🟢Capítulo 17/2

       Cercado por livros de todos os lados, meneei a cabeça quando a mixórdia na minha mente se tornou insuportável. Meus pensamentos eram uma mistura de memória de curto e longo prazo se fundindo de forma a deixar perturbadora a mais erótica das lembranças.

Em um segundo eu prendia o corpo quente de  Melanie à parede, no segundo seguinte era o corpo frio de Amber que me prendia ao chão.

“Para! Para! Isso não, por favor” implorou minha voz interna.

Banheira. Não a banheira da minha casa em Baltimore, essa era mais antiga que minha amizade com Amber. Não era o sangue dela tingindo a água, era o meu.

Meus pulmões queimavam pela falta de oxigênio, sabia que não podia permitir que a água vermelha e turva entrasse pelo nariz, como acontecia com a boca todas as vezes que, inutilmente, tentava gritar.

O tronco esguio dos meus doze anos era esmagado contra a borda de porcelana por alguém com o dobro da minha idade e triplo de peso. Os oito dedos da mão quebrados, certamente não aguentariam se apoiar na borda da banheira para me levantar; logo as queimaduras nas solas dos pés e a crise severa de labirintite foram o que impediram-me de ficar de pé.

Meus ouvido zuniram quando submergir e o vestíbulo falhou, consequentemente, o desequilíbrio levou meu crânio contra o piso molhado. O banheiro girou, minha inocência na ocasião não soube distinguir se a vertigem viera da contusão ou da infecção consumindo meus ouvidos internos.

Já não podia ouvir tão claramente o que o homem gritava para ela, enquanto a prendia no chão usando apenas o próprio peso. Nunca admitiria, mas torcia que ele pudesse quebrar o juramento que o impedia de usar a lâmina que estava no chão, para fazer sua boca sangrar, como ela fizera com a minha em algum momento.

“Ela não tem mais poder sobre você.” Lembrei a mim mesmo.

O teto passou de bege para cinza, passara de gesso denso para nuvens carregadas, porém leves como algodão. Minha memória danificada transformou o banheiro em um cemitério; e eu, de vítima, voltei a ser culpado. Li o nome na lápide diante de mim “Amber Müller”, depois a placa ao seu lado “Julie Pope.” Quando elevei a cabeça deparei-me com quilômetros de culpa enfileirada.

“Quinhentos e vinte e três, quinhentos e vinte e dois, quinhentos e vinte e um...” A contagem auto reguladora soou mais alta que o caos na minha mente.  

Quando abri os olhos estava novamente na biblioteca, diante de mim apenas a parede recém pitada; na boca apenas o palito deformado, sua esfera de cereja havia sido destruída junto da minha sanidade.

Diferente do que pensava, quebrar o celibato não despertou um mal que acreditava ter adormecido dentro de mim. Sem instintos imorais até o momento. Mesmo que não fosse totalmente correto, Melanie continuava sendo a única que eu desejava. Não havia me tornado um monstro, apenas um pervertido.

Não precisei tentar me forçar a concertar no trabalho, pois ele se pôs diante de mim, em seus um metro e noventa de altura, cabelo bagunçado e o rosto consumido por uma expressão de pedinte.

— Procedimento incomum, Sullivan — observei após analisar a capa do livro que segurava.

— Já teve alta do seu tratamento?

— Não tive nada além de uma sessão informal ontem. Talvez, mais tarde, consiga persuadi-lo a desistir de marcar novos horários.

— Já estou com pena dele. — O residente puxou a cadeira ao lado e sentou-se. — Às seis tenho que dar início uma cirurgia de onze horas.

— Nove horas e quarenta, no máximo.

— Fale só por você.

— Este é o seu tempo. Conheço sua média melhor do que ninguém. E sim, considerando grau de complexidade e possíveis intercorrências. — Retornei ao meu material de trabalho sobre a mesa junto à janela, seguido pelo residente. — Na última vez que realizei esse procedimento, levei sete horas e vinte.

— Pode humilhar, chefe, mas um dia ainda te supero.
Sullivan trabalhava comigo a tempo suficiente para saber que aquele termo, para mim, remetia a uma hierarquia que eu odiava. Por isso, tinha certeza de que só o usara como uma provocação saudável.

