🟢Capítulo 7/3
Thompson e eu ficamos fora do caminho um do outro pelo restante do fim de semana. Embora não a tivesse visto pelo fato de ter me isolado na clínica filantrópica do Complexo, sua imagem me viera à mente algumas vezes, sua expressão de deleite para ser mais exato, o prazer estampado em seu semblante quando arrancou brusca e desavisadamente os elétrodos do meu peito sem o mínimo de compaixão.
Na segunda-feira, ao nascer do sol, Cortez comunicou-me sobre a decisão prematura do Conselho em nos reunimos depois do almoço, para discutir minha participação na paraplegia de Richard Walsh.
Trabalhar naquele caso era como operar vendado, pois mesmo com três outros sentidos intactos, era completamente inútil sem minha visão. Ele me deixou às cegas para fundamentar uma defesa sem saber de onde partiria a acusação, entretanto, se existia uma chance daquela paralisia ser possível, eu sabia qual era e tinha como argumentar. Em contraponto, se ela fosse uma farsa, a vantagem era toda do Walsh, pois não podia sequer toca-lo quanto mais solicitar exames para refutar.
Era ridículo, que tivesse mais chances de defesa diante de um erro médico, do que de uma vingança bem elaborada por não ter sido capaz de salvar a filha do Walsh, no ano passado. Sentia-me péssimo por torcer que ele realmente tivesse ficado paraplégico, já que se passasse de uma encenação, eu teria que assistir de um lugar privilegiado enquanto sua atuação e os exames e laudos fraudados deixavam manchas impossíveis de remover no meu currículo. Nunca imaginei que uma simples punsão lombar, um exame de rotina, pudesse ter tanto peso na carreira de um neurocirurgião.
Deitado no sofá da sala de descanso, mordi uma pera com raiva e fechei o MacBook, sobre meu abdômen, com o mesmo sentimento, ao fim da leitura de mais um artigo inútil. Perpassei o lugar com o olhar, encontrando Neville parada ao lado da cafeteira, e Thompson junto à mesa abarrotada de livros. A loura aguardava seu expresso ficar pronto com um sorriso direcionado à tela do celular, enquanto a mestiça de cabelos castanhos mantinha o cenho franzido e os dentes cravados no lábio inferior, numa expressão confusa diante do material aberto sobre a superfície de mármore.
Ao acaso, o olhar da residente com heterocromia encontrou o meu, o que levou sua mão inquieta a parar de batucar com a caneta sobre as pequenas páginas adesivas, destacadas de um bloco colorido e coladas diretamente na mesa. Thompson interrompeu o contrato visual quando Neville, antes de sair, deslizou sobre a mesa uma das canecas que trouxera consigo, deixando-lhe completamente sem reação. Levantei-me, cruzei a sala para pegar o copo grande de uma vitamina de morango com leite, que descansara por uma hora na geladeira.
- Homens não gostam de canudinho - observou Thompson, olhando para mim sobre o ombro.
- Você disse algo parecido sobre os pirulitos semana passada, não foi? - Suas faces ficaram apáticas. - Não generaliza. Gosto de padrões, mas não sou um deles.
Ela voltou novamente a atenção para a mesa e começou arrancar os Post-ti. Cauteloso, aproximei-me de sua cadeira e inclinei-me sobre ela, espalmando a mão livre sobre um livro de capa dura. Ela apenas parou o que fazia e fitou-me de soslaio, pois se ousasse mover a cabeça para o lado, nossos lábios ficariam estranhamente perto.
O que sobrara de suas anotações estava desconexa dada as lacunas deixadas pelos papéis que já havia recolhido. Apesar disso, consegui entender que se tratava do Dylan pelas palavras-chave, mesmo que ainda não fizesse sentido algum.
- Posso? - Apontei para os papeizinhos que ela tinha em mãos, a mesma entregou-me sem questionar.
Sentei-me na cadeira ao lado da que ela estava e comecei a espalhar suas anotações novamente, depois as organizei de modo que parecesse coeso para mim.
- Temos uma boa linha de raciocínio aqui - admiti. - E o que você concluiu?
- Para ser sincera, só fez sentido depois que você arrumou dessa forma. - Os lábios fartos abriram-se em um sorriso espontâneo, exibindo o aparelho ortodôntico.
Subi os olhos até os dela, senti o ar entre nós ficar palpável, ela, que certamente também sentira, desviou a atenção para a caneca na beirada da mesa, tão logo perguntou:
- Aceita um café?
- Marcus não te ensinou que não é educado se livrar de um presente?
