20 = (a)Prova(do)

Me levantei da cama, e seguindo em direção ao banheiro para poder me acordar melhor vejo Finley na cozinha, com uma xícara de café em mãos, que ao me ver, a leva para os lábios.

Cara, você não dorme? — Lhe perguntei, quando parei de andar, encostando minha mão no batente da cozinha. — Estávamos em uma festa ontem, e não sei como acordou tão bem disposto mesmo de ressaca.

— Eu não estou de ressaca. — Sua xícara foi depositada em sua mão, com ele assoprando o líquido. — Eu não posso beber.

— Por que é tão certinho? — Enquanto eu falava ele mastigava um pedaço de bolo, por isso eu sabia muito bem que ele não iria me responder. — Eu vou ir tomar banho. De tarde ainda tem o teste...

Suspirei, forçando o espaço entre meus olhos.

— Não sei porque esse mau humor. Foi você quem escolheu o horário.

Concordei. Tinha sido eu quem escolheu a data e o horário. Queria resolver aquilo o mais rápido possível.

Quando cheguei da escola ele já estava pronto, e me esperava enquanto assistia um filme.

— Só vou trocar de roupa — disse, me apressando para chegar no quarto.

Fui de encontro a cômoda, aonde retirei uma bermuda e uma camiseta laranja. Me troquei. Peguei os patins, o disco, o taco e o capacete.

Quando passei pela porta, pronunciei:

— Tudo pronto. Vamos.

— Mas já não era sem tempo — comentou.

◆◈◆

Descemos do ônibus, e ao caminharmos mais para perto, lhe apresentei ao lugar.

— Finley, conheça o lugar onde nós treinamos — acabei dando minhas coisas para ele segurar, do qual assim que pegou, logo abri meus braços, como se fingisse conseguir abraçar esse espaço.

Finley soltou uma risada.

— Deve ser magnifico por dentro — me voltei para ele, seus olhos estavam brilhando, e parecia que não havia mais traços de nervosismo nele.

Bom, mas isso é o que ainda vamos ver.

— Ah sim, você vai ver. Vamos. — Abri à porta, e guiei o mesmo até à pista de gelo.

Já havia ensinado a ele como deveria defender o disco com à sua própria vida, além de como saber arremessá-lo, e ele até se saiu muito bem, driblando sempre quando eu corria atrás dele, como se fosse algum tipo de adversário que quisesse muito pegar aquele disco de suas mãos, e tomá-lo para mim.

No primeiro dia ele estava todo rígido, não conseguia nem ao menos se movimentar, dava para ver que ele tinha medo de tropeçar e cair, o que fazia com que ele balançasse sua cabeça para os lados, como se dissesse que não dava para fazer isso.

"Finley, eu sei que essa é à sua primeira vez. Eu entendo, juro que entendo. Mas ao menos se esforce, nem que seja para cair", foi o que disse para tranquilizá-lo.

Porém, Finley sabia o que fazia, a cada toque e deslizamento que ele fazia dava para ver que ele bolava estratégias em sua mente. Por diversas vezes ele passou por mim, comigo nem ao menos conseguindo encostar meu taco no disco. Eu não deslizava no gelo de maneira rápida, seguia o seu ritmo, eu não estava ali para ser um adversário, estava mais ali para lhe mostrar como fazer, como aumentar seu ritmo, fincar o patins no gelo, estava lá mais como um treinador, dizendo o que ele deveria fazer, como deveria fazer, e o que ele não poderia fazer. Só que tinha vezes que não precisava dizer uma palavra, e era nessas vezes que eu me surpreendia com Finley, mais ainda do que já era.

Ele poderia até mesmo ter me dito que nunca praticou esse esporte, eu até pude comprovar com os meus próprios olhos o medo que ele teve em relação ao patins, mas agora, eu diria que Finley nasceu para isso. É como se ele fosse aquelas pessoas que nunca sequer viram aquilo, mas que só em acompanhar conseguem fazer rapidamente. Como se estivesse no sangue. Só precisava ser despertado.

Era como se ele fosse uma simples pétala, que havia se transformado numa grandiosa rosa, que a cada movimento que fazia conseguia se abrir mais e mais.

Nunca irei comentar a ele, que o comparei com uma rosa. Aposto que isso seria pedir para morrer.

Com o soar do abrir da porta instantaneamente levantamos nossas cabeças em direção a arquibancada, onde vimos cinco garotos entrarem.

Finley olhou rapidamente para mim, pude ver em seu olhar que ele começava a ficar nervoso. Era de se entender.

— Acho que não preciso apresentá-los, afinal você os conheceu na festa.

— Sim — Finley respondeu fraco.

Igor o encarava, não sabia ao certo se era para lhe intimidar ou se era para tentar ver a mesma coisa que eu vi em Finley: seu potencial. Por fim, ele disse algo:

— Então, vamos treinar?

— Vamos — Finley disse, concordando com a cabeça.

Marcamos nossas posições, e antes de começarmos mesmo, me aproximei de Finley, e sussurrei para que só ele ouvisse:

— Não precisa ter medo. Igor só quer saber do que você é capaz.

— Não estou com medo. Não dele — comentou, olhando por cima do meu ombro.

Me afastei, para ir ao meu lugar, e Arraiá que havia aparecido para ver como Finley se sairia jogando com todo mundo, assoprou o apito, liberando nossa jogada.

