Pesadelos Vívidos
Scorpius acordou com um barulho novo no dormitório, apesar de nunca acordar com tanta facilidade. Ainda assim, naquela noite específica, estava com o sono leve o suficiente para ouvir passos pelo quarto. Não quis abrir os olhos, achando que poderia ser um dos elfos-domésticos, mas os passos se aproximaram da cama dele e pararam. O que quer que fosse, ainda estava ali.
Relutante, abriu os olhos e uma frestinha das cortinas da cama e reconheceu Lily Potter, parada, olhando para as cortinas cerradas de Albus, por isso decidiu abrir a cortina da própria. Mas foi seu pequeno bocejo o que chamou a atenção de Lily, que se virou para ele um tanto sem graça.
— Como você conseguiu entrar na sala comunal da Sonserina e subir aqui? — sussurrou.
Estava impressionado com a artimanha de Lily para aquele feito, mas ela mostrou o mapa do maroto, fazendo-o sorrir de leve.
— Mesmo assim, como conseguiu a senha? — insistiu em sussurros.
Lily deu de ombros, desanimada, só então Scorpius reparou que os olhos dela estavam vermelhos e cheios de lágrimas. Ele podia ver as marcas dos caminhos que as lágrimas fizeram, e ela o abaixou, segurando um soluço de choro. Scorpius se levantou rápido da cama e a fez erguer o rosto para ele. Além de chorar, Lily tremia bastante, em um esforço para que seus soluços não fizessem barulho.
Ele arregalou os olhos, perturbado. O que fazer naquela situação?
— O que houve, Lily? Vou acordar Albus... — disse baixinho, virando-se para a cama do amigo, mas Lily o segurou pelo braço, impedindo-o de abrir as cortinas da cama de Abus.
Ela negou, com uma expressão de insegurança no rosto, e Scorpius hesitou, franzindo a testa.
— O que houve, então?
Era muito perturbador para Scorpius vê-la daquela forma. Se fosse qualquer outra pessoa que ele conhecesse, ficaria preocupado, mas não com ela. Ah não! Por Lily, ele faria qualquer coisa. Tinha que fazer qualquer coisa. Ela era alegre, animada, e na cabeça de Scorpius, ela nunca podia ficar triste, nunca. Era um tanto quanto não real, não humano, vê-la naquele estado.
Sabia que a maioria da preocupação era porque gostava dela. Não um gostar qualquer, de amigo ou de irmão. Ah não! Era um gostar, gostar. De quem quer ficar o dia inteiro do lado, observando. Aquele gostar que faz o coração bater mais rápido e as mãos transpirarem. Scorpius gostava de Lily daquela forma havia um bom tempo, mas tinha medo da reação de Albus — com um pai como "o-menino-que-sobreviveu", um irmão mais velho esquentadinho e os tios mais loucos que alguém poderia ter, era melhor fingir que não sentia nada a não ser algo fraterno. Por isso não falou para ninguém.
Mas Scorpius também sabia que, no fundo, tinha medo da reação de Lily.
Vê-la ali, indefesa e acuada, fazia subir pelo corpo dele uma vontade imensa de protegê-la, de fazer alguma coisa que a deixasse feliz de novo. Ele tinha que, ao menos, fazê-la parar de chorar.
Lily tentou falar o que tinha acontecido, mas não conseguiu. Scorpius sabia que ela não queria acordar todo o dormitório, por isso olhou para os lados, a procura de algo que os ajudaria a resolver a situação. Então a puxou pela mão, fazendo-a se sentar em sua cama.
Com cuidado e, em movimentos vagarosos, tirou a capa da invisibilidade e o mapa dos marotos das mãos dela, pegou a cumbuca de água, que ficava ao lado da cama e era reposta por magia durante a noite, e serviu um copo para Lily. Ela tentou pegar a água, mas tremia tanto que fez Scorpius tirar o copo de suas mãos e colocá-lo outra vez sobre a mesa-de-cabeceira. Ele suspirou e se sentou na cama, de frente para dela.
Ela tinha a cabeça baixa, olhava as próprias mãos, parecia, para ele, envergonhada. Scorpius puxou as pernas dela para cima da cama e fechou as cortinas para então fazer um feitiço de silêncio com o qual pudessem conversar sem acordarem ninguém.
— Consegue falar agora, Lil's? — perguntou com carinho.
Ela abriu a boca, mas os soluços escaparam, então voltou a chorar. Scorpius olhou para os lados, sem saber o que fazer, sentia-se um inútil.
