ROSS - PT.1
༒
Donnie pensou que estava morto nos primeiros segundos de consciência. Abriu os olhos e os piscou freneticamente se deparando com o mesmo breu de antes, porém, dessa vez não parecia ser a sua visão, e sim, o quarto onde estava. Mas o que diabos foi aquilo? — se pergunta tentando mover-se para levantar do chão de madeira que rangia na tentativa.
O copo inteiro do rapaz parecia anestesiado e retornava ao normal aos poucos, tornando possível que ele se colocasse de pé. Um gosto metálico permeava em sua boca, e suas têmporas latejavam insistentes fazendo com que massageasse a área.
Olhou ao redor ao ouvir o som de algo caindo perto de si, pressiona as pálpebras para enxergar apesar do escuro o que havia caído no chão. Uma seringa. Percebe e o silêncio se reinstala. Donnie recua alguns passos e passa a tatear as paredes na tentativa de encontrar alguma maçaneta, encontrando a porta, abre-a com facilidade, saindo do quarto em direção ao corredor do lado de fora. Fitou os olhos no começo estando na última porta ao fundo, piscou novamente se acostumando com a luz precária das velas acesas.
Um vulto preto atravessa o corredor a fora que cortava os outros assustando o garoto repentinamente.
— Mas que merda...? — deixa escapar, e sua voz ecoa por todo o corredor, tal que parecia aumentar de tamanho quanto mais ele permanecia ali parado.
Andou sem pressa até lá e verificou ao redor cauteloso, imaginando que quem quer que fosse aquela pessoa, poderia aparecer a qualquer momento na intenção de matá-lo. Quis rir de maneira sarcástica ao lembrar daquele questionário que respondeu no site da McKamey Hills. Seu maior medo estava agora a mercê do proprietário, mas na mente de Donnie não havia como temer aquilo, sendo na verdade, um fato que transformara em pesadelo na infância irracionalmente. Não tinha um maior medo, sendo assim Ross não tinha poder algum sobre ele.
Pelo menos foi o que pensava, até ele surgir.
Um corpo masculino que tinha quase que o dobro do seu tamanho sem exageros se posicionou no fim do corredor de onde viera, fazendo o som da madeira rangendo com seus passos atrair a atenção de Donnie para si. Usava uma roupa preta que parecia ser de nylon, e vestia uma máscara da mesma cor cobrindo seu nariz e boca precisamente, com isso, o rapaz pôde focar na região exposta, que quando se aproxima da luz das velas, torna visível a fase assustadora de seu pior pesadelo. O homem não tinha olhos, apenas dois buracos vazios sangrando como se eles acabassem de ser arrancados. O garoto engoliu em seco ao ver aquilo, e sua primeira reação foi recuar lentamente, temendo que aquele homem se tornasse agressivo por algum gesto brusco seu.
Quando mais próximo da luz ele ficava, mais características físicas mostrava, e uma delas foi o cabelo ruivo, que trouxe um lapso de memória até a cabeça de Donnie, tornando seu desespero ainda maior.
— Ross McKamey — fala em voz alta sem medir as palavras. Só então quando um apito agudo invade seus tímpanos, fazendo suas têmporas doerem ainda mais, que ele percebe o que havia feito de errado.
Até então o monstro diante dele mal havia se movido, talvez apenas espalhado as seringas por aí com o propósito de assustá-lo. No entanto, agora, ele levanta o peito como se finalmente pudesse respirar e não parece se afetar com o som estridente que vinha de lugar nenhum.
Donnie se apoiou na parede desenhada com o papel decorativo do século passado ao tontear de repente. Um gemido de dor escapou dos seus lábios, porém na mesma hora, o som parou, e um completo silêncio se apossou do lugar.
— Regra número quatro.
— O quê? — responde confuso ao perceber que uma voz grossa e embargada vinda do homem quem dissera.
— Ao falar o nome do proprietário, você receberá gratuitamente um perseguidor que tentará tirar sua vida — continuou.
Donnie ainda estava desnorteado após tudo que havia passado desde que chegara á mansão, não fazia ideia do que aquela coisa estava falando, e muito menos tinha forças para sair correndo dali antes de ser assassinado. Tudo indicava que agora seria perseguido até a morte, pelo homem sem olhos distribuidor de agulhas.
