CLARA

 

Por mais clichê que possa parecer, Clara Miller era sim uma garota privilegiada, do tipo Sharpay no filme High School Musical — que inclusive era um dos seus filmes da Disney favoritos.
Tinha tudo que queria desde pequena e isso contribuiu para o seu caráter possessivo, individualista, egoísta, egocêntrico, e outros mais que ela fazia questão de lembrar. Tinha pais ricos, a aparência perfeita, um namorado perfeito... Era capitã das líderes de torcida, a rainha da escola, a número um da classe. Inúmeros talentos. Poliglota, viajada, bailarina, voz excepcional, violoncelista, e influencer patrocinada nas redes por grandes marcas — até as que ela detestava.
Essa é Clara Miller, ao vivo e em bom som.
Ela não aceita desaforo, trata bem quem acha útil, as aparências vêm em primeiro lugar, deve ser a melhor, sempre, sem nenhuma excessão.

Mas como todos têm um calcanhar de Aquiles, Clara não está insenta de ter uma fraqueza, seu pior medo existe, pequeno e sorrateiro. E ela decidiu enfrentá-lo, apenas para manter sua dignidade em uma aposta.
Os resultados foram inusitados.

Mais um dia comum se iniciou em Nova York. Clara acordou com o despertador e removeu os tampões dos olhos para examinar ao redor. Seu quarto estava perfeitamente arrumado com excessão da cama de casal onde dormia. Piscou os olhos freneticamente para se acostumar com a claridade e espreguiçou o corpo. Acordar em sua zona de conforto era essencial para o seu humor ser positivo mesmo as seis da manhã, e mesmo que a paleta de cores e a decoração de seu quarto serem totalmente padronizadas ao feminino, ela adorava.

Clara se lavou, e depois colocou o uniforme ridículo da escola que só ficava bem de fato nela — nenhuma roupa ficava ruim em seu corpo — e soltou os cabelos loiros ondulados ao sentar-se junto á penteadeira. No espelho admirou por alguns segundos seus olhos azuis, sua pele branca e aveludada, seus lábios rosados e carnudos na medida certa, as sobrancelhas arqueadas e bem desenhadas, tudo nos perfeitos padrões dessa forma lhe traziam satisfação apenas de olhar. Sua autoestima crescia conforme via o quanto era linda, sorria, se sentia radiante. Nada poderia abalar o humor de Clara Miller neste dia. Nada.

Liga a prancha, mas não vê necessidade de alisar todo o cabelo, apenas reforça alguns cachos nas pontas e coloca uma tiara azul bebê expondo seu rosto fino e delicado. Também não precisa de muito reboco em seu rosto, se limita a um delineado gatinho, um blush rosé, e um lip tint nos lábios. Ao fim de tudo, coloca seu par de brincos de pérola nas orelhas, e esguicha o seu perfume importado favorito.

A empregada recente da família bate em sua porta lhe chamando para o café da manhã, mas a garota ignora, segurando seu IPhone em mãos para checar suas redes sociais.

As pessoas costumavam reclamar muito das coisas que Clara considerava importantes, e no geral, ela não ligava. Sua vida estaria perfeita enquanto ela pudesse comandar tudo, mantendo nos trilhos todas as composições. Por que sua aparência não seria importante? Ela tem a beleza que muitos não tem e deve se orgulhar disso, deve sim mostrar, valorizar, pois é o que ela é. Bem materiais? Se ela pode ter, por que não?
Tudo era uma questão de poder, querer e manter. Era assim que a mente perfeitamente organizada de Clara funcionava.

Abriu o Instagram e se deparou com uma foto de uma das meninas do seu "círculo", cujo nome era Anne. A garota estava sorrindo com o uniforme da escola em uma selfie, numa foto postada recentemente.

"Indo pra aula com o perfeito humor da manhã"

Clara revirou os olhos.
Legenda cafona, assim como esse cabelo — pensou, mas não perde mais tempo analisando aquela foto, pulando direto para o seu perfil, onde já tinha cinco mil seguidores.
Não ligava muito para números, apenas para os que entravam na sua conta; porém, seu público parecia gosta dela, de suas fotos perfeitas, de sua aparência e curtiam suas fotos constantemente. Clara não reclama, mas também pouco se importa.

Dado o horário, ela pega a sua mochila e desce as escadas dando de cara com sua mãe ao telefone, tão nervosa e sorridente ao ponto de enrolar o dedo indicador da mão livre no cabo em espiral. Sorri quando a vê, mas Clara não corresponde.

