa. De fato, aquilo nunca sairia de sua cabeça.

Pegou o celular e olhou as notificações do Facebook. Não havia nada demais, a não ser a notificação de que hoje era, simplesmente, o aniversário de Grace.

Como ela pôde não ter falado disso antes? E, logo hoje, quando ele iria embora?

Ele devia fazer alguma coisa. Talvez dar um presente, mas falar com ela parecia uma péssima ideia. Tinha que dar um jeito. Hoje era o único dia que ele tinha.

•••

Grace não havia acordado nada disposta naquela manhã. Finalmente fazia 18 anos! Mas o dia não prometia ser assim tão bom. Começando pelo sonho daquela madrugada.

Sonhava que se dividia entre dois mundos e não conseguia pousar o pé em nenhum dos dois. Aquela sensação de estar flutuando a fez ficar em pouco enjoada, fazendo-a acordar logo no início da manhã.

— Sabrine, você já está acordada? — olhou no relógio do criado-mudo, ainda era 5:30.

— Você quer dizer: Sabrine, você ainda não dormiu? — A garota estava na escrivaninha de Grace, muito concentrada no celular.

— O que você está fazendo? — disse Grace enquanto se esticava na cama.

— Estou resolvendo coisas para o seu aniversário... Aaah! É seu aniversário! Parabéns, Grace! — Sabrine falou com um sorriso no rosto, mas constrangida demais para dar um abraço.

— Obrigada, Sabrine! — Grace sorriu e entendeu que aquilo, vindo de uma menina que havia assumido não ter gostado de você por um tempo, já era suficiente.

Grace olhou para o celular esperando por alguma mensagem de feliz aniversário, mas nenhuma chegou. Nem mesmo de Matthew. De Thomas, Grace não esperava nada, afinal, eles tinham que manter o acordo. Mas nem mesmo Lydia, que sempre foi a primeira, deu sequer um feliz aniversário.

Grace e Sabrine passaram a tarde no shopping, e isso fez com que ela ficasse mais tranquilas quanto aos próximos eventos. Ao menos deu para esquecê-los por alguns momentos.

•••

Thomas não passaria na casa de Grace, mas precisava arrumar algum modo de fazer com que seu presente chegasse a ela. A primeira pessoa que veio à mente foi Brenda, sua antiga amiga, com quem há um bom tempo não conversava.

— Ah, quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? — disse Brenda quando Thomas apareceu na porta de sua casa.

— Preciso de ajuda.

— Mas é claro que precisa. Você só me procura pra isso — Bê revirou os olhos.

— Isso é mentira.

— É, mas eu senti sua falta.

— Eu também senti. — Thomas odiava ser meloso. — Foco. Me ajuda com uma coisa.

— Fala logo, preciso almoçar.

— Hoje é aniversário da Grace e...—

— Grace Daves? É sério que você está insistindo nessa garota? — Bê encostou na porta, desacreditada.

— Não estou insistindo. Ela é minha amiga e preciso entregar este presente — Thomas levantou uma caixa se tamanho médio que estava em suas mãos — pra ela.

— Então entrega esse presente pra ela, oras.

— Não é tão simples assim. Não estamos nos falando no momento.

— Brigou com a garota? O que foi que ela te fez, Tom?

— Não. Nada. Não brigamos.

— Então se resolve com ela. — Ela revirou os olhos. Não estava a fim de ouvir sobre essas complicações amorosas.

— Não tem como.

— Por que não tem como?

— Porque estou indo embora.

— O quê? — Bê abriu sua boca num "o".

— Estou indo morar na Escócia. Hoje.

— Não acredito, Tom! Você passou naquele troço que você vivia falando sobre? Parabéns! — ela disse contente, porém um pouco preocupada em ficar tão distante dele.

— Pois é... você sabe que eu sempre quis morar lá, não é?!

— Sei... mas é difícil pensar numa North Adams sem você.

— Eu sei, Brenda — gabou-se Thomas, com um sorriso de lado.

— Você é tão convencido. Me dá um abraço. — Bê abriu os braços.

— Ah não! Odeio quando você fica toda sentimentalzinha. E você sabe que não sou de ficar abraçando garotas. — Thomas sorria.

— Ah, cala a boca! Eu não sou qualquer uma. — disse Bê aproximando-se.

— Tá. Só um, bem breve — disse Thomas abraçando-a. Quando a soltou, continuou a falar: — Preciso de mais uma coisa...

— Tá, fala — disse Bê, colocando a mão na cintura, impaciente.

— Eu preciso que você se aproxime da Grace. Não precisa ser melhor amiga, essas coisas. Mas não deixe que ela fique sozinha.