— É a sua vez... Don...nie... — disse pausadamente andando na direção dele.
— Droga — escapa, e mesmo com o corpo ainda amolecido se recusando a correr como ele queria, o loiro segue na direção oposta.
Gritou vários palavrões que se não fosse pela falta de controle que tinha pelo seu corpo, teria gritado em voz alta em bom som, para que todos, incluindo o proprietário e qualquer idiota que estivesse ali como ele escutassem. Sentia falta da euforia de antes, do desejo que tinha pela morte, e pelos instintos homicidas que se afloraram cada vez mais fazendo-o pensar que mataria alguém se quisesse — e queria. Mas aquilo tudo havia sumido desde o momento em que acordou naquele quarto escuro. Não fazia ideia de como tinha parado ali, e nem o motivo de seu corpo estar tão castigado, como se tivesse levado uma surra do time de futebol inteiro. Mas naquele momento não poderia se distrair, muito menos fraquejar, apenas correr — ou pelo menos tentar — pela sua vida, e arrumar um jeito de vencer seu perseguidor.
Não demorou muito para que seu corpo se desligasse de vez e ele caísse no chão, sendo então alcançado pelo homem sem olhos. As últimas coisas que sentiu foi ser puxado pelas pernas para cima, passando por um lance grande de escadas. A tontura e a dor não lhe permitiam abrir os olhos, mas em compensação, Donnie cria estar em um sonho estranho, onde as sensações eram mais que reais. Alucinações, talvez, não soube definir. Seu corpo parecia flutuar em águas geladas, e logo algumas memórias voltam quando sente a primeira agulha penetrar a sua pele.
Não era uma história muito longa, ou emocionante de mais. Simples. Donnie como uma criança típica, tinha medo de injeções, mas era obrigado severamente por sua mãe a tomar cada uma delas. Quando menor, tinha a imunidade baixíssima, e ficava doente com facilidade. O fato tornava as idas ao hospital mais frequentes, e as injeções também. Detestava. Não era algo que valesse colocar numa ficha da droga de uma haunted house! Mas então por quê? Por que Donnie escolheu, de todas as mentiras que podia contar, algo assim?
Seus olhos se abriram pela terceira vez que estiveram inconsciente, e já enfadado de como aquela fase se repetia, não se preocupou em onde estava, e sim, se o homem já havia ido embora. Estava tonto, e suava como num dia de treino pesado, a ponto de sua pele pingar de tanta água, e arder por um motivo que não era aparente.
As pernas estavam dormentes, e quando ergueu cabeça imaginou que o fato estaria relacionado a ele estar preso numa cadeira de dentista com os pulsos presos nos braços dela com braçadeiras que apertavam deixando uma marca. Uma luminária velha estava acesa iluminando seu rosto com a única luz fraca que estava no local, e foi com a ajuda dela, que Donnie pôde ver que não estava sozinho, seja lá o que era aquela sala escura com cheiro de esgoto.
O homem sem olhos estava parado perto da cadeira adormecido, como se fosse um robô desligado.
O rapaz remexe os pulsos tentando folgar as braçadeiras bruscamente, mas não consegue nada além de mais dor e moleza nos membros. Tentou mexer os pés, mas não obedeciam aos comandos de seu cérebro. Mesmo assim, Donnie insistiu soltando um grunhido ao erguer o pé direito e o corpo protesta fazendo doer ainda mais. Um suspiro de alívio escapa de seus lábios quando consegue mexer os dois pés, porém, uma sensação estranha o faz querer vê-los, então ele inclina a cabeça tentando ver algo naquela densa penumbra.
Quanto mais se vive, percebe-se que a dor nem sempre manifesta quando há inconsciência sobre a ferida, mas quando os olhos a encontram e percebem seu tamanho, a inflamação, a hemorragia e a flagelação, o cérebro desperta e a dor é sentida, maior e mais lancinante do que seria a primeira vista.
