9:[Bem vindo a casa ]
ARIEL MURPHY
"Bem-vindo à minha casa."
O relógio marcava as 6:17 da tarde. O Sol já não se fazia presente, deixando para trás um rastro de tons azulados, roxos e vermelhos nas nuvens um pouco carregadas, que aim libertavam pequenas gotas de água. Pus a chave na porta de madeira e velha e, a tremer, rodeia-a. Esperei um pouco antes de abrir a porta, ainda não acreditando que o tinha trazido para a boca do lobo.
O que raio tinha eu na cabeça para o trazer aqui?
Sem retorno, abri a porta, revelando o interior da minha residência. Mal pus os pés no tapete sujo e velho da entrada da minha casa, senti-me desconfortável e agoniado. Ainda cheirava tanto a cerveja como na semana passa. Tera olhou para o teto branco e cheio de mofo da entrada, deixando-me mais humilhado ainda.
"O teu pai não está em casa?" Encaminhei-nos, com pressa, para a conzinha.
"Aparentemente, não." E ainda bem. Vi-o a tirar o casaco verde acinzentado e pô-lo na cadeira, ao lado da sua mochila da Adidas. Ele sorriu para mim e pôs as mãos na zona abdominal. "Não sei a que horas ele chega."
"Okay."
Ele dirigiu-se às parteleiras da cozinha e ao frígorifico. "Podemos comer? Estou com fome."
"Não!" Arrependi-me de ter elevado a minha voz. Caminhei até à porta do frigorífico e enconstei-me a ela. "Ele não gosta que eu mexa na comida enquanto ele está fora." Tera inclinou a cabeça e levantou as sobrancelhas, confuso. "Hábitos dele." Cocei a nuca, tentando formular uma desculpa melhor, mas nada me ocorria à mente. "Podemos ir para o meu quarto, se quiseres." Aproximei-me um pouco mais dele- deixando para trás dezenas de garrafas de cerveja que estavam dentro do frigorífico- e encostei-me nas costas da mesma cadeira onde ele pôs o casaco.
"Sim, sim, pode ser."
Logo depois de pegar as nossas malas, Tera começou a seguir-me pelas escadas e pelo corredor rico em mobília pobre e a cair em pedaços. Senti-me humilhado por lhe mostrar o quão desfavorecido eu era comparado com o resto dos Omegas. O papel de parede creme estava a cair em bocados e o chão precisava de ser lavado. Mordi o lábio para não encher o Tera de desculpas mentirosas na tentativa de explicar o porquê da minha casa estar assim.
Tirei a chave do meu pescoço e destranquei o meu quarto.
Aquele compartimento era o único que estava devidamente limpo e arrumado. Quando liguei as luzes fracas e brancas, vi que o meu quarto estava da mesma maneira que o deixara: cama feita, armário fechado, os móveis limpos e os cadernos pessoas escondidos debaixo da cama.
Deixei-o entrar primeiro, trancando logo em seguida a porta por detrás de mim. Sentei-me no colchão da minha cama e pedi silenciosamente que ele se sentasse do meu lado.
"O teu quarto é mais arrumado que o meu." Disse enquanto caminhava para o meu lado. Olhei para os nossos pés calçados. Os meus não chegavam ao chão como os dele. Ele deve calçar o trinta e nove ou o quarenta, os pés dele são enormes.
"Porque é que fizeste tanto drama por eu vir cá, Ariel?" Quebrou o silêncio. O seu tom de voz era cuidado e baixo. Persumi que ele tinha percebido que, quando falamos sobre a minha família, eu fico tenso e desajeitado- um gesto que demonstra que a pessoa está a mentir ou tentar esconder algo-. "Nem é assim tão mau eu estar aqui, ou é?"
"Não, claro que não."
"É por causa...do estado da tua casa?" Ele tentou ser o mais cuidadoso possível. Tentava não me magoar com a escolha das suas palavras, o que não estava a acontecer. Eu não me importava com o estado da casa, porque para mim, esta casa não me diz nada, porém, ao mostrá-la a alguém sinto-me humilhado e rebaixado.
