Vinte.


A floresta parecia viva naquela noite, um predador oculto que observava cada movimento dos três fugitivos. O crepitar seco dos galhos sob os pés ecoava no silêncio tenso, amplificando o ritmo irregular de suas respirações. A lua, alta e pálida, filtrava-se timidamente pelas copas das árvores, oferecendo um mínimo de luz enquanto eles avançavam. Adam estava à frente, o corpo tenso, os olhos gélidos varrendo a escuridão com a precisão de um animal caçado que se recusava a ser abatido. Hughie vinha logo atrás, a espingarda firme em mãos, a camisa rasgada e ainda suja de sangue seco. Dixie, no meio, seguia em silêncio, os pensamentos latejando com cada passo.

O medo era um parasita, instalado fundo nos ossos. Dixie sentia a tensão elétrica ao redor deles, a sensação de que algo se movia na periferia, algo que eles não podiam ver, mas que com certeza os observava. Cada som parecia amplificado — o farfalhar das folhas, o suspiro do vento, o ressoar de uma coruja distante.

— Pare. — A voz de Adam era um sussurro firme, mas o suficiente para congelar os dois que o seguiam. Ele ergueu um punho cerrado, a lâmina de sua faca refletindo o brilho fraco da lua. O silêncio ao redor era absoluto, o tipo de silêncio que não era natural.

— O que foi? — Hughie arriscou perguntar, a voz baixa, mas urgente.

— Ouvi passos... Não os nossos. — Adam virou lentamente a cabeça, os olhos fixos em um ponto entre as árvores. Sua respiração era lenta, calculada, como se ele estivesse se preparando para o inevitável. — Eles estão perto.

Dixie sentiu o coração saltar contra o peito, como um tambor frenético. Um suor frio escorria por suas costas, e o cheiro da floresta — terra úmida, folhas secas, umidade — parecia mais intenso, mais sufocante. Seu instinto gritava para correr, mas Adam estava imóvel como uma rocha.

— Mantenham-se atrás de mim. — Ele ordenou, baixo e afiado. A firmeza de sua voz deveria ser reconfortante, mas apenas a enervava mais.

A tensão era insuportável. Um disparo cortou o ar, estridente e ensurdecedor, o som ecoando pelas árvores como o rugido de um trovão. Dixie gritou involuntariamente, seu corpo se abaixando instintivamente. Hughie se jogou ao chão, apontando a espingarda para o vazio enquanto Adam já estava em movimento, ágil como um predador que sabia exatamente o que fazer.

— Corram! — Adam rugiu, sem olhar para trás. — Agora!

A floresta explodiu em caos. Dixie correu, os galhos arranhando sua pele, o chão irregular ameaçando derrubá-la a cada passo. Hughie disparou um tiro cego em direção ao som, sua voz entrecortada gritando instruções para Dixie continuar. Adam, em algum lugar à frente, movia-se como um vulto, desaparecendo e reaparecendo entre as sombras.

Os federais estavam em seus calcanhares, suas vozes ecoando: comandos curtos e profissionais. O brilho de lanternas começou a dançar entre as árvores, se aproximando rapidamente. Dixie sentiu um nó na garganta, a certeza de que, se fossem pegos, não haveria clemência.

— Ali! — Uma voz masculina gritou atrás dela, e Dixie girou instintivamente para ver um feixe de luz se fixar em suas costas. O som de passos se intensificou, e ela sabia que o tempo estava acabando.

Adam surgiu do nada, como uma sombra viva, a faca em punho. Antes que o homem pudesse reagir, Adam o puxou para dentro da escuridão com um movimento brutal. O grito abafado e o som nauseante de carne sendo cortada fizeram Dixie parar por um segundo, o terror congelando seus membros. Mas a voz urgente de Hughie atrás dela a trouxe de volta à realidade.

— Continue! Não pare agora!

A perseguição parecia interminável, cada segundo uma batalha contra o desespero. Dixie tropeçou, caindo sobre as mãos e os joelhos, a terra úmida grudando em sua pele. Quando ergueu os olhos, viu Adam parado à frente, o rosto iluminado pela lua, coberto de vermelho. Ele estava ofegante, mas firme, a faca gotejando um líquido que ela preferia não identificar.

— Siga o córrego. — Ele apontou com a cabeça, os olhos gélidos fixos nela. — Hughie e eu vamos distraí-los.

