🔴Capítulo 11/2


Papai não estava em casa quando cheguei, mas havia deixado um prato para mim no micro-ondas. Tomei um banho demorado de banheira depois de comer, tentei não pensar em um certo neurocirurgião enquanto abafava meus gemidos com a mão livre, porém não tive êxito. Quando se tratava dele, meu corpo me traía, minha mente me traía.

Deixei a cama preguiçosamente e peguei a primeira calça de ginástica e camiseta que encontrei. Tinha risoto quente em uma panela no fogão, o chuveiro estava ligado, o que me fez concluir que papai estava no banho e, pela bolsa feminina sobre a mesa, ele estava acompanhado, logo a imagem que me veio a mente quase me fez desistir do jantar. Sai com os fones de ouvido a postos, e na mão carreguei um livro aberto na página de procedimentos, publicado há sete anos, cuja fotografia na contra-capa trazia o rosto imberbe e mais jovem de alguém que me atormentava até em sonho. Você era melhor sem barba, ri do próprio pensamento.

— Posso te pagar um drinque? — perguntei ao anestesista quando nos cruzamos na porta da Emergência. — Você está de saída, e eu cheguei uma hora adiantada...

— Está flertando comigo, novata? Porque saiba que...

— Você gosta da Camille, todos sabem. — Ele pareceu desconcertado e apontou o Ian's. — Além do mais, você não faz meu tipo, prefiro homens grandes.

— Meço um e noventa e quatro.

— Eu disse grandes, não altos.

O segui, pensando que entraríamos no bar com o qual já estava habituada, mas ele parou diante de um portão próximo a entrada do estabelecimento e tirou um chaveiro do bolso.

— Tenho uma grade de cerveja intacta lá em cima e coca para você. Müller tem um olfato ótimo — acrescentou, aconselhador.

— Melhor não — considerei analisando o apartamento dele sobre o bar.

— Não vou te atacar. — Riu da própria garantia. — Você não iria me propor um drinque se não quisesse conversar.

Concordei, dei de ombros e subimos as escadas, ele tomou a frente depois que destrancou a porta e avançou sala à dentro, recolhendo embalagens vazias de comida e roupas, que estavam espalhados pelo sofá. Disse para eu ficar à vontade enquanto se dirigia à cozinha, de onde voltou com uma garrafa de cerveja e uma lata de refrigerante na mesma mão, na outra, trouxe partes do que logo deduzi ser um cachimbo d'água. Sentou-se na poltrona do outro lado da sala e começou montar o narguilé, tirou um longo gole de sua garrafa e se afastou mais uma vez, para buscar pequenos pedaços de carvão em brasa. A boca, agora contornada por uma barba por fazer ao invés do cavanhaque, tragou demoradamente, logo soltando a fumaça.

— Cereja — conclui a respeito da essência, revirando os olhos em seguida.

— Você deve saber que quando algo aleatório te faz lembrar alguém é porque tem sentimento envolvido. — Isaac me estendeu a fina mangueira.

— Tem sim, mas nenhum positivo. — Traguei sem receio.

Ultimamente sequer cogitava resistir à vontade, mesmo sabendo que era o vício me ludibriando com a falsa sensação de relaxamento. Sempre soube que me autodestruía a cada nova tragada, fingindo que era a última ou que era só para diminuir o estresse.

Isaac livrou-se do blazer cinza, ficando apenas com a camiseta de gola V preta e jeans da mesma cor, o que trazia o foco para seu rosto, os olhos pareciam mais azuis e o cabelo mais claro ainda.

— Como a pessoa que passa mais horas com o Müller em cirurgia, qual você acha que é o procedimento preferindo dele?

Aquela era a pergunta de alguém desesperado, agora não se tratava apenas de juntar pontos para a competição de Camille, e sim continuar na neurocirurgia.

— Não sei se ele tem um específico, ele gosta de todos em que o paciente não morra. — Terminou o conteúdo da garrafa e aspirou novamente no cachimbo quando lhe devolvi. — Ele sente falta dos implantes cocleares, já que a maioria são feitos na infância, ou seja, trabalho de neurocirurgião-pediátrico e otorrino. Bem masoquista, não é?

— Masoquista... — ponderei sem perceber e, infelizmente, em alto e bom som.

— Não nesse contexto — respondeu se divertindo. — Nunca tive oportunidade de conversar com alguém que ele tenha dormido, para saber se gosta de apanhar, então só estava me referindo ao sentido figurado: dar ao outros uma oportunidade que nunca terá. Tem quem veja como altruísmo, mas para mim não passa de sentir prazer em se torturar.

Sem saber o que acrescentar, balancei a cabeça concordando e levei a minha lata até a boca.

Se eu precisava torturá-lo para conseguir o que queria, faria sem cogitar, mas confesso que gostaria bem mais se fosse algo desagradável para ele. Contudo, só precisava descobrir como conseguir um paciente para este procedimento — em pouco mais de um dia. 

* * *

Depois de quase subornar o fonoaudiólogo que encontrei na UTI neonatal e implorar para uma cirurgiã-otorrino, troquei de roupa e desci até a emergência atrás do único que aprovaria minha cirurgia no primeiro horário disponível do dia seguinte.

