ROSS - PT.2
༒
Assim que o táxi estacionou, Ross analisou bem o edifício que estava prestes a entrar com cautela, como exigiam seus próprios critérios: refletir sobre uma situação e pensar em qual benefício lhe traria. Quando sai finalmente do automóvel deixando algumas notas com o motorista, puxou a gola do sobretudo vinho de camurça que envolvia boa parte de seu corpo. Os cabelos e barba ruivos estavam bem penteados e os olhos verdes insanos. Não havia bem como resumir...
Estava prestes a fechar o acordo de sua vida.
— Senhor McKamey! É bom revê-lo — o homem gorducho intitulado de diretor da companhia de imóveis o recebe sorridente após ele subir até o último andar do prédio. O visitante em passos lentos, percorre os olhos pelo escritório familiarizado com o cheiro de naftalina e nicotina do espaço. O velho acompanha seus olhares nervoso e sinaliza para que ele se sente em um dos estofados. — Por favor sente-se.
Largando a maleta em um dos assentos, Ross descansa sobre o outro com as pernas cruzadas e finalmente após analisar o cômodo, seus olhos pousam na mesa de centro.
— Espero que isso seja rápido, caro amigo — vira a cabeça para olhá-lo. — Não posso esperar muito tempo.
— Ah, claro — o homem se sentou a frente dele, e virou a primeira página do contrato que jazia sobre a mesa. — Estamos muito satisfeitos pelo senhor ter feito um lance tão grande, não sabíamos que o leilão da Mansão Delory acarretaria tantos fundos.
Ross evita olhar nos olhos daquele homem, era um sujeito ignorante como todos os outros. O que lembrava perfeitamente dos ensinamentos de sua mãe, era que nenhum ser humano sem visão poderia compreender os desejos Deles. Estava ansioso para ter os papéis da casa em mãos, mas não deixava transparecer, afinal, sempre fora dele, ainda que tivesse sido tomado.
O tempo era um grande inimigo quando se tratava das vontades de um homem em específico, e Ross convivia com ele embora tivesse raiva de ver os segundos passarem e o relógio na parede fazer aqueles sons tão irritantes.
— Tic... Tac... — diz tomando aquele conjunto de folhas grampeadas para si. Ali estavam todas as informações que precisava ter antes de tornar oficial a sua compra.
O diretor sorriu em constrangimento pela demora de Ross ao ler os papéis.
— Algum problema, senhor...
As páginas se fecham fazendo um som que corta o ar e faz o homem comum engolir em seco.
— Tudo certo — fala calmamente com um sorriso singelo no rosto, um que ficava assustador quando visto mais de uma vez. Sumiu rapidamente do seu rosto, tendo sido forçado apenas para ser amigável com o idiota desesperado por dinheiro a sua frente. Daria um órgão para poder enforcá-lo até que o seu último suspiro. E o que viria depois? Arrancaria os olhos? Abriria a barriga e se banharia em seu sangue e vísceras? Mutilaria todo o seu corpo e o veria sangrar até morrer sob a luz do sol?
Seja paciente, vítimas ao seu gosto... Logo você as terá.
— Como já deve saber, o local onde fica o imóvel, Canyon Valley, não é muito atrativo para turistas e nem para comerciantes — discursa e Ross dá um sorriso de lado pegando uma caneta do bolso interior do sobretudo. — O senhor pode demolir ou...
A ponta de alumínio da caneta tinteiro entortou ao ser pressionada contra o papel na mesa de vidro. O diretor gorducho acompanhou os movimentos dele e parou de falar ao perceber que nada do que dizia era agradável para Ross, pelo contrário, o deixava furioso apenas em pensar naquela ideia.
— Por que eu demoliria a minha casa? — perguntou de maneira retórica e então se inclina para frente, estende a mão direita para pegar a caneta esferográfica no bolso do paletó do homem, e o mesmo permanece estático enquanto isso. — Confie em mim, diretor — com a caneta nova em mãos, Ross abandona a tinteiro assinando com ela, concluindo o contrato. — As pessoas de quem eu precisar estarão lá quando for a hora.
