I.

Acordou com a sensação de algo apertando seu corpo. Ao abrir os olhos, o teto de madeira rústica da cabana a recebeu. O ar estava pesado e abafado, como se a floresta lá fora sufocasse o espaço ao redor. As cordas nos pulsos e tornozelos moviam-se levemente a cada respiração, um lembrete silencioso de sua prisão. Ela tentou puxar as mãos, mas o movimento foi inútil, provocando apenas um pequeno gemido de frustração.

— Não vai adiantar. — Uma voz grave irrompeu o silêncio, fazendo seu coração disparar.

Ele estava ali, na sombra, um predador à espreita. Os olhos eram obscuros, impenetráveis, mas havia algo mais em sua postura — uma confiança implacável que gelou sua espinha. Não era só medo que a consumia, mas também a intuição inquietante de que seu fim estava próximo.

— Por que ainda estou viva? — A pergunta saiu num sussurro rouco e tremido, revelando a fragilidade de sua situação.

Um silêncio pesado tomou conta do ambiente, grudando em sua pele e tornando o espaço ainda mais claustrofóbico. Dixie observou-o dar um passo à frente, o peso das botas ressoando no piso de madeira como um prenúncio de tormento.

— Ainda não decidi. — Ele murmurou, a voz cortante como a lâmina que afiava distraidamente numa pedra.

Com a cabeça girando, Dixie forçou-se a sentar, sentindo cada músculo reclamar o esforço. Os pulsos latejavam sob as cordas apertadas, e os tornozelos não estavam em melhor estado. Ainda assim, conseguiu girar o corpo e deixar os pés atados caírem para fora da cama velha, que rangeu sob seu peso. O som ecoou no silêncio opressor da cabana, intensificando sua sensação de isolamento. Tudo ao redor parecia surreal, como um pesadelo interminável.

— Minhas amigas... — murmurou, a voz rouca e fraca, tentando agarrar um fio de realidade em meio à confusão em sua mente.

O homem permaneceu imóvel por um momento antes de responder com frieza absoluta:

— Elas não estão na lista.

A frase pairou no ar. Lista?

— E eu estou? — A pergunta passou por sua mente, mas não teve coragem de pronunciá-la.

Ele se levantou. A luz que escapava pelas frestas das tábuas nas janelas finalmente iluminou seu rosto, revelando uma máscara negra e vazia. Não havia lábios, apenas aberturas para os olhos. Agora, com mais clareza, percebeu o que tanto a incomodava em seu olhar: eram cinzentos como gelo, frios, inexpressivos. Ele manteve o olhar fixo nela por alguns segundos enquanto espetava a faca distraidamente contra o dedão, testando o fio da lâmina.

Dixie engoliu em seco, o coração martelando no peito.

Sem dizer mais nada, ele se virou e caminhou em direção à porta. As botas pesadas faziam o assoalho ranger a cada passo, o som ecoando como uma sentença de condenação. A ex-líder de torcida observava, o medo pulsando sob a pele, enquanto a dúvida queimava em sua mente.

— Espera! — A voz dela soou quase desesperada, rompendo o silêncio. — O que eu fiz? Por que estou aqui?

Ele parou, a mão já na maçaneta da porta. A postura imponente quase encostava no batente envelhecido. Virou-se o suficiente para lançar um olhar por cima do ombro, mas não respondeu.

Sem mais uma palavra, o homem fechou a porta. O estalo seco da fechadura soou como uma sentença, e Dixie ouviu o som metálico das chaves, cada clique reverberando em sua mente.

Ela estava trancada. Na escuridão. Sozinha.

As horas passavam arrastadas no quarto escuro. O silêncio era denso, e o ar parecia parado. Dixie sentia o estômago se contorcer, reclamando por comida, e a garganta seca latejava pedindo água. O cheiro de mofo e madeira podre preenchia suas narinas, intensificando sua sensação de desamparo. Os pulsos estavam em carne viva, as cordas apertando cada vez mais a pele enquanto ela tentava se movimentar, mas a dor logo a fazia desistir.