Nos dividimos em duas equipes, três pessoas em cada. Finley que me desculpe, mas o dia se aproximava, e se estávamos treinando tínhamos que botar pra quebrar, até porque eu sabia que nenhum dos garotos iriam colocar moleza para ele, e até eu mesmo sabia que ele não queria isso.

Noah foi o primeiro que conseguiu pegar o disco para si, e com uma impressionante corrida conseguiu chegar até perto da trave, porém eu intervi, conseguindo pegar o disco para mim na hora em que ele iria jogá-lo. Rapidamente passei o disco para Jeff, o qual deslizando rapidamente pelo gelo; quando já estava na metade do caminho ele mandou para Finley, que foi surpreendido por Igor que puxou o disco para si, sorrindo.

E esse foi o seu primeiro gol do dia. Dele e da sua equipe: Noah e Felipe.

No segundo round percebi que Finley já estava cansado de estar em cima dos patins. Realmente isso leva tempo. Bastante tempo. Lembro-me do meu primeiro treino: eu não consegui ficar com os patins por mais de uma hora.

Me aproximei perto dele, deixando que os outros treinassem entre si, e disse:

— Se você quiser parar, pode parar. Sem problemas.

— Ah não, não precisa. — Balançou sua cabeça, como se negasse tal coisa que falei. — Isso só é novo para mim. Tenho só que me acostumar que dar certo, você vai ver. Não se preocupe comigo — tocou em meu ombro, rapidamente, mas logo começou a correr. Fiz o mesmo.

O final do segundo round resultou em um empate, 2 à 2, eu e Jeff, havíamos feito, cada um, um gol. Agora só tinha o terceiro round para desempatar.

Felipe começou a correr com o disco, desviando sempre que conseguia de mim, mas Jeff, em uma de suas manobras conseguiu pegar o disco, e só correu um pouco com ele, logo passando para Finley. Dava para ver que Jeff não estava dando nem 80% do que ele sempre dá em todos os jogos, eu percebia nas passagens de disco que ele dava para Finley, que meu amigo não estava desistindo do nosso "quase" novo integrante; Finley poderia não pegar o disco; poderia ter o disco roubado, ou pior, seu gol poderia bater na trave; poderia acontecer n coisas, mas dava para ver que Jeff não estava desistindo dele, mas sim investindo. E ele investiu tanto que conseguiu.

Faltava apenas um minuto para o treino terminar, e Jeff havia acabado de passar, mais uma vez, o disco para Finley, que dessa vez rapidamente o pegou, não o deixou escapar como da vez passada, e com isso ele começou a correr, ou pelo menos como podia, com Igor já bem atrás dele. Ele fez isso o jogo inteiro, como se só jogasse com Finley, como se as outras pessoas ao seu redor fossem somente apoiadores. Eles agora estavam lado a lado, e Igor tentava tirar o disco dele de todas as maneiras antes que chegasse à trave. Só que Finley foi mais rápido e esperto. Antes mesmo de chegar na trave, mas com uma distância considerável, ele jogou o disco, com força, e depois que fez isso se sentou no chão, começando a tirar o patins de seus pés.

Todos ficamos em silêncio, tanto pela sua jogada, como pelo que ele fez depois. Além de seus pés não aguentarem mais, Igor estava muito em cima dele, então a única coisa que ele conseguiu fazer foi isso: jogar antes do tempo.

Me aproximei dele quando já retirava o segundo patins, perguntei se estava tudo bem, e para lhe dizer que sua partida foi excepcional. Só que eu não cheguei a fazer nada disso, pois quando já estava abrindo a boca Igor começou a correr e a gritar: "Isso! Isso!", "Eu não acredito!". E ajudando Finley a se levantar pude comprovar com meus próprios olhos porque ele estava tão feliz: o disco que Finley havia jogado, talvez sem a mínima intenção de acertar tinha entrado na trave, passando por Igor, e até mesmo por Victor.

Imediatamente todos se aproximaram de nós, com Igor tomando à frente para falar.

— Me desculpe por qualquer coisa, Finley, mas eu só queria testar suas habilidades, ver do que você era capaz. E cara, você está mais do que dentro — colocou sua mão para frente de seu corpo, para que pudesse o cumprimentar. — Vai ser um prazer ter você no time. No nosso time.

— É... obrigado — disse, pegando em sua mão.

Seguimos em direção à Arraiá, que logo apertou a mão de Finley e perguntou como estava a situação de seus pés, se estavam doendo muito.

Ficamos conversando por algum tempo, até que nossa conversa foi interrompida pelo toque do celular de Igor, que rapidamente o sacou do bolso e sorriu ao ler uma mensagem.

— Minha gente, vou ter que ir nessa. Minha namorada me chama — comentou, guardando seu celular novamente no bolso.

Antes que o mesmo se retirasse, pois já havia se levantado, lhe perguntei:

— Pergunte a ela, como ela ainda aguenta você mesmo depois de todo esse tempo.

— Eu não vou perguntar isso à Alana, queimaria meu filme, e eu realmente não quero saber. Porém tenho uma nítida ideia do porquê ela ainda está comigo.

Um sorriso malicioso apareceu em sua face, e vendo que os olhares que cada um de nós tínhamos dava a entender que havíamos entendido ao que se referia, ele deixou o lugar, satisfeito.

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