As duas pernas de Donnie estavam tão adormecidas como o monstro, atravessadas por inúmeras agulhas grossas que ao ver, arrepia-se até a nuca. Todas de pequeno tamanho, fazendo da parte inferior de suas pernas uma almofada de alfinetes. O sangue seco havia deixado seu rastro e pingado no chão, agora só restava dezenas de agulhas enfiadas naqueles músculos provavelmente, sem nenhuma circulação. Estava inflamado e ardia de forma incessante.
Donnie gemeu e seus olhos lacrimejaram com a dor. Não era possível! Um medo tão absurdo não poderia derrotá-lo daquele jeito. Então por quê? Deveria ter fugido desde o início, a partir do momento em que vira a seringa no último quarto onde acordou, mas aquela lembrança infantil resgatou de dentro de seu âmago o medo que nunca superou, mesmo após anos, sem saber.
— Pronto para morrer? — o homem pergunta com a mesma voz grossa de antes se aproximando com uma caixa de plástico suja, e quando esteve perto o suficiente o rapaz vê mais agulhas ali dentro, prontas para perfurarem todo o seu corpo.
Faziam alguns minutos monótonos que Collin estava isolado naquele quarto digerindo tudo que aconteceu desde que chegou. Enfrentara sua mãe e lhe tirara a vida; encontrou uma mulher que acabou sendo arremessada da janela; e ouvira gritos e estrondos pela casa inteira — e foi na direção deles, imaginando se acharia algum sobrevivente, mas não obteve sucesso — , a mesma parecia aumentar de tamanho sempre que ele ousava cruzar um corredor. Segurava a chave de fenda com força e não soltara desde de horas atrás, quando fez uso dela para matar aquela criatura monstruosa, pois na verdade era a única arma que usaria para se defender caso algo semelhante acontecesse; e na outra mão, estava a caixinha de música que achou no quarto do bebê, quando a criatura que perseguia Mônica sumiu de suas vistas.
O tempo passou rápido, e logo já tinha anoitecido. Quando escureceu definitivamente, os gritos pararam, com todos a sons estranhos que se perpetuavam no ambiente. O silêncio reinou por um longo tempo, e chegou a hora em que Collin já não achava viável ficar naquele quarto, então se levantou do chão e abriu a porta.
Creu de forma lógica que se fosse o único sobrevivente já poderia sair daquele lugar, mas, se não fosse o único, dificultaria ainda mais as coisas, pois teria que encontrá-los. Embora a atuação em equipe não o agradasse muito, com tanto tempo sozinho refletiu e imaginou que assim como ajudou Mônica — ou ao menos tentou — poderia ajudar outros, e os outros a ele.
O terceiro andar era mais fechado que os outros, percebeu assim chegou ao topo do quarto lance de escadas. As janelas por lá não existiam, apenas mais corredores e paredes gastas. Em uma delas, havia um espelho redondo com as bordas de madeira esculpida em arabescos, e graças a ela que Collin pôde ver seu atual estado em muito tempo: estava com os cabelos bagunçados, e havia sangue coagulado sujando suas roupas que graças a cor escura, disfarçavam a sujeira. Mesmo assim, agoniado em sua própria pele, ele tentava disfarçar o desespero e expulsá-lo de si mordendo o interior da bochecha esquerda. Embora já estivesse machucado, nada como a memorável dor para que soubesse que estava vivo, e não num inferno particular.
Tudo aquilo era artimanha de um psicopata, e ceder á ele estava fora de questão.
Não muito longe de onde Collin estava, Todd jazia escondido na passagem secreta do quarto de hóspedes.
Depois de matar o Demônio Branco e encontrar o medalhão, ele buscou por um lugar onde pudesse se recompor, sem temer ser encontrado — o que era difícil, considerando que o regente dos medos era o dono da mansão. Mas, para a sua surpresa, conseguira encontrar uma portinhola atrás de uma estante, que levava ao que parecia ser um duto de ventilação. Tendo o corpo pequeno, a criança pôde se esgueirar para dentro e fechar a portinhola, ficando então lá até que estivesse disposto a enfrentar a próxima fase.
O duto era enorme, e levado pela curiosidade, Todd seguiu por ele imaginando onde aquela passagem secreta poderia dar. O resultado disso fez com que ele visse a maioria das vítimas daquele dia, e a "quase" morte delas.