— E será mais breve do que pensa. — O semblante entregou o quão desconcertado meu comentário o deixou. — Na residência eu levava uma média de treze ponto cinquenta no mesmo procedimento. Pode perguntar para sua mãe.

Dorothy Sullivan, a melhor neurocirurgiã do país e minha estimada mentora.

— Assim não vale, você operava crianças o tempo é maior mesmo.

— O recorde que te falei é referente a neurocirurgia pediátrica. Não queria soar arrogante me gabando de menos de seis horas.

— Você é o único que faz minha mãe admitir que a criatura superou o criador. — O sorriso do jovem fora de uma ternura ímpar. — Vou estar na Seis, caso sua limitação não te impeça de me assistir lá dentro da SO.

— Confio plenamente no seu potencial. — Minha resposta o fez parecer frustrado. — Mas não perderia sua última cirurgia como residente. Vou ficar sem luvas, serei mero espectador.

— Neurocirurgião... Nem acredito.

— Certamente, Dorothy está muito orgulhosa.

— Meu pai nem tanto.

O sorriso forçado tentou mascarar como aquela declaração mexia com ele.

— Por falar no Sullivan número um, virá te prestigiar, certo? — Com um gesto, o jovem ofereceu-se para me ajudar carregar parte das coisas quando deixamos a biblioteca. — Queria a opinião dele em um caso difícil que o Cortez me passou.

Não era de todo mentira, queria a opinião da minha maior referência em neurocirurgia oncológica em adultos, todavia não era o único motivo que me fazia querer ver o médico. Thompson não era o único pai mentindo sobre ter um tumor no cérebro, porém diferente de Marcus, o caso de AJ Sullivan tinha uma resolução menos complexa e com bom prognóstico.

O médico sabia tão bem quanto eu, que a substância negra de seu cérebro estava dentro do padrão de normalidade, bem como a produção de dopamina. Sullivan era inteligente demais para acreditar que tinha Parkinson, e algo me dizia que fugira, ao recuperar-se do acidente de trânsito, para não ter que falar sobre o assunto.

* * *

Atendi à agenda do ambulatório por boa parte da manhã. Por volta das onze, encontrei Smith na sala de diagnóstico para discutirmos uma cirurgia de túnel do carpo, que ela daria início às quatro e quinze da tarde.

Abdiquei do horário de almoço, para terminar a minha ronda particular às enfermarias. Antes de descer ao Pronto Socorro, assinei a alta de Dylan. E deixei o rapaz acreditar que sua chantagem emocional fora o que me convenceu a finalmente deixá-lo ir para casa.  

Optar pela escadaria era uma péssima escolha quando  se estava a quatro andares de distância do ponto de chegada, para o habitual desprazer da minha lombalgia eram dez lances de dez degraus cada.

Dezessete minutos eram suficientes para atender uma urgência na ala das cortinas e retornar para minha sessão, logo não vi problema em fazer uma pausa no terceiro andar, para comprar uma barra de chocolate na máquina do corredor principal da maternidade.

Ginecologia e obstetrícia era o único departamento que tinha um andar inteiro dedicado à saúde da mulher. O conteúdo do teclado daquele computador de vendas, não oferecia nada com mais alto teor de glicose do que barra de cereal com fruta caramelizada.

Conformei-me com menos açúcar e gordura do que meu organismo abstinente necessitava, todavia desisti da queima excessiva de energia que seriam as escadas e solicitei o elevador.

Em um minuto era consumido pela calmaria da descida; sessenta segundos depois, o nível crescente de adrenalina percorrendo minhas veias levou a uma sensação bem conhecida. Uma sensação pela qual era viciado e, seria um hipócrita se não admitisse o quanto estava com saudade.

A urgência na ala das cortinas podia esperar, bem como a minha consulta com o Plec. Contudo, a emergência que atravessou as portas duplas e rolou em minha direção, era prioridade máxima.

— Jason Bandie, dezenove anos. Se jogou do segundo andar durante uma tentativa de assalta à empresa da família.

— Duas bolsas de O negativo, Singer — exclamei à chefe das enfermeiras antes que pudesse se juntar a mim na Trauma Cinco. — E avisa que vamos subir para uma TC de crânio.