O homem limpa a garganta e folga o nó da gravata demonstrando mais ainda o quanto estava desconfortável. Agora era ele quem não olhava nos olhos de Ross, sentia os efeitos de estar perante o seu pior pesadelo apenas por fitar aqueles olhos; suava, tremia e tonteava. O que era aquilo? Como um homem comum pode causar essas sensações nas pessoas?
Ah... Mal sabe ele!
Ross estava longe de ser uma pessoa comum, e isso começava com suas origens, sua história, que por enquanto, não seria posta em questão.
Ross McKamey. Finalmente assinado o contrato, para que então o "tic-tac" do relógio na parede parasse enfim de incomodá-lo tanto.
Por que o maior medo?
Há muito tempo ele vinha estudando os princípios do medo, suas raízes, suas razões, o que poderia dar um fim a ele. É possível superar os seus maiores medos, afinal? Ross acreditava que sim, mas não era bem essa a sua intenção ao proporcionar uma interação de terror para seus fãs. Não passava de um desafio, usado como marketing, para promover a inauguração da sua haunted house, mesmo que não precisasse de fato daquilo, considerando o número de seguidores que tinha. Fama. Outro ponto necessário nesse caminho. Algo que não foi difícil de se conseguir, já que a indústria do terror tem lucrado em views e consumo. Em suas pesquisas, Ross percebeu que desde quando era era um jovem garoto até a atualidade, as pessoas têm cada vez mais desafiado seus instintos de sobrevivência ao ataque psicológico. Isso foi o estopim para sua artimanha.
Não importava se eles não quisessem ou tivessem medo demais... No fim, todos aqueles que ousassem olhar nos olhos do proprietário, seriam levados até McKamey Hills.
A casa, bem... Nunca foi uma casa comum, e as pessoas sempre tiveram dificuldade para entender isso.
McKamey Hills não era pra qualquer pessoa que quisesse residir ali, na verdade, fora construída pela sua família há quase duzentos anos atrás, para que nela residisse nada além da sua fonte de poder. Confuso? Ross sabia que sim. Por isso não tentou explicar para as autoridades do Colorado que aquela era a sua casa, apenas a comprou e resolveu fazer uso dela, só para que a essência da família permanecesse viva.
É claro que o desejo de uma pequena vingança não iria ser deixada de lado, muito menos considerando tudo que ele sofreu graças a ignorância dos mortais, no geral, civis.
Embora não seja como se Ross os odiasse, afinal, sem eles também não poderia assistir daquela saleta um grupo de quatro vítimas curiosas sobreviventes da primeira etapa lutarem por suas vidas. A humanidade é compreensível, simplesmente não rejeitam a possibilidade de demonstrar sua força, e ainda que sejam céticos, como aquele garoto esquisito do grupo.
Suspirou e colocou os dois pés cruzados sobre o painel que controlava as câmeras da casa, o cigarro descansava em seus lábios e uma xícara generosa do líquido hemático gelado estava a sua disposição ali perto. Estava bom de mais pra ser verdade.
Mais forte que nunca após receber algumas doses de pavor de cada um deles, era como se sentia. Via perfeitamente nos olhos das vítimas como estavam assustadas e conseguia manter o corpo delas com o mesmo efeito agoniante. Toda a dor, os gritos de agonia, as feridas abertas e o suor frio eram tão prazerosos como relaxar ao ar livre, de forma que apenas ele poderia entender.
O medo se tornava mais e mais belo em sua perspectiva.
Já ansiava pelo momento em que encontraria suas vítimas pessoalmente, para enfim a etapa final fosse concluída.
Os "tic-tacs" dessa vez o deixavam eufórico, e não era pra menos.
Mal estava se segurando naquela cadeira.
— Conta pra gente o que descobriu, e como isso pode tirar a gente daqui com vida — complementa Collin ainda sentindo uma pontada de arrependimento ao crer na possibilidade daquela história ser real.
Todd sentiu que não deveria esperar mais, porém, teve que respirar fundo antes de anunciar com empolgação as suas descobertas. Poderiam ser ideias fúteis, ou simplesmente poderia não dar certo e todos acabariam mortos como o loiro aguado do porão.