— Não vou deixar você — ela balbuciou, a voz tremendo.

— Não é escolha sua. — Adam se aproximou, puxando-a pelos ombros. Havia algo nos olhos dele, uma mistura de urgência e um estranho tipo de ternura. — Vá, Dixie. Eu prometo te encontrar.

Antes que ela pudesse protestar, ele a empurrou levemente, mas com firmeza, e virou-se, correndo na direção oposta com Hughie em seu encalço.

Dixie correu, o coração em pedaços e os pulmões em chamas. Cada passo era uma oração para que eles sobrevivessem, para que eles pudessem se encontrar novamente. Mas, no fundo, uma dúvida cruel pairava. Eles conseguiriam sair dessa?

O ar estava denso, carregado de umidade e do cheiro metálico do sangue. Dixie corria em direção ao som de vozes, os galhos se agarrando a suas roupas como dedos que tentavam detê-la. Quando avistou Hughie e Adam à frente, um alívio doloroso inundou seu peito. Ambos estavam vivos, embora desgastados, seus corpos marcados pela fuga e pela violência.

Graças a Deus! — Dixie arfou, parando ao lado de Hughie. Seu primo estava inclinado contra uma árvore, a espingarda apoiada no chão. Adam estava agachado, os olhos atentos, varrendo a escuridão como uma fera enjaulada.

— Está tudo bem? — Adam perguntou, sem tirar os olhos da floresta. Seu tom era tenso, mas havia um traço de preocupação genuína.

— Achei que tinha perdido vocês. — Dixie mal conseguia respirar, o coração ainda martelando em seu peito.

Ainda não. — Adam murmurou, as palavras carregadas de algo sombrio e final. Ele se ergueu, segurando a faca em uma mão e a pistola na outra.

O alívio durou pouco. Um som cortante, metálico, ecoou pela floresta: o destravar de uma arma, seguido de passos pesados. Hughie levantou a espingarda, mas antes que pudesse se preparar, os feixes de lanternas iluminaram a clareira.

Fiquem onde estão! — A voz de um homem reverberou na noite, carregada de autoridade.

Federais.

Merda. — Hughie sussurrou, erguendo as mãos devagar.

Dixie, atrás de mim. Agora. — Adam ordenou, a voz baixa e mortal. Ele recuou ligeiramente, posicionando-se entre ela e as luzes. Seus olhos brilhavam de determinação, e Dixie sabia que ele não ia se render.

O primeiro tiro foi disparado, e o inferno começou.

Adam se moveu como um raio, puxando Dixie para trás de uma árvore enquanto devolvia fogo. A pistola em sua mão rugia, cada disparo certeiro. Hughie caiu ao chão, rolando para evitar o ataque, e disparou um tiro da espingarda que ressoou pela floresta.

Corram! — Adam gritou, mas Dixie não se moveu. Ela sabia que ele não poderia lidar com aquilo sozinho.

Os federais avançaram, disparando incessantemente. Adam mergulhou para o lado, derrubando dois agentes com tiros precisos, mas os números eram esmagadores. A clareira inteira parecia vibrar com o som dos disparos e os gritos de ordens.

Vá, Hughie! — Dixie gritou, tentando empurrar o primo para a segurança. Ele hesitou, o rosto contraído em angústia, mas um olhar de Adam o fez ceder.

Eu volto para buscar vocês! — Hughie correu pela escuridão, a espingarda nas mãos, enquanto Adam e Dixie seguravam a linha de frente.

A luta era desesperadora. Dixie, armada com a pistola que Adam lhe deu, disparava, mas suas mãos tremiam. Adam estava incansável, sua figura sangrenta movendo-se com precisão letal. Ele avançava como uma força da natureza, cada tiro ou golpe de faca abrindo caminho.

Dixie, atrás de você! — Ele gritou novamente, mas desta vez sua voz quebrou.

O som inconfundível de tiros o atingindo ecoou pela clareira. Adam cambaleou para trás, seu corpo absorvendo o impacto de várias balas. Dixie gritou, correndo para ele enquanto ele caía de joelhos.

Adam! Não! — Seu grito foi estridente, cortando o som da batalha.

Ele ergueu a cabeça, os olhos azuis pálidos, fixando-se nela com uma intensidade que a fez parar.

Continue. Não pare, Dixie. Não por mim.

