24 = Partido(a)
Era o dia do jogo. Em tão pouco tempo aquela disputa estava iniciada. Igor ligou no mínimo 4 vezes para cada um querendo checar se todos estavam acordados. Noah, que tinha ido dormir tarde depois de ter maratonado pela segunda vez Friends, não atendeu em nenhuma das quatro vezes. Somente cuspiu palavrões em um áudio, enquanto reclamava.
Meu primo Finley, por outro lado, já estava acordado, e já tinha rezado. Seu sorriso era enorme, e enquanto o via levar a colher com leite e cereal a boca, me perguntei o porquê.
Isso... Até alguém tocar a campainha, com minha mãe descendo à escada apressada, para ir abrir a porta. Quando Finley também se levantou, eu tive a comprovação, antes mesmo de escutar sua voz.
Era Ema. Ela tinha finalmente chegado.
Continuei a comer meu sanduíche, não querendo notar meu nervosismo. O recente medo formado em meu estômago, que parecia revirar. Pelas vozes, todos pareciam felizes, jogando conversas aleatórias em cheque. Minha mãe me chamou com a mão, pedindo para que me aproximasse, mas continuei a ficar sentado.
Desde de criança, Ema era a mais velha. Algo lógico quando ela nasceu anos antes de mim, mas... Não era só isso. Ema era o meu objeto de inveja. Aquela que tinha tido toda a atenção de nossa avó, por ser a mais velha, e sendo assim, a que mais tinha capacidade de ajudá-la.
Meus pais, nunca foram presentes da forma que eu gostaria. Minha avó foi a pessoa que ensinou Ema a cozinhar, com ela, me obrigando a ajudá-la. Minha avó não sabia, mas parte da mesada de Ema era dada a mim por ela mesma, comigo tendo que fazer algumas das tarefas de casa em seu lugar. Quando minha avó morreu, somente tinha sobrado Ema vestida de preto. Ema calada. No mesmo dia em que ela descobriu que poderia ditar sua própria vida à partir dali apenas colocou uma lanterna solar, uma bússola, seus dois tênis all star, duas blusas regatas e três calças em uma mala, e pegou o primeiro ônibus.
Ela agora tinha formado uma família. Ema, que sempre esteve a frente de Will Belmarques, tinha formado uma família, enquanto ele fazia merdas. Ela sempre estava à minha frente. Estar na frente dela depois de tanto tempo me dava medo. Medo, dela estar tão diferente de forma positiva, que eu começasse a me perguntar "o que diabos eu fiz esse tempo todo?".
O sanduíche continuou na minha mão, e eu continuei a olhar para ele. Isso, até que ela se cansasse de somente me ver sentado, sem notar sua presença.
— Will... — sua voz saiu, de forma calma.
Era quase o mesmo tom. Agora menos anasalado, e mais vibrante.
Larguei o sanduíche, e fiz uma retrospectiva do que tinha vivido desde a morte da nossa avó. Esperava que os cabelos marrons quase loiros, não estivessem totalmente loiros e rebeldes. Esperava que ela ainda continuasse uma tábua de passar roupa, sem nenhum corpo. Esperava que ela não tivesse mudado tanto.
Nos olhamos por alguns segundos. Cada um, notando o quanto o outro tinha mudado. Seus cabelos ainda eram cacheados e marrons, estando até que bem cuidados. Ela agora tinha tanto peito quanto à Kim Kardashian, como sempre dizia que queria. Ema parecia acima de tudo, feliz.
— Oi.
Foi somente o que eu disse, com ela sorrindo em minha direção.
Eu talvez tivesse mudado muito. Mais massa muscular, a voz não era mais a de um garoto mimado, e, agora eu não deixava mais meu cabelo crescer ao ponto das pontas ficarem encaracoladas. Apenas o suficiente para que pudesse fazer um penteado legal.
Ah, e... Tinha a tatuagem. Algo que ela não viu na hora.
— Will...! — Minha mãe exclamou. — Vem conhecer o marido da sua prima!