— Já está indo querida?

— Sim. Geralt está lá fora? — pergunta pelo motorista e sua mãe assente.

Ainda era cedo, mas Clara preferia chegar mais cedo a escola do que o contrário, muito menos chegar em um horário onde a entrada estaria lotada de pessoas insignificantes. Não queria correr o risco de esbarrar em alguém, ou ser empurrada por aqueles brutamontes do futebol americano que andavam aglomerados e agitados como malucos. Só de pensar na última gafe que passou por um deles, suas mãos coçam para fincar as unhas nós braços.
Donnie Prince, era o nome dele. O babaca mais babaca do mundo. Capitão do time de futebol americano do colégio, sem escrúpulos e mínimo de descência. O único naquela imensidão de adolescentes que ousava zombar dela sem medo algum, como se achasse ser melhor, superior. Mas Clara sabia muito bem qual era a laia dele, e tinha plena certeza que alguém como Prince não chegaria aos seus pés nem se quisesse. Pobretões  privilegiados como ele eram tão inúteis quanto lixo.

Pra sua surpresa, o trânsito cresce a caminho do colégio, impossibilidando-a de chegar no horário desejado. Isso a deixa profundamente irritada, principalmente ao ver que muitos alunos já se amontoavam na frente do portão.

— Clara!

Antes que tivesse tempo de procurar com os olhos quem a chamava, um ser alto e moreno se posiciona a sua frente puxando seu rosto para dar-lhe um beijo na boca.

— Oi Louis — diz forçando um sorriso assim que ele se afasta.

Cachorrinho estúpido.

Louis não é alguém que deve de fato ser lembrado, pois nem mesmo Clara se lembrava dele na maioria das vezes. Ele era sim, o namorado perfeito, carinhoso, submisso, inteligente para as matérias acadêmicas, mas não para o amor. Louis era apaixonado por Clara, perdidamente, e como consequência fazia tudo que ela queria. Claro que a garota detestava toda essa melação vinda por parte dele, mas aquele relacionamento a beneficiava de uma maneira que não aconteceria se namorasse o Donnie, por exemplo. Benefícios por estar em um "relacionamento sério" com o presidente do corpo estudantil só poderiam ser entendidos por ela. Sem contar que namorar Donnie Prince era pior que cair de cabeça num formigueiro.

Só de pensar nessa possibilidade — na segunda, não na primeira — sentiu seu corpo inteiro agonizar, como se sua pele aveludada perfeita estivesse sendo escalada por formigas. Isso faz Clara parar de andar no corredor e respirar fundo antes de decidir reabrir os olhos. Não havia formigas! Por que diabos ela pensou em formigas?

— O Luck quer dar uma festa hoje, você vem? — a voz de Louis a trás de volta a realidade.

A garota pisca os olhos para o namorado que ainda estava ao seu lado, com os olhos vidrados na tela do próprio celular.

— Festa? — riu irônica, localizando seu armário. — Isso não é uma desculpa pra ficarem chapados em coletivo?

Puxa a portinhola de alumínio após abrir o cadeado com uma das chaves no chaveiro de ursinho.
Louis não rebate sua fala, pois acaba se distraindo da conversa ao ver o próprio Luck se aproximar com mais garotos do conselho estudantil. Para resumir, um grupo de nerds que davam pro gasto, e mesmo entre eles, seu namorado ainda era o terrivelmente mais bonito. Momentos como esse a lembravam do motivo de ainda ter algo sério com ele, mesmo Louis não tendo dito que a amava ou que gostava dela, nem mesmo oferecido uma aliança de compromisso mesmo com aquela servidão toda. Ela recusaria, e agradecia por não ter que se preocupar com isso agora.

Fecha o armário e parte para a sala de aula deixando o grupo de nerds para trás.

Entrando na classe, ela caminha no automático para a primeira carteira da fileira da janela, ignorando a existência de alguns alunos que teriam a mesma aula que ela, inclusive Donnie que ria aleatóriamente com os seus amiguinhos do futebol. Todo seu mecanismo trava ao se deparar com aquelas antenas, seis patas peludas, asas vermelhas lustrosas, os filamentos da boca se remexendo em sua direção como se quisesse devorá-la inteira. Sua garganta seca, e suas pernas bambeiam ainda que duras ao fixar-se no chão.