"Não, de todo."
"Então?"
"E-Eu não quero falar sobre isso, Tera, desculpa."
Vi as suas feições tornarem-se culpadas pela minha resposta. Ele devia estar a sentir-se culpado por ter entrado num assunto tão delicado, mesmo sem saber, contudo, a culpa não era dele.
"Não, não, eu que tenho de me desculpar." Ajeitou-se mais no seu aposento e mordeu o lábio inferior. "Vou buscar o meu computador."
Havia muita tensão no ar naquele momento.
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑
Porém ela foi desaparecendo à medida que a música escolhida pelo Tera era tocada.
"Minha Lua, Tera, para!"
Ele estava em cima de mim, prendia-me os membros superiores só com uma mão e os inferiores com as pernas. Não me conseguia debater contra a sua mão livre que fazia cocegas por todo o meu corpo. As descargas elétricas e nervosas faziam risos ecoarem pelo quarto todo, tanto meus como dele. Eu já chorava de tanto rir e ele continuava com o sorriso vitorioso e marcante no rosto.
"Tera, t-temo--Haha- de continuar o trabalho! Haha! Para!" Passou os dedos mexidos pela minha cintura, por debaixo de toda a minha roupa. Eu, naquele momento, não me preocupei com as minhas feridas e cicatrizes, porque, naquele momento, eu sentia-me um adolescente normal.
"Qual trabalho, ruivo?" Riu-se também e ajeitou-se mais em cima de mim. Corei quando senti os seus quadris em cima da sua barriga, mesmo que ele não deixasse todo o seu peso bruto em cima do meu físico. "Eu não sei de que trabalho estás a falar." Fez-se de desentendido.
Contudo, eu parei de rir quando ouvi a porta de casa embater contra as dobradiças com força.
O pai chegou.
"Tera, para, para, para!" Tentei sair do seu apego da maneira menos bruta possível. Ele pareceu entender a minha mudança de espírito, pois foi diminuindo os seus gestos. "Tha mi cho sgrìobach..."
"O quê?"
"O meu pai chegou, Tera!" Sussurrei, tentando não demonstrar o quão desesperado eu estava.
"E isso significa que eu tenho que ir embora?"
Não, não, claro que não. Minha Lua, Tera, se me deixas sozinho com ele, eu morro. "Não! É que eu ainda não disse ao meu pai que estás cá." Escondi a verdade.
"Ariel, anda cá abaixo, já!"
Pai, por favor, finge ser um pai normal uma vez na vida. Eu não quero que o Tera descubra que eu tenho um pai louco, sádico, bêbado, violento em casa. Não quero sentir-me humilhado...
"J-Já vou!"
Levantei-me rapidamente da cama, deixando um Tera Marshall confuso pela minha velocidade no meu quarto. Mesmo que eu tenho pedido mutamente para que ele ficasse ali, longe da verdade, Tera pareceu não entender nada do que eu disse.
No ritmo em que descíamos as escadas rangentes, o cheiro do meu pai alcoolizado do meu pai fazia-se cada vez mais presente. A sua confusão e irritação estava mais intensificada, o que me fazia tremer nas mãos. Olhei para o Tera mais uma vez, para que, de alguma forma, eu consiga ganhar coragem de abrir a porta da cozinha e desafiar as regras do meu pai.
Por favor que ele não esteja muito bêbado.
"O...olá, pai." A minha voz saiu mais arrastada e fraca do que aquilo que queria. Ele virou-se na nossa direção, e, instintamente, o seu olhar fixou-se no rapaz atrás de mim. "Como corr—"
"Quem é esse?"
"Este...Este é o Tera Marshall, um amigo meu e colega de um trabalho escolar." Aproximei-me um pouco mais dele. "Tera Marshall, este é o meu pai, Elijah Murphy."
Em tão poucos segundos, homem à minha frente recompôs-se e mudou completamente o seu estado-espírito.
"Boa tarde, Sr. Murphy." Tera estendeu a sua mão, um ato de cumprimento inocente.
"Boa tarde, Tera." Até a sua voz demoníaca e louca tinha se tornado terna e suave. "Bem-vindo à minha casa."