Sorri, porque ela me olhava com uma cara de quem me mataria se eu não fosse. Dei passos curtos até a sala, com o desconforto presente na pressão dos calcanhares. Quando entrei vi primeiro o táxi os esperando do lado de fora, para só aí passar meu olhar para eles. Primeiro, o marido da minha prima. Aceitei seu abraço, retribuindo os tapinhas que ele dava nas minhas costas. Ele era maior que eu, tendo que se inclinar um pouco para que o abraço fosse possível. Imaginava que ele tinha no mínimo um metro e noventa, já que eu tinha um metro e setenta e cinco. Além de alto, era forte, e sua pele negra contrastava com a roupa laranjas que vestia. Sua postura me lembrava à dos tenentes dos filmes, e seu espanhol não era bom. Quase no nível ruim. Algo que não importava, claro.
— Will, esse é o marido da sua prima.
— Es un prazer conocerte — ele disse, enquanto sorria. Sorri de volta, um pouco pela tentativa dele de se comunicar conosco, mesmo não sendo muito bom.
— Digo o mesmo — falei, português.
Finley tinha me ensinado algumas coisas. Me perguntei por que ele me pressionou a aprender o básico de libras também.
— Essa é Ramal — minha prima disse, e virei o olhar, tentando ver onde elas estavam.
Estendi a mão na direção da garota de cabelos negros presos em uma trança.
— É um prazer conhecê-la — disse, novamente em português. — Você é filha da minha prima, também?
— Não... — Finley começou, mas minha prima o interrompeu.
— Finley Theodore Vitti! — Ela exclamou com a mão na cintura. Se aquilo ainda fosse sua mania antiga, então significava que ela estava furiosa. — Você não contou para eles?!
— Não deu tempo! — Ele retrucou. — Uma hora eu estava aqui, e na outra treinando, e então...
— Treinando o quê?! — Ela quis saber.
Eu agradecia pela discussão ser em espanhol. Me fazia entendê-la.
— Hockey. — Me meti no meio, querendo ajudar Finley. — Ele entrou para o mesmo time que eu. Precisávamos de um jogador para entrar na competição. — Minha prima iria dizer algo, mas eu estava com pressa. Queria saber quem ela era antes de ter que sair. — Ela não é sua filha?
— Hija? — O marido perguntou, apontando para a garota, que ainda não tinha dito nada. — No, no, no. Esposa. Finley. Married.
"Married" eu conhecia o significado, mesmo sendo ruim em inglês.
— Ela é sua mulher?! — Perguntei, enquanto olhava para ele. — Você tem dezessete anos e já é casado?!
— Que tipo de pai ele seria se não assumisse a responsabilidade?! — Ema exclamou.
Tive um pequeno ataque de tosse. Me faltava ar. Era inacreditável. Eu estava até mesmo zonzo.
— Puta merda, Finley! — O ataque de tosse continuava. — Como você teve coragem de ficar com meu primo metido a explorador?!
Como eu olhava para ela, sua dedução foi a de que eu estava dizendo algo para sí. Quando a mesma começou a fazer gestos, notei que era libras. Ela estava se apresentando. Eu fiz meu nome com as mãos, como Finley tinha me ensinado. Infelizmente ele não tinha me ensinado xingamentos.
— A história se repete — eu olhava para minha mãe enquanto dizia. — Madalena ficou grávida aos quinze, e seu sobrinho virou pai aos dezesseis. Os novos tempos me assustam!
Peguei no braço de Finley, o arrastando para fora. Quase a pontapés.
— Espera... — ele começou a dizer.
— Terá todo o tempo do mundo para vê-la, mas, se não for ao jogo hoje, Igor vai arrancar suas bolas, e você nunca mais vai conseguir ter mais nenhum filho!
Agora, Finley estava automaticamente riscado da lista de pretendentes de Emília. Riscado, amassado, e jogado no fogo!
◆◈◆
Quando pisamos no clube vimos que o único que não estava jogando boliche, na tentativa de acalmar o nervosismo, era Igor. Ele com certeza estava correndo pelo México, queimando toda sua glicose.
Arraiá olhava para mim, e quando vi ele apontar para um lado de forma discreta, levantei brevemente o olhar. Me assustei por Ágatha estar ali. Ela aparentemente também estranhava.
— Queridinha... — Arraiá se virou, olhando em sua direção. — Pode ajudar o Will a organizar os equipamentos? Felicity acabou esquecendo.
— Não sou paga para isso — Felicity retrucou. — Sou paga para limpar e atender. E ainda ganho muito pouco por isso. Talvez eu devesse pedir um aumento...