- Talvez, não lembro. Mas meu pai sempre disse para ficar longe de coisas que façam mal, e da última fez que ingeri algo vindo da Brittany, passei a manhã toda correndo para o banheiro.
- E justamente por conhecer o seu pai, tenho certeza de que a parte de dar a outra pessoa o que lhe faz mal, é uma particularidade sua.
Sorrindo, trouxe a caneca até a base do nariz e cheirou seu conteúdo.
- Sabia que você não ia aceitar, já que não toma cafeína por causa da sua insônia. - A moça depositou o utensílio de cerâmica sobre um dos bloquinhos coloridos, deixando, sem perceber, instável sobre a bancada. - Como você se sente a respeito da reunião com o Conselho?
- Preocupado. - Deslizei o dedo sobre a palavra "tumor" escrita em um dos papeizinhos. - Foi a única pessoa que me perguntou isso.
- Todos sabem que se alguém consegue se safar dessa, esse é você.
- "Safar", o que implica em ser absolvido mesmo tendo culpa.
- Não foi bem isso que eu disse - protestou, juntando as sobrancelhas e semicerrando os olhos. - Há um tempo atrás, estava sentada na sala de espera da clínica de um dos neurocirurgiões mais renomado de Miami, e enquanto ele dizia para o meu pai que seu glioma era inoperável, eu lia em uma revista sobre um neurocirurgião brilhante em Baltimore. - Conhecia muito bem aquela história, mas não a interrompi. Até porque, sua boca era uma das menos repulsivas que era obrigado a olhar. - Foi decepcionante chegar lá e saber que o cara tinha se aposentado há um mês...
- Dois meses e três semanas, especificamente. - Ela censurou-me com o olhar. - Pode continuar.
- O substituto do AJ Sullivan se recusou a fazer a cirurgia, então o cirurgião-chefe, Cortez, passou o caso para um egocêntrico neurocirurgião-pediátrico em ascensão, que aceitou sem pestanejar.
- Egocêntrico? - questionei consternado, o que a fez rir.
- Enfim, se meu pai está vivo, é graças você. Por ter pego um caso que todos tinham como impossível, e mostrado que era possível.
A palma de sua mão fora de encontro ao dorso da minha, e permanecera naquela posição por tempo suficiente para que o calor de sua pele radiasse e penetrasse a minha, pálida e gélida, levando a um equilíbrio térmico entre as superfície tão distintas. A residente espalmou a outra mão sobre a beirada da mesa, fazendo a superfície toda vibrar com a intensidade do impulso, que usou para se aproximar do meu rosto e tocar a pele sobre minha barba com seus lábios macios e úmidos.
- Acredite em você - pediu quando afastou-se para fitar-me novamente.
Um súbito calor invadiu minha virilha e espalhou-se pelas coxas. Não, não era do tipo de calor que seu cérebro pervertido faz brotar dentro de você, esse viera de fora, tinha um odor forte e amargo, e deixara-me molhado.
- O café! - exclamei, me esquivando e recuando com a cadeira.
Um reflexo mecânico de fuga, já que a bebida não estava quente a ponto de provocar uma queimadura, tanto que já havia ensopado toda as minhas calças quando me dei conta de que a caneca havia tombado sobre o mármore.
- Um reflexo - conclui, ignorando os pedidos de desculpa da moça. - Considerando anatomia básica do Sistema Tegumentar: por quê queimaduras de primeiro e segundo grau doem mais que terceiro e quarto, Thompson?
- Porque as terminações nervosas que reconhecem calor e dor ficam na derme, assim, qualquer queimadura que for além da segunda chamada da pela terá comprometido esse receptores.
- Partindo deste princípio, de que quanto mais superficial for a camada, mais sensível a estímulos: se você ver alguém jogar o líquido de um copo de isopor na sua direção, qual é a resposta natural do seu cérebro?
- Fuga, porque eu sei que vai queimar.
- Exatamente. - Levantei da cadeira e caminhei até o armário, onde peguei uma toalha e tentei absorver ao máximo o café no meu uniforme. - Tem uma área específica no lobo temporal que, automaticamente, vai associar aquele copo a uma bebida quente, e produzir um reflexo de autopreservação, que não da para disfarçar.
- Você não está pensando em derramar café pelando nas pernas do Walsh, né? - indagou, receosa.
- Claro que não, Thompson. Só preciso que o cérebro dele pense que está quente. Assim, caso precise de medidas extremas, conseguirei uma reflexo como prova, e sem sequer tocá-lo.
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