Ela havia perdido a noção do tempo. A escuridão era total, e seus olhos já não se adaptavam. Cada som, por menor que fosse, parecia amplificado, tornando-se insuportavelmente presente. Ratos — pelo menos era o que imaginava — moviam-se no canto, roendo algo ou talvez apenas se aproximando, atraídos pelo cheiro de suor e sangue.

O coração de Dixie batia mais rápido a cada ruído, a cada leve arrastar de patas contra o chão de madeira. Ela ouvia os guinchos baixos, distantes, como se algo estivesse se aproximando lentamente. A ideia de ser devorada viva por pequenos roedores a fazia morder os lábios até sentir o gosto de ferro.

— Alguém me tira daqui! — A voz saiu em um grito áspero, ecoando na cabana vazia. Ninguém respondeu, e o silêncio que se seguiu foi ainda mais sufocante.

O desespero começou a subir, uma sensação claustrofóbica tomando conta de sua mente. Ela estava presa. Sem comida. Sem água. Seus olhos varreram a escuridão, procurando uma saída, qualquer coisa que pudesse usar para se libertar, mas tudo que viu foi a sombra esmagadora do espaço à sua volta.

E então, outra vez o som — mais próximo agora. Um guincho fino e agudo, seguido de um roçar frenético. Os ratos estavam se aproximando. Seu corpo gelou ao sentir algo roçar contra seu tornozelo amarrado. Ela deu um chute, mas com as pernas presas, foi um movimento patético, mal afastando a criatura.

— Sai daqui! — Sua voz se partiu, mais rouca, cheia de pavor.

O som continuava, roçando, guinchando, como se dezenas deles estivessem se reunindo ao redor dela, prontos para atacar. As lágrimas vieram sem que ela percebesse, escorrendo pelo rosto sujo e misturando-se com a sujeira que já cobria sua pele.

O ar se tornava irrespirável, o desespero sufocando cada pensamento coerente. Ela puxava as cordas com mais força agora, ignorando a dor que subia pelos braços, ignorando o sangue que escorria em finos filetes.

— Por favor... — O sussurro escapou, quase inaudível, entre soluços contidos. Não queria morrer ali, sozinha, em um lugar esquecido no meio da floresta, devorada por ratos enquanto aquele homem... aquele homem...

A porta se abriu num solavanco, e a luz pálida do corredor invadiu o quarto, dissipando as sombras e os ratos que se esgueiravam pelos cantos. Dixie encolheu-se automaticamente, o coração batendo tão forte que ela mal conseguia ouvir os próprios pensamentos. O homem mascarado entrou lentamente, os olhos cinzentos sob a máscara observando cada movimento dela.

— Danadinhos... — murmurou com uma risada sombria, quase casual, como se fizesse uma piada. — Queriam devorar você antes de mim.

Havia um humor cruel em sua voz, algo tão distorcido que fez o estômago de Dixie revirar. O medo a atingiu com tanta força que por um segundo pensou que fosse se urinar ali mesmo. As pernas tremiam, e os olhos se arregalaram quando ela viu o brilho da lâmina que ele carregava. Nas mãos dele, uma bandeja de madeira, rude, como se tivesse sido entalhada por alguém sem pressa, com um pão escuro de centeio e um copo de água.

Ele deu alguns passos à frente, a faca apontada na direção dela, como uma ameaça constante. Dixie se mexeu, tentando se afastar, o desespero transbordando quando ela começou a se debater contra as cordas. O grito saiu de sua garganta antes que pudesse segurar, um som agudo e irreprimível.

Com uma frieza perturbadora, ele segurou seus pulsos com uma mão, a força dele a imobilizando sem esforço. A faca brilhou brevemente no ar antes de cortar as cordas que a prendiam. O estalar das fibras foi um som seco, contrastando com o batimento frenético de seu coração. Dixie respirou fundo, mas não houve alívio.

Ele colocou a bandeja nos joelhos dela, a madeira áspera raspando contra sua pele suja e marcada. Quando ele se levantou para sair, Dixie entrou em pânico. Ela não podia ficar sozinha naquele quarto de novo.