Os federais avançaram. Ela disparou novamente, derrubando um deles, mas não era o suficiente. O som dos passos se aproximando era ensurdecedor, cada respiração um esforço enquanto ela tentava alcançá-lo.

Dixie... — A voz de Adam era um sussurro agora, mas ela o ouviu claramente. Ele tentou levantar, mas o sangue escorria livremente de seu corpo, formando poças escuras na terra.

Eu não vou sem você! — Ela se ajoelhou ao lado dele, puxando-o para seu colo. Seus dedos tremiam enquanto pressionava as mãos contra os ferimentos, tentando estancar o sangue.

Vá. — Ele insistiu, cuspindo sangue. Seus olhos encontraram os dela novamente, brilhando com algo entre arrependimento e amor. — Eles não podem te pegar.

Eu não vou, Adam! — Dixie gritou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela olhou ao redor, buscando uma saída, mas os federais estavam por toda parte.

O som das botas se aproximando sinalizou o fim. Adam fechou os olhos, a respiração se tornando mais fraca.

Eu tentei... proteger você. — Sua voz era quase inaudível, e as palavras ficaram penduradas no ar.

Dixie segurou seu rosto ensanguentado, aproximando-o do dela.

Você ainda pode. Fique comigo. — Dixie implorou, a garganta apertada, as palavras saindo como soluços. Ela pressionava as mãos contra os ferimentos, tentando conter o fluxo incessante de sangue. Mas não havia como parar. Adam estava morrendo, e ela sabia disso.

Ele sorriu, um movimento quase imperceptível, os lábios rachados e tingidos de vermelho.

Vamos jogar o jogo. Só mais uma vez. — O pedido era suave, mas ela o sentiu como uma faca cravando-se em seu peito.

Não... Não agora. Não assim. — As lágrimas escorriam livremente pelo rosto dela, caindo sobre ele, misturando-se ao sangue em sua pele. Ela balançava a cabeça freneticamente, recusando-se a aceitar o que ele estava pedindo.

Adam ergueu a mão tremulante, seus dedos calejados e cobertos de cicatrizes encontrando o rosto dela. Ele traçou seu polegar pelo contorno das sardas no nariz dela, como se estivesse memorizando cada detalhe.

Por favor. Só mais uma vez. — Ele murmurou, a voz entrecortada. — Diga que estamos na cabana. Que está tudo bem.

O peito de Dixie se apertou, como se o ar tivesse sido arrancado do mundo. Ela fechou os olhos, tentando abafar o som dos soluços, mas falhou miseravelmente.

Estamos na cabana. — Ela começou, a voz embargada, cada palavra carregando o peso de um milhão de despedidas. — Estamos na cabana, à beira do lago. O sol está se pondo... E você fez chocolate quente.

Ele sorriu, os lábios tremendo com o esforço.

E há uma criança. Correndo até nós. — Ele completou, o tom sonhador, como se já estivesse se perdendo naquele cenário que nunca seria real.

Menino ou menina? — Dixie perguntou, engasgando, tentando desesperadamente manter a brincadeira.

Clarence. — Ele sussurrou, fechando os olhos por um momento. — Qualquer um. Menino ou menina... É Clarence.

Dixie pressionou a testa contra a dele, seus cabelos entrelaçados, os soluços sacudindo seu corpo inteiro. Ela odiava o quão cruel era essa brincadeira, transformando o que poderia ter sido num último lembrete do que nunca seria.

E o que ele diz? O que ele chama você? — Sua voz era quase inaudível, as lágrimas agora escaldantes.

Adam abriu os olhos, um último lampejo do homem que ela conhecia brilhando ali.

Ele me chama de pai. — A resposta veio como um sussurro, mas para Dixie, era o som mais alto do mundo. Ele respirou fundo, como se quisesse gravar aquele momento em sua alma, mesmo enquanto ela escapava.

Ela segurou o rosto dele, beijando suas bochechas, seus lábios, o espaço entre suas sobrancelhas. — Eu te amo, Adam. Sempre. — Ela disse, esperando que ele a ouvisse, esperando que ele levasse aquelas palavras consigo.

Eu também te amo. — Ele respondeu, tão baixo que ela mal ouviu. Os olhos dele, que pareciam conter toda a dor e beleza do mundo, encontraram os dela uma última vez.