Tudo dependeria do que eles creditassem.
— O dono do diário pareceu estar investigando a história da casa, ele fez várias anotações, e até chuto que usava esse caderno apenas para isso — continua conseguindo a atenção de todos eles. — O nome dele é Albert Delory, e ele descobriu algo sobre essa casa que nenhum de nós jamais conseguiria olhando na internet ou em livros. Eu acho que as informações que ele conseguiu sobre a data que a mansão foi construída veio da documentação oficial, que pode ter se perdido no incêndio ou estar com ele.
— Então o incêndio foi real? — Sabine confirma, recordando na mesma hora do momento em que sentiu o cheiro de queimado ao estar confinada na biblioteca com Donnie.
Pobre Donnie...
A criança assente.
— Como eu disse antes, a Mansão Delory foi construída no século XVI, mas não pela família de Albert, e sim, pelos McKamey — sente um calafrio percorrer-lhe a espinha ao mencionar aquilo em voz alta. — Eles foram acusados de bruxaria e ambos morreram queimados, porém, a casa permaneceu, e tudo indica que foi graças ao envolvimento deles com o sobrenatural que tudo aquilo aconteceu com a gente, e com os Delory.
Gaston se remexe desconfortável com a dor que pinica sua perna quebrada. Aquilo parecia demais para ele digerir de uma vez só, imaginou que sua cabeça explodiria a qualquer momento.
E talvez, pela misericórdia de Deus, não no sentido literal.
— Então é casa? Ela faz a gente ver e ouvir tudo aquilo?
— Como isso é possível? — Collin se envolve de repente após escutar tudo aquilo atento. — Quer dizer... Se de fato tudo isso é real, como uma casa pode abrigar esse tipo de entidade?
Sabine passou a roer as unhas nervosa com aquelas deduções.
— Não é "uma entidade", Collin. — A criança insiste com certeza na fala. — Os McKamey consagraram essa casa, era o lar deles e dos seres demoníacos com quem eles mantinham afinidade, se é que posso dizer assim — explica, e então relembra do tempo em que passou estudando o comportamento dos demônios. — Os especialistas em demonologia acreditam que os demônios são atraídos por fortes emoções, sejam elas negativas ou não. Eu acredito, com base nesse diário — bate o objeto contra a mão direita. — que os demônios foram atraídos pelos McKamey até a casa, e agora eles residem aqui, se alimentando dos nossos medos. — Todd faz um pausa, colocando o diário de Albert sobre a escrivaninha próxima. A essa altura todos estavam aflitos ao perceber como aqui fazia sentido, até mesmo a criança, embora tenha convivido com o sobrenatural desde pequeno. — Quanto maior o medo que você tem de algo, mais real a McKamey Hills pode torná-lo.
— Isso explicaria o fato de sumirem depois que matamos eles — Sabine comenta dando crédito a última citação do diário.
Por mais absurda que aquela ideia proveniente do diário podia parecer, não restava dúvidas de que tudo aquilo fazia sentido, considerando a realidade das visões, os sons malignos que saíam das paredes, os ferimentos e mortes causados. Não havia como negar, por mais incrédulos que fossem. Tinha algo errado naquela mansão, não podeira ser um lugar comum. Como a mãe de Collin simplesmente desapareceu após receber estocadas de uma chave de fenda enferrujada? Pior ainda era imaginar qual seria motivo do objeto usado como arma ainda estar ali nas mãos dele, sem ter desaparecido junto com a dona.
Gaston beirava entre a certeza e a confusão, imaginando o que o seu avô diria sobre tudo aquilo. Obviamente estaria sujeito a algumas cintadas apenas por pensar na hipótese de entrar naquela casa a pedido de um psicopata, ele riu com disfarce disso, e torcia para que morresse antes mesmo de se deixar ser assassinado por um branquelo idiota.
Sem crer que um dia sentiria falta da prisão, Sabine fita suas unhas da mão recentemente roídas e pensa em como seria se não tivesse topado aquele plano do advogado Jackson Avery para dar-lhe a sua liberdade. Mas, por outro lado, se sente grata por finalmente superar aquele medo que a atormentava em pesadelos.