Saiu de lá quando já estava escuro, e provavelmente de madrugada. Tremeu ao sentir o vento gelado contra seu corpo e xingou mentalmente como uma criança de sua idade nunca faria, ao se arrepender de ter rasgado seu moletom para cobrir o arranhão em seu tornozelo.
Ainda agarrado ao canivete, ele abre a porta rangente devagar, temendo que o silêncio que se instaurou na casa fosse um sinal ainda pior do que todos os gritos desesperados por socorro de antes. Na outra mão, segurava o livro que encontrou nos dutos, e ao lembrar desse fato, torce mentalmente para encontrar algum sobrevivente para contar a teoria que os faria sair dali. Hipoteticamente.
Suas expectativas são correspondidas quando vê uma sombra cansada pairando no mesmo andar em que ele estava, mas se frustram assim que percebe que é um adolescente. Sua mente divergente o permitia pensar que adolescentes eram mais infantis do que crianças.
O rapaz estava distraído com alguma coisa em uma das portas abertas do corredor, dando a chance de Todd analisar seu físico e escolher empunhar o canivete na altura de seu pescoço na intenção de se defender de uma possível armadilha.
O rapaz se assusta ou ver o objeto cortante prestes a rasgar sua garganta, mas se surpreende ainda mais ao ver quem era o autor daquele gesto homicida.
— Quem... Como? — profere com o cenho franzido.
Todd recolhe a arma, enfiando-na no bolso de trás dos jeans.
— Eu sou Todd, uma vítima como você — diz entediado. — Vamos, não temos tempo.
— Tempo pra quê?
— Pra ficar conversando no meio do corredor assombrado! — o garoto exclama óbvio e segue o caminho até o quarto onde estava, sendo seguido por Collin. — Devia me dizer seu nome.
Os dois entram no local e o menino fecha a porta, travando com uma tábua de madeira em seguida.
O rapaz que o acompanhava analisava seu ato confuso, e Todd chutou mentalmente que seria pelo fato dele ser uma criança.
Idiota.
— Collin.
— Ótimo.
Collin ri sarcástico e se permite sentar no chão escorado na porta bloqueada, ainda com o corpo exausto.
— Tá vendo aquilo? — aponta para a portinhola de madeira e Collin segue com os olhos até ela. — É uma passagem secreta.
— E?
O garoto revira os olhos e bufa impaciente. Observou o estado do rapaz e concluiu que de fato também era um sobrevivente, mas algo em sua expressão perturbada lhe causava aversão.
— E ela dá acesso a todos os cômodos principais da mansão.
Após o fim da explicação de Todd, a feição de Collin pareceu mudar para uma mais interessada no assunto, tirando a palavra "criança" de seu vocabulário, e adicionando "saída". Assimilou aquela observação do menino ao fato de não tê-lo visto no tempo em que estivera na casa, e deduziu que ali ele se escondia nesse período.
— O que mais descobriu? — insiste para que ele continue.
— Isso eu preciso falar quando todos estiverem reunidos. Sei que há mais sobreviventes — alega com convicção, mesmo que não passasse de um instinto.
O mais velho se arrepende de subestimar o garoto e pensa com cuidado antes de fazer a próxima pergunta. Claro que ambos suspeitavam lá no fundo que o outro fosse alguma distração ou armadilha de Ross McKamey, mas a aparência cansada e a sujeira e sangue no corpo denunciavam o contrário.
— Há quanto tempo está aqui? — Collin perguntou assim que o garoto cospe um muco preto no chão.
Já a criança, sente um calafrio ao lembrar de como foi passar da primeira fase.
— Não sei direito, quando cheguei ainda estava claro — resume e respira fundo. — Eu vi coisas horríveis.
— Acredite — o outro se ergue do chão novamente com um grunhido de dor no corpo. — Eu também — suspira. — Como sabe se há outros sobreviventes?
— Instinto.
