220bpm

Naquele dia, Grace acordou feliz como nunca antes. Despertou como se um sonho qualquer não fosse tão doce quanto sua realidade. Agora tinha certeza que tudo com Thomas estava fluindo tão bem quanto em todas as histórias de amor que havia lido. Julgava até que sua história com ele fosse melhor do que todas as outras.

Estava varrendo a sala quando encontrou sua mãe descendo as escadas.

— Já acordada, filha?

— É... Acordei bem disposta — respondeu Grace, animada.

— E seu pai... — sua mãe olhou no relógio da parede — Nada de chegar.

— Ah, mãe — Grace parou e segurou a vassoura com uma mão. — O trabalho dele é assim mesmo...

— Eu nunca vou me acostumar.

O pai de Grace era piloto de avião. Fazia longas jornadas, dava voltas ao mundo, sem poder ficar em casa por muito tempo.

— Acho que seu celular está vibrando — disse sua mãe, apontando para o celular de Grace largado sobre a mesa.

Grace correu até o celular e deitou-se no sofá para ler as mensagens que acabaram de chegar. Era Thomas. Fazendo as contas, na Escócia devia ser 13h da tarde.

Thomas: Estou bem

Thomas: Tive que ir ao hospital

Thomas: Estou vivo

Grace sentiu seu coração acelerar e sua mente parecia que poderia explodir a qualquer momento. Tentou ligar para Thomas.

Ele não atendia.

Minutos depois, ele retornou a ligação.

— Oi. — Ele disse com uma voz fraca, mas ainda grave. — Estou bem.

— O que aconteceu? — Grace perguntou, preocupada. Sentiu que sua mão tremia ao segurar o celular.

— Hoje eu acordei um pouco cansado. Meu peito parecia que ia explodir, com falta de ar. Mas achei que fosse algo normal. De quem está apaixonado por uma garota boa demais pra ser verdade. — Thomas tentou descontrair para a conversa não parecer tão séria quanto de fato era. — Mas aí eu desmaiei.

— Desmaiou? Ai, meu Deus! — Grace quase gritou.

— Calma, Gracinha. Me deixa falar. Passei por alguns exames, e o médico acabou de vir dar o diagnóstico.

— E... — Grace sentiu uma lágrima escorrer, mesmo sem saber o que era.

— E aí ele me contou que tenho cardiomiopatia hipertrófica, acho que é esse o nome.

— Oi? — Grace chorou ainda mais. Pelo tamanho das palavras, devia ser algo grave.

— Pelo que entendi, o meu miocárdio, o tecido muscular que reveste o coração internamente é grosso demais. O que indica que meu coração é bem musculoso, isso não é demais?

— Sei... — Grace sabia que ele estava tentando fazer parecer menos grave do que era.

— E aí o meu fluxo de sangue é um pouco menor e meu coração bate mais forte do que o normal...

— Ai, ai, ai — Grace disse, nervosa. — Isso é muito grave, não é?

— Então... Eu sempre tive isso, mas só soube hoje. Como descobri jovem, eu posso ter uma vida normal à base de remédios.

— Remédios?

— É. Um comprimido de nada por dia. Nada demais, viu? — Thomas riu.

— Ai, Tommy! — Grace choramingou.

— Eu estou bem, Gracinha. Me sinto privilegiado. Fui premiado.

— Premiado?

— Na minha família, essa é uma doença genética recessiva que ninguém herdou, exceto o homem que vos fala.

— Que horrível. — Grace não conseguiu achar graça naquilo.

— Eu confio em Deus que existe algum propósito nisso tudo. Você confia?

— U-hum — Grace fungou.

— Então está certo. Você ainda não vai se livrar de mim tão fácil.

— Eu não quero me livrar — Grace disse tímida.

— Você devia vir me ver no hospital, estou tão mal nesse quarto sem graça, Grace... — Thomas riu.

Grace gargalhou, em meio ao choro, com o trocadilho com seu nome.

— Eu correria até você — ela suspirou.

— Eu também.

— Nada disso. Deixa que eu corro. Você tem é que cuidar desse coração.