— Por favor, não me deixe aqui! — A súplica escapou com urgência, misturada com o medo descontrolado. — Eles vão me devorar. Os ratos... vão me comer viva.

Ele parou na porta, uma risada seca escapando de sua garganta. Sem se virar completamente, ele falou com uma calma aterradora:

— Não se preocupe — disse ele, a voz carregada com um cinismo gélido. — Eles são bem alimentados. Mas são curiosos. Além do mais... — Ele a encarou de relance, os olhos cinzas como gelo cravados nela. — Eles não comem carne podre.

E então, a porta se fechou com um baque, deixando Dixie sozinha mais uma vez na escuridão opressora.

Dixie observou a bandeja em seu colo, o pedaço de pão quase intacto, mas a fome latejava em seu estômago de forma insuportável. Com mãos trêmulas, ela rasgou o pão de centeio em pedaços menores, mastigando com dificuldade. A água parecia um alívio temporário para sua garganta seca, mas o gosto amargo da situação fazia com que tudo descesse como um peso.

Quando terminou de comer, os farelos se espalhavam pelos dedos e pela superfície da cama. Ela olhou para o chão, a mente dominada por um misto de desespero e sobrevivência. Com cautela, ela deslizou a bandeja para debaixo da cama, os farelos de pão intencionalmente deixados ali, uma armadilha improvisada para os ratos que a aterrorizavam. Talvez eles se distraíssem com aquilo e a deixassem em paz, nem que fosse por algumas horas.

Com as mãos agora livres, Dixie se enroscou na cama, os joelhos puxados contra o peito enquanto o choro começava a borbulhar, copioso, mas silencioso. Seu rosto afundou no lençol áspero, sujo, e cheio de manchas que ela não queria decifrar. As lágrimas encharcaram o tecido, mas não havia conforto ali, apenas uma miséria palpável, esmagando-a mais a cada soluço abafado. Seu corpo tremia, exausto, a mente vagando entre o medo e a exaustão pura.

Não se deu conta de quando o cansaço a venceu. Os olhos arderam até se fecharem por completo, e o terror foi substituído por um sono inquieto. Só percebeu que havia dormido quando os primeiros raios de sol começaram a penetrar no quarto pelas frestas das tábuas das janelas, uma luz fraca, quase fantasmagórica.

Acordou com o corpo rígido, a boca seca e a bexiga cheia, um desconforto que aumentava a sensação de desespero. Mas não se permitiria urinar ali. Não se humilharia a esse ponto, mesmo naquela situação.

— Olá? — A voz saiu arranhada, mais fraca do que esperava. Ela engoliu seco, tentando fazer o som sair mais alto. — Tem alguém aí?

O silêncio respondeu de volta, opressor, o som dos próprios batimentos cardíacos ecoando em seus ouvidos.

Dixie repetiu a pergunta, sua voz agora mais alta, quase um grito de desespero. O eco ressoou pelas paredes, mas logo o som de passos interrompeu sua tentativa de chamar por ajuda. Corações acelerados, ela silenciou, a expectativa cortando o ar pesado do quarto.

Os passos se aproximaram, e então ela conseguiu vislumbrar as botas dele através do vão sob a porta. Pesadas, sujas de lama, como se ele tivesse atravessado todo o pântano para chegar até ali. O coração dela disparou quando a porta se abriu com um rangido. Um susto percorreu seu corpo ao notar que ele segurava uma corda, nas extremidades dela dois faisões mortos balançavam levemente, recém-caçados, pingando sangue no chão.

A visão a fez enjoar. A repulsa a invadiu, uma memória antiga surgindo: seu pai se gabando dos troféus que trazia das caçadas, forçando-a a acompanhá-lo em viagens pela floresta. Quando ele a obrigou a atirar em um cervo, um terror a tomou, e a partir daquele dia, eles não se falaram mais.

— O que você quer? — Ele perguntou, a voz dele a arrancando dos pensamentos.

Dixie reuniu coragem, um último fio de dignidade. — Preciso ir ao banheiro.