"Eu é que me ofereci. Acho que é um privilégio ter calhado com um dos estrangeiros da escola num trabalho."
"Como eu suspeitava." Soube que aquela frase era direta para mim. O meu pai sabia que eu não era corajoso o suficiente para convidadar alguém para o meu pequeno inferno. "O trabalho é sobre o quê?"
"Diversidade cultural. Vim ver como as coisas eram aqui. Devem ter algo diferente, não é?"
Riu-se. "Nós não temos nada de especial, rapaz!"
"O Ariel disse-me o mesmo, mas eu estava curioso na mesma." Tera sorriu para mim, todavia eu continuava sério, porque todas aquelas palavras puras eram descodificadas de maneira diferente na cabeça do meu pai. Tenho a certeza.
"Já agora, desculpa a confusão, eu não tive tempo de arrumar tudo."
"Não tem problema."
O meu pai, de propósito, passa por nós apenas para nos afastar. Sabia que aquele ato tinha um duplo sentido, ele queria que eu pensasse que eu tinha de me afastar do Marshall o mais rápido possível; ele queria que a nossa amizade acabasse, apenas para proteger o nosso pequeno segrego.
"Vou tomar um duche agora. Filho, tratas do jantar?"
"C...Claro."
Apressei-me para vestir o avental branco e lavar as mãos. Assim que os passos pesados e grandes do meu pai deixaram de se ouvir, pude deixar-me respirar normalmente, mais descansado e aliviado por saber que aquela situação não tinha tomado o caminho mais grave.
"Não foi assim tão mau." Tera posicionou-se ao meu lado, também com as mãos lavadas, pronto para me ajudar. Assim como eu, sem e ter dado qualquer ordem, ele tira uma das cenouras medianas e começa a cortar com a faca cinzenta que havia na pia. "Não tinhas razões para teres medo."
"Ah, se tenho..." Sussurrei para mim. "O meu pai é um pouco impulsivo no que toca a trazer estranhos aqui a casa." Menti. "Mas ele pareceu ter-te aceitado sem qualqueis problemas." Acabei de cortar as cenouras e passei para as batatas.
"Gostou de mim, talvez."
"Ou talvez o assustaste."
Mesmo não olhando diretamente para a sua face, sabia que ele me fitava com um cenho esquisito."...como assim?"
"...esquece."
E, mesmo depois de se ter criado um momento tenso, com muitas gargalhadas e conversas, a sopa foi feita em alguns minutos. Tera não parava de me chatear e fazer com que eu me enganasse inúmeras vezes como também punha ingredientes e especiarias a mais dentro da panela.
E, sujos no rosto de sopa, nos sentamos nas cadeiras da cozinha. Tera continuava a comer os restos de comida que havia no seu rosto, como uma pequena criança, enquanto eu me limpava com o papel que restava no rolo.
Durante este tempo todo, não houve nenhum sinal de perigo vindo da parte do meu pai, mesmo depois de ter tomado o seu duche de água quente e, agora, estar repousado no sofá da sala.
"O que fazemos agora?"
"Podes começar a por a mesa. E vou chamar o meu pai."
Sai da cozinha e segui as minhas palavras. E, de novo, à medida que me aproximava dele, sentia toda a sua raiva socumbir pelo seu corpo. Eu acho que ele nunca teve tanto tempo sem beber.
"Pai?" Ele olhava-me com menosprezo e desgosto, reparei. Rebaixado pelo seu olhar, fitei os meus pés, pedindo-lhe perdão por ter sido tão ousado. "Vamos para a m—"
Ele puxou a minha orelha com força. "És um rapaz esperto, Ariel." Sussurrou ao meu ouvido e largou-me. " Sabes o que vai acontecer assim que aquele merda sair daqui, não sabes?"
"Tha..."
"Ainda bem." Sussurrou e passou a mão pelo meu queixo, levantando o meu rosto. "Vamos para a mesa, filho?" Por fim, voltando a fingir ser um pai normal, largou a minha cartilagem.