— Se Ro... — Collin estala a língua com o erro. — Digo, vocês sabem quem, plantou esse diário para que descobríssemos a história da mansão, deve haver um objetivo.
— Eu acho que ele está nos dando outra opção, ou simplesmente testando nossas capacidades, não tem como saber as coisas que passam na mente desse maluco — Gaston acrescenta sem tirar os olhos do fio de seu machado.
Ambos estavam num impasse, entre a vida e a morte, sem saber qual passo daria para que estivessem mais próximos da saída em vez do purgatório.
— O meu plano... — Todd retoma surpreendendo o trio alheio no cômodo. — É reunir todas as peças de decoração, e depois tentar atrair ele até nós — continua. — Meu instinto diz que elas têm algo a ver com a família de bruxos de cinco séculos atrás.
Foi a vez de Sabine rir com sarcasmo, antes mesmo do dono do hábito pensar em fazê-lo.
— Quer que fiquemos cara a cara com o psicopata?
O menino dá de ombros e cruza os braços.
— Eu já estive cara a cara com ele, e não foi lá grande coisa — diz e Gaston parece se surpreender, o que diverte o garoto.
Collin desencosta da parede de madeira.
— O viu pessoalmente?
A única mulher do grupo mordeu o lábio inferior ao lembrar do homem misterioso que havia lhe indicado a aventura na casa — se é que poderia chamar o estado a beira da morte de aventura. Se xingou mentalmente por esquecer daquilo sendo tão crucial nesse momento, e arriscou deduzir que aquele era Ross McKamey em pessoa. Ele sim teria lhe buscado pessoalmente na detenção quando estava á poucos passos da liberdade depois de quase um ano.
— Pensando bem... Eu também vi. Se for o homem que me buscou na cadeia. — Atraiu o olhar deles, inclusive de Gaston, que pareceu incrivelmente chocado. Sabine só não soube relacionar a qual frase em específico.
— Temos uma criminosa entre nós — falou comprimindo os lábios carnudos em uma admiração forçada.
Todd e Collin se entreolharam com milhares de perguntas se formando em suas cabeças, mas não perpetuam o assunto ao considerar a missão que ambos teriam nesse momento: achar as peças de decoração que faltavam e obter pistas que confirmassem a teoria do mais novo sobre qual seria o maior medo do proprietário. Quando isso acontecesse ambos imaginavam que não teriam mais com o que se preocupar. Porém, antes de tudo, precisavam da segunda etapa de todos completa.
Se o plano de Todd desse certo, logo mais eles estariam frente a frente com o autor do caos.
E mal sabiam eles que não eram os únicos ansiosos por esse encontro.
O corredor estava mais escuro do que quando voltaram do porão. As velas ainda estavam acesas gastando os últimos indícios de combustível para se manterem acesas, enquanto o vento ainda assobiava em seus ouvidos ao entrar pelas frestas das janelas. Por mais que tentassem, nenhum deles seria capaz de se habituar com aquele ambiente, mesmo após horas de estadia. Collin dá a ideia de se separarem em duplas, imaginando que individualmente correriam mais risco de perder suas vidas, e eles fazem isso ainda que relutantes com a ideia. Ele e a criança eram os únicos que já tinham encontrado as peças pedidas, e tinham como objetivo, ajudar os outros a fazerem o mesmo.
Sabine e Collin seguem juntos para os corredores do segundo andar do lado direito, enquanto Todd e Gaston descem até o primeiro para encontrar o bilhete do mais velho — que na sua entrada difícil pelo depósito, não havia encontrado nada do tipo. Ele, por sua vez, estava a tremer de medo, deixando-se levar pela dor lancinante que consumia sua concentração, e sentindo em seu âmago que sua morte já era certa.
"Você vai morrer hoje, Gaston... Você vai morrer hoje." — as paredes diziam em sussurros arrepiando-lhe a raiz dos cabelos.
