03 = (não) Ria de Mim

Quando me levantei, tive a certeza de verificar que a minha mãe ainda estava dormindo. Na noite anterior fizum chá de camomila forte, para conseguir sobrepor o efeito da metanfetamina, conseguindo fazer com que ela dormisse.

Peguei o meu celular, e atendi à uma ligação que estava sendo feita. Era de um número desconhecido para mim, então, esperei que a pessoa do outro lado desse o primeiro sinal de vida.

— Oi. Está atrasado, certo? Seu ônibus não vai passar, porque... ele já passou — sua risadinha me desperta os sentidos. — Quer uma carona?!

Vaguei os olhos pelo ar, e mordi meu lábio inferior antes de perguntar:

— Emília, como você tem o meu número?

— Deveria me perguntar como sei que está sorrindo enquanto fala comigo. — Disse simplesmente, como se isso não fosse nada. Mas para mim, era. Afinal, como ela sabia disso?

Olhei para os lados, e vi Emília vindo na minha direção, descendo a rua rente a calçada.

Ela tocou a sineta da sua bicicleta, e a parou na minha frente.

— Estamos nos encontrando demais. — Comentei com um sorriso de lado, ao mesmo tempo em que guardei meu celular no bolso.

Olhei para a cabine de telefone, que ficava a alguns metros da minha casa. A mesma que ela tinha usado para me ligar.

— Anda, sobe. — Disse ao se levantar da bicicleta, e segurar a mesma só pelo guidão.

— Não vai dirigir? — Perguntei ao achar aquilo muito estranho; primeiro o seu telefonema, agora ela queria que eu dirigisse a sua bicicleta.

— Eu? Não! — Nega com a cabeça. — Sou eu quem está te dando a carona, então, você dirige.

Ergui as mãos, me rendendo, e subi na bicicleta, com ela, se sentando na grade da mesma, atrás de mim.

Senti as suas mãos agarrarem o meu peito, enquanto os... os... Enfim! Enquanto os seus... atributos, se encostavam em mim, sendo pressionados contra minhas costas.

— Não fique excitado. — Me alerta ao se aproximar de mim, falando isso em meu ouvido. — Sei das suas fantasias.

Merda!

— Emília, você está sabendo coisas demais sobre mim. Iremos conversar sobre isso depois. Agora, estamos atrasados. — Completei por fim, não querendo mais pensar sobre isso. Já tinha problemas demais, e não queria ter que adicionar mais um.

Ela por sua vez, não tirou seus braços da minha cintura; continuou com eles ali, enquanto seu rosto estava deitado nas minhas costas.

Era tudo muito estranho. Muito mesmo. E eu sabia disso.

Quando chegamos, estávamos em cima da hora, então, enquanto Emília guardava sua bicicleta, eu ia para a sala. Nos misturamos no meio dos alunos que chegavam, e nos sentamos nos mesmos lugares de antes.

Eae, Will, amigão! — Cobalskin estendeu a sua mão a mim, e eu a apertei, fazendo um toque depois com os meus amigos. — Madrugou, foi?

— Madruguei nada. Fiquei acordado até tarde, tendo que redigir o manuscrito da minha mãe, para avançar o trabalho dela. — Resumi a eles o que se passou na minha madrugada.

— Ela já terminou o livro? — Pergunta.

— Terminou nada, rapaz. Fiquei acordado até uma da manhã completando uma cena hot. Ela é inexplicavelmente ruim, quando só precisa dizer o que aconteceu entre eles. Parecem até dois robôs se acasalando. — Revirei os olhos ao me lembrar de tudo o que tive que ler e ajeitar, me decepcionando com algumas partes que ela havia escrito.

Cobalskin riu, com a sua risada pausada e escandalosa, com agudinhos despontando.

— "Você me imprensou junto a parede e começou a tomar a minha boca em seus lábios, agarrando a minha cintura". — Disse de forma poética, assim como minha mãe tinha escrito, querendo relatar a eles o tipo de coisa que ela escrevia.

— E como você descreveu? — Igor colocou a cadeira entre nós dois, e os outros três vieram com ele também.

— Pro que eu mudei? — Sorri de forma maliciosa, e ri um pouco, com os mesmos já sacando o que veria a seguir. — "Você me imprensou contra a parede, descendo as suas mãos pelo o meu corpo, começando a tirar à minha roupa, cheio de desejo. A sua língua se enroscava na minha, enquanto sentia o seu pau endurecer contra a minha pele".