— Calma, calma, Miller... — uma voz ridícula chega ao seus ouvidos. — É só um brinquedo, olha.

Clara morde o interior da boca com força até sentir a pele borrachuda de sua boca se rasgar, enquanto Donnie sacudia um inseto de brinquedo pelas antenas na frente de seu rosto, como se não fosse nada, com um sorriso sacana no rosto.

Não era a primeira vez que aquele garoto fazia isso, porém, não importava quantas vezes Donnie colocasse um inseto de plástico na sua mesa, ela sempre iria ter aquela fraqueza, aquela aversão, ânsia, pavor, fobia, ou qualquer sensação ao ver qualquer inseto na sua frente. A presença mínima que a fazia querer arrancar a própria pele com as unhas, agoniava seu corpo de dentro pra fora, e acelerava suas pulsações. Ele sabia disso, por isso se aproveitava para caçoar dela.

Donnie era o único.
Por que tinha que ser logo ele?

Clara recua alguns passos antes de decidir apertar o passo até o lado de fora da sala, onde ao ver o corredor praticamente vazio, sente a liberdade para correr até o banheiro feminino mais próximo. Chegando lá, se joga contra a pia apoiando as mãos nas bordas da porcelana com força. Seu estômago embrulha e ela enguia algumas vezes querendo vomitar, mas nada saí, nada além de gemidos baixos pela dor que sente ao forçar os músculos do tórax. Ainda com a cabeça curvada ela ofega, e tira as mãos da pia para colocar suas cascatas loiras todas para um lado só, passando as mexas por cima do ombro direito. Trêmula, abre a torneira. Molha as mãos na água gelada, passa no rosto com cuidado e torna a fechá-la. Clara encara o espelho e vê então a versão de si mesma que mais odiava. Não estava mais bonita como hoje cedo, pois agora era uma garotinha apavorada, uma garotinha com medo da droga de um inseto de plástico.

Estava pálida, com as pupilas dilatadas e o corpo arrepiado sentindo um calafrio.

Clara Miller tinha um trauma de infância simples, ela escorregou numa ladeira uma certa vez no meio da mata, em um dos acampamentos da escola. Caiu num enorme formigueiro, e foi atacada pelos insetos dos quais nunca imaginava coisa do tipo. Precisou de um médico, internação e antibióticos. Tinha apenas dez anos, e achou que não fosse ser tão grave assim, esperava no mínimo que adquirisse um pavor básico, ou, na brincadeira, um poder especial de formiga. Mas o medo a consumiu por completo, causando uma fobia forte que desencadeou também um transtorno obsessivo compulsivo, tornando ela o que é hoje psicologicamente falando: psicologicamente ferrada.

Donnie estudava junto com ela desde aquela época. Ele sabia sobre todos os motivos do seu medo, e inclusive era o único de todos que a conheciam que tinha esse conhecimento. Não fazia questão de ajudá-la, e Clara nem exige, pois ambos nunca se deram bem. Mas achava uma tremenda injustiça ser logo ele a pessoa que sabe sobre sua fraqueza. Aquilo era o cúmulo, no mínimo insuportável.

A única coisa que ela nunca pôde controlar.

Aquela festa que Luck planejara não era nada atrativa ao seu ver, nem seria enquanto todas aquelas pessoas aleatórias de outras escolas estivessem envolvidas. Não eram de todo desconhecidas, pois Clara se lembrava de algumas delas do último Decathlon Acadêmico. Aqueles eram os melhores alunos das escolas da região que o dono da festa conhecia.
De início, ela não pretendia aceitar o convite, mas ficar em casa vendo a empregada ajudando sua irmã burra com a lição de casa era mil vezes mais dispensável.

Ainda na tentativa de apagar de sua memória o fato ocorrido mais cedo, a mesma ingeriu álcool o máximo que conseguiu até agora desde que chegou. Não sabia o que era aquilo no seu copo descartável, apenas que era ruim e viciante. E até então era só isso que importava.

A música eletrônica tocava alta na casa, e muitos convidados a mais chegavam enquanto ela permanecia nos estofados observando o movimento. Um sono entorpece seu corpo ainda mais que a bebida, e Clara começa a ansiar pela sua sua cama. Louis tinha sumido de vista há um tempo, e ela não estava pensando em se dar o trabalho de procurá-lo para ir embora. Se levanta e toma cuidado para não cair ao cambalear bêbada.

