🟢Capítulo 8/1 - Müller

     ❄️

    O degelo começara, a primavera avançava impaciente, com temperatura amenas, forçando a neve a derreter, mesmo a três semanas do inverno se findar. Agradeci quando o enfadonho janeiro se fora e fiquei ainda mais contente pelo fato do mês seguinte ser o mais curto do ano, assim quando dei-me conta já era três de março.

     O mês que sucedeu o fim amargo do caso Walsh, fora mais frenético que o habitual. Um acordo com a doutora Rivera garantira que meu nome retornasse aos quadros de cirurgias, contanto que, uma vez por semana, normalmente às terças de manhã, reservasse uma hora para nossas sessões.

     Deleguei à Smith e ao Perry o treinamento das residentes mais novas, e ao Sullivan, a supervisão das rondas e os procedimentos eletivos de menor duração. Assim, tomando para mim todas cirurgias de emergências e as mais complexas, que exigiam muitas horas consecutivas. Os únicos momentos que não estava operando, eram aqueles que dedicava as minhas necessidades biológicas, as breves visitas ao meu apartamento para alimentar minha gata, quando minha irmã não conseguia fazer, e a as rondas solitárias e fora de hora aos meus pacientes.

      Com o impacto de um calhamaço de ortopedia lançado abruptamente sobre a mesa da cafeteria,  Elisabeth roubara para ela a atenção que eu mantinha voltada para o Sudoku na última página do jornal, que resolvia preguiçosamente enquanto guardava meu pedido ficar pronto.

     — Não acredito — vociferou ela — que está jogando enquanto aquela morsa tava te expõe em rede nacional.

     “Morsa” era o termo pejorativo que ela usava para se referir ao Walsh, certamente pela estatura, massa corporal e o bigode espesso que cobria a boca do médico. A repreendi com o olhar, inutilmente claro, como todas as vezes que a mesma se referia a alguém de tal forma.

     — Cortez disse que o novo advogado conseguiu um documento que impede ele de mencionar meu nome ou do hospital.

     A morena mostrou-me o visor de seu celular, por tempo suficiente para que eu lesse o com resumo escrito da transmissão recém terminada de um dos programas de entrevistas mais famosos da comunidade científica.

      — Ele te chamou de manco, além de insinuar que você tem um caso com o cirurgião-plástico e  atual chefe de cirurgia, para tentar explicar a decisão do Conselho. — A pausa de Elisabeth perdurou pelo tempo que a garçonete levou para depositar a bandeja com os dois copos de isopor sobre a mesa. — Deveria processar ele.

     — Não fiz isso quando ele mentiu sobre a paralisia, porque faria agora que disse a verdade? — Elisabeth começou a rir, levando-me a acrescentar: — A verdade sobre mancar.

     — Quantos neurocirurgiões que se encaixam nessas informações você acha que pode existir na Virgínia?

     Suspirei preocupado, pois não eram só minha reputação e a do hospital que estavam em questão, e Elisabeth sabia disto tanto quanto eu.

     — Nenhuma das pessoas para quem você costuma comprar toma café puro — observou ela, mudando o rumo da conversa quando encarou o copo da tampa preta. — Se não fosse pelo chocolate quente, até diria que voltou tomar cafeína, porque só você gostava deste.

    O fato de preferirmos o mesmo tipo de café nem era o suficiente para criar uma semelhança que não existia entre Thompson e eu, como Elisabeth estava fazendo inconscientemente. Até porque, gostava do meu com três cubos de açúcar, e ela, apenas um.

      — Ela tá no Pronto Socorro — informou, como se pudesse ouvir meus pensamentos.

* * *

     Os tênis brancos encontravam-se respingados de sangue, assim como o jaleco jogado sobre o piso frio onde a residente estava sentada. O rosto, provavelmente, consumido pela expressão de cansaço, era recoberto pelos cachos largos, que dado ao fato dela estar debruçada sobre os joelhos, não tinha comprimento o bastante nem para lhe cobrir a nuca, onde notei a presença de uma discreta tatuagem, contudo a distância e ângulo não me permitiram entender o que era.

     Abaixei, pondo-me sobre os calcanhares, assim, nossos olhares se encontraram de uma diferença de altura reduzida, quando Thompson levantou subitamente a cabeça, sobressaltada diante do toque das pontas dos meus dedos contra o dorso da sua mão. Estendi-lhe o copo de isopor.

     — O que é isso. — Retirou os fones de ouvido.

     — Sangue AB negativo em estado de ebulição — respondi sarcasticamente, fazendo ela torcer o nariz, enojada. — Espero que esteja a seu gosto.

     Receosa, pegou o copo, agradeceu e aproximou sutilmente dos lábios fartos, que capturaram meu interesse por sete vergonhoso segundos.