Quanto mais vulneráveis se sentiam, mais a casa os abraçava, e era ali onde os infinitos demônios e espíritos corrompidos salivavam a procura de um medo secreto que nenhum deles ousou revelar. Ansiavam pelo momento de descoberta e fariam o melhor uso de suas habilidades para tornar aquilo o mais real possível; falavam com eles, sopravam em seus ouvidos minuciosamente, agarravam seus tornozelos e se esgueiravam pelos cantos atrás deles, esperando o momento certo de atacar.
Tudo aquilo tinha um propósito, era o desejo de Ross, e mais ainda de seus amigos do outro lado. O preço da sua alma era caro se unido ao de sua família: mãe, pai e irmão. Estivera aguardando o momento perfeito de se tornar mais poderoso do que antes, de forma que nenhuma chama seria capaz de queimar a sua carne, e espada nenhuma de tirar-lhe sangue. Aquela sim, era a única forma de transcender usando as forças ocultas. Ambição esta que se descoberta, daria a chance á eles de sobreviver, ou simplesmente de morrer, da forma mais dolorosa.
Estavam sendo preparados para o maior medo de suas vidas, que se desenvolveria dentro da mansão. Isso mesmo, Ele. O medo que pode causar sua destruição, ou a sua sobrevivência, mais uma vez.
Ross McKamey, o dono do jogo.
E não há quem o supere.
— Eu matei ele.
A atenção de Collin que antes estava nas vozes estranhas lhe chamando para fora se desvia para a fala repentina de Sabine, que parecia mais que desconcertada enquanto procurava o retrato de Janette pelas prateleiras, agora na parte inferior próxima ao chão. Sem motivo aparente, o cômodo que escolheram averiguar primeiro era lotado delas, cheio de quadros estranhos e livros chamuscados desde o incêndio. Curiosamente em todas as fotos que ainda podia ser vistas haviam pessoas ruivas, um casal, e duas crianças, juntos em algumas e separados em outras.
Ele se virou para analisar o rosto dela, e se surpreende ao ver que sobre ele escorriam lágrimas sorrateiras. Questionou internamente se ela estava mesmo chorando, mas a dúvida some quando a mesma soluça baixo alguma vezes.
— Quem? — se aproxima devagar, sem entender porque o seu cérebro insistiu em ter empatia logo num momento como aquele.
— Donnie. O garoto loiro que estava morto no porão — responde após engolir se recompondo. Sabine dá mais um suspiro e limpa as lágrimas das bochechas, logo após usa as prateleiras de cima como apoio para se reerguer do chão.
Collin abriu a boca para falar algo mas é impedido pelo susto ao ver que eles não estavam mais sozinhos naquele quarto. Seu corpo inteiro tremeu com a informação, seus olhos se arregalaram e um nó se forma em sua garganta.
Sua mãe estava lá novamente, desta vez, intacta, como se tivesse saído de algum comercial de TV bizarro. Vestia um vestido azul — aquele mesmo vestido — e seus cabelos escuros e longos desciam em cascatas onduladas pelos seus ombros. Tinha um sorriso ladeado e assustador na face e portava outra chave de fenda nas mãos, bem diferente daquela que ele mantinha no bolso da calça jeans.
Num piscar de olhos, ele emerge numa escuridão sem fim, e sente seu corpo despencar no chão como se tivesse sido desligado sem mais nem menos. Ao fundo ele houve o grito de Sabine com seu desmaio e quando tudo clareou novamente, esperou ver o seu rosto aterrorizado. Para a sua surpresa, ele não estava mais naquele quarto, e sim na sua casa, a tediosa e escura casa dos Harper. Como se tivesse acabado de acordar em sua cama ele se ergue e percebe que está de fato nela; ouve os pássaros idiotas cantarem da mesma forma, o cortador de grama do vizinho e algumas buzinas ao fundo. Ainda sentado ele fita o relógio na sua escrivaninha, no mesmo momento o despertador soa, e ele confirma que havia, como acontece na rotina, despertado faltando cinco segundos para as oito da manhã.
Foi só um pesadelo? O que tinha acontecido com ele afinal?
Duas batidas na porta chamam a sua atenção e ele pondera quem poderia ser, sente perigo na expectativa, e reluta em responder.