— Pensei que você só encarasse paredes enquanto pensa, mas os peitos de desconhecidas na Emergência consegue ser estranho até para você — comentei depois de me põe diante dele, para obrigá-lo a subir os olhos até o meu rosto.

— Gosto de tetos também — retrucou em tom insolente, logo baixando o olhar. — Acredito que encarar os seus seios, de uma distância bem reduzida, não seja menos estranho.

Dei um passo para o lado, mas acenei diante de seu rosto, para trazer novamente sua atenção para mim. Ele revirou os olhos antes de me encarar, interrogativo e impaciente.

— Não entendo por que todos vocês têm esse fascínio por peitudas.

— Não generaliza, porque não ligo para isso.

— Mulheres?

— Medidas! — Se pôs de pé, como se fosse mais intimidador me olhando de cima. — Se seu objetivo era diminuir substancialmente o meu bom-humor, conseguiu. Se queria mais alguma coisa, diga logo antes que o resto se esvaia.

— Consegui uma cirurgia. — Entreguei-lhe a pasta, ele examinou e disse que agendaria, estranhei a facilidade, porém não seria louca de questionar.

Müller caminhou rumo ao elevador e eu o segui, não porque havia tido um convite, ou porque planejava acabar o que lhe restou de bom-humor, e sim porque íamos para o mesmo lugar. Várias pessoas desceram quando as portas se abriram, mas apenas nós dois subimos.

Encarando a parede espelhada, ele deslizou a língua sobre um corte discreto no canto do lábio, depois levou o dedo até o local para medir o estrago. Uma vez por semana ele aparecia com a boca machadada e, coincidência ou não, sempre nos dias em que seu humor estava menos infernal. Aí, que nojo! Virei de costas para o espelho, para ele não pudesse ver a minha expressão, que foi um tanto controversa ao pensamento, mesmo ambos sendo sobre a imagem que minha mente fértil criou.

Esperei que ao sair do elevador fossemos para lados opostos, mas não, seguimos juntos, mesmo que em silêncio e sem olhar um para o outro. Agradeci quando Cortez se pôs diante de mim, me detendo, assim Müller pôde continuar sozinho até desaparecer ao cruzar a porta do centro cirúrgico.

— Mel, você não vai acreditar. — Seu tom era de total entusiasmo. — Zoe Karven virá fazer um transplante cardíaco aqui amanhã, e designei você para auxiliá-la, então deixe sua agenda livre.

— Fico lisonjeada, mas tenho certeza, que qualquer um dos residentes do Campbel é mais qualificado do que eu.

— Ah, Mel, não seja modesta. — Levou a mão ao meu ombro. — Você era a pupila de uma das maiores especialistas em transplantes do país. Tenho certeza, que você poderia fazer um transplante sozinha se quisesse.

— O Campbel é um cirurgião experiente, por que ele opera junto com ela?

— Ele não trabalha muito bem com mulheres, e fiz uma proposta de emprego à Zoe. Você pode tá insegura agora, mas é única que pode impressioná-la.

Não era exatamente insegurança por trás das minhas tentativas educadas e sutis de recusar a cirurgia, todavia, também não havia nada que eu pudesse dizer que o fizesse mudar de ideia. Agradeci com o meu mais forçado e dissimulado sorriso e me dirigi até a galeria da Seis. Assistir meu supervisor operando parecia o mais próximo que tinha da neurocirurgia agora. Coloquei os fones e minha própria música, as cirurgias em que um velho careca substituía o anestesista de estimação do Müller eram silenciosas.

— Vai aprender bem mais se olhar só para as mãos dele — aconselhou John após tirar meus fones, o que me deu um susto. Meu xingamento saiu de forma mecânica, fazendo ele rir. — Estar de plantão não significa ficar no hospital, mas sim vir correndo quando te chamarem.

— Não tenho pernas de avestruz — alfinetei sarcástica.

— Segundo o dicionário de animais da Lisa, o avestruz é o Isaac.

— Ele é mais alto, pensei que fosse a girafa. Qual você é então?

— O objetivo dos apelidos ridículos é serem debochados, não óbvios. — Revirou os olhos e bufou, antes de finalmente responder: — Pastor-belga.

Levei a mão à boca rapidamente, para abafar a gargalhada.

— Companheiro para todas as horas, leal e sempre pronto para proteger seu tutor. Uma forma dela dizer que só te vê como amigo e que você é um grande puxa-saco do Müller.

Ele franziu o nariz e bagunçou meu cabelo, na cabeça dele estávamos empatados.

— Lisa comprou um balde de costeletas, para a gente comer no heliporto.

— Isaac disse que ninguém pode ir lá. A menos que... mentiroso safado!

Seguimos até o elevador, e John segurou a porta aberta para Lisa.

— Pena que transplante não está na lista — Lisa lamentou ofegante —, você estouraria em pontos.

— Que lista? — John questionou.

— Coisa da Camille. Em resumo: a Mel não vai para Washington.