Eles riram.

— Falem mais baixo! — A professora nos advertiu.

Concordamos.

— Não sei como a mulher tem vergonha de falar isso. Se tá duro, tá duro. Pronto! Descreve logo! Meus Deus! — Exclamei. — Mas não, prefere ficar duas horas quebrando a cabeça, para escrever um negócio simples desse!

— Ela não deve ser mente suja que nem você, Will.

Olhei para o lado, vendo que quem havia dito isso era Emília, que me empurrou para o lado, se sentando na mesma cadeira que eu.

Que audaciosa.

— Eu só sou sincero. — Tento me defender. — De safadeza todo mundo entende, só não admite.

Todos novamente riram, e dessa vez, a professora largou o livro em cima da mesa, e com a mão na cintura, olhou para todos nós.

— Mal começa o ano, e vocês já começam, né? — Ela suspirou, e nós, agora estávamos quietos. — Pior que agora estão levando até o Cobalskin e a Emília.

— Cobalskin sempre foi nosso parceiro — Igor falou. — E a Emília... ela... bom... Não sei.

Toda a sala riu, e eu, olhei para ela, que devolveu o olhar.

— Preciso socializar com os amigos do meu namorado também. — Um sorriso debochado rapidamente se formou entre os seus lábios.

Espera. Para. Pausa a música, e volta para o início, e depois, rebobina novamente.

Todos fizeram "o quê?" ou "Isso é sério?".

Emília piscou para mim, e tornou seu sorriso mais ameno.

— Espera, espera! — Igor pediu, franzindo suas sobrancelhas, não acreditando naquilo. — Você começou a namorar com ela? — Aponta de mim para ela, diversas vezes, como se assim fosse cair a ficha.

Olhei novamente para Emília, e essa sorriu, concordando.

Me inclinei na direção de Igor, e sussurrei:

Eu avisei, professor Xavier.

Todos os meus amigos estavam surpresos. Um dia depois da aposta e, lá estava eu: namorando a garota mais difícil da escola.

— Não me esperem para o intervalo. — Disse, enquanto passava meus braços pelos ombros de Emília. Me aproximei de seu ouvido, fingindo que a daria um beijo, e pronunciei as seguintes palavras sem que ninguém nos ouvisse: — Vai me explicar que porra está acontecendo.

Me afastei dela e sorri, de forma irônica, e ela, concordou, pegando um dos meus fones para escutar uma música.

— Só escuta música dos Beatles?

— Geralmente sim, quando não, eu escuto rock, mas... tenho outras. — Abri o aplicativo de música, e vasculhei algo que estivesse a fim de escutar.

Coloquei Treasure do Bruno Mars, e ela, começou a balançar no ritmo da música, nem se importando com o que as pessoas que estavam ao nosso redor, diriam.

— O que a letra diz? — Ela perguntou, parando um pouco de se mexer só para me escutar.

— Resumidamente: Que a garota é o tesouro dele, e que ele quer cuidar dela.

Ela concordou e sorriu.

— Aí que lindo! — Um dos meus amigos exclamou. — Tão apaixonados! — Dois deles fizeram cara de bobos, como para imitar a mim e Emília. E eu só pude revirar os olhos diante dessa cena.

Igor se levantou, levando a cadeira de volta ao seu lugar.

— Fica triste não, Igor! — Exclamei. — Você ainda consegue!

— Vai tomar no seu... — ele iria terminar a frase, mas se controlou pela professora estar o olhando.

Igor passou o resto das aulas furioso, não falando com ninguém. Quando o sinal bateu, ele se levantou, e saiu, nem mesmo esperando pelos outros.

— Mas tá bravo, hein? — Perguntei, quando ele já estava saindo, mas o mesmo nem me deu bola.

Os outros deram uma breve olhada em nós, antes de saírem.

Me levantei, com Emília fazendo o mesmo. Acabamos nos encostando em carteiras completamente opostas. Eu, na da janela, e ela, na carteira encostada a parede. Estávamos sérios, e quando a última pessoa saiu, olhamos um para o outro.

— Que porra está acontecendo? — Lhe fiz aquela mesma pergunta.