— Pode entrar — ainda que não tivesse aberto a boca, sua voz diz e a porta logo se abre.
Sua mãe aparece outra vez, ainda incólume e em perfeito estado. Com sua presença solene, surge o cheiro de seu corpo apodrecido, coberto por moscas e larvas que consomem sua carne para sobreviver. Apenas com este odor, Collin sofre com a imagem de tê-la encontrado morta embaixo da própria cama, depois de dias aproveitando a paz causada pela sua repentina ausência... Isso! A ausência, era ela...
— Eu estava com medo de ficar sozinho — sua voz ressoa, enquanto ele ainda permanece de boca fechada. — Ainda que sofresse muito, eu ainda tinha você, mãe.
O que era aquilo? Estava assumindo o seu verdadeiro maior medo? Era isso que ele queria?
A mulher se aproxima, e ele sente o fedor aumentar, porém não consegue se mexer quando reúne coragem para tentar. Estava preso em seu próprio pesadelo, torturado psicologicamente por lembranças que outrora cria que não causariam mais o mesmo efeito duas vezes.
— Eu sei querido — acarecia os cabelos dele. Ela não pisca os olhos e ele percebe quando uma mosca pousa em um deles e voa depois de dois segundos. — Quer se juntar a mim? — com sua aproximação, Collin sente seus olhos lacrimejarem e na mesma hora pressiona os lábios um contra o outro na tentativa de conter os soluços que vinham. Queria repelí-la, mas não tinha força alguma contra aquilo. Por mais que tivesse matado de vez a sua mãe, ainda tinha medo, medo do que ela pôde causar. Não teria como se livrar disso. Nunca. — Você só precisa dizer... — seus lábios gélidos encostam em sua orelha, sente ela umidecê-lo ao falar e seu corpo se enrijece em resposta. — Ross McKamey. — Se afasta após sussurrar e para olhá-lo nos olhos, e o refém percebe que já não eram mais humanos, e sim enormes e felinos. — E tudo isso acabará em instantes.
Sabine se desespera ao ver Collin cair desacordado e corre em sua direção com medo dele ter morrido. Antes do fato, havia encarado algo além dos dois no canto do cômodo, e ela, não vendo nada, sente um calafrio quando volta a olhar para ele.
Pouco tempo depois, ele abre os olhos e se remexe no chão como se estivesse em um pesadelo lutando contra algo. Seus olhos haviam sido cobertos por uma camada preta que os cobria por inteiro, e mesmo que tentasse chamar a atenção dele ela não conseguia.
— PARA! ISSO DÓI! ESTÁ ME MACHUCANDO! — vociferou assustando a garota, que com o susto, recua caindo sentada no chão. — POR FAVOR!
— Collin! — grita, mas não obtém sucesso em acordá-lo.
Lágrimas caíram do rosto dele já avermelhado, Collin soluçava e gritava de desespero para que aquilo parasse, e sem saber como ajudar, Sabine apenas chora e se arrasta até o canto do quarto com medo de se reaproximar. Cortes profundos surgem nos braços dele e sangram excessivamente criando uma pequena mancha escarlate no chão.
Enquanto se debate fugindo de um perigo invisível, ele derruba vários dos quadros no chão junto com algumas prateleiras. Sabine fica de pé ao ver aquilo, e ainda que com medo, resolve tentar pará-lo de algum jeito.
— EU NÃO VOU DIZER O NOME DELE!
O último grito a deixa em estado de alerta, e faz deduzir o que estaria acontecendo. O nome dele... Ross McKamey? Collin estava sendo torturado de uma maneira simplória apenas para dizer o nome dele?
"Ainda não perdeu seu medo, meu caro Collin." — O proprietário riu, ainda sentado na cadeira em frente ao painel.
A última etapa precisava ser concluída, e de uma forma ou de outra, uma hora todos deveriam dizer o nome de Ross, para que suas almas morressem juntos com seus corpos.
Se Collin estava tentando evitar a morte iminente de forma corajosa e seria castigado, para que enfim aprendesse a seguir as regras.