Agarrada á sua bolsa de mão ela cambaleia até as escadas tomando cuidado para não tropeçar com aquele salto alto que usava, e apoiando-se nas paredes, ela consegue chegar até o andar de baixo da casa. As escadas davam na sala de estar enorme, que continham ainda mais estofados e um conjunto específico de alunos e ex-alunos fumando e bebendo. Louis estava entre eles, e ao vê-la, sinaliza com a mão para que ela se aproxime.

— Essa é a minha namorada, Clara — ele apresenta a garota, que força um sorriso na presença dos alunos perfeitinhos.

— Muito gata — um garoto ruivo sorri brincalhão para ela.

Clara esperou que Louis sentisse ciúmes daquela atitude ou qualquer coisa parecida, mas o mesmo não faz nada além de rir. Devia estar chapado de mais pra ter alguma noção.

— Vou ao banheiro, já volto — o namorado anunciou após oferecer o local onde estava sentado para ela. Os amigos dele soltam um murmúrio de excitação de repende enquanto encaram uns aos outros.

A menina se sentou entre aqueles caras e se encolheu na cadeira ao se deparar com aqueles olhos verdes ridículos que sempre a olhavam com  maldade, o garoto loiro de cabelos nos ombros e sardas estava lá com um sorriso sacana para ela.

— Oi Miller, como vai? — Donnie pergunta na maior cara de pau.

Os outros estranham o fato deles se conhecerem, e em meio a tantas perguntas, Clara apenas questionava o que aquele desgraçado fazia ali.
Buscou ignorá-lo, fixando seus olhos na tela do notebook que ainda não havia notado em cima da mesa de centro, junto com os cinzeiros e as garrafas vazias.

— O que é isso? — aponta na tela o site em cores preto e vermelho.

MCKAMEY HILLS
FIQUE E SUPERE SEUS MAIORES MEDOS

— Um youtuber maluco abriu uma casa de sustos que funciona de graça, o Donnie tá se inscrevendo — o garoto ruivo de antes diz enquanto digita.

Olhou de relance para o citado, e ele ainda a fitava com aquela mesma cara. Percebendo que havia sido mencionado na conversa entre eles, se aproxima do ruivo no sofá.
Clara estava se segurando para não se deixar levar voando no pescoço dele.

— E como funciona?

— Só se increver e aguardar — parou de digitar para olhar ela nos olhos. — Quer tentar?

A garota engole em seco só de se imaginar enfrentando seu maior medo. Faria aquilo, se tivesse uma motivação além da raiva que sentia de sua fraqueza. Seu maior desejo, o único que não poderia ter facilmente: se livrar daquela sensação de seu corpo estar sendo percorrido por insetos de todos os tipos só de pensar na hipótese.

— Clara Miller? Eu duvido muito — Luck apareceu de repente no alcance de sua visão, fazendo parecer que já estava ali há um tempo sem que ela tenha percebido.

Clara abre a boca para respondê-lo mas desiste ao ver como ele estava mil vezes mais bêbado que ela, praticamente caindo ao tropeçar nos próprios pés quando andava pelo recinto.

— Topa fazer uma aposta, Miller?

Cerra os punhos ao ouvir aquela voz novamente.

Pessoas como Donnie Prince não deveriam ser mais do que insignificantes em sua vida. Ela o odiava com todas as forças, estava disposta a matá-lo se encontrasse uma oportunidade, mas, naquele dia, as coisas mudaram um pouco em relação a eles.

Principalmente por que os dois acabaram se inscrevendo para a inauguração da McKamey Hills.

E ambos foram aceitos.

"Vá até o andar de cima. Se seu namoradinho não estiver te traindo com a Anne agora eu desisto da inscrição, mas se estiver, nós dois nos inscrevemos."

Clara achou que fosse uma piada, pois tudo para Donnie parecia ser.
É bem verdade que essa aposta ridícula não significava nada demais, considerando que ela não tinha sentimentos muito menos expectativas em relação a Louis. Ficou surpresa? Sim. Mas a devoção dele sempre pareceu falsa, superficial, artificial, assim como toda beleza vista no rosto de Anne, uma das meninas do seu círculo social.

Louis só podia ter enlouquecido. Ela tem notas péssimas, vive copiando estilo dos outros, inclusive de Clara. Tinha fama de ter dormido com metade do time de futebol, e segundo o que Donnie disse na viagem de carro até o Colorado, ela também havia levado um fora dele. Clara riu daquilo, e tentou imaginar como o deve ter sido para aquela "piranha" ser dispensada pelo capitão do time. Não que Donnie fosse grande coisa. Na verdade ele só tinha uma beleza fraca e um status considerável. O de Clara era bem maior.