— Estamos namorando. — Disse o que parecia o óbvio, pelo menos para ela.

— E como soube da aposta? — Cruzei os braços.

— Ah Will, você acha que eu sou trouxa? — Vi um sorriso se alargar em sua face. — Acha que conseguiria se aproximar de mim, sem me fazer desconfiar? — Concordei. Fazia sentido. — Eu sei de tudo. — Completou. — Sei da aposta, sei sobre sua mãe, sei sobre... as coisas indecentes que já disse... — Listava cada uma dessas coisas com os seus dedos.

Levei o olhar novamente a ela.

— Eita porra, descobriu meu Twitter? — Brinquei por um segundo, voltando novamente a ficar sério. — Como sabe dessas coisas? Está sabendo demais... — Falei o que sempre venho dizendo a ela desde hoje de manhã.

Emília... sabendo... demais...

— Digamos que... eu tenha informantes — ela novamente sorriu. — E por isso, vou saber se falar mal de mim, ou se começar a sequer demonstrar um traço de estar apaixonado por mim.

Porra! Já falei que isso não vai acontecer, relaxa! — Aumentei um pouco o tom, para que ela entendesse que eu estava sério. — Mas, por que quer tanto assim um namorado?

— Não me entenda errado, não preciso de um namorado. — Ela arqueou uma das sobrancelhas, como se debocha-se. — Na verdade, minha mãe quer... que... — Suas palavras se perdem aos poucos.

— O quê? Fala mais alto! — A encorajo.

— Minha mãe quer que eu tenha um amigo! — Disse tudo de uma vez. — Ela... Quer que pelo menos uma vez, eu tente ter um amigo. Não sei como começar a arrumar um, e acho que... Se formos amigos, precisamos nos ajudar.

Concordei, para logo em seguida, rir de forma sarcástica. Toda vez que tentava parar de rir, começava de novo.

— E você? — Ela perguntou, como forma de me fazer parar.

— Eu? — Aponto para mim. — Sou livre, leve, solto e lindo. — Brinquei. — Preciso de uma namorada. Vamos nos ajudar.

— Ajudar...? O que exatamente você tem em mente? — Uma de suas sobrancelhas se arqueia.

— Eu finjo para a sua mãe, e me porto como os personagens principais dos livros da minha mãe, e você, fala bem de mim para as garotas. Ou, para a garota que eu gostar. — Explico.

Vi que seu olhar parecia avaliar a proposta. Diferente da anterior, essa, era mais amigável.

— Tudo bem — concorda com a cabeça. — Mas você vai ter que começar a fazer o seu papel, hoje.

— Hoje? — Perguntei, pois talvez tinha ouvido algo errado.

— Sim. Vamos para um casamento, mas não precisa vestir um terno.

— Não preciso? — Perguntei novamente, e vi ela concordar. — Então vou usar.

Me desencostei da carteira, e saí.

Ela, veio atrás de mim e começou a andar ao meu lado.

Seguimos em direção ao refeitório — agora um pouco deserto, já que a nossa conversa demorou mais do que o previsto — e fomos pegar o que o colégio ofertava como lanche do dia: suco de caixinha, com biscoitos salgados.

Assim que peguei o meu e vi que ela já estava pegando o seu, avisto ao longe, todos os meus amigos sentados em uma mesa, somente com os olhos em duas pessoas nesse refeitório. Nós.

Quando o braço de Emília toca o meu, é que percebo que ela estava parada ao meu lado, só a espera das minhas coordenadas para saber onde iríamos nos sentar.

Eu sabia exatamente para onde ir.

A mesa onde eles estão: todos os meus amigos.

Indico com um aceno de cabeça para a mesa em questão, e logo um sorriso aparece em seu rosto, e é só então, na medida em que avançamos em direção a eles, que percebo o porquê dela estar feliz; de todos seus anos escolares, era a primeira vez que ela iria se sentar numa mesa com várias pessoas ao seu redor, que não lhe eram estranhas.

Não era só mais um dia normal; não era só mais uma refeição normal; nem só ela, a mesa, e a sua comida. A partir daquele dia as coisas mudariam. Para nós dois.

— Olha quem está vindo para cá, acompanhado de sua namorada. — Noah diz assim que cheguei perto deles, e pedi para que se afastassem um pouco mais para caber eu e Emília.