"Sim..." Não o enfrentei com o olhar. Ainda com a cabeça um pouco baixa, caminhei até à mesa da cozinha e tirei a panela do fogão. Pousei-o no centro da mesa e fui distribuindo a sopa para nós, deixando-me para último.
Sentei-me direito na cadeira e esperei para permissão do meu pai para comer.
"Não comes?" Tera perguntou-me, segundos depois de tirar a colher na boca. Olhei de novo para o meu pai, que, em silêncio, permitiu-me comer. Levei a primeira colherada à boca, sentindo o sabor da minha sopa inundar os meus sentidos.
Tera começou com as perguntas. "Vocês têm algum tipo de prato especial?"
"Comemos Hadock. É um peixe tradicional escocês. Apenas comemos quando temos visitas dos meus irmãos ou quando vamos lá durante as férias." Mentiras atrás de mentiras. "Comemos mais salmão quando há." Tera apenas concordava enquanto comia lentamente o resto da sopa.
"E vocês têm aquelas saias... como se chamam?" Tera tentou se lembrar dos nomes, estalando os dedos.
"Os Kilts? Não." enho um taque de golf, se quiseres levar para o vosso trabalho." Tera apenas assentiu. "Ficaram na Escocia, em casa do meu sogro." O meu pai apertou o meu ombro enquanto sorria para mim. "Não é?"
Depois de várias perguntas ligada à nossa cultura e ao meu país Natal, Tera vira-se para o meu pai, com o olhar sério e preocupante.
Será que ele descobriu?
Tera, por favor, não digas nada...
"Desculpe fazer esta pergunta, agora, mas ela está a corroer-me por dentro." Limpou a garganta. "O Ariel já me disse que a sua esposa morreu, pode-me dizer como? Se quiser, claro."
"O Ariel e as manias de dizer que ela morreu. Ela não morreu." O meu pai olhou para mim, com olhares desafiantes. "Ela decidiu fugir."
"Do quê?"
"Das responsabilidades que é ter um filho."
Tive de entrar no seu jogo. "Eu disse que ela tinha morrido, porque é uma maneira mais fácil de explicar a sua ausência." Não me atrevi a fitá-lo. "Podemos mudar de assunt—"
"A partir desse dia que sou só eu que cuido do Ariel. Apenas pai e filho. Mas ele não precisa de mais ninguém, não é, Ariel?" Fez uma pausa enquanto pisava o meu pé com força. Não me atrevi a dar algum sinal de dor.
"...s-sim. Sou feliz, mesmo sem uma figura matrenal. O meu pai faz o trabalho de pai e mãe de forma perfeita." Suspirei. "Melhor pai eu não consigo pedir." Sorri para o meu agressor. Tera, por favor, entende que isto é tudo mentira. Porfavor. O pai tirou o pé de cima do meu, que começou a latejar fortemente pelo aperto.
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑
"Fumas?" Tera estendeu-me um cigarro antes de acender o seu. Abanei a cabeça para os lados. "Não? Fazes bem."
"Isso não tem nenhum benefício, Tera Marshall." Encostei-me à parede, perto dele. Ele chupou um pouco mais do cigarro e soltou o fumo pelo nariz.
"Ajuda-me no stress."
Estávamos perto da janela aberta do meu quarto. Poucas gotas de chuva molhavam a sua camisa escolar. Há perto de uma hora que estávamos no meu quarto, a conversar sobre assuntos aleatórios. Eu só queria que o tempo congelasse e que ele pudesse ficar aqui, a falar comigo, e, sem saber, a me livrar das garras do meu pai. Não sabíamos que horas eram, e eu não conseguia guiar-me pela Lua, pois ela estava tapda pela enorme quantidade de nuvens carregadas. Chovia torrencialmente, e parecia que não ia parar por esta noite.
"Não queres experimentar?" Ele virou-se para mim com o que resta do cigarro nas mãos. Voltei a dizer que não. "De certeza?"
"Sim."
Pling.
"Deve ser a Camoren." Tera desbloqueou o telemóvel, para ver o que o notificava. Mas em vez de ver um sorriso apaixonado, vi uma cara totalmente assustada. "Não, não, não, não."