Arraiá teve um breve engasgo. Com as mãos pedia para Ágatha fosse atrás de mim. Abri a porta, começando a ir na frente. Quando escutei a porta se abrir novamente, olhei para trás, vendo que ela estava vindo. Demos a volta pela quadra, entrando dentro do corredor que levava para os vestiários.
Seus passos atrás dos meus. O desejo de fazer com que ela dissesse algo. A tensão. Uma corrente elétrica percorrendo meus músculos, enquanto seu perfume me anestesiava. Tudo, em demasiado. O grande Will foi bravo. Tinha aguentado muitos minutos preso em um espaço pequeno com a garota que rondava seus mais ardilosos sonhos, sem que sua boca soltasse alguma piada.
— Olha... — quebrei o silêncio, me virando. Ela ainda dobrava os uniformes. Uma forma de não me dar atenção. — Se quiser, pode me xingar, ou... Bater em mim, mas ao menos diga algo.
Vi sua língua passar por seus lábios. Algo que para mim, entrava em meus sentidos como uma puta provocação, mas que, na verdade, não era. Houve nervosismo quando seu olhar se encontrou com o meu. Hesitação quando respondeu.
— Eu não estou brava com você — ela balançava a cabeça em negação. — Não temos nada. Não... Somos nada. Nem mesmo amigos. Então...
Se naquele momento, Ágatha tivesse ao menos dito uma frase clichê de filme, como "Eu quero que você seja meu", eu teria pegado meu celular, e terminado tudo com Emília. Que se foda a aposta! Eu ainda a ajudaria a encontrar um garoto decente, mas enquanto isso, curtiria minha nova namorada. A que eu esperava que assumisse o posto. Mas, sua aparente concordância com toda a situação me fazia pensar que ela era como as outras. Não queria nada mais que um momento. Nada sério.
Eu não era expert. Não poderia adivinhar o que ela sentia. Não poderia nem mesmo me colocar em sua posição. Apenas tinha minha posição, que era, em suma, um forte desejo pela garota à minha frente, junto, com a romantização de tudo que ela fazia.
Quando dei um passo à frente, ela tentou de alguma forma se esquivar, começando a mexer em outra coisa. A cada passo, ela parecia mais inquieta. Até que, estávamos próximos o suficiente para sentir a respiração um do outro.
— Precisamos... Arrumar — ela forçou um sorriso.
— Eu não me importo. — Queria tocar nela. Estávamos muito perto. — Me deixa tocar em você. Dessa vez.
Ela negou. Eu não entendia. Sentia os pelos de seu corpo se arrepiarem com meu nariz passando em seu pescoço. Até mesmo senti que a mão dela não queria ficar somente no meu braço.
— Não... — ela disse. — Para.
Eu fiz o que ela pediu. Ainda estávamos perto, mas eu não continuaria com ela negando. Não seria babaca a esse ponto.
— Eu realmente não sei o que você pensa — resolvi revelar. — Eu sinto que quer, mas... me afasta.
Ela desviou o olhar do meu. Sua mão segurava à minha, até de alguma forma se entrelaçar aos meus dedos. Deixei que ao menos aquilo permanecesse.
— Ela é bonita — ela disse enquanto sorria. — A outra garota com quem fica. É... perfeita. Para você.
Emília.
— Não temos nada — expliquei. — Somos amigos. Bons amigos. Eu... Estou inclusive tentando ajudá-la a arrumar um namorado.
Ela sorriu. Esse parecia ser verdadeiro. Mas ainda tinha algo a mais ali.
— Ainda assim, vocês... Combinam — novamente sorriu. — Eu...
— Você queria ser como ela? — Perguntei.
— Ela é tão magra! E... Perfeita! Tem muitos amigos, e sempre está sorrindo!
— Você também. — Ela pareceu ficar sem resposta. Sua mão parecia querer a todo custo soltar à minha. — Você não é a Emília, Ágatha, e eu agradeço por isso.
Emília era minha melhor amiga. Se Ágatha fosse Emília, eu estaria na Friendzone. Uma das áreas mais difíceis de se sair.
Sua expressão se encheu de raiva. Muita.
— Por que é mais fácil brincar comigo?! — Ágatha parecia querer chorar. — Brincar com uma garota gorda, e frágil, que não tem ninguém?! Que... Se sente um lixo?!
Era uma palavra forte. Queria poder tocar nela. Ao menos um abraço.