Lily não fazia escândalo, mas seu choro era abundante. Ele percebeu que ela se encolhia os poucos e não conseguia pensar em nada para ajudá-la de fato. Com toda a calma do mundo, ele se movimentou para o lado dela na cama e passou os braços envolta de seus ombros, puxando-a para perto de si. Quando sentiu que Lily estava em seu colo, começou a se balançar de leve para frente e para trás, ninando-a.
Aquilo era pânico, Scorpius pensou que algo de muito ruim, ou bizarro, havia acontecido com ela. Foi então que se lembrou que Albus, uma vez, há muito tempo, havia dito que Lily sofria com sonhos vívidos, na realidade, eram pesadelos. As crises eram fortes, e ela tinha que tomar poções para dormir.
Ele ficou ainda mais indeciso sobre o que fazer. Sabia que devia levá-la para a Ala Hospitalar, mas sentiu que Lily relaxava em seus braços aos poucos. Olhou para o topo da cabeça dela, curioso e sorriu de lado. Ela se sentia segura. O coração de Scorpius acelerou o suficiente para que o ouvisse — não percebera que estava acelerado antes porque a preocupação era maior —, e ele enfim percebeu que tinha Lily Potter em sua cama, abraçada a ele, acalmando-a.
Após um impulso de coragem, Scorpius beijou o topo da cabeça de Lily e notou que ela parava de chorar até que ficou quieta, com a respiração regular e o corpo mole, tinha adormecido.
— Que situação... — sussurrou.
Não queria soltá-la. Não queria avisar a ninguém que ela estava ali. Ele cuidaria dela aquela noite. Com todo cuidado que podia, Scorpius a deitou embaixo das cobertas, junto a ele, e a puxou para seu peito. Lily se aninhou ali, apoiando a cabeça na altura de Scorpius, que prendeu respiração, com medo de acordá-la. Era, sem dúvidas, a realização de um desejo que ele não imaginava, nem nos mais loucos sonhos, realizar. Enfim, ele fechou os olhos, com um sorriso bobo.
Não se lembrava de sentir aquele tipo de felicidade antes. Scorpius já havia beijado outras garotas, mas o coração dele foi de Lily na primeira vez que conversou com ela. A situação em si era péssima, saber que havia "monstros rondando" os sonhos de Lily o deixava irritado, mas o problema com os sonhos vívidos revelara que ela confiava nele.
Várias perguntas pularam na cabeça de Scorpius. Será que Lily Potter também gostava dele? Será que fazia muito tempo? Por que nunca se declarara? Ele se declararia para ela, logo pela manhã. Teve vontade de acordá-la e fazê-lo naquele momento, mas não teve coragem.
E se a declaração a deixasse sem graça? E se ela não confiasse mais nele? E se ela não gostasse dele da mesma forma que ele gostava dela? Quer dizer, para ela podia ser apenas um gostar de irmão, não podia? Afinal, Lily fora até o dormitório da Sonserina atrás de Albus Potter, seu irmão, não dele, Scorpius, o-melhor-amigo-de-Albus-filho-do-Malfoy.
Mas por que diacho Lily foi atrás de Albus no dormitório da Sonserina e não de Rose Weasley, que estava na mesma casa comunal que ela? Será que Lily não confiava tanto assim na prima? E os outros primos? Tinha Molly também, que além da família, era a melhor amiga de Lily.
Com um longo suspiro, Scorpius balançou a cabeça, eram tantas perguntas que ele estava ficando zonzo. Acima do que sentia por ela, deveriam dar um jeito de acabar com aquele problema primeiro, já que se os pesadelos haviam voltado, era algo muito sério e podia ter acontecido por vários motivos. Ansiedade, inclusive.
Scorpius ficou olhando para os cabelos de Lily, tentando entender o que ela guardava dentro de si, tão fechado e tão protegido, que havia encontrado evasão por meio de pesadelos. Teria que conversar com ela pela manhã e sabia muito bem que Lily não gostaria que descobrissem sobre seus passeios noturnos pelo castelo.
Por fim, ele admirou a coragem de Lily, afinal, andar pelo castelo, durante a madrugada, munida apenas do mapa dos marotos, da varinha e da capa da invisibilidade, em meio a uma crise de pesadelos vívidos, em direção às masmorras era algo louvável. Mas bem, a Lily era da Grifinória.
Enfeitiçou o despertador individual que o pai mandara para ele há alguns dias, para que acordasse cedo e levasse Lily até a sua respectiva sala comunal. Arrumaria um horário e conversaria com ela sobre o que havia acontecido. Mas isso seria no dia seguinte, por enquanto, ele apenas aproveitaria a segurança que Lily Potter sentia em seus braços. Encostou de leve os lábios na testa dela, que por reação, aninhou-se mais a ele.
Scorpius sorriu e, respirando fundo, fechou os olhos para dormir.
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