•••

— Quem são os acompanhantes do Sr. Thomas Fraser?

— Nós. — Levantaram-se os avós e o irmão de Thomas, indo em direção ao médico.

— Me acompanhem, por favor.

Ao chegarem na sala do cardiologista, sentaram-se nas cadeiras em frente à sua mesa, enquanto Jake II continuava de pé com o celular na mão.

— Boa tarde, me chamo Dr. Golden, sou médico cardiologista. Thomas está bem, mas devo lhes informar a gravidade da doença. Já expliquei a ele a situação, mas para vocês, que são da família, preciso dar mais alguns alertas. — Dr. Golden arrastou os papéis dos exames para a família. — Como podem ver nesse ecocardiograma, Thomas chegou aqui com o coração a 220bpm. Isso é absurdamente alto, uma vez que o normal são, no máximo, 90bpm. Ele tem sorte de estar vivo. Há algum caso na família de infartos ou problemas no coração?

— Não que saibamos — os avós responderam, olhando entre si.

— Thomas tem uma doença genética chamada cardiomiopatia hipertrófica. É grave, mas foi bom termos diagnosticado relativamente cedo — disse o Dr. Golden ouvindo Sra. Elizabeth chorar.

— Ele vai ficar bem? — Sr. Welch perguntou.

— Ele terá que conviver com a doença. Temos remédios para controlar os batimentos cardíacos, os quais ele já está recebendo na veia.

— E ele corre algum risco?

— Hoje ele correu. Não sei como está vivo depois da intensidade dos batimentos. Mas, a partir de então, ele pode levar uma vida tranquila com os remédios. Se ele tomar os remédios corretamente e se cuidar, talvez ele não morra disso — disse o Dr. Golden quase que friamente.

— Mas que droga. — Jake levantou a voz, impacientemente. — Vocês não podem fazer nada?

— Podemos fazer uma cirurgia no coração dele. Mas a cirurgia é de alto risco. Não é indicado no caso dele, em que as paredes não são tão grossas que façam com que a ação dos remédios se mostre ineficaz. Os remédios farão um bom trabalho. Garanto.

•••

— Meu netinho, você está bem? — disse Sra. Elizabeth, entrando na sala de Thomas com Sr. Welch e Jake.

— Estou. — Thomas sorriu. — Já estive melhor. — Deu de ombros.

— Coitadinho! — Ela passou a mão em seu cabelo desgrenhado.

— Que bom que agora sabemos o que você tem — Sr. Welch disse.

— É. Agora vamos disputar quem toma mais remédios, vô? — Thomas riu até tossir.

— Você só vai tomar um, panaca — Jake disse.

— Ah, que bom. Odeio remédios — Thomas suspirou.

— E é pequenino como uma joaninha — disse delicadamente a Sra. Elizabeth.

— Mas está bom demais pra ser verdade! Não me digam que tem gosto de chocolate também que eu direi que esse remédio é o meu sonho de consumo! — Thomas tentou descontrair, e conseguiu. Todos estavam sorrindo pela abundância de contentamento que Thomas mostrava.

— Você é uma graça, Tommy — Sra. Elizabeth disse por fim. E Thomas sorriu sem poder deixar de pensar que aquela palavra só o fazia sentir mais saudades de alguém.

— Ei, vô. Preciso da primeira pergunta, lembra? — Thomas chamou-o para mais perto. — Estou muito ansioso pelo teste. Quero começar o quanto antes.

— Que bom, filho. — Sr. Welch limpou a garganta. — Eis a primeira pergunta:

Qual é o cenário espiritual dela? Ela cresceu na igreja? Ela já passou por alguma rebelião espiritual?

— Hum. — Thomas estremeceu. — Acho que tenho uma longa conversa pela frente com ela.

— Essa é a intenção. Que se conheçam melhor. Que ambos tenham certeza de com quem se está lidando.

— Te respondo amanhã.

— Amanhã te lanço a próxima questão. — Sr. Welch piscou um olho. — Agora chega de pensar nessa moça.

— Sim, isso está me enojando — Jake comentou do fundo da sala. — Vá descansar, homem.

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Não esquece a estrelinha. ⭐

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