Ela não era gorda. Era até magra demais em comparação as outras garotas de sua idade.
— Eu não me importo com peso, sabe. Antigamente, eu tinha uma queda pela Sharon Rooney.
Seus olhos finalmente se encontraram com os meus.
— Está brincando.
— Não! — Sorri. Estava falando a verdade. — Eu assisti My Mad Fat Diary duas vezes!
— Eu não passei da primeira...
— Por quê?! É uma das minhas séries preferidas. Uma das únicas que eu assisti na verdade...
— Porque ela se parecia demais comigo. — Ela não estava sorrindo. — Demais. Me senti frustrada porque, mesmo sendo como eu sou, ela tinha muito mais do que eu poderia ter. Tinha... Amigos... Um namorado... Pessoas que... Se importavam com ela. E eu, às vezes nem saio de casa, porque não importando o que eu vista, ou o quanto tente, nunca consigo parar de sentir que estou horrível. Que sou horrível.
Abri às mãos, levando uma delas a seu rosto.
— Não... — ela pediu de novo. — Meu corpo não é algo tão... Tão...
Deixei que minha mão vaga-se para sua orelha, com minha boca próxima do seu ouvido. A outra subia por seu braço, devagar.
— Ágatha, o que eu tenho que te falar para acreditar em mim quando digo que você me deixa excitado? — Eu estava me controlando. Queria beijá-la. Seu perfume entrava pelas minhas narinas. Nem mesmo percebi que uma de minhas mãos já estava em sua cintura. — Que cada coisa que faz me parece uma provocação? Eu me controlo. Muito.
— Eu não sou nada. — Apesar de sorrir, seus olhos estavam cheios de lágrimas. Meus dedos se entrelaçaram em seus cabelos, com meu nariz encostado no seu. O marrom de meu olho se perdia nas suas pupilas azuis. — Will, eu não quero que se afunde comigo. Não quando você tem uma opção melhor. Alguém que vai ser muito melhor que eu. Porque eu... Nem mesmo me amo.
— Mas eu sim.
Ela pareceu de súbito se arrepiar com as palavras que soltei. Seu pescoço pareceu ficar menos tenso, aceitando o carinho que eu fazia. Seus olhos por um segundo ficaram com uma coloração mais forte, enquanto seu peito se movia de forma mais contínua, até que ela mesma me beijou. Suas mãos começaram a subir por baixo da minha camisa, enquanto eu deixava um dos meus braços em volta de sua cintura, como forma de deixá-la próxima de mim. Sua respiração estava rápida. A excitação evidente em seus dedos, que passeavam pelo meu tronco. Sua língua parecia de forma absurda querer buscar à minha, não a deixando livre. Me senti impressionado quando ela me encostou no armário. Eu pessoalmente estava adorando o seu segundo de loucura. A libertação de sua hesitação.
— Eu sou tóxica, Will — ela disse. — Provavelmente vou estragar toda à sua vida.
— Acho que vai estragar mais se sair dela.
Era a verdade. A maior verdade que Will Belmarques disse em toda a sua vida.
Da última vez fui eu quem marcou seu pescoço, mas dessa vez, Ágatha pressionou seus lábios com tanta força contra meu pescoço que senti um leve arder no local.
Meu celular vibrou. Provavelmente Arraiá dizendo que se demorássemos demais seríamos pegos no flagra. Ela se afastou. O rosto ficou vermelho de súbito, como se só agora tivesse tido conhecimento de tudo o que tinha feito.
— Eu não deveria ter feito isso... — ela disse, antes de começar a andar de volta para o clube.
— Faça sempre que quiser! — Gritei. Ela não virou para me olhar de volta. — Porra...!
Me sentia feliz. Não sabia se aquilo tinha sido um bom sinal. Talvez... Aquilo pudesse dar certo? Talvez...?!!! Will Belmarques se sentia feliz. Mais animado do que nunca. Com certeza não haveria sequer forças para socar alguém no jogo.
Sorri. De novo. E de novo. Estava começando a acreditar que eu era um idiota por completo. Mas ao menos, um idiota feliz.
◆◈◆
Suor escorria, e a saliva se acumulava em nossas bocas. Dois tempos já haviam ido embora, com o placar quase não se movimentando. Na arquibancada, toda minha família estava presente. Até mesmo a namorada de Igor estava ali. A única pessoa que eu não encontrava, era Ágatha, que odiava multidões mais do que odiava ser tocada.