Ele hesitou por um momento, como se ponderasse a resposta, antes de caminhar até ela. Com brutalidade, desamarrou seus pés, ignorando os tornozelos machucados que pulsavam em dor. Dixie soltou um gemido, mas não foi nada comparado ao terror que tomou conta quando ele agarrou seus cabelos, arrastando-a para fora.

Ela se debateu, lutando, sacudindo. O desespero a fez gritar mais alto. Ele chutou uma porta sem avisar e a lançou para dentro. 

Dixie caiu sentada, o quadril atingindo o chão com um impacto doloroso. Arfando, olhou ao redor, o banheiro era tão velho quanto a cabana. Baratas caminhavam pelas paredes, fazendo seu estômago se contorcer. Nos cantos do piso de madeira podre, a infiltração havia criado um verdadeiro jardim suspenso, a umidade acumulada refletindo o abandono do lugar.

O teto estava quebrado, onde havia um chuveiro - que nada mais era do que um cano saindo da parede - e através da abertura, ela podia ver o céu azul, uma visão tão nostálgica quanto dolorosa. Um misto de raiva e impotência se acumulava dentro dela, mas não havia espaço para revolta agora.

Dixie fez o que podia para usar o banheiro com o mínimo de dignidade. A repulsa a consumia enquanto ela se abaixava para o vaso imundo, o cheiro era insuportável, mas a necessidade era urgente. Assim que terminou, ela se aproximou da pia.

A água que escorria era turva e cheia de impurezas, mas a sede a dominava. Ela lavou o rosto, bebendo pequenas quantidades da fonte imunda, a necessidade sobrepondo sua aversão. Cada gota que deslizava por seus lábios era um sacrifício, um teste para o estômago já repleto de angústia.
Então, golpes rudes e violentos atingiram a porta. O barulho reverberou pelo banheiro como um trovão, fazendo-a se encolher. A voz dele soou, carregada de irritação. — Por que está demorando tanto?

Dixie cuspiu o que ainda tinha na boca, a pressão do medo fazendo seu coração disparar. — Eu estava com sede, desculpa. A frase saiu apressada, quase como uma súplica. Com um tremor nas mãos, ela abriu a porta, e o homem entrou.

Ele era uma presença massiva, quase grotesca em sua imensidão, eclipsando-a por completo. Seus cabelos negros, lisos de um jeito oleoso e sujo, caíam sobre a máscara, emaranhando-se com o capuz do moletom preto, que estava imundo e coberto de terra, folhas e suor, além de inúmeras manchas secas e amarronzadas de sangue.

— O que está olhando? — Ele perguntou, a voz um sussurro ameaçador, enquanto agarrava a garganta dela, forçando-a a olhar para cima.

Dixie sentiu o aperto, o desespero crescendo. Com dificuldade, conseguiu articular algumas palavras. O medo a fez hesitar.

— Nada... apenas... você. — Sua voz saiu quase inaudível, sufocada pela mão firme. O olhar dela vagou pelo chão, pela sujeira, e pelo poder esmagador que ele exercia sobre ela naquele momento.

As paredes do banheiro pareciam se fechar ao redor de Dixie, a claustrofobia e o terror a engolindo.

Ele a ergueu com uma força desumana, deixando apenas as pontas dos pés de Dixie tocando o chão. A pressão na garganta fez seu rosto ruborizar, a falta de oxigênio a envolveu como um manto sufocante. — Eu pareço engraçado pra você? Ele questionou, a voz carregada de uma ameaça quase palpável, mas ela não conseguiu formular uma resposta. As lágrimas escorriam, quentes e involuntárias, sem que ela pudesse contê-las.

Com um movimento brusco, ele a soltou, e ela tombou no assoalho, o impacto fazendo a castanha se sentir tão pequena e vulnerável. — Está na hora de voltar para o quarto. As palavras dele ecoaram em sua mente como um sinistro aviso, e um desespero paralisante a dominou. — Não! — ela implorou, sua voz uma mistura de medo e desespero.