— Uma hora ou outra a minha... namorada se sentaria ao meu lado, não é, meu amor? — Olho para ela, que já estava com o canudo do suco na sua boca, e o chupava com destreza. Ela já parecia estar esperando algum tipo de provocação dessas vindo de mim, mesmo assim, vejo o quanto ela fica corada.

Todos, assim como eu, percebemos o jeito que ela ficou, então rapidamente para mudar o astral, eu sugeri:

— Por que vocês não se apresentam para ela?

Certo que todos nós estudávamos juntos, porém, nenhum de nós sabia coisas sobre Emília, por ela ser muito reservada; ao mesmo tempo, que ela não sabia nada de nenhum de nós. Só que, eu poderia ser tirado dessa lista, pois ela aparentava saber de muito mais coisas sobre mim do que eu gostaria.

Cara, até das minhas fantasias ela sabe.

Isso tem que mudar!

— Eu sou o Noah — Se pronuncia a ela, e assim, eu me despertei.

— Felipe. — O outro garoto ao lado do Noah, diz. Felipe é tão preguiçoso que eu não sei como ele ainda está no time, mas no fundo, eu sei bem o porquê: precisamos dele.

Além de amigos, éramos os únicos membros do time de Hockey. A falta de um, seria a não existência do time.

— Jeff. — Meu outro amigo se levanta um pouco da mesa, para estender sua mão a ela. — O inteligente, mais conhecido como o cabeça do time.

E lá estava ele começando a fazer sua propaganda.

— E também o mais convencido. — Me apressei a dizer.

Todos riem. Porque isso é verdade.

O sinal toca, e com isso nosso intervalo acaba.

◆◈◆

"Onde nos encontraremos?"

Mando essa mensagem para Emília, a espera que ela me responda logo.

Ajeito à roupa em meu corpo; meus cabelos perfeitamente colocados para trás, me dão um certo charme que até eu mesmo desconhecia que tinha. Nunca me vi tão arrumado na minha vida. Era a primeira vez que ia a um casamento, e não queria pagar vexame.

Ao todo, eu tinha 3 tipos de ternos.

Um branco, com a lapela lilás e acinturado, que eu só usei uma vez, para ir a uma festa de aniversário de uma autora chique, que minha mãe gostava — só por curiosidade: elas nunca mais se falaram depois daquele dia. O outro, era um completamente preto, que eu usei no enterro da minha avó. E o último, era o que estava usando.

Azul, com as lapelas finas, e os botões prateados.

Enrolei o fone nos dedos, fazendo um movimento de "8", o guardando no bolso, e aproveitei para pegar meu celular, para mandar uma nova mensagem à Emília.

"Já estou pronto".

Minha coragem para continuar parecendo um mauricinho não era grande, e ela ainda não me respondia. Quando já estava pensando em me deitar um pouco, e tirar um cochilo, meu celular vibra em minhas mãos. No visor, aparece o seu nome.

"Pronto...?"

É... foi isso o que eu disse. O que diabos ela pensou?

"O que você está pensando?"

Me encostei na cômoda, enquanto olhava para a tela. Aparecia que ela estava digitando, e eu era muito curioso.

Ela primeiro mandou uma foto, que eu abri na hora, e vi que era um endereço escrito em um papel de toalha.

A mensagem veio depois.

"Vamos nos encontrar nesse endereço. Já estou saindo de casa."

"E pare de fingir, Will, você sabe muito bem o que eu pensei!"

Não mandei mais nenhuma mensagem para ela, ou me atrasaria, mas li e reli, e não consegui imaginar que tipo de pensamento indecente Emília estava pensando.

Assim que sai do meu quarto e fechei a porta do mesmo, percebi que era melhor avisar aos meus pais sobre isso, já que não sabia que horas iria voltar.

Fui até a sala e procurei pelo bloco de notas, que sempre ficava em cima da mesa de centro, mas que por algum motivo estava no rack, perto da televisão. Anotei que fui para um casamento, acompanhado de uma amiga, mas que vinha assim que terminasse.

Deixei tanto o bloco de notas, assim como o recado, em cima da mesa, para que assim que um dos dois chegassem em casa, pudessem ler.

E assim, sai de casa, para ir me encontrar com a minha "namorada".

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