🔴Capítulo 14/1 - Thompson

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      Debruçada sobre uma das extremidades da mesa de cor verde vibrante, estudei o melhor ângulo para arremessar a bola branca na borda oposta, passando por um campo minado de esferas adversários, e assim ricochetear de encontro à última bola que eu precisava encaçapar. Isaac praguejou como os outros quatro que me desafiaram antes dele.

     — Dobro a aposta se... — Sua reticência era proposital. — Se conseguir convencer o Nathan a jogar com você.

      — Por que sinto que você quer me ferrar?

      — Ele demonstra interesse, mas sempre diz que não joga.

     Correspondi ao olhar, daquele que acompanhava nossos movimentos pelo reflexo do espelho atrás das prateleiras de bebidas, fazendo-o desviar a atenção.

    — Joga comigo? — perguntei depois de me debruçar ao seu lado no balcão e ganhar seu olhar, diretamente desta vez.

     — Você já é perigosa de mãos limpas, não vou pagar para ver o que pode fazer armada. — Seu olhar foi de encontro ao taco de madeira que manipulava de uma mão para outra. — E também nunca joguei bilhar antes.

     — Deixe que hoje seja a noite das primeiras vezes. — Indiquei a garrafa verde, cuja transparência não escondia faltar um único gole. — As holandesas costumam ser fortes.

     — Como você consegue gostar disso? — Dei de ombros.

    — Posso te sugerir algo mais doce?

     — Considerando sua resistência a éter, acredito que se refere a um destilado, que me derrubaria no terceiro gole.

      — É um drink brasileiro, que eu ensinei ao Ian, e ele colocou no cardápio de tão bom. — Puxei a garrafa dele para mim, e tirei um gole prolongado, depois solicitei a bebida ao Patrick. — Lá o nome é caipirinha, é a base de suco de limão, gelo e muito açúcar, então apenas um-quarto é álcool. Normalmente cachaça, mas na falta foi substituída por vodca.

     Seus olhos percorreram o cardápio e o dedo deslizou pela linha que oferecia os ingredientes citados e a forma como Ian apelidou a bebida: mestiça.

     — Em sua homenagem, eu suponho. Pelo visto o senso de humor é algo compartilhado entre os irmão. — Se referia a Ian e Isaac. — Assim como a compulsão de te apelidar, o que vai além dos Marshall’s.

      — Mas você parece ser imune, já que se recusa a me chamar até pelo meu, quem diria criar um. — O silêncio que se estendeu ficou estranho. — Posso te ensinar a jogar. É que... eu meio que vou faturar cinquenta dólares do Isaac se te fizer jogar comigo.

      Müller deu de ombros, como quem não via problemas em aceitar, ou para fugir do clima entre nós. Junto à mesa, distribuí as bolas de forma aleatória, com a mão mesmo. Após uma rápida explicação, endireitei sua postura e o modo como as mãos posicionaram o taco.

      Para ajudá-lo, precisava parecer o mais imparcial possível aos olhos dos curiosos, que observavam a cena como um evento raro. Logo, não podia fechar os olhos para inalar seu perfume, que evaporava de sua pele quente, cujo calor irradiou para mim quando pousei a mão sobre suas costas, aproximando seu corpo da lateral de mateira.

     Minha mão espalmada tocou a única parte de seu corpo que não compartilhava do mesmo excesso de calor que o restante, para mover alguns centímetros sua base de apoio, assim, melhorando o ponto de referência que usava para mirar.
As primeiras tacadas de teste foram um completo desastre, da metade para o fim seu desempenho apresentou a evolução de quem aprende rápido, então decidi que já dava para começar nossa partida.

      Mesmo com a desvantagem em experiência, seu cavalheirismo me fez começar depois que ele posicionou as esferas respeitando a ordem numérica.

      — Mal de matemático — zombei, ganhando um estreitamento de olhos como resposta.

       Apenas a bola que determinou que eu ficaria com as baixas caiu quando desfiz a pirâmide milimetricamente organizada por ele. Derrubei a número cinco, depois a nove, então usei a próxima jogada apenas para aproximar de uma das caçapas, já que ela não caiu.     

     Na vez dele de jogar, fui até o balcão pegar mais giz para polir a superfície da extremidade do taco, de onde tive uma visão privilegiada do homem inclinado sobre a borda da estrutura de madeira, medindo com cautela sua próxima tacada. Me lembrei de como era ter aqueles braços forte ao redor da minha cintura, então imaginei como seria estar entre seu corpo e a mesa, recebendo um beijo fervoroso, enquanto ele mergulhava nas profundezas do meu íntimo.

     A voz que, no meu delírio, estava áspera e ofegante, me despertou, aveludada e pacata, informando sobre o fim do jogo. Encarei as faces do homem diante de mim, com a roupa intacta.

       — Você encaçapou as oito, uma a uma, sem errar? — questionei incrédula.

      — Foi só uma combinação de ângulos e metidas matemáticas com visão precisa e habilidades manuais, que são cortesia da nossa profissão.

     Virei rapidamente na direção  das gargalhadas, Isaac se contorcia na cadeira.

     — Trapaceiro! Você queria se vingar. — Direcionei a fala para Müller dessa vez: — E você mentiu para mim.

     — O Müller mente mal para caralho — Isaac defendeu o amigo —, por isso nem tenta. Você perceberia até de olhos fechados.