Collin ri outra vez e se equilibra em seus próprios pés mesmo que o cansaço e o suar tanto lhe deixasse desnorteado. Todd não estava diferente, nesse caso, ainda pior. Depois de ingerir aquilo líquido estranho que saíra dos seios do Demônio Branco ele não conseguiu respirar sem sentir que algo ruim estava prestes a acontecer com ele. Mas não estava disposto a compartilhar daquilo com estranhos, por mais bizarros que seus lábios pintados de preto pudessem parecer. Aquilo eram rastros da luta e sobrevivência. Sabe bem ao ver agora como Collin parece a luz das velas.
Sem trocar mais palavras os dois saem do quarto e descem para o segundo andar, ainda sentindo a diferença que o silêncio causava naquela casa paranormal antes barulhenta. Nem mesmo grilhos soavam do lado de fora das janelas, tudo estava silencioso, o que facilitou de encontrarem os outros, mesmo que de forma inconveniente.
Havia uma escada que levava ao porão da cozinha — uma não notada antes por nenhum deles — , e ela estava aberta.
Collin e Todd foram atraídos até lá quando seguiram o homem e a garota que não conseguem ver o rosto. Num misto de sussurros e olhares significativos um para o outro, concordaram em ir até lá e descer aqueles míseros degraus. O cheiro fétido de carne crua e sangue fresco alcançou o olfato de cada um deles e os mais frágeis, tamparam o nariz com o dorço da mão. O lugar estava escuro inicialmente, mas foi clareando quando se notou um lampião grande aceso em cima de um aglomerado de caixotes de madeira. O porão pareceu se alargar de tamanho quando os pés de Collin se chocaram com o chão coberto por uma terra úmida.
Até então as duplas não notaram a presença uma da outra.
— Merda.
A atenção de todos se voltam para o meio do lugar, onde habitava um cadáver recente, espetado por inúmeras estacas de ferro que contrastavam com a pouca luz que ali incidia. Era Donnie, o garoto loiro que outrora possuído por um espírito vingativo, atacara Sabine na intensão de matá-la. Quando a voz dela soou no local foi como se o lugar tivesse ficado mais claro, e ambos se enxergaram perfeitamente. Os que antes eram seguidos, suspiraram com o susto ao ver que não eram os únicos naquele espaço coberto por um ar pesado e tenebroso. E Collin abre a boca ao trocar olhares com a garota, mas não consegue falar nada.
— Quem são vocês? — o homem parrudo fala apertando o cabo do machado em mãos.
— Sobreviventes... — a garota deduz com um suspiro de alívio e seus ombros relaxam.
— Merda! O que aconteceu com o loiro aguado? — Todd fala atraindo o olhar de todos.
A criança estava mais do que próxima do cadáver com o antebraço bloqueando o nariz, e ao contrário dos outros presentes, não parecia nada incomodado com o corpo. Mas o que o assustava realmente era a hipótese de estarem sujeitos a um perigo maior naquele porão.
O corpo de Donnie ainda estava quente, pois fazia pouco tempo desde que fora eliminado pelo seu maior medo. As agulhas enormes atravessavam-lhe em todas as áreas do corpo, inclusive na cabeça, de modo cruel e desordenado. Em seus olhos, ouvidos, garganta... O único lugar que se isentava era sua boca semiaberta.
— Não é novo de mais pra estar aqui, ô garoto? — Gaston cruza os braços não se protegendo do odor putrefato daquele lugar.
Collin por sua vez permanecia trêmulo e estático contra a sua própria vontade, lembrando se novamente daquele dia em que encontrou sua mãe morta embaixo da cama. O cheio era o mesmo, também suava apesar do ar estar gelado, e seu coração não batia, pelo menos, não na sua perspectiva.
— Okay... Acho que a gente devia sair daqui e conversar — a menina fala rompendo o silêncio mais uma vez.
— Conversar o quê?
Ela olhou para Collin como se ele fosse burro.
— A gente devia voltar lá pra cima antes que eles voltem — Todd fala saindo de perto do corpo. — A não ser que queiram morrer.
Gaston ainda estava estupefato ao ver uma simples criança ali com eles, e mal se importou em seguí-lo até as escadas que os levava de volta para cima. Sabine fez o mesmo que eles, e Collin foi o último a voltar dando uma bela olhada naquele rapaz loiro espetado confirmando se sumiria de repente assim como todas as outras ilusões grotescas.
