🔴Capítulo 12/1 - Thompson

     — Algumas técnicas levam muito tempo para serem aperfeiçoadas. Mas olha só você, operou poucas vezes com ele e já sutura da mesma forma. — Cortez se referia a alguém que estava a estados de distância, há quase uma semana.

       — Olha quem fala — zombei, encarando a pinça com a qual ele segurava a agulha.

      — Os pupilos tendem a aprender com seus mentores, não ao contrário.
Cortou o fio de nylon ao fim do seu último ponto, então me encarou.

     — Você é cirurgião-plástico.

    — Nem sempre o Müller foi neurocirurgião.

     Minha estranheza competiu com a curiosidade, mas fingi desinteresse quando comentei:

      — Pagaria para ver ele corar toda vez que tivesse que examinar uma paciente de mamoplastia. — O chefe riu de forma audível por trás da máscara cirúrgica. — Por que ele desistiu?

      — Ele escolheu a neurocirurgia antes mesmo da medicina, não dá para competir com isso. — Cortez começou a se livrar das roupas de proteção ao fim do curto procedimento, o imitei. — Ninguém queria ter um residente surdo na cirurgia, por isso ele fez um especialização clínica antes. Então um dia, precisei de um infectologista no caso de fasciíte necrosante. Pedi a ajuda dele no centro cirúrgico... O garoto era um prodígio com o bisturi.

     Com um brilho diferente no olhar, o cirurgião finalizou com um tom e sorriso que pareciam ser de orgulho. Não sabia se era sincero, ou uma forma de diminuir minha atual apatia pelo Müller, por meio de uma manipulação tola.

     Em menção de dizer que já era de costume do Müller passar por cima do que for para conseguir o queria, abri a boca, mas a fechei quando um homem loiro de olhos turquesa e corpo atlético, roubou minha atenção ao cruzar nosso caminho, usando um pijama cirúrgico vermelho-escuro. E Brittany serpenteando em seu encalço.

     — Quem é aquele? — sussurrei para que só o chefe pudesse ouvir. — E por que a Brittany não está em Washington?

     — Barry Coleman, do hospital universitário. Veio fazer as cirurgias de alta complexidade que não podemos adiar por mais tempo. — Ele fez uma pausa. — O Müller deve ter mando ela de volta. Os planos mudaram e ele não aguentaria a Neville por mais nem um dia.

       Pelo que concluí, o neurocirurgião, que eu não sabia se podia mais chamar de supervisor, não retornaria no fim de semana como previsto. Não prolonguei a conversa, e em silêncio, Cortez e eu tomamos rumos diferentes depois da porta dupla.

* * *


   O cheiro de poeira misturado ao de papel envelhecido me fez espirrar assim que abri a porta da sala de arquivos. Adentrei a sala, vasculhei as caixas nas prateleiras à procura dos históricos antigos de dois pacientes da cardiologia e fui até a biblioteca para estudar os casos.

      A sala ao lado estava vazia, assim como a mesa próxima à janela, para onde me dirigi e espalhei todo o material que trouxe comigo, antes de finalmente me sentar em uma cadeira que, pelo visto, ia continuar sendo exclusivamente minha por mais alguns dias.

      Apertei os olhos cansados e deixei meu corpo cair no encosto estofado da cadeira. Encarei o teto até que a presença nada discreta, me fez procurar a origem do cantarolado alegre.

       — Café e página trinta e dois, para melhorar sua tarde — Camille disse, afastando a bagunça da mesa para depositar o copo e uma revista científica. Agradeci, e ela passou por mim para se sentar junto ao parapeito da janela. — Agora entendo o motivo dele gostar deste cantinho.

      A médica tinha um tom melancólico, que eu ignorei ao folhar a revista calmante, mas por fim disse:

      — Fala como se o Müller tivesse morrido.

      — Pelo menos quando ele está por perto, as pessoas ficam vivas. — Ela tomou do café dela. — O Enzo é um maldito ceifador.

       — Isso é o que estou pensando que é? — questionei quando me deparei com um artigo na página que a cirurgião havia indicado.

       — Sim, o Müller me incentivou a publicar nosso estudo sobre o Walsh. — Nos abraçamos em comemoração. — Eles nos convidaram para palestrar no Congresso Nacional de Neurociência, que este ano será em Fairbanks, no Alasca. Mas com o neurocirurgião-chefe fora e o Boneco Ken que o Marshall conseguiu para ajudar, você vai ter que ir sozinha.

      — Não mesmo, Cami! Eu não quero estragar tudo, principalmente isso que é tão importante para você.