Ver aquela cena (seu namorado idiota se pegando com Anne), só a deu a motivação extra que precisava para cometer uma estupidez indo até aquela casa. Estava trêmula da cabeça aos pés só de imaginar o que poderia acontecer com ela ali dentro, mas estava firme em sua consciência que pelo pior já poderia ter passado na infância, e agora o que restava para ela era superar aquele medo que a consumia.

Já com relação a Donnie Prince não sabia de nada. Apenas estava ali com ela, fazendo piadas de tudo e contando histórias de terror para assustá-la antes mesmo de chegarem a Canyon Valley. Não funcionou, claro.

Assim que a porta da mansão se fechou atrás deles, Clara escuta um barulho de vidro de quebrando e um estrondo ao cair de algo do lado de fora. O susto foi tão grande, que Donnie parou de cantarolar uma trilha sonora assustadora e correu até a janela tentando ver algo pelas frestas da madeira.

— O que foi isso? — perguntou com a voz baixa, e o pulso se acelera assim que se aproxima dele.

— Tem um corpo lá fora — disse aparentemente assustado.

Clara aproxima o próprio rosto da janela e consegue enxergar pela fresta alguém inconsciente na grama, envolvido em sangue. Pelo tamanho do cabelo, chutou que era uma mulher. Ficou presa naquela cena, como se a atraísse de maneira descomunal, até que de repente, o corpo é arrastado de forma brusca a assustando outra vez ao ponto de cambalear para trás dando de costas com Donnie.

— O que foi? — o garoto insiste vendo como sua companhia parecia pálida ao afastar-se da janela.

— E-Ela...

Passos no andar de cima interrompem a fala de Clara, porém, Donnie parece não escutar nada e continua olhando para ela esperando por uma resposta.

— Clara.

Ela o ignora olhando ao redor a procura de algo que pudesse usar para se proteger. Não era possível que naquela casa velha não existisse nenhum pedaço de madeira solto a altura de uma arma. Andou pelo local, passando de frente as escadas e reprimindo a curiosidade que a inibia a subir para o andar de cima, onde ouvira passos. Estava tão absorta que entrara na cozinha sem reparar direito no conteúdo na mesa que aguardava por ela e seu companheiro.

— Olha, sanduíches — o mesmo parece se divertir ali, ao contrário dela, e isso a deixa estressada.

Como ele poderia estar sorrindo num lugar que pode morrer?

— Não! — segura a mão dele, o impedindo de encostar no sanduíche. — Tem alguma coisa errada.

Donnie revira os olhos e pega o lanche mesmo assim, como se não fosse nada se deixar ser alimentado num lugar desconhecido caindo aos pedaços.

— Você está exagerando de novo, Miller — fala dando uma bela mordida na comida.

Os olhos de Clara logo pousam no chão ao ver algo caindo do sanduíche naquela direção. Seu corpo trava ao encontrar uma larva viva se contorcendo no mesmo onde acaba de cair. Sente suas costas gelarem com aquela imagem que se criava na sua mente e que passou a ser real quando ela volta a olhar para Donnie.
O sanduíche que ele come agora está recheado de larvas gordas e brancas que se remexendo caem por todos os lados. Na boca dele, no pão, em sua roupa e no chão. Aquilo foi o suficiente para Clara gritar o mais alto que pôde, e Donnie ao ver do que se tratava, deixa o sanduíche cair de suas mãos e se curva cuspindo tudo que mastigou até então.

A garota achou que fosse desmaiar, pois tudo girou e seu berro fez suas têmporas e maxilar doerem. Seu corpo inteiro formigava, e quanto os gritos cessaram, deu passos para trás com os lábios trêmulos enquanto o rapaz abria a torneira da cozinha para lavar a boca.
Entre os milhões de pensamentos que passavam por sua cabeça, o único que se repetia era o fato dela não conseguir sobreviver naquele lugar. Antes achava que seria uma brincadeira leve, e que tudo que dizia no contrato era especulações para atrair pessoas como ela. Mas estava enganada. Ross McKamey não estava ali para brincar de dar sustos. Ele iria ao extremo para que ela enfrentasse seu maior medo, e consequentemente nada estaria no seu controle naquela casa.