— Eu não acredito — Bê suspirou.

— O que foi? — Thomas franziu o cenho.

— Por nenhum momento você achou que eu também ficaria sozinha?

— Não, eu... você tem muitos amigos, Beôla. — Thomas usou o apelido que tinha inventado para a amiga há anos, o que deixou-a emocionada. — E eu sou, hum, o amigo mais próximo da Grace. Acho até que vocês duas se dariam muito bem.

— Você quer dizer, então, que ela é a sua melhor amiga agora?

— Vocês duas são minhas amigas mais próximas.

— Eu não posso ficar um instante longe de você que já tenho que dividir o posto...

— Não é um posto. Você sabe.

— Tá, sei. Mas, enfim, essa Grace Daves não tem nada a ver comigo, você sabe. Não tem como ser amiga dela.

— Como você sabe que ela não tem nada a ver contigo?

— Por que...—

— Porque você nunca tentou se aproximar dela. Ela é uma garota incrível, inteligente e com um ótimo senso de humor. Sem contar que—

— Você está apaixonado por ela.

— O quê? — Thomas olhou para a amiga, espantado.

— É... olha o jeito que você fala dela. Nunca te vi assim, eu também nunca te vi apaixonado. Deve ser assim que você fica quando está apaixonado.

— Hum... — Thomas mexeu no cabelo.

— Thomas. Ela não tem namorado?

— Tem...—

— Então você faz bem em ir embora. Aproveita seu tempo na Escócia para tirar essa besteira da sua cabeça. Ela não é para você.

— Tá. — Thomas resolveu consentir só para não ter que dizer o que sente. — Mas entrega o presente, e tenta ser gentil com ela, pelo menos.

— Eu vou fazer o que me pediu. Mas não posso prometer ser amiga da garota que roubou meu melhor amigo.

— Está bem, Marcie. Muito obrigado — Thomas revirou os olhos, sabendo que a amiga faria exatamente o que ele pediu.

— Não esquece de me trazer um pouco de neve nas férias.

— Se eu vier, trago um contêiner de neve pra você.

— Boa viagem, Tom! Te amo! — disse Marcie, despedindo-se.

— Tá — disse Thomas, sem jeito. — Obrigado!

— Seu besta, sem graça! Te odeio — Marcie deu um soco no ombro do amigo.

— Você sabe, não preciso falar. Juízo sem mim, Beôla!

•••

As meninas ainda estavam no shopping quando Sabrine recebeu uma suposta ligação de seus pais para que elas fossem urgentemente à sua casa.

Elas foram e ver os simpáticos pais de Matthew foi, mais uma vez, de cortar o coração. Aquela experiência estava sensibilizando tanto a Grace, que temia não ter forças para o que estava prestes a fazer. Depois de muita conversa com os pais de Matthew, Sabrine deu a ideia de saírem para comer uma pizza mais tarde.

Grace já sabia o que estava por vir... Mas ainda não tinha qualquer pista de que Matthew estaria por perto. Muito pelo contrário, ele estava se escondendo muito bem, se é que viria.

Quando ia pegar algumas roupas de Sabrine para tomar banho ali mesmo, Grace, sem querer, ouviu um pouco de uma conversa de Sabrine ao celular.

Você acha mesmo que precisa disso tudo? Pensa bem... Faz o que ela gosta. Sim, isso. Vai com calma. Ela não está muito feliz ultimamente, faça ela ficar mais pra cima primeiro.

Então ele vinha mesmo. Aquela expectativa era demais para Grace. Chorou no banho, mas saiu como se nada tivesse acontecido.

Grace começou a confabular suas teorias: como terminar um namoro? Como dizer que não ama alguém? Como, depois de ter ido tão longe, interromper algo assim? E no dia do seu aniversário? No final, o problema não parecia ser só um.

•••

— Vamos, Thomas. O que você entende por chegar com antecedência para embarcar? — gritou Jake.

Thomas despediu dos seus pais sem falar muita coisa. Estava decidido a chegar na Escócia sem uma palavra triste ou murmurante. Deveria estar contente, pois aquilo era o que sempre quis.

Sem muitas delongas, chegaram ao aeroporto, embarcaram e levantaram voo. Thomas olhava para a cidade iluminada de Boston e se perguntava se alguma coisa mudaria quando voltasse. Pensava em Grace e sentia muito por ter que ficar tão longe assim.

Ele tinha nove horas de voo pela frente. Dormir era uma ótima opção para não pensar que estava deixando a mulher que amava para trás, e para sempre. Isso se ela deixasse que ele dormisse. Isso se ela não invadisse seus sonhos.

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Não esquece a estrelinha ⭐

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