"O que foi? O que aconteceu?" Tentei tocá-lo para o acalmar, mas ele já se tinha afastado de mim.
"Já vai passar das 11 e eu ainda aqui!" Passou a mão pelos cabelos, pondo-os para trás. "A minha mãe deve estar morta de tanta preocupação! Onde é que estão as minhas malas?"
Fica aqui, Tera, por favor!
"Espera, Tera." Aproximei-me dele. "P-Porque não dormes aqui?"
"Estás a gozar?" Um nó formou-se na minha garganta, à medida que engolia a seco.
"N...não. É que está a chover imenso e está muito tarde. E pelo que dizes sobre a tua mãe, ela não te deixaria sair num torrencial destes." Sentei-me na minha cama e tentei implorar com o meu olhar, para que ficasse esta noite.
Ele suspirou e acalmou-se.
"O teu pai não se importa?" Ele encostou-se à porta.
"Acho que ele está de bom humor hoje."
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑
O meu relógio de pulso apontava as 1:03 da manhã.
"Vou à casa de banho." Sussurrei para o Tera, logo depois de ajeitar os cobertores da minha cama. Tera estava ao telemóvel com a Camoren, a tentar explicar o porquê de não estar nos cobertores dela e ainda estar na minha casa, mas assentiu com um pequeno gesto facial.
Quando fecho a porta do meu quarto, suspiro, ainda não crendo que o Tera Marshall estava preste a dormir no mesmo cómodo que eu. Caminho até à casa de banho e tranco a porta da mesma.
Olho-me no espelho. Não acreditava no tamanho de brilho que tinha nos meus olhos e no tamanho sorriso aberto em que os meus lábios se rasgavam. Obrigada, Lua, por me dares uma oportunidade.
Escovo os dentes, limpo a cara e tiro as minhas roupas atuais. Visto o meu pijama polar azul largo e dou uma pequena escovada na minha franja. Estava ansioso, ia dormir com o Tera Marshall no mesmo quarto! Outro sorriso surgiu no meu rosto.
A caminho, ouço passos pelo corredor e, num momento, algo me puxa os cabelos da nuca, fazendo-me parar de golpe. Uma outra mão envolve o meu pescoço e aperta-o. "Hoje escapas-te, mas amanhã vamos ter uma conversinha, Ariel." Sussurrou no meu ouvido e voltou a tomar o seu rumo para o quarto dele.
Pus a minha mão no pescoço, esfregando-o para amainar a mometania dor.
Respirei fundo, na tentativa de encontrar coragem para abrir a porta do meu quarto e mostrar-me calmo.
Pai de merda.
Abri a porta.
Tera estava em tronco nu.
Por muitas vezes que já o tenha visto sem uma peça de roupa no balneário, a sensação que abraçou o meu corpo foi idêntica àquela que surgiu no momento em que vi pela primeira vez um casal homossexual de mãos dadas na rua sem constrangimento ou vergonha.
Ele não tinha o típico corpo forte e perfeito que algumas mulheres sonham. Tera tinha uma pequena barriga gorda por cima da sua pélvis, não tinha um peito muito defenido, mas era um pouco musculado. Os seus ombros e os músculos por cima da sua clavícula eram interessantes de se olhar, assim como as suas vastas costas ornamentadas com algumas borbulhas. Os seus braços e as suas mãos, que atavam o cordel das calças cinzentas de treino, eram grandes e masculinas, com poucas veias expostas. O seu quadril, também grande, criava em mim uma grande vontade e o apertar, como também as suas coxas poderosas e fortes.
Minha Lua, eu não mereço tanta coisa.
No entanto, sai daquele transe quando ele vestiu a camisola cinzenta da Adidas e sentou-se na minha cama.
"Hum...Tera?" Mantive-me no mesmo lugar, ao pé da porta, trancada agora. O meu nervosismo não o deixou falar. "Não te importas de dormir na mesma cama, pois não?"
"Ahn?" Ele fez a sua típica cara divertida e confusa. Logo me arrependi de lhe pedir aquilo. Senti a minha cara arder, e, intimamente, mordi o lábio, em vergonha.