A resposta dele foi rápida e cruel. Ele segurou seu cabelo com força, os cachos enrolando-se em volta do braço dele enquanto a puxava para perto, a máscara se aproximando perigosamente do seu rosto. A proximidade a deixou em choque. Tão perto, que ela viu com clareza aqueles olhos cinzas, frios como gelo, e sentiu o peso do seu olhar, uma mistura de desprezo e controle. Era como se ele estivesse olhando para dentro dela, desnudando suas fraquezas e medos mais profundos.

Um turbilhão de emoções a envolveu: medo, raiva, e uma profunda sensação de impotência. A parte racional de sua mente lutava para entender, mas as emoções cruas a dominavam. Ela queria gritar, queria fugir, mas a única coisa que saiu foi um sussurro quase inaudível. O que ele queria dela? Por que estava ali? O pensamento de ser apenas mais uma presa em suas mãos a fez sentir um nó na garganta.

— Não é como se você tivesse escolha. — Ele cuspiu as palavras entre os dentes, cada sílaba uma faca cravada em sua sanidade. Sem dar espaço para resistência, ele começou a arrastá-la de volta para fora do banheiro, cada passo um lembrete cruel da sua nova realidade, o corredor se estendendo como um labirinto de desespero à frente dela.

Assim que a porta se fechou com um baque seco, Dixie se viu novamente imersa na escuridão sufocante do quarto. O ar pesado e viciado, misturado ao cheiro de mofo e suor, parecia apertar sua garganta. Ela tateou o chão com as mãos, tentando ignorar as texturas viscosas e ásperas que seus dedos encontravam. O que quer que fosse aquilo que tocava, ela não queria saber. Ao encontrar a cama, se arrastou para debaixo das cobertas imundas, como se aquilo pudesse lhe dar algum conforto, mesmo sabendo que não era verdade. O cheiro de sua própria imundície agora a nauseava.

O tempo no quarto era uma ilusão. A luz pálida que vazava pelas frestas das tábuas da janela não lhe dava noção alguma se era dia ou noite. Ela imaginava que mais de um dia já havia passado, mas não tinha como saber. Quando a fome voltou a apertar o estômago, ela soube que não se passara tanto tempo assim. O silêncio era quebrado apenas pelos sons constantes dos ratos, suas patinhas roçando o chão, os pequenos chiados ecoando pelas sombras como uma sinfonia de desespero.
Foi quando Dixie percebeu o par de olhinhos brilhantes próximo à cama. A princípio, ela se sacudiu, tentando espantar o roedor, mas ele continuou, seu focinho farejando algo no chão.

Seguindo o olhar do animal, ela viu uma grande migalha de pão perto de seu dedão. Com uma estranha curiosidade, ela se inclinou, pegou o pedaço de pão e o estendeu para o rato. Ele hesitou por um momento, esquivo, e correu de volta para a escuridão. Dixie permaneceu curvada, imóvel, o braço estendido como uma oferta de paz, até que, lentamente, os olhos do rato reapareceram, desta vez mais perto. Os bigodes dele roçaram sua mão, enviando um arrepio pela espinha dela.

Ela sentiu o medo crescer em seu peito, mas o reprimiu com força. Era melhor ser amiga dos ratos do que ser comida por eles. — Não tem medo da escuridão, né? — murmurou baixinho, mais para si do que para o animal. A voz dela soava quebradiça, mas de algum modo, conversar com o rato fazia o tempo ali dentro parecer menos insuportável. — Ou dessa casa... ou daquele homem...

A porta abriu com um estrondo. Dixie se encolheu instintivamente. O mascarado entrou, o som pesado das botas ecoando no chão. Ele carregava a mesma bandeja de madeira, agora com uma cumbuca e uma colher, ambos também de madeira. O cheiro do cozido invadiu o quarto, uma mistura de ervas, cogumelos e algo que ela reconheceu como carne de faisão, provavelmente daqueles que ele trouxera mais cedo. Ou fora ontem? O tempo estava tão confuso.