— Eu não acredito que está empatado. Não acredito nisso! — Avancei em direção à Igor, colocando logo uma mão em cima de seu ombro.
Eu sabia o quanto ele já estava ficando estressado, já estávamos no último tempo com o placar de 1 a 1, e para completar tinha olheiros olhando para os dois times; o que se saísse bem hoje, teria um ponto com eles. E era justamente isso que Igor queria. Queria uma chance. De ser alguém na vida e trabalhar principalmente com o que gosta. O jogo de hoje, basicamente os vinte minutos que se seguiriam adiante, demarcaria isso.
Seus olhos encontraram os meus, para depois ir de encontro à minha mão, voltando-se rapidamente para mim com olhos inexpressíveis. Igor era assim, cheio de momentos; o que mais predominava era o seu jeito raivoso, impulsivo e bom de briga. Mas em alguns momentos, como esse, ele só precisava de alguém que estivesse ao seu lado, lhe dando algum tipo de apoio, para caso ele cair, poder se segurar em alguém... para que assim, quando ele voltar, tendo se reerguido das suas próprias forças, seu lado ardiloso conseguindo se sobressair.
— Garotos — Arraiá nos chamou com a mão, comigo e Igor voltando para mais perto do grupo. — Sei que agora é o tudo ou nada e que vocês estão apreensivos, mas é o que eu sempre digo, dêem o seu melhor. Eu acredito em vocês — e como se soubesse exatamente quantos segundos faltavam antes do tempo acabar, a sua última frase, dita na hora certa, foi o que nos deu encorajamento para continuarmos. O último tempo.
O que seria decisivo.
Seguimos em direção a pista de gelo, e, quando nos posicionamos, o árbitro mais parecia se movimentar em câmera lenta; seus passos meticulosos, o olhar que enviava a cada time, além de em suas mãos a coisa mais preciosa, para nós, parecer estar sendo arremessada como se ele tivesse medo de jogá-la e com o impacto que ela desse no chão, quebrasse.
Esse era o jeito de como eu via as coisas.
Tudo muito silencioso, devagar... e só a espera de alguém conseguir tocar (e principalmente) pegar e tomar o disco para si, assim que o mesmo caísse no chão.
E alguém o pegou.
Comecei a correr atrás de Igor, tentando lhe dar cobertura de alguma forma, e enquanto eu deslizava sobre o gelo freneticamente, via sempre Jeff ao meu lado, como se além de prestar atenção em mim e em Igor, bolasse estratégias em sua mente; isso eu percebi bem, pois ao virar minha cabeça um pouco para trás, a pedido do mesmo, constatei de cara que um adversário estava bem próximo de mim.
Diferente do time que enfrentamos no jogo passado, estes sabiam marcar pontos, além de terem ótimas estratégias; por isso o empate, por isso o ainda 1 a 1...
Os dois eram bons, e nem um queria ceder.
Igor, vendo que a única maneira de ainda ficarmos com o disco no nosso lado seria jogá-lo para Jeff, assim o fez. E que com previsão, o mesmo começou a correr rapidamente, logo se encontrando no meio do caminho com Felipe, passando assim o disco mais uma vez. Como esse não estava nos seus melhores dias, imediatamente o disco foi tirado de suas mãos por um adversário; este que chegou bem de mansinho perto de nós sem que percebêssemos, nem mesmo Jeff. Finley foi quem o seguiu, estava determinado a arrancar o disco dele; o disco que antes era nosso, o disco que do nosso lado faria toda a diferença, o disco que entrando na trave deixaria Igor bastante feliz. Finley era assim, um bom rapaz; mesmo Igor no dia do treinamento tendo dado duro com ele, Finley de alguma forma queria retribuí-lo; por ter deixado o entrar no time. Mesmo o mérito sendo todinho dele.
Mas, penso eu, que isso seja apenas uma forma de agradecimento — pelo pouco tempo que ele passou com os meus amigos — tendo que ir embora logo depois.
Com os vários treinos que tivemos, ele agora era bom correndo sobre o gelo, porém ainda não era como Noah; forte o bastante para empurrar alguém, deixando o mesmo no chão como se nada tivesse acontecido (esse que estava sentado no banco, por ter tomado uma penalidade, de cinco minutos, com Finley preenchendo o seu lugar).