— Ouviu isso?
Se passaram alguns minutos desde que o quarteto havia se separado. Todd e Gaston encontraram com facilidade o bilhete destinado ao segundo, e ao ler, se deparam com uma nova possível pista que os levaria a uma conclusão da história descrita no diário de Albert Delory: um candelabro de prata.
Começaram a busca apreensivos com o ambiente que já havia sido cena de assassinato e sofrimento. O peso no ar aumenta quando mais o tempo passa, e depois de longos minutos se esforçando com avidez para achar algo, o mais velho escuta um grito vindo do andar de cima. Na hora, ambos estavam na biblioteca após procurar a peça de decoração na sala de estar e na de jantar, seguindo a ideia de permanecerem juntos caso algo acontecesse.
— Achei! — Todd exclamou sem nem ouvir o que antes Gaston havia dito.
O moreno se aproxima do garoto e avista o candelabro prateado e ornamentado, tinha um porte pequeno se comparado aos outros vistos pela casa, não tinha velas, e estava coberto por uma camada de pó que faz as narinas do que o segurava arderem. Gaston pensou em tomar o objeto nas mãos e conferir para ter certeza de que era mesmo o que foi pedido pelo proprietário, porém na hora de entregar á ele, Todd é puxado em direção ao chão, aparentemente convulsionando.
O homem se assusta tanto com o fato que nem se importa com o candelabro caído no chão, apenas pega o menino inconsciente nos braços e carrega até a sala de jantar, colocando seu corpo raquítico sobre a mesa.
— Droga, o que foi agora? — proferiu sem se segurar.
O menino agonizava o corpo inteiro, como se algo estivesse tentando sair dentro de si, e de fato, havia.
Antes de descer as escadas, Todd já havia sentido algo estranho em seu corpo, logo associou ao Demônio Branco e o líquido espesso que o fizera digerir a força. Assim que pegou o candelabro em mãos, sentiu uma energia estranha nele que fez o seu braço se arrepiar, e foi assim que teve certeza que era mesmo aquela a peça de decoração que deveria ser encontrada. Mas, de súbito, seu corpo pareceu rejeitar aquela energia — ou unir-se a ela — , e mais ainda, a sua própria bile, que subia espumando pelo seu esôfago.
Sua visão ficou escura, e assim como Collin, ele sentiu seu corpo ser arrebatado para outro lugar. A praia. Aquela mesma praia onde fez seu primeiro e último castelo de areia, que logo seria derrubado pelo vento. Viu ao longe nas bordas, seus pais sorrindo juntos pulando as ondas pequenas que iam e vinham, abraçados um ao outro como se fosse o último dia em que estariam juntos. E talvez de fato fosse. A memória era viva, mas nada familiar, ao menos, não até Ela aparecer.
— Sabe porque eu escolhi você? — a voz estranha, que mesclava entre uma grossa e uma mais aguda fala.
— Por quê?
O vento bagunça seus cabelos loiros, e o garoto olha ao redor com os olhos semicerrados procurando o dono da voz, mas não encontrar nada o deixa ainda mais irritado. Até que ao se virar na direção onde havia visto a versão alegre de seus pais, ele se depara com uma cena diferente. Seus pais estavam mortos sobre areia e sangue jorrava incessantemente alcançando as águas calmas que batiam contra seus corpos. Os braços de Todd estavam cobertos pelo mesmo sangue, e ao ver aquilo ele pressiona os dedos da mão fechada sentindo algo macio e pegajoso no meio de ambas. Relutante, ele ergue as mãos e nota que segurava um coração em cada.
— Porque você é um de nós, Todd.
O cabelo ruivo denunciou quem era, e antes mesmo que o menino pudesse contestar, volta a realidade alarmado.
Assim que acorda, Todd vomita o líquido viscoso preto que havia ingerido no chão pingando nas botas de Gaston.
— Merda! — o homem exclamou se afastando alguns centímetros.
Ficou nervoso com o tempo em que o menino permaneceu desacordado após parar de agonizar. Tudo parecia ficar pior conforme o a estadia deles durava, e isso estava sendo cansativo, doentio e insuportável.