Adam suspirou, seu peito erguendo-se com um esforço tremendo antes de descer pela última vez. O brilho em seus olhos se apagou, deixando apenas o vazio.

Adam? — Dixie chamou, sacudindo-o levemente. Mas ele não respondeu. Ele estava imóvel, pesado em seus braços. O mundo ao redor parecia congelar, o tempo parando enquanto ela encarava a verdade insuportável.

Ele se foi.

Ela gritou, um som visceral que ecoou pela floresta, assustando pássaros das árvores e enchendo o espaço com sua dor. Dixie abraçou o corpo dele com força, como se pudesse puxá-lo de volta, mas sabia que não podia.

Adam, o homem que a amava e a assombrava, o monstro e o salvador, havia partido. E com ele, parte dela também.

O som de passos quebrou o silêncio, hesitantes e carregados de um peso emocional. Hughie apareceu, o rosto pálido e os olhos arregalados, parando a poucos metros dela. Ele entendeu imediatamente. Não era preciso palavras.

Dixie... Precisamos ir. — A voz dele era baixa, como se não quisesse perturbar a solenidade do momento, mas carregava a urgência de alguém ciente do perigo que os cercava.

Eu não posso. Não posso deixá-lo aqui. — A voz de Dixie era um sussurro quebrado, o olhar fixo no rosto de Adam, que parecia em paz, apesar do caos que sua morte havia deixado para trás.

Hughie respirou fundo, abaixando-se até ficar ao nível dela. Ele colocou a mão em seu ombro com firmeza, o toque quente e reconfortante.

Hughie respirou fundo, a dor em seus olhos refletindo a dela. — Dixie, ele não ia querer que você fosse pega. Temos que sobreviver, por ele.

Antes que ela pudesse responder, um som distante cortou o silêncio — o latido de cães, abafado mas inconfundível. Dixie congelou, o coração disparando enquanto Hughie xingava baixinho.

Estão vindo. — Ele se levantou, pegando o rifle de Adam e puxando Dixie para os pés. Vamos. Agora.

O som dos latidos ficava mais alto, mais perto, seguido por vozes. Faiscavam lanternas entre as árvores como espectros ameaçadores, dançando no limite da visão.

Dixie tropeçou em uma raiz ao se levantar, quase caindo, mas Hughie a segurou, puxando-a de volta. — Fique comigo! Vamos, Dixie.

Eu não posso! — Ela soluçou, lutando para respirar. — Eu não consigo fazer isso sem ele.

Consegue, sim! Porque você tem que conseguir! — Hughie a empurrou suavemente, forçando-a a continuar.

Eles não chegaram a sair de onde estavam. As luzes os encontraram primeiro, cegando-os com um brilho cruel. Depois vieram as vozes, ríspidas e autoritárias, ecoando na floresta.

MÃOS AO ALTO! NÃO TENTEM RESISTIR!

Hughie parou, o rifle ainda em suas mãos. Ele olhou para Dixie, o rosto endurecido pela resignação.

Hughie, não... — Dixie começou, mas ele já estava se movendo.

Eles vão nos matar se eu não fizer algo. — Ele sussurrou, antes de erguer o rifle, os olhos ferozes enquanto olhava para os homens uniformizados que os cercavam.

SOLTE A ARMA AGORA!

Hughie hesitou, mas apenas por um segundo. Ele jogou o rifle no chão, erguendo as mãos lentamente. Dixie fez o mesmo, os olhos marejados enquanto os agentes avançavam com armas apontadas.

Estamos desarmados! Não atirem! — Hughie gritou, a voz carregada de frustração.

Os agentes os agarraram com força, derrubando-os ao chão. Dixie gemeu de dor quando foi empurrada contra a terra úmida, as mãos sendo amarradas atrás das costas. Hughie estava em silêncio, mas o olhar em seus olhos falava volumes: ódio, impotência, e um desejo ardente de vingança.

Um agente passou por eles, iluminando com a lanterna o corpo de Adam, ainda na grama.

Merda... É ele. — O agente murmurou. A caçada acabou.

Dixie gritou, tentando se debater contra as amarras. — NÃO! NÃO TOQUEM NELE!

Cala a boca! — Um dos agentes latiu, empurrando sua cabeça contra o chão.

Era isso, eles seriam presos e estava acabado. Mas, nada importava.

Adam havia partido para sempre.

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