      — Para nós — corrigiu na mesma hora. — Fizemos juntas, por isso você é a pessoa mais qualificada para ir.

      — Por que as coisas só acontecem na hora errada para mim?

      — Está me dizendo que desistiu da neurocirurgia? — Camille me mediu de cima embaixo, analisando o uniforme azul claro. — Pensei que isso fosse temporário, até a Zoe se adaptar.

     Dei de ombro e tirei um rápido gole do café, também não tinha certeza sobre minha estadia na cirurgia-cardiotorácica.

      — Talvez todos tenham razão, Cami, eu não levo jeito para a neurocirurgia.

     — O próprio Cortez sugeriu que você fosse no Congresso. — Ele sorriu, depois acrescentou. — Você acabou de ajudar ele a extrair costelas em um procedimento estético, também vive quebrando e concertando ossos para a ortopedia. Você é versátil, se adapta fácil, então o chefe te vê como um curinga.

    — Eu devo mudar isso? — perguntei desconfiada, e ela sorriu enquanto sutilmente negava com a cabeça.

       — Descobri porque te chamavam de “exceção.” — Enfatizou fazendo o sinal de aspas com os dedos de ambas as mãos, e forçou um tom misterioso. — Procure saber disto, a resposta pode te ajudar.

     A médica se levantou e começou a deixar a sala sorrindo, ela sabia que se ficasse eu imploraria pela resposta, assim com também sabia que não conseguiria resistir.

      Voltei a atenção para os laudos e relatórios bagunçados. Mas a solidão não durou quinze minutos, já que a figura esguia surgiu ao meu lado, como se fosse uma versão do Mestre dos magos com mais de um metro de setenta de altura. Tive um sobressalto que não passou despercebido aos olhos do cirurgião, ele abriu um sorriso.

     — Posso ajudar, Dr. Coleman?

      Notei que ele trazia uma pasta consigo, de onde tirou uma folha e estendeu em minha direção, logo perguntou, sem cerimônia ou o mínimo de educação:

      — O que isso significa? — Se referia aos números, símbolos e códigos que preenchiam frente e verso do papel. Alguns deles se agrupavam em equação complexas, outros pareciam totalmente aleatórios.

Tá me achando com cara de programa de decodificação? Claro que aquilo nunca poderia passar pelos meus lábios, por isso guardei apenas para mim, e para ele respondi:

    — É a caligrafia do Müller. — Retornei ao meu trabalho, porém ignorar ele não foi o suficiente para que o fizesse sair. — Mas alguma coisa?

     — Tem o seu nome aqui, então pensei que poderia me ajudar. — Seu tom foi mais gentil desta vez.

      — Ele cursou matemática avançada nos quatro anos de pré-medicina, ninguém além dele sabe o que isso quer dizer. Mas costuma ter uma folha impressa com o plano terapêutico que ele criou,  depois do laudo da ressonância.

      Coleman folheou a documentação e sorriu ao se deparar com o papel exatamente onde eu havia dito. Ele agradeceu, e eu forcei um sorriso.

      — Será que posso ficar com isso? — Apontei para a página com os cálculos. — Müller costuma descartar depois que fecha o diagnóstico.

    O cirurgião deu de ombros e me entregou antes de sair.

* * *


       — Deu as anotações do Müller sobre o Erick para o Coleman? — John vociferou indignado.

     O jovem se colocou entre mim e o elevador, formando uma alta barreira que me afastaria por mais algum tempo das míseras horas de sono que tinha antes de pegar um vôo, para um congresso que eu não queria ir, na manhã seguinte.

    — Não sabia que era do Erick.

      — Você ao menos leu a hipótese diagnóstica e a única forma de comprova-la?
— Fiz um gesto de negação, sem coragem de responder com palavras. — O Müller sabia o que tinha que fazer desde que o paciente chegou aqui. Por que você acha que te colocou para estudar o caso?

      — Porque a única opção que ele conseguiu mataria o paciente — concluí com pesar.

      — Para o Coleman o Erick é só mais um, então se ele morrer não faz diferença. Mas se o paciente sobreviver, será a glória dele como médico. — John deu um passo para o lado, liberando minha passagem. — Se restou alguma consideração pelo tempo que ele foi sei paciente, não deixe que o matem.

     — E como é que eu faço isso, John?

     — Você sabe a resposta.
Müller. Era frustrante como mesmo ele estando a quilômetros de distância, tudo ainda girava em torno dele, desde as mais aleatórias conversar, até às soluções mais complicadas.