     — Tem sangue no meu rosto também? — indagou ela, passando a mão pelo nariz, bochecha e queixo.
Neguei com a cabeça e desviei o olhar para o céu azul através da vidraça no alto da parede na qual a moça estava apoiada.

     — Não tive tempo de agradecer pela ajuda com o Walsh.

     — Não teve mesmo?  Engraçado, do meu ângulo pareceu que você fez de tudo para ficar sem ele. — A moça parece irritada e se pôs de pé, fiz o mesmo. — E também não entendo a necessidade de me agradecer, porque não fiz nada além de quase te causar uma queimadura no seu...

      — Nem todas as dores são processadas pela mesma área do cérebro, logo nem todas as respostas a ela são iguais.

      — Não faz o tipo masoquista.

      — Estava me referindo ao fato de não estar quente o bastante para estimular o lobo responsável por fazer este processamento — expliquei-lhe —, pois este, está  constantemente ocupado com uma dor crônica.

     Os lábios da residente abriram-se em alusão de exteriorizar uma de suas impetuosas respostas, mas fora impedida pela presença de Perry.

      — Mel, coloca um uniforme limpo  — ordenou ele da porta, que separava as ala da cortinas da de trauma. — Um adolescente imbecil resolveu pegar o carro dos pais escondido.

     O semblante exausto da garota, sustentou o sorriso convincente até o neurocirurgião sair completamente dos nossos campos de visão. 

      — Depois de um plantão de vinte nove horas, a única coisa que vai fazer é ir para casa dormir. — Ela arremessou o copo vazio em uma lixeira do outro lado do corredor. — Neville pode auxiliar.

    — Acho que está ficando doente, mas aceito as gentilezas provenientes da sua confusão mental.

     — Você tem um senso de humor perigoso, sabia? — Guardei as mãos nos bolsos. — Agora sai daqui antes que eu mude de ideia, garota.

     Thompson o fez sem hesitar. Também deixei o Pronto Socorro, porém diferente da residente, dirigi-me até o sexto andar e dei início a um cirurgia eletiva de ressecção de um tumor no plexo braquial primário.

     O procedimento transcorreu normalmente, consegui recuperar a funcionalidade do nervo. O sucesso do feito seria o suficiente para tornar meu jantar agradável, mas a conversa com Perry deixara o momento um tanto indigesto. Mais uma vez, o neurocirurgião esbravejou que minha substituição desavisada foi um abuso de autoridade.

    — Perry — respondi —, seus números, ano passado, foram um tanto... negativos. — Ele arfou, e eu continuei: — Se não me quer te dizendo como fazer seu trabalho, faça o melhor possível para manter seus pacientes vivos.

    — Vai a merda, tá.

    — Passar bem também — desejei com uma calmaria anormal, deixando-o irritadiço o bastante para dar-me as costas e afastar-se pisando duramente.

     Não posso dizer que me chateou a sua partida, pois seria mentira. Voltei ao meu jantar, que ainda cogitei a possibilidade de ser salvo. Mas esta se fora antes mesmo que tivesse tempo de colocar outro pedaço de salmão na boca, com a aproximação de Sullivan.

     — Tem um homem na Emergência — informou o residente —, perguntei o que tinha, mas disse só falaria com você.

     — Se tem tempo para fazer exigências, significa que não está morrendo, então pode esperar e terminar de comer.

    O jovem concordou sorridente e foi em direção ao elevador. Para onde também me encaminhei depois de terminar.

     O pronto socorro encontrava-se habitualmente caótico. Coloquei minha venda metafórica para ignorar as lágrimas, expressões de dor, o sangue que manchava os lençóis, uniformes dos profissionais e porções consideráveis do piso, por toda parte.
Na ala das cortinas, meus olhos chocar-se com um par de íris azuis, que já não via há mais de cinco anos e meio.

     — Estranho ter sido chamado na única baia que não está cheia de fluidos corporais. — Cruzei os braços depois de cumprimentar o homem, não precisaria mais delas ali. — Mandei sua filha para casa há algumas horas.

    — Vim falar com você, doutor.
   
     Um arrepio incômodo brotou no alto da minha espinhas e espelhou-se, em resposta a declaração de Marcus Thompson.

     Um envelope grande e pardo fora direcionado a mim pelas mãos pálidas demais para alguém que mora em Miami. Abrir exames não era algo reservado à Emergência, porém o homem poderia estar de passagem, para visitar a filha, assim não teria tempo de agendar uma consulta no ambulatório.
Não precisei analisar os papéis e imagens minuciosamente, pois, até mesmo se eu fosse míope, conseguiria ver aquele tumor de dimensões catastróficas. Um tipo que a gente só vê poucas vezes ao longo da carreira, mas nunca em um intervalo de tempo tão curto. Não tinha como ser uma mera coincidência.

    — O caso trinta e três. — Devolvi o envelope as mãos dele. — Sr. Thompson, você é o paciente confidencial do Cortez.

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