— Rodrigues — li no crachá junto ao peito do paramédico, montado sobre as coxas do jovem inconsciente —, TCE de base de crânio?

O homem confirmou com a cabeça sem diminuir o ritmo das compressões sobre o esterno do paciente. 

— Saturação em oitenta e nove, e caindo — constatou o enfermeiro padrão quando o encarei.

— Material de intubação orotraqueal. — Emendei rapidamente: — Cânula com tubo oito.

Não foi necessário sequer uma lanterna clínica para constatar a midríase, pupilas extremamente dilatadas, uma resposta à hipóxia severa. Ajustei o foco do aparelho e apontei para os olhos dele, tão logo recebi uma assimetria das respostas.

— Pupilas anisocóricas — Colleman informou por mim, ganhando minha atenção pôr-se do meu lado. — Acho que você não deveria estar aqui.

— Laringoscópio, por favor. — Estendi a mão enluvada para o enfermeiro à direita do neurocirurgião. — Entrei, pode conectar ao ventilador.

— Kit de sutura — ordenou Colleman para uma técnica.
— Agora! — gritou quando ela me olhou interrogativa, esperava minha autorização.

— Apenas compressas. — Recuei um passo, inclinei o tronco até ficar na altura da maca e examinei por entre as estruturas de imobilização e o colete cervical. — Quantas pessoas se jogam de costas, na tentativa de se defender?

— Isso lá faz diferença? Tá insinuando que o filho do magnata da montadora de carros esportivos Bandie tentou tirar a própria vida?

— Desviei minha atenção dele para checar os monitores. — ... ao julgar pelo meu, garanto que eles tem os melhores motores da América.

— Se é incapaz de ficar com a boca parada, ou pelo menos focar no paciente, sugiro que saia. — A resposta não-verbal em seu rosto não fora, nem de longe, amigável, mas o fizera ficar quieto. — Todo esse sangue não está vindo  do mesmo lugar... Droga, bem aqui, um orifício de entrada na região parental superior.

— Nossa, um belo estrago — acrescentou Cortez quando olhei em direção à porta por onde ele acabara de passar. — E não, você não vai.

— Perfeito, farei sem a sua permissão mesmo. — Dirigi-me a Colleman. — Levem-no para o exame na radiologia, vou preparar a sala de operatório.

— Müller... Certo, te autorizo a voltar.

Era notório que a decisão fora tomada a contragosto. Cortez também não olhou nos meus olhos quando passei por ele.

O chefe de cirurgia acompanhara todo o procedimento da galeria, como que para garantir que tudo ficaria bem, ou melhor, se certificar que eu faria tudo certo.

Fui o último a deixar a sala de operatório e Cortez, o último a deixar a galeria. Nos encontramos no lavatório, ainda na sala seis.

— Por que recusou o convite do Marshall para ser chefe?

— Não entendi o porquê disto agora. Sabe que não nasci para a burocracia da administração.

— Você não se importa com a minha autoridade dentro do hospital.

— Isso não é verdade, você é quem está me tratando diferente. Sempre me recompus sozinho, aí a Rivera veio trabalhar nesse hospital e, do nada, vocês criaram uma regra que só se aplica a mim. .

— Foi a única forma que achei de você aceitar ajuda.

— Operar me ajuda. É ficar com a mente vazia que me faz mal. — Ele tentou acrescentar algo, mas continuei. — Sempre fico longe quando perco o controle.

— Fica longe quando acha que necessita que sua mente te puna. E é por pensar assim, que você precisa ser ajudado.

— Seja imparcial comigo, me trate apenas como os outros funcionários, que te trato apenas como o chefe.

— Tudo bem — Ele parecia mais se dando por vencido do que realmente concordando. — E por falar nas minhas burocracias de chefe, quero te avisar que a partir de segunda-feira, a doutora Thompson deverá ser inclusa em todas as suas atividades dentro deste hospital.

— Por que? — Não tentei mascarar minha surpresa.

