7:[Diabólico]

[21/11/18- Quarta-Feira]

ARIEL MURPHY

Retirei um dos tabuleiros castanhos e pousei-o na fila. Mesmo com os auscultadores colados aos meus ouvidos e com a música no volume mais alto, eu conseguia escutar os restantes alunos que estavam dentro daquela cantina. "Acredito que no fim, cada lágrima derramada vai se tornar num sorriso." Cantarolei baixinho, enquanto punha a comida no meu prato. Procurei um lugar para me sentar e comer. Estava tão esfomeado que até o cheiro da comida da escola dava-me apetite. Sentei-me no começo de uma das mesas, ao lado de pessoas que desconhecia.

"Aí é que não vais ficar, meu amor!" Era a Kira. Tirou o meu tabuleiro, sem a minha autorização, e pô-lo no fim da mesa que se encontrava atrás de mim.

"Porque é que eu recebo este castigo?" Levantei-me e dirigi-me ao outro banco. A mesa estava mais vazia. Ao lado do lugar da Kira, havia uma menina do mesmo tamanho que eu.

"Lembraste daquela menina que eu te falei?" Referiu, apontando para a menina.

"Sim."

"Então, esta é a Kai, a sua maior fã."

"Oi." A menina estava muito mais nervosa que eu. Todo o seu corpo tremia na sua cadeira. A sua pele era escura, o que combinava com o seu cabelo também negro. "Kai, prazer." Tinha sotaque brasileiro. Talvez seja irmã do Max.

"Madainn mhath."

"Ai, amor, nã—" Ouvi a menina negra tossir pelo nome carinhoso que a Kira lhe chamou. "Minha Lua, estás bem?!" Esfregou as pequenas costas dela.

"Já lhe disse para não me chamar isso!" Disse baixo, quase num sussurro.

"A minha amada é uma grande admiradora tua, Ariel." Ela pareceu não querer ouvir as reclamações da sua namorada. Vi um pouco do Tera nela. Teimosa. "Ela desenha tão bem quanto tu!"

"Obrigada!" Sorri para as duas, sem conseguir decidir em qual agradecer primeiro.

"Foi por causa de um comic que nos conhecemos,, gostosa?!" Kira agarrou nas mãos dela e beijou-as. Via amor no seu olhar, cuidado, preocupação, companheirismo. Coisas que já não se vêm estes anos.

"Sim, obrigada, Ariel." Engoli a seco quando ela disse o meu nome de uma maneira tão doce, tão maternal. Ela passou os dedos pela sua franja encaracolada que tapava uma grande parte da sua testa. Foi naquele instante que vi a cor brilhante dos seus olhos. Azuis. Lindos.

"És irmã do Andrews?" Fiz a pergunta que teimava em sair desde as suas primeiras palavras.

"Sim. O Max é o meu irmão mais velho." Soltou uma pequena risada.

"Há quanto tempo vocês namoram?"

"Nós não namoramos." Kai respondeu antes de a Kira poder sequer pensar em dizer alguma coisa.

"Namoramos, si—"

"Não!"

"Sim!"

"Não!"

"Não!"

"Sim!"

"Viste. Namoramos, sim!" Kira sorriu, orgulhosa.

"Okay! Apenas pare de me chatear!"

"Então posso dizer a toda a gente que és minha?" Kira aproximou os seus lábios ao queixo da Kai.

"Acho que todos já sabem." A menor afastou-a, rapidamente.

Com isto, terminei de comer e passei para o iogurte de morango. Levei a primeira colherada à boca. E foi só preciso eu levar o meu olhar à textura cremosa e branca do conteúdo, que as duas meninas já se beijavam, lentamente.

E eu estava a fazer de vela.

Estalei os dedos bem na frente delas. Logo, se separaram, rubizadas. Terminei de comer o iogurte doce e levantei-me, entre alguns risos formados pela situação constrangedora.

Depois de por o tabuleiro no seu devido lugar e de lavar as mãos numa das pias, saí da cantina e reparei que as duas já me esperavam no lado de fora da cantina escolar. Os seus casacos combinavam com o tempo cinza, o casaco neutro protegi as costas finas e frágeis da Kai, assim como quase tapava os dedos colados das duas. Como sempre, vi tudo em segundo plano. As duas trocavam sorrisos afetuosos, mostrando a todos- mesmo sem querer- que elas estavam juntas já algum tempo, presumo. Precebi no olhar da Kira que ela realmente amava a Kai, já que a olhava com ternura, proteção, paixão, amor, admiração e talvez sorte.

"Vocês são companheiras?" Fiz a pergunta que teimava sair.

"Não sabemos. Diz que nasce uma marca em ambas as pessoas, quando se entrega completamente a ela." Levou a mão ao queijo dela e depositou um beijo perto da orelha direita. "Ou ainda não nos entregamos por completo, ou então não somos. Aposto que seja a primeira."

Tudo o que ela dizia era verdade. Para que uma pessoa encontre o seu companheiro, é necessário que ela se entregue à pessoa certa, carnalmente e espiritualmente. Se a pessoa for a certa, o processo é fácil, pois instintamente confiamos na pessoa com poucos ou nenhumas duvidas, o que é raro nesta sociedade falsa, egoísta e orgulhosa.

"E tu? Tens companheira?"

"Ele não curte de meninas." Kai revelou, deixando-me paralisado. "Está escrito numa das suas bibliografias." Numas das minha mais antigas; ela segue-me assim há tempo?

"Como é que queres que eu saiba, ele deixou o arco-íris em casa!"

"Da última vez que o trouxe para o público, não aceitaram tamanhas cores." Abri o meu cacifo e retirei os meus dois cadernos íntimos, o de desenhos e o de escrita. Pu-los na minha mochila e encostei-me numa das paredes brancas com pequenas pichações artísticas.