"E-Esqueçe! N..não va—"
"Não, eu durmo. Eu durmo." Riu-se. "Só não estava à espera de me pedires isso." Ele caiu para trás, estendendo-se na minha cama. "Anda para aqui."
Segui as suas ordens e, depois de tirar as minhas pantufas com incertos anos de idade, sentei-me em cima do colchão. Puxei a minha almofada perfumada para mim, abraçando-a com vergonha.
"Queres ver um filme? Tenho Netflix." Ele abanou o telemóvel e piscou o olho. O que isso significa?
"Sim, pode ser. Vou só apagar a luz." E assim o fiz. O quarto ficou somente iluminado pelo flash do seu aparelho. Ele acessou à sua conta e pôs um filme chamado "Legítimo Rei".
Como ele estava deitado, tive de me deitar perto dele, ou seja, eu estava constantemente corado e tenso por ter um Alpha deitado na minha cama. De certeza que o cheiro dele vai ficar aqui por mais alguns dias.
Eu não estive muito atento ao filme, unicamente tentava me manter o mais acordado possível, mas estava difícil. O cheiro dele era forte e confortante, a sua respiração pesava e a visão que eu tinha fora dada pela Lua. Tera estava com uma sweater e umas calças de treino cinzentas quentes. A minha mão formigava pelo toque e calor da sua. Escondi-me debaixo dos lençóis completamente corado, na tentativa de pará-lo. Virei-me de frente para ele e encostei o meu nariz no seu braço e pus as mãos entre as minhas pernas.
Não cheguei a ver a primeira hora do filme, pois entreguei-me ao sono logo depois de sentir o seu corpo reconfortar-se ao lado do meu.
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑
Abri os olhos lentamente, tentando me adaptar à luminosidade do meu quarto. Tinha a certeza que já passavam das dez da manhã e que tinha perdido, depois de muito tempo, a corrida contra o Sol. Quando os meus ouvidos despertaram, um pouco depois de destapar o meu corpo, ouvi um feixo de uma mala ser fechado. Sentei-me apressadamente e fiz um esforço para enxergar alguma coisa com detalhe. Tera estava vestido com a roupa de ontem, com a mala da escola sobre os ombros.
"Que horas são?"
"10:45" A sua voz era rouca pela manhã.
"Va-Vais te embora, agora?" Engoli em seco, na esperança da resposta ser negativa.
"Sim."
" E já comeste?" Questionei-o sentindo o pânico crescer, enquanto me levantava.
"Yep." Ouvi o estalar das suas costas. "Acompanhas-me até à porta?"
"Sim..." Não, não, claro que não. Fica mais um pouco, Tera, por favor, não vás já. Almoça cá, janta cá!
Descemos as escadas lentamente. O meu coração começou a bater mais rápido e o sangue fervia dentro de mim. Estava a fazer um esforço enorme para não desabar ali e chorar, mas as minhas lágrimas já se formavam. Quanto mais ele se aproximava da porta, mais elas teimavam em descer, sofrendo já pela dor das chicotadas que estavam por vir.
Ele pôs a mão na maçaneta, mas antes de a rodar, inspirei todo o ar que os meus pulmões conseguiam. "Obrigado por me teres mostra—"
"Tera, não vás, imploro-te." A minha voz estremeceu. No momento em que ele se virou para trás, não consegui mais prender o nó horrorizado que tinha na garganta. "Não vás..."
"H-hey! Então, Ariel?" Aproximou-se de mim e, timidamente, tentou tirar as minhas mãos do meu rosto. "O que se passa?"
"Tira-me daqui, Tera! Por favor..." Supliquei-lhe baixo, apertando a palma das suas mãos. Ele tentava falar, porém os meus soluços terminavam qualquer indicio de fala. "Tira-me daqui, Tera, tira-me daqui!"
"O-o que se passa, Ariel? Calma..."
"Não dá par---para ter calma, Tera. Leva-me contigo, por favor!"
"M...mas porquê? Ariel, eu não estou a entender, o que é que se passa."
"Sim, Ariel, o que se passa?"
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