O nosso oponente não teria como tentar fazer o próximo gol, porque primeiro, Victor já o esperava, e pela raiva que víamos em seus olhos — ele se odiava quando uma bola entrava na trave. Ele era conhecido como muro, e gostava de honrar seu apelido — ele estava mais que determinado a barrar aquele disco e a jogá-lo longe. E em segundo, todos nós do time corríamos atrás dele, como se fosse para dizê-lo que isso que ele estava pretendendo fazer, não era uma boa ideia; dele ainda tentar investir, nesse possível gol, sozinho, porque era exatamente como ele estava... seus companheiros, não estavam vindo atrás da gente, e se viam, não estávamos prestando atenção, pois o nosso foco era só nele... Os outros que se danem.
Vendo que não tinha escapatória ou com um segundo de medo se instalando em si, ele apenas arremessou o disco, a longa distância, fazendo assim Victor facilmente conseguir pegá-lo, já que seu lance não havia sido tão bom assim. Foi o tempo agora do Noah voltar para pista, e do Finley sair dela. O relógio marcava menos de dez minutos, e nem um time ainda havia feito o gol. Nosso suor já se reproduzia em nossa pele; não pelo fato de estarmos cansados fisicamente, mas sim pois não tínhamos mais estratégias para bolar.
Cada um de nós conseguia sentir a tensão do outro.
O tempo se escorria. Ele não estava para brincadeiras.
Tínhamos que tomar uma decisão. E quem a tomou foi Felipe, que sem dar tempo do nosso adversário pegar no disco (que havia sido jogado novamente), o puxou rapidamente para si, correndo tão velozmente que até eu mesmo me perguntava de onde ele havia tirado forças, pois três partidas de vinte minutos não é brincadeira, ainda mais em cima de patins. Logo o seguimos, como forma de o proteger dos outros, que agora especialmente pareciam ser outras pessoas, como se até minutos atrás não tivesse tido medo e deixado o companheiro deles sozinho. Eles estavam ágeis e seguros, e quando Felipe viu que se tentasse não conseguiria, e como forma de não querer arriscar a perder tudo, passou o disco para Igor, este que por sua vez, com o disco em suas mãos, sentia que agora iria dar certo, o desempate seria nosso.
E realmente foi.
Mas não foi ele quem desempatou, e sim eu.
Quando já estávamos bem próximo, com Igor ao meu lado, e os outros mais atrás cuidando dos adversários, vi como se fosse até mesmo em menos de um segundo, Igor piscar para mim; isso quase nunca acontecia, mas quando acontecia era dizendo que ele queria que fosse eu quem marcasse o gol, que basicamente estava me agradecendo por algo.
"Seria o apoio que eu dei a ele antes de começarmos esse tempo?"
Não tive tempo para pensar a respeito, pois quando dei por mim o disco já estava em minhas mãos, e Igor era quem me protegia. Ele quis, por esse momento, inverter as nossas posições. Não reclamei. Não deveria perder tempo com isso. O tempo, por sua vez, estava nos vigiando e se déssemos algum deslize, pagaríamos um preço.
E eu não queria pagar nenhum preço.
Aliás, nem mesmo queria perder mais tempo.
E assim eu joguei; joguei com toda a confiança que tinha em mim, com toda a confiança que Igor havia posto em mim, e além de tudo com toda a confiança que o meu time me dava.
E nós... vencemos.
O disco havia entrado, comigo logo ouvindo a plateia aplaudindo ao grande desempate.
Rapidamente senti braços me agarrem, e eu sabia que eram meus amigos que faziam isso.
Ao longe, depois deles me soltarem um pouco mais, vi Alana. Ela tinha descido os degraus, estando com um sorriso estendido de orelha a orelha. Avisei a Igor, e assim ele foi o primeiro a me soltar, para encontrar sua garota.
Ainda festejávamos quando ouvi Victor pronunciar o nome de Emília.
Corri os olhos por toda a extensão, até finalmente achá-la. Sorri. E a mesma me retribuiu com um sorriso singelo. Ficamos alguns segundos assim, ao longe, encarando um ao outro, até um de meus amigos, mais precisamente dizendo, Noah, começar a arrastar até sua direção. Os braços dela gentilmente se levantaram; eu mais que aceitei seu abraço. Estava feliz, meu time havia passado, agora nada mais importava.