Clara quis se afastar o máximo possível daquele lugar onde a visão de Donnie mastigando larvas se repetia, então apressou-se em subir as escadas, um lance após o outro sem ligar para detalhes, sem ligar para os sons macabros que saíam das paredes, e chegou na pequena torre que continha um quarto, no último andar.

Trêmula em desespero, ela verificou se o quarto estava seguro rapidamente e fechou a porta ao entrar.

O lugar era feito de tijolos acinzentados e não tinha reboco nas paredes, fazendo parecer que não fazia parte do resto da casa. Poucas coisas além da cama sem colchão e um pequeno armário se comportavam no cômodo. A iluminação era fraca, pois já era noite e não havia nada além de duas velas acesas no local e a luz da lua entrando pelas vidraças. Se atreveu a olhar lá embaixo, mas não viu o corpo de antes como esperava, apenas uma mancha de sangue na grama seca que a fez recuar da janela.

Um vento gelado passa pelos seus cabelos loiros e apagam as velas que antes iluminavam o quarto mesmo que de forma precária. O acontecido faz Clara se virar de supetão tentando enxergar naquele escuro imenso, que a faz se arrepender de imediato por ter se escondido ali.

— Quem está aí?

Não obteve resposta.
Tudo que consegue ouvir é um estalo de pequenas pedras que caem do teto.

— Quem está...

Interrompe a própria fala ao localizar dois círculos brilhantes e vermelhos que surgem no canto da parede, os dois se dividem em quatro, depois em oito, e quanto se movem até uma parte da parede mais iluminada, o coração de Clara acelera descompassado.

A criatura era humana, pelo menos uma parte dela era. Um homem ruivo com a pele esbranquiçada de tão pálida, antenas, oito olhos vermelhos que brilhavam na penumbra, uma mandíbula que abria e fechava fazendo estalos que lhe arrepiam até os ossos, e um corpo de formiga que Clara teve que piscar algumas vezes para garantir que estava mesmo vendo.

— Clara Miller — a criatura diz com uma voz composta por vários timbres que ecoavam juntos. — Estivemos esperando por você.

A formiga gigante desdeu das paredes e se posicionou no chão de frente para ela, o que faz a menina dar passos para trás sentindo aquele mesmo medo consumir seu escudo sentimental. Logo lágrimas brotam em seus olhos.

— Po-Por favor... Não me machuque — diz com fio de voz.

—  Sinto muito, querida, nós estamos famintos — continuou a se aproximar, e Clara entende o "nós" quando vê que inúmeros insetos diferentes desciam pelas paredes vindo em sua direção.

Gritou, recuou até que suas costas encostassem na janela, e quando ficou quase que sem voz ela implora mais uma vez para que seja lá o que for aquilo a mantenha viva. Mas já era tarde quando viu o que parecia ser uma barata do tamanho de um cão subindo por suas pernas com suas patas finas arranhando sua calça jeans. Aquilo só poderia ser uma ilusão, não pode ser real. — pensou, mas por mais surreal que aquilo parecesse, a ilusão não sumia, tudo parecia mais real do que qualquer coisa.

Precisava de uma saída. Qualquer coisa era melhor do que ser devorada por insetos.

Em desespero, chuta o inseto que voa para longe de suas pernas e dá alguns passos opostos a enorme janela antes de correr e jogar seu corpo contra ela na tentativa de pular. O vidro trinca com o impacto, seu corpo cai no chão, mas ela não consegue quebrar ele ao ponto de conseguir sair dali.

Sentada olhando para frente tem uma última visão do que seria seu pior pesadelo. Vê os insetos se aproximarem e sente quando sobem pelo seu corpo. Sente os dentes e garras cortarem sua pele, e geme aos gritos com isso. Milhares de pequenos insetos se aninharam a ela como se estivessem desesperados por aquilo, sentindo sede de seu sangue e fome da sua carne; entram por seus ouvidos, nariz e boca a sufocando, e em agonia Clara se contorce inteira quando sente as mesmas garras e patas na sua garganta.

Pouco tempo depois a porta se abriria, e um homem movido pela curiosidade encontraria seu corpo no chão do quarto próximo a janela.

Com larvas expostas em orifícios de sua cabeça e um olhar aberto e revirado, exibindo apenas um branco da morte.

Nome: Clara Miller
Maior medo: Inseto

VÍTIMA ELIMINADA

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top