No susto, o rato agarrou a migalha que Dixie segurava. Seus dentes pequenos e afiados arranharam sua mão enquanto ele corria para longe. Ela xingou em voz baixa, segurando a mão ferida. O mascarado a observava com seus olhos impassíveis, um poço de escuridão sob a máscara. Ele caminhou até ela, colocou a bandeja aos pés da cama e, sem dizer uma palavra, pegou um banquinho de madeira de um canto do quarto e sentou-se frente a ela.

Com uma brutalidade silenciosa, ele agarrou a mão dela, forçando-a a mostrar o ferimento. Seus dedos ásperos apertavam sua pele com força. Sem qualquer cuidado, ele puxou um pequeno frasco do casaco e, com um estalo da rolha, despejou o líquido direto na ferida. A dor foi imediata, queimando como fogo vivo. Ela cerrou os olhos, reprimindo um grito, e o cheiro de álcool preencheu suas narinas. Era o mesmo whisky barato que seu pai costumava beber.

Ele enrolou um trapo sujo ao redor da palma dela, apertando-o com um nó firme. Dixie mal conseguia respirar. — Por quê? — ela balbuciou, a voz fraca e hesitante. Ele não respondeu. Pegou a cumbuca de novo, desta vez com uma colher cheia, e estendeu para ela.

O cheiro era bom, quase tentador, mas ela sabia que comer seria como se render. Então, cerrou os lábios e virou o rosto, recusando-se. Ele insistiu uma vez mais, os olhos frios fixos nela, mas quando ela continuou a resistir, ele explodiu. A cumbuca voou de suas mãos, espatifando-se na parede. O cozido se espalhou pelo chão, e os ratos, como sombras famintas, correram em todas as direções para pegar os pedaços.

Dixie se encolheu, o coração batendo acelerado. O mascarado se levantou abruptamente, os músculos tensos sob a roupa suja de sangue e terra.

— Você é patética. — Ele rosnou, a voz carregada de desprezo.

— MAS, EU NÃO FIZ NADA! — Dixie gritou, sua voz ecoando pelo quarto pequeno e abafado. O medo a fazia tremer, mas a frustração e a raiva também estavam presentes, misturadas como um veneno em suas veias. — POR QUE VOCÊ ME TROUXE AQUI? — Sua pergunta foi quase um apelo desesperado, mas sabia que não havia resposta.

O mascarado a observou por um momento, seus olhos frios e impenetráveis. Quando falou, sua voz era baixa e ameaçadora.

— Não vai demorar muito — ele disse, cada palavra carregada de uma calma assustadora. — Vou fazer você lembrar. E se lembrar... você vive.

Dixie sentiu o coração acelerar. Lembrar? Lembrar do quê? Sua mente era um caos de imagens e sensações, mas nada fazia sentido. Não havia nada que ela pudesse lembrar.

— Lembrar do quê? — Ela perguntou, tentando desesperadamente encontrar alguma resposta, algo que explicasse por que estava ali, por que esse homem a mantinha prisioneira.

Ele riu. O som foi frio, inumano, abafado pela máscara que cobria seu rosto. Não era uma risada de humor, mas de desprezo, quase um prenúncio do que estava por vir.

— Não se preocupe — ele disse, inclinando a cabeça ligeiramente, o olhar sempre fixo nela. — Nenhum de vocês lembrou até hoje.

Ele deu um passo em direção à porta, sua mão já no trinco. Dixie ficou paralisada, tentando processar o que ele acabara de dizer. Nenhum de vocês? O que isso significava?

Quando ele parou de costas para ela, por um breve momento, houve um silêncio sufocante antes que ele completasse, sem olhar para trás.

— Na verdade, isso deveria sim te preocupar.

Com um estalo seco, a porta se fechou. O som ecoou pela escuridão do quarto, deixando Dixie sozinha mais uma vez. O frio do lugar parecia mais intenso agora, e o vazio dentro dela crescia, faminta, assustada e cada vez mais perdida. O peso daquelas palavras reverberava em sua mente. "Nenhum de vocês..."

O que ele estava tentando fazer ela lembrar? E mais importante, o que aconteceria se ela falhasse?

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