Deixamos o elevador na cobertura e subimos dois lances de escada até o térreo, John se adiantou e abriu a porta para nós. O céu estava estrelado do lado de fora, e o clima bem ameno, mesmo que ainda não tão quente quanto estava acostumada, mas aquela brisa suave carregada das primeiras notas adocicadas da estação das flores, era algo que poderia me acostumar com mais facilidade.

— Quem mais sabe sobre a cirurgia? — perguntei.

— Os chefes de departamento e um ou outro residente sortudo, como é o meu caso. — Provocou o rapaz, já que o Müller não era do tipo que compartilhava informações. — O Nathan defendeu você, jogou na cara do Campbel que o fato de ser mulher não diminuí sua capacidade e que você é melhor que os imbecis da cárdio.

— Aposto que não com essas palavras — corrigiu John, e ela apenas deu de ombros.

— E ainda finalizou dizendo que o pior preconceituoso é aquele que pratica preconceito mesmo depois de ter sido vítima.

Para alguém que tinha uma equipe cirúrgica composta por homens, cujo único pupilo que treinou na carreira é do sexo masculino e, um apoiador da causa feminista, também não teria me admitido só por ter pensado que eu tinha um pênis. Entretanto, não duvidei de sua defensa, pois, sincera ou não, o resultado era bem conveniente para ele. 

* * *

Após umas cinco horas em uma cirurgia complexa com Camille, pensei em uma conversa que precisava ter, ao mesmo tempo que reunia coragem para tê-la. Deixei o centro cirúrgico decidida, só não esperava que a coragem diminuiria ao passo que me aproximava da biblioteca, e que me abandonaria por completo quando passei pela porta.

Espiei por entre os vãos das prateleiras, Müller estava sentado no peitoril da janela, com semblante suave. Embora tivesse notado minha presença quando comecei a caminhar em sua direção, não desgrudou os olhos do vidro.

Esbarrei em seu joelho de propósito, ele me fitou.

— Você boicotou nosso acordo. — Uma ruga de dúvida se formou entre as sobrancelhas quando ele as juntou. — Diz para o Cortez que não quero o transplante, porque vou fazer outra cirurgia, com você.

— Não funciona assim. Tecnicamente, ele também é meu chefe. — Ele coçou o queixo. — Também não faria, nem se pudesse. É um transplante de coração!

O tom dele era como o de todos os outros ao se referir ao procedimento, como também já foi o meu um dia — fascinado.

— Como ficaria se te obrigassem a tratar uma criança?

O cirurgião desviou o olhar, apertou os lábios e passou a língua entre eles, desconfortável. Havia entendido aonde eu queria chegar, mas preferiu não responder. Sai quando me dei conta que nada que eu disse faria diferente.

— Melanie! — Olhei na direção de onde vinha a voz sedutora de Elena. — Me dá sua opinião de cirurgiã nesse paciente aqui?

— De repente todo mundo começou a pensar que sou especialista em cardiologia — disse, pegando o tablet para poder estudar melhor os exames. Dei um parecer detalhado sobre o caso, e ela fingiu ignorar, perguntando:

— Não é o que você quer?

— É a primeira pessoa que me pergunta isso, sabia? — Paramos diante da porta do quarto dos médicos.

— Deve ser conflito de cirurgião. — Ela deu de ombros sorrindo. — Parece mágico mover um coração e ligar ele em outro lugar. Senti-lo pulsar contra a palma da mão...

— O cérebro é mais que massa cinzenta e branca, é todo o passado, presente e futuro de alguém. Corações são substituíveis, cérebros não!

— Estamos falando de apreço pela cirurgia ou pelo cirurgião?

— Que tal você tentar me analisar quando eu não tiver exausta e a quatro horas de um procedimento que vai levar metade do dia? — sugeri, finalizando com meu melhor sorriso.

Ela afastou-se rebolando, e eu me joguei na primeira cama vazia que encontrei.

O despertador me acordou bem a tempo de dar um jeito no meu cabelo e rosto, para não parecer uma degenerada diante da Zoe.

— Cara, se eu fosse o paciente, sairia correndo ao saber que é você quem vai usar o bisturi — debochou Isaac, depois me estender um copo de café. — Para a sorte dele, é esse rostinho lindo aqui que vai colocá-lo para dormir.

Isaac se separou de mim no lavatório, a loira na casa dos trinta e poucos, quem logo deduzi ser a nova cirurgiã, pediu cinco minutos comigo em particular. Não tinha como concluir nada sólido sobre ela ainda, mas se mostrou amigável.

Fui até a torneira mais próxima quando ela se afastou e comecei a esfregar sob as unhas, depois entre os dedos, a palma e o dorso das mãos, os braços até o cotovelo. Estava enxaguando quando o perfume amadeirado me fez suspirar, o som inconfundível dos passos pausados foi ficando mais próximo, até que ele se pôs do meu lado, de braços cruzados e com um dos coletes de estimação.

— Boa sorte! — Seus lábios tocaram minha bochecha no vão da máscara.

— Por que isso pareceu uma despedida, Müller?

Ele me privou de uma resposta, se dirigiu até a galeria da Três, para assistir aquele procedimento, que para qualquer outro R3 seria a glória, mas para mim significava quebrar uma promessa.

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