— Não encosta no candelabro! — Todd se exalta ofegante, limpando a boca com o dorso da mão em seguida. — Ele sabe que descobrimos algo, e quer nos fazer falar. Acho que o nome dele é a palavra chave pra entrega total.
A testa de Gaston franze no automático, ficando repleta de rugas.
— Do que está falando? Entrega total?
— Somos oferenda, Gaston! Ele quer nossas almas, depois as nossas vidas — Todd força seus braços a lhe empurrarem para longe daquela mesa cheia de pó e cinzas. — Se você concluir a segunda etapa ele vai fazer de tudo para que conclua a terceira. Precisamos avisar a Sabine.
O mais novo estava totalmente perdido após acordar, mas mesmo assim, sentia que a sua ligação estranha com o Demônio estava o ajudando a entender melhor como a trama de McKamey funcionava. Gaston não conseguiria acompanhar a sua linha de raciocínio, e talvez nenhum dos outros. Mas quem se importa? Ambos achavam que ele era novo de mais para estar ali, e não era de fato uma mentira. A questão era que sua estadia na casa não era sem motivo, e mesmo que o momento fosse assustador de mais para momentos contemplativos, Todd estava questionando tudo, até mesmo sua própria identidade.
Apertou o passo e tirou o canivete do bolso destinado a enorme escada, no entanto, seus pés se negam a obedecer seus comandos quando, no meio do caminho, ao vê um rosto familiar o esperando ao pé dela.
— Onde pensa que vai garoto? — sorriu de lado arrancando uma das estacas de ferro enfiadas em sua cabeça. Um esguicho de sangue coagulado sai do furo, sujando o chão de madeira. — Vamos brincar.
Era o garoto loiro que estava morto no porão... Mas como?
Todd sente o ar lhe faltar assim que percebe que o loiro estava prestes a lhe atacar com aquela mesma estaca, com os olhos mortos vidrados nele, a criatura anda em sua direção em passos firmes que fazem o chão onde os pés do garoto estavam fincados tremer.
Nunca imaginaria que morreria dessa forma.
— TODD! — a voz de Gaston é a última coisa que houve antes de ser empurrado para longe dali, caindo de costas no chão.
A dor da queda faz um gemido escapar de seus lábios, mas o menino não se deixa levar por ela, voltando sua atenção para o lugar onde estava o possível zumbi.
Gaston estava lutando contra ele com seu machado de mão, mas estava totalmente em desvantagem com a perna quebrada. Imobilizado pelo medo, Todd observa aquilo reunindo forças para se levantar do chão, e ao conseguir, se escora na parede ainda preso a cena que rolava na frente de seus olhos, ainda que seus nervosismo e ansiedade tentem transformar o que via em pontinhos coloridos.
A última visão que tem é a de Gaston caído no chão após ser nocauteado com feridas e sangue por todo o seu corpo. A figura maligna de Donnie salta sobre ele, e mesmo sua vítima já estando inconsciente, ainda o perfura no peito inúmeras vezes dando estocadas com a estaca em sua mão. A carne do homem é exposta, e como se tivesse passado dias trancafiado sem alimento, o rapaz retira de lá pedaços dos órgãos dele, levando-os a boca, mastigando a carne grudenta com força, tornando o som audível para o menino de longe.
Todd sente o trauma consumir mais uma porcentagem de sua sanidade, e tentando não surtar a ponto de causar sua morte ele tampa a boca com a mão livre para não gritar. Se dirige cauteloso até a biblioteca aproveitando a distração da criatura e arranca o papel de parede que tampava metade do duto da passagem secreta. Tira a grade com cuidado, se escondendo lá dentro para enfim, chorar.
— Você é uma criança, meu Todd, a realidade ainda vai te infernizar muito — Ross diz num suspiro tendo visto a cena que acabara de ocorrer. Se espreguiça tirando os pés do painel. — Tic-tac... Já deu a hora — se levanta, jogando o cigarro aceso na xícara de sangue fresco. — Vamos concluir a última etapa.
༒
Nome: Gaston Rivera
VÍTIMA ELIMINADA
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