"O sinal está quase a tocar. E a nossa sala fica do outro lado da escola." Kira avisou, cutucando-o na barriga.

"Mas já?"

"Sim, amor." Kira disse, segurando na mão da Kira.

Kai corou mais uma vez, no exato momento em que olhou para mim. Outra vez, o olhar materno. Sorri de volta não esperando que os seus braços viessem ao encontro do meu pescoço e os lábios perto da minha bochecha direita. Tentei ser recíproco o suficiente para não estragar aquele momento, mas não sabia corresponder a tal afeto de maneira rápida.

🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑

"Ruivo!" Ouvi de fundo algum chamar o meu nome. Tirei o auricular esquerdo da minha orelha e procurei pelo corredor cheio de alunos pela pessoa que me chamara.

Nada.

Não incomodado pela minha possível imaginação, dirigi-me até ao corredor secundário do meu dormitório. Tirei as chaves dentro do meu bolso e destranquei o quarto, sendo logo abraçado pelo cheiro fresco e noturno que a janela aberta deixava.

Pousei a mala perto da porta e saltei para cima da cama singular, estafado por mais um dia rodeado de matéria e de informações não importantes para a minha vida académica. Mas eram essas que precistiam em ficar na minha mente: o relacionamento da Kai e da Kira, o não preconceito da escola contra elas e a sua demonstração afetiva.

Será que esta escola aceita atos homoafetivos?

Se sim, sentir-me-ia mais seguro nesta escola do que outras as outras, pois, se sim, qualquer um que me magoasse física ou psicologicamente acerca da minha sexualidade seria advertido.

Seria engraçado ver, talvez.

"Ariel, minha Lua, estou a chamar-te desde da porta da escola."

Agora sim, sabia que não era nenhuma ilusão da minha mente, mas sim a voz grave do Tera que me chamara, pelos vistos, já a algum tempo. Porque é que ele não me larga?

Dirigi-me à porta do meu quarto e abri uma pequena frecha. Ele estava sozinho no corredor, o que, instintamente, fez com que eu aumentasse a força na porta, para que ela não seja facilmente aberta.

"Desculpa, eu estava a ouvir musica." Tentei mostrar um sorriso mínimo. "Precisas de alguma coisa?"

"Eu vinha te perguntar se querias vir connosco dar uma volta." Franzi o cenho ao ter a certeza mais uma vez que ele não estava sozinho.

"Connosco?"

"Sim, eu, o Max e a Camoren. Se quiseres claro."

Tinha todos os motivos e razões para ficar no meu quarto, de pijama, a desenhar, a continuar a ouvir música, coberto pelos cobertores da cama e envolvido pela solidão, mas, por algum motivo desconhecido, eu conseguia sentir a ansiedade do Max e principalmente do rapaz na minha frente. Eles queriam que eu me integrasse mais no seu grupo, que eu saísse do meu cúbicolo solitário e viesse me divertir de outra maneira.

"Vocês vão aonde?"

"Iamos ficar no meu dormitório. Queriamos que tu não ficasses sozinho no teu dormitório o ano inteiro. Como ele disse: 'O ruivinho precisa de nos ter como amigos, ele não pode ficar sozinho o ano inteiro.'" Ele tentou imitar o sotaque brasileiro do moreno. "E ele está mesmo curioso acerca de ti." Ri fracamente não só pelo seu argumento, mas também pela maneira desajeitada e corrida que ele tentava se expressar.

"Curioso, dizes tu?"

"Sim, e eu também para ser franco." Riu-se logo a seguir.

"Porquê?"

"És estranho." Inclinei a cabeça para o lado, confuso pelo o seu comentário. Auch. "N-Num bom sentido!"

"A sério?"

"Sim..." Fez uma pequena pausa. "És estranhamente único, ou unicamente estranho." Ri fraco e, inconscientemente, abri a porta mais um pouco. "Então? Vens comigo?"

"...porque não?"

Dentro de um momento silêncioso, fechei a porta atrás de mim e permiti que o capitão guiasse o caminho até ao seu dormitório. Ele andava no meu ritmo, lento e detalhista, no entanto ele soltava pequenas risadas quando me apanhava a olhar para as cores das paredes e dos rabiscos e mensagem que os alunos deixavam no quadro branco perto da porta deles.

"Quarto 313."

"É o teu?"

"O quê? Não. É do Lestrange." E, sem qualquer aviso prévio, ele sacou do bolso das suas costas, uma caneta de tinta preta permanente e com a manga da sua camisa limpou o rabisco de algo ilegivivel do quadro. "O que eu vou escrever? Tens alguma ideia, artista?"

"Artista?"

"Tu desenhas muito bem, senhor artista." Olhou-me por breves segundos, antes de pousar a cauda da caneca nos lábios. Ele pensava enquanto que eu meu pensamento estava paralisado. Ele disse que eu desenho bem. "E escreves também; deves ter alguma ideia, não é?"

"Não sei o que queres lhe dizer. E eu, sinceramente, acho que isso é uma má ideia, Tera. Tu sabes que não se apaga fogo com fogo, sempre me disseram isso."

"Mas o que tu não sabes é que aquele monte de esterco merece ser queimado mesmo."

Outra vez, a curiosidade antige-me em cheio. "O que aconteceu entre vocês?"

"Noutro dia, eu conto-te." Na minha mente, pensei que ele iria, de novo, avermelhar os seus olhos e escurecer as suas veias, porém, na realidade, ele apenas sorriu para mim com avançou até ao quadro branco.

'Se não tiveres coragem de morder, não rosnes.'

[Continua]

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