     — Eu disse que nunca joguei, não que não sabia jogar — Müller acrescentou. E apenas quando Isaac voltou a dar atenção para algo que John e Luiz diziam, propôs: — Quer revanche? Diferente de você, não faço questão de ficar sempre por cima.

      O jogo de palavras e o tom com que foram pronunciadas por ele, me inabilitou. Continuei imóvel até que ele pegou o taco, que utilizei antes de cima da mesa, e estendeu em minha direção.

    — Sem apostas ou acordos com terceiros, agora será sob nossas regras. — Por impulso, apertei os lábios, com a mesma intensidade que fiz com as pernas. — Cada bola encaçapada dá direito a uma pergunta de qualquer natureza. Aceita?

Ele desembrulhou um dos pirulitos que sempre trazia nos bolsos e levou à boca.

    — Só se eu puder acrescentar que se a pergunta for comprometedora demais, o perdedor da rodada pode trocar pela dose de alguma bebida.

      — Assim você limita minhas chances de conhecer a Mel. — Meu corpo reagiu a forma sensual com que meu apelido soou naquela voz rouca. — E se não me engano você está de plantão.

     — Sei que meu oponente não irá escolher nada com um teor alcoólico maior do que o do meu enxaguante bucal.

     Aproximei-me o suficiente dele, para fazer com que seus olhos percorressem o perímetro ao redor, checando se ninguém estava capturando aquele momento. Quando voltou a encarar-me, roubei o doce de sua boca, lambendo, propositalmente de vagar, toda a circunferência da esfera de cereja, antes de finalmente abocanhá-la. Provocativa, a chupei com mais intensidade que o necessário. Müller engoliu em seco, depois levou a mão à nuca e apertou a musculatura, afim de diminuir a tensão.

    — Desconcentrar o adversário é golpe baixo. — Apenas sorri enquanto deslizava o canudo verde de um lado para o outro entre meus lábios.

       Tomei a frente e organizei as bolas para o início da partida, propositalmente numa sequência aleatória. Ele começou, e o impacto da bola branca contra a pirâmide próxima a borda oposta fez cair três bolas, duas baixas e uma alta.

     — Primeira: Scott do jurídico é o “idiota” com quem seu pai terminou por você? — Era óbvio que a pergunta foi motivada pela recém entrada do advogado no bar. Assenti com visível diminuição de entusiasmo.
— Ele não foi seu único namorado, não é?

     — Não sei se percebeu, mas desperdiçou sua segunda pergunta. E sim, infelizmente, ele foi.

     Müller rolou a número três para a abertura lateral do lado esquerdo da mesa. Depois a de número sete teve o mesmo destino da anterior, porém a de número um se recusou a entrar na caçapa do canto.

     — Você sabia...? — indagou com visível desconforto na voz.

     — Que meu namorado ficava com metade dos homens em Vancouver? Não. — De viés, vi quando o ponto alto de nossa conversa tirou um pequeno frasco de álcool em gel do bolso do terno cinza, esterilizou as mãos, depois com a ajuda de uma toalha de papel descartável e o triplo de substância limpou a mesa, por fim, aplicou mais gel nas mãos. Sem pensar, acrescentei: — Recebi um vídeo por engano, do tipo bem erótico. Mas o que mais me enfureceu, foi ver que com homens ele não seguia religiosamente as regras de proteção de seu manual germofóbico do sexo.

Tentando apagar a existência da conversa anterior, Müller perguntou:

     — O que teria sido se não fosse médica?

    — Acho que nunca pensei nisso. Talvez, por viver os sonhos que projetaram em mim, nunca criei os meus.

     — Pensei estar melhorando o clima, e você fez passar de extremamente incômodo para triste — Ele fez um sinal com a mão para eu começar a jogar.

     — Qual são seus fetiches? — questionei quando derrubei a primeira.
— Vou ter que aceitar aquele bebida que sugeriu — disse com o rosto corado.

      — Maldita hora que criei essa opção. — E ele recorreu a ela para as três perguntas seguintes, igualmente íntimas.

     Apresentei a ele uma versão com quantidade menor do cosmopolitan, que o fez torcer o nariz; do Manhattan ele pareceu gostar, talvez pelas notas de baunilha e caramelo do whisky misturado ao xarope de algo com o nome estranho; já meu preferido: o Hurricene, que consistia na combinação de rum com suco, passou despercebido depois da bomba de licor, gin, suco de limão e outras coisa juntas dentro do Last Word.

A mistura das bebidas sem soma de duvida foi o que fez errar a tacada, mas foi o Dry Martini que escolheu pela quinta pergunta, certamente foi o que te levou a responder a sexta.

     — Se importa se eu perguntar o que houve com sua esposa?

    — Cometeu suicídio, a dois dias de completar trinta e duas semanas de gestação. — Ele nitidamente não tinha mais controle do que dizia, então continuou: — Consegui chegar a tempo de salvar a Emily.

     — Não fazia ideia de que era pai.

     — Tio, teoricamente. — Como cortesia do álcool, ele soltou uma risada audível, como se aquilo fosse cômico. Em outra situação teria me pego pensando o quão fofo era o riso que escutava pela primeira vez, mas estava perplexa. — Meu casamento por contrato não funcionou como nos romances. Ajudei com o visto de permanência, e o Gabriel com todo o resto.







Nota da autora:

Olá amadinhas (os)
Como um dia de atraso, mas cumprindo minha promessa. E mais, hoje ainda, ou no mais tardar amanhã, terá um capítulo de vez caliente.

Beijos e abraços da Tata 🤗😘

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