Mas o pior é que importava.
O que viria a seguir me importava, e muito.
Um pouco antes de Emília se afastar de mim, a lembrei com o olhar que ela estava próxima dos meus amigos, eles sabiam que namorávamos, então, apenas mantive minha mão em sua cintura — assim como Igor mantinha em Alana — para manter o disfarce.
Só que esse disfarce fodeu com tudo, pois ele entrou pela culatra.
E tudo por causa de Igor.
— Gente, atenção, um minuto de silêncio para o casal. — Todos se viraram para nós, dando total atenção. — Eles vão se beijar. Afinal, ganhamos. Vocês têm que comemorar de alguma forma, certo? — E novamente sua piscada de olho estava lá, mas essa não era nada amigável em comparação a outra, essa era maliciosa. Cheia de intenções.
Filho da puta. Eu o ajudei, e é assim que ele me agradece?
Instintivamente me virei para Emília, buscando seus olhos.
— Você não precisa fazer isso... — sussurrei. Eu na verdade queria muito que ela não fizesse. Não sabia se Ágatha estava ali, mas não queria arriscar.
— O pior, é que preciso — ela sussurrou de volta.
Já se faziam meses que namorávamos, e ninguém tinha visto um beijo. Ou sequer um selinho. E naquele momento, meus amigos estavam lá, todos olhando para nós, até mesmo Victor e Jeff que sabiam que meu lance com Emília era mentira, estavam querendo ver se iríamos mesmo fazer aquilo ou não. Com todos os outros eu poderia enrolar, inventar uma desculpa qualquer. Menos com ele.
Menos com Igor.
O causador de toda essa merda.
Em seu sorriso, parecia vir a certeza de que eu não faria aquilo. Que Will Belmarques, e Emilia de Azevedo, não iriam tomar nenhuma iniciativa.
Como Emília estava bem perto de mim, seu braço passou a se fechar em volta do meu pescoço. Talvez ela não tivesse notado quando meus olhos se arregalaram, mas eu pude notar pelo seu respirar o quanto ela estava apreensiva. Antes dela encostar seus lábios no meu, um sorriso escapou de sua face — que dizia que tudo ficaria bem. De relance, fechei meus olhos. Só que os lábios macios de Emília eram bem normais. Não eram os de Ágatha. O que fez com que eu não avançasse com mais nada. Mas Emília, sim. Senti quando uma de suas mãos subiram até os meus cabelos na base do pescoço.
Tempo suficiente. Já tinha dado tempo suficiente, para que eles pudessem ver algo; o que realmente queriam ver.
E só quando afastei Emília aos poucos, notei uma pessoa na arquibancada — em nenhum momento do jogo eu a havia visto ali, mas claro que eu podia imaginar que ela estava ali, olhando todos os meus movimentos, principalmente esse —, com olhos em alerta para a cena que estava vendo bem diante de seus olhos: Ágatha.
De súbito, meu coração balançou, travando na terceira batida, pulando diretamente para a quinta.
Emília de Azevedo ainda sorria. Um sorriso que se fechou aos poucos, ao ver meu olhar em outra pessoa, na arquibancada. Meus olhos dilataram, quando viram Ágatha tentar abrir passagem por entre a multidão, indo direto para a saída. Foram 3 segundos. No mínimo 3 segundos, mantendo contato com Taeseon Yang. Três segundos, que para aquele que entendia de humanos mais do que qualquer outro tipo de seres, foi uma súplica.
Eu queria ir atrás dela, mas meus obstáculos eram muitos. A primeira camada da roupa, os patins, e todos os lances de escadas que eu teria que subir. Ele, somente guardou o caderno dentro do bolso, pulando pelos bancos, conseguindo abrir a porta pouco tempo depois dela sair.
Passei a mão pelos cabelos, os dividindo. Emília olhava para a porta, e dela, para mim. Parecia não entender minha frustração.
Não era o planejado. Jeff tinha me dito. Um aviso que não fazia nem mesmo três dias. Minha preocupação, não era de Ágatha me rejeitar no outro dia. Era dela não ter outro dia. Era de Ágatha cometer uma loucura. Por minha causa. Porque se isso acontecesse...
Eu desistiria de tudo, e voltaria a ser dos VLV.
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