Ambos seguem em silêncio até o terceiro andar e Todd os guia até o quarto da passagem secreta, para sua surpresa, sem ouvir nenhuma falácia sobre sua idade, pelo menos por enquanto. Quando chegaram até lá — o único lugar onde não se via olhos vermelhos nos cantos da parede — , Collin trava a porta, e os outros indivíduos daquele cômodo se entreolharam antes de voltarem a se pronunciar. Todos estavam acabados depois da primeira fase, e não se limitaram a continuar de pé ao primeiro sinal de segurança desde que entraram.
As pernas de Sabine cedem, e ela se permite sentar no chão de madeira como todo o resto, dando um segundo suspiro, desta vez de medo. Se considerava a culpada por Donnie estar daquele jeito agora no porão da casa, pois havia sido ela a perfurar seu corpo possuído com flechas.
— Nomes? — a criança retoma revirando os olhos ao perceber que ninguém queria ter o benefício da palavra.
— Sabine.
— Gaston. Rivera. — o nomeado acrescenta cruzando os braços sem soltar o machado.
— Eu sou o Todd, e aquele surtado ali é o Collin — continua entendiado recebendo um olhar de reprovação do citado, que ignora automático. — Devemos ser os únicos sobreviventes da primeira fase.
Todos se entreolharam com olhares significativos tremendo com a chance de mais pessoas terem morrido ali. Como em luto. O silêncio se instalou novamente até que Collin pigarreou voltando seu olhar morto para o garoto.
— Quantos você viu?
— Todos, menos ele... — franze a testa apontando para o homem alto de pele escura. — Você eu não vi.
— Mas eu vi você. — O apontado se recorda. — Estava na entrada com o cara ruivo, por isso entrei pelos fundos. E quase morri no processo.
Todd quis desmentir aquela ideia de súbito, mas sua consciência prova a veracidade das palavras dele ao lembrar-lhe de como havia chegado até Canyon Valley.
— Foi lá que machucou a perna? — a garota pergunta a ele e todos que não sabiam do fato encaram as pernas dele.
— O imbecil deslocou ela, mas eu consegui arrumar. Por enquanto.
Collin respira fundo enquanto os outros permaneciam sem fala após a resposta dele.
— Quantos? — pergunta.
— Sete — o garoto diz provando não estar distraído. — Já vimos que um está empalado lá embaixo, mas não sei que fim teve os outros dois.
Sabine tremeu quando Donnie foi mencionado novamente, e sentiu que deveria contar a eles que ela havia o matado e não Ross. Mesmo que tivesse fama de assassina ela não esperava que assustasse tanto ser de fato uma, mas não pretendia esconder aquilo se fosse interferir nas últimas horas de estadia deles na casa.
Quando abre a boca para falar, Gaston distribui o peso do corpo para a perna saudável interrompendo seu possível discurso.
— Eu vi a garota loira morta na torre, tinha... Uns bichos comendo o corpo dela — suspira como se lamentasse.
— A outra foi jogada do segundo andar — Collin complementa se lembrando de Mônica e sua cópia macabra.
Sabine engole em seco, e então se volta para a criança outra vez.
— Você disse que viu todos... Como?
Ele então aponta a portinhola que se disfarçava na parte inferior da parede.
— A passagem secreta — pausa. — Ela dá acesso a vários cômodos, inclusive... — abaixa até ela e abre, tirando de lá o diário que achara. — Achei isso aqui.
Depois de ficar escondido ali sem saber o que fazer, se recompondo após enfrentar seu pior pesadelo, Todd se esgueirou pelo duto tendo a visão de todas pessoas, exceto Gaston, que pisaram na mansão como vítimas. Em uma das suas percorridas pela passagem, ele encontrou um diário velho e empoeirado, cujo algumas páginas ainda eram legíveis. Ao ler, as descobertas foram tamanhas, que ele sentiu que finalmente estava num jogo familiar, onde ele venceria facilmente se seus instintos estivessem certos.
— Um livro? — Collin encara incrédulo.
— Não é só um livro, é a nossa saída, se minhas teorias estiverem corretas — fala mas percebe que isso não muda a face dos ouvintes. — Já ouviram a história da mansão? Canyon Valley?