     Caminhei até em casa ensaiando minha abordagem e, mais importe, criando coragem para tratar daquele assunto.

      Me joguei no sofá com minhas pantufas de panda e vestindo apenas um moletom largo, com cumprimento suficiente para cobrir a minúscula peça de renda que usava sobre o agasalho. Hesitei antes de desbloquear, mas enfrentei a insegurança e abri o aplicativo de mensagem. A barra superior logo informou que Müller também estava conectado.

     Digitei um texto formal e bem explicativo, porém não consegui enviar, apaguei tudo e abandonei o celular sobre a mesa da cozinha, quando fui até o armário buscar a garrafa de rum. Decidi que Erick poderia esperar um pouco mais, pois amanhã a esta hora eu estaria congelando no Alasca e sem poder beber nada. Meu celular vibrou sobre a superfície de madeira.

     “Esperei você digitar por dois minutos e meio, para não receber nem um boa-noite?” 

     A mensagem que fez celular tremer, também fez meu coração acelerar, estremecer dentro do peito. Às vezes, me esquecia que esses aplicativos forneciam a informação de que se estava digitando.

     Abandonei a garrafa e comecei a pensar em como contar tudo da forma mais resumida possível, mas antes que pudesse escrever uma palavra sequer, ele enviou:

     “Não está nua, está?”

     “CLARO QUE NÃO!” respondi consternada.

      “Vou te ligar então. Esteja em um lugar iluminado.

      Suspirei ao olhar para tela e ver que se tratava de uma chamada de vídeo, o que explicava o motivo de querer saber se estava vestida.

      Quando atendi, não consegui ver mais que seu rosto, que a própria tela do celular iluminava com dificuldade.

      — Por que só eu tenho que estar em um lugar claro?

    — Porque só eu preciso fazer leitura labial. — Ele fez uma pausa. — E também, porque estou sem roupa.

      A imagem do Müller completamente nu era algo que minha mente nunca havia sequer cogitado em projetar, de tão absurdo que era, mas depois dessa declaração se tornou algo que a imaginação fértil não conseguia ignorar.

      Decidi começar a falar sobre o Erick e o Coleman, para impedir que meu subconsciente continuasse a juntar detalhes aleatórios, para formar uma imagem hipotética, que fez eu me atrapalhar com as palavras no meio do discurso. Porém, quando a humilhante lembrança dos meus comentários a respeito dos contornos do corpo dele em uma radiografia assombrou meu pensamento, me tomando a capacidade de falar por um instante. Senti meu rosto queimar, com certeza me deixando corada, de modo  que Müller teria visto até se a luz do visor fosse a única a me iluminar.

      — E então? — ele questionou diante do silêncio prolongado.

      Balancei a cabeça com violência, na tentativa de esvaziar a mente e retomei a explicação. Consegui ser mais objetiva quando decidi focar em decifrar o barulho do outro lado da chamada. O som que chegava até mim, indicava que estava chovendo onde Müller estava, pois além do chiado da chuva caindo do lado de fora e as rajadas de água que o vento arremessava contra o vidro, de uma janela talvez; tinha as trovoadas, que vez ou outra se sobressaiam aos outros sons. Logo, o clarão de um relâmpago confirmou tudo que meus ouvidos deduziram.

     Um relâmpago, mesmo que ligeiro, confirmou também que Müller estava deitado em um travesseiro listrado, com os cabelos um pouco desgrenhados e úmidos, e com a mão livre atrás da cabeça. Outro relâmpago. Desta vez, desci um pouco os olhos, para admirar o peitoral nu.

      — Erick Dylan ainda é responsabilidade única e inteiramente sua na minha ausência — declarou, visto que eu não tinha nada para acrescentar.

     — E quanto tempo mais de ausência estamos falando? Ele pode precisar de uma cirurgia e não consigo fazer isso sozinha. Uma neurocirurgia solo está fora de questão e...

      — Você só preciso ser a petulante e imponente Thompson de sempre, para impedir que o Coleman tente qualquer coisa. — Ele se sentou na cama. — Sou eu quem supervisiona as solos, então pode ficar tranquila que sua primeira vez sozinha não vai acontecer enquanto eu estiver fora.

📩Obrigada, meu amores, por não desistirem de mim. Prometo tentar trazer capítulos com mais frequência. Esses últimos meses a faculdade tem me sugado como nunca, mas já sinto cheirinho de férias 🏖️

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Beijinhos da Tatá 😘💋
E até semana que vem 👋🏾

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