— Apesar da Zoe ter ficado impressionada com as habilidades dela, fui informada de que na próxima semana ela se torna uma R4, uma residente sênior. — A medida que falava, o médico abotoava um a um os botões do seus Jaleco, parecia nem se dar conta de que o fazia. — Temos que seguir o contrato onde ela diz ter interesse em neurocirurgia e o hospital, se compromete a atender sua especificação se houver vagas nessa especialidade no quarto ou quinto ano do programa. E graças a você, esse é o departamento onde mais tem vagas.

— Porque vocês contratam um monte de residentes para que ensinemos a fazer trabalho de especialista, e continuam pagando eles como estagiários. — Apoiei-me na borda da pia revestida por azulejos brancos. — Pare de tratá-los como mão-de-obra barata, que eu aceito treina-los.

— Com o John finalizando o programa, seu setor tem apenas a Brittany que, pelo andar da carruagem passará a ser pupila do Enzo. Você não está em posição de fazer exigências.

— Isso é menos urgente, o novo programa de residência só começa depois do feriado de quatro de julho, daqui um mês e meio. — Tirei a toca cirúrgica e enfiei no bolso. — O departamento precisa de pelo menos mais um staff.

— Colleman não vem aqui te substituir por acaso.

— Só confio no Sullivan.

— Já parou para pensar que talvez ele queira voltar para perto da família, em Baltimore?

— Não vai saber se não perguntar. — Fiz menção de afastar-me, mas voltei a encará-lo. — Pergunte se Thompson concorda com isso também.

— Ela fez essa escolha no primeiro dia, finalmente estaríamos atendendo seu desejo.

— Consulte-a novamente, se esta ainda for sua vontade, serei seu mentor pelos próximos dois anos.

Ter concentrado toda firmeza na minha voz, não fazia das minhas palavras mais sinceras, apenas um blefe mais convincente.

A conversa havia me tirado a vontade de comer que surgira no meio da cirurgia, todavia não mudava o fato de que o estômago estava vazio a ponto do atrito das mucosas em contato ser incômodo.

Amaldiçoei Cortez em pensamento quando me obriguei a engolir a pequena porção do sanduíche de peito de peru com maionese, depois de mastigar duas vezes mais que o necessário.

Escorreguei na cadeira até que a cervical pousasse no encosto, massageei as têmporas enquanto encarava o relógio do refeitório. Considerando seu atraso, tinha onze minutos até a cirurgia de Sullivan começar.

Juntei as pálpebras de forma demorada, não estava com sono, a vista cansada reclamou das horas encarando as lentes de aumento. Assim, o olfato foi o primeiro sentido a perceber sua presença, a colônia de especiarias mediterrâneos que nunca consegui decifrar, era sua marca desde os dezoito anos.

Abri os olhos quando sua respiração pesou contra minha pele, entregando a proximidade. O pulso acelerado ativou o sensor na pulsei do meu relógio, a vibração constante era um alerta de taquicardia, minha frequência cardíaca havia passado de cento e quinze batimentos por minuto.

— Não entendi a surpresa, Nate, você quis me ver. — A forma intimista que usara para referir-se a mim, destoava da displicência que cobria sua bela face. — Você quis me encontrar por livre e espontânea vontade.

Sua presença sempre exercera um efeito paralisador sobre mim. Violett Cortez, ou Srta. King, como passara a se chamar pelo matrimônio — era a droga de uma neurotoxina paralisante. Perto dela era impossível tecer uma resposta para suas provocações, quem dirá conseguir estudar uma rota de fuga e executá-la, com as pernas e braços inabilitados.

— Perdeu a capacidade de falar também? — Os lábios tingidos de batom rosê curvaram-se num sorriso atroz. — A resposta para a pergunta que você, aparentemente, não vai fazer, é não.

— Então ele irá morrer. — Fui lacônico quando consegui anular todas as outras respostas possíveis, não podia vacilar diante dela.

— Não é o único neurocirurgião nesse país. Não vai tocar no Robert. Nate, você já destruiu a minha vida o suficiente.

— Você o ama? — A impulsiva pergunta rompera os limites dos meus pensamentos.

— Como só amei uma única outra pessoa na vida.

— Gabriel.
— Você não vai matar o Robert também...
Talvez ela tivesse esbravejando mais alguma coisa, todavia, meu olhar foi atraído para o da residente de pijama cirúrgico azul-claro, caminhando próxima o bastante para conseguir ouvir aquela verdade deturpada.

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