— O amigo que me indicou o site contou algumas coisas — Gaston fala, e então todo o discurso de Bill retornam a sua mente. — Mas como isso ajuda?
— Eu também não entendi — a garota anunciou.
Todd respirou fundo e repensou se deveria mesmo compartilhar aquela história com pessoas céticas. Não entendiam o terror e o mistério como ele, seria impossível se quisesse enfiar tudo naquelas cabeças antes que simplesmente morressem.
— A questão é que esse diário, conta algumas coisas que eu não vi na internet, como o fato da McKamey Hills não ter sido inicialmente a Mansão Delory como diz a placa da frente — abre o diário e resolve ler as páginas marcadas para provar o que dizia. — No século XVI ela era habitada por membros da família McKamey, cujo nome se perdeu ao serem acusados de bruxaria, passando pelo castigo de fogo... A família que construiu a casa era composta por um casal e dois irmãos, ambos morreram queimados, deixando a casa como habitat de pesadelos e demônios familiares.
— Isso é ridículo! — Collin afirma dando um riso de escárnio. — Não acham que aquilo é real, não é? Isso foi implantado por ele, tenho certeza.
— O proprietário? — Sabine pergunta. — Até que faz sentido, se pensar bem.
O olharam como se fosse um estúpido por acreditar naquilo, e ele sentiu raiva disso.
— Olhem aqui, esse diário é de algum ex-morador, da família Delory! — entrega para Collin, que aos seus olhos era o mais incrédulo de todos eles. — Leia o que está na última página.
A contragosto ele procura pela página indicada, e sente um calafrio na espinha ao deduzir que aquilo poderia ser real.
— O que diz aí? — o mais velho do grupo pergunta se aproximando. — "Descubra o maior medo dele"? De quem está falando?
— A família Delory morreu dentro da casa, num incêndio. O relato diz que todos estavam enlouquecendo com o que estava acontecendo aqui dentro. Possessões, potergeist, visões, e os clamores saindo das paredes... Tudo que vimos — o menino continuou tentando soar convincente. — Essa é uma pista. Temos que descobrir o maior medo de... Vocês sabem quem, e eu acho que já descobri.
Quando Todd evitou dizer o nome de Ross McKamey em voz alta, todos se lembraram do quarto tópico, e cerraram os dentes repetindo em sua mente várias vezes para não esquecer, simultaneamente.
— Muita coisa não faz sentido nessa teoria, por exemplo, e se ele plantou isso? — Gaston diz.
— Eu não me surpreenderia se ele fizesse isso, afinal é um mistério que teríamos que resolver.
— Essa baboseira de fantasma não existe — Collin replica como se quisesse convencer a si mesmo além dos outros. — Eles drogaram a gente, só pode ser isso.
Sabine riu daquilo, achando totalmente estúpido.
— Olha, o que eu vi era bem real, e o que causou mais ainda — abaixa a gola da blusa mostrando a mordida no ombro que ainda doía quando mexia o braço. — Não ter como ser uma ilusão.
— Você está em negação porque é cético — Gaston se pronuncia depois de um tempo calado apontando para Collin. — Eu matei um homem de verdade naquele depósito, e depois ele sumiu, mas eu sei o que vi, e ainda tem tripas dele na minha jaqueta.
— Isso acontece com todos, eu imagino. O lance do sumiço — Todd diz a ele e depois se vira para os outros. — Precisamos de um plano, mas avisem se mais alguém tiver alguma ideia melhor do que a minha.
Os mais velhos se entreolharam, e Gaston voltou ao canto da parede parecendo querer ouvir o que Todd queria propor — e estava. De todos que estavam ali era óbvio que o garoto de doze anos tinha mais informações, era mais familiarizado e tinha uma relação diferente com o proprietário, nada mais justo do que escutá-lo. Até mesmo Collin deixou de lado sua convicção de que tudo aquilo era uma farsa para tentar entender o que aquela mansão representava de fato.
— Ok... O que precisamos fazer pra sair daqui, segundo esse diário? — diz enfim.
Todd dá um meio sorriso e junta as mãos a frente do corpo.
༒
Nome: Donnie Prince
Maior medo: Agulha
VÍTIMA ELIMINADA
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top