18.2:[Perfeito]
[15/1/2019 –Terça-feira]
ARIEL MURPHY
Tudo ficou perfeito, naquele momento.
Todos correram ao meu encontro quando a arbitra soprou o apito para anunciar o fim do jogo. Mal consegui respirar no meio de tantos saltos e de tantos amarrões dados pela minha equipa e por parte da claque.
Tinha sido eu a defender o penálti final que faria com que sejamos eliminados do campeonato.
Mal consegui crer que eu tinha defendido o chute daquele jogador, que por sinal era um Alpha. Todos me disseram que ele era deveras forte e que, durante a sua carreira como jogador naquela equipa, nunca tinha falhado um remate e muito menos um penálti. Não conseguia acreditar que a minha equipa gritava o meu apelido e que metade da plateia gritava de euforia. Até mesmo o Gabriel festejava, vejam só o nível de felicidade.
No entanto, Tera estava um pouco afastado da multidão, com os braços cruzados e com um sorriso de orgulho no rosto. Ao seu lado, o jogador ao qual defendi o penálti e o nosso treinador. Todos inchados de honra por eu ter feito o que fiz.
Ainda tinha um sorriso inimaginável no rosto quando entrei no balneário e fui recebido pelas palmas de todos. "Se o Max tivesse aqui, fazia uma festa." Fill disse com a garrafa de água nas mãos. "É a primeira vez que ganhamos a esta equipa."
"Nunca ganhámos." Tera sorriu para mim e tirou a t-shirt. Tirei a minha também, revelando o meu equipamento térmico preto.
"Muito bem, Wolves. Jogaram muito bem hoje. E, incrivelmente, não tivemos uma única briga entre o Tera e o Gabriel. Alguém lhes deu alguma coisa?" O Treinador riu e apertou os ombros aos dois. "Tornaram-se melhores amigos, foi?"
"Não!" Disseram em conjunto.
Eu sabia muito bem o porquê de eles não terem discutido, ou pelo menos, o porquê o Tera não ter arranjado nenhuma briga: ele prometera que se controlava a pé juntos. Prometera-me que, por muito que fosse a vontade de esmurrar o Gabriel, não o faria.
Também disse que o recompensava, mas isso não é importante...
O que importava era que todos estávamos felizes e despreocupados. Finalmente, sentia-me um adolescente normal que pertencia a uma equipa, que estava num relacionamento, que tinha ótimos amigos e que não tinha nada para estar triste ou ansioso. Estava tudo tão perfeito.
Mas tudo mudou ficou ainda mais perfeito quando entrei pelas portas do nosso quarto e lancei-me para cima dos seus braços. No meio de tantos beijos, pensava na quantidade de sorte que tinha por tê-lo ao pé de mim; na sorte que tinha por estar nos seus braços fortes, rodeado pelo seu cheiro e pelo seu amor.
"Viste como eu defendi aquele remate?!" Soltei-me dele e saltei de felicidade.
"Vi."
"A velocidade que a bola ia e a consegui apanhar?" Esmurrei-o no abdómen com pouca força.
"Sim!" Fui parado pelas suas mãos. "Foste perfeito, Ariel." Levou-as até aos seus lábios.
"Eu sou perfeito!" Beijei-o de novo e espremi a sua cara com as minhas mãos. Senti os seus braços circundarem a minha cintura e elevarem-me. "Não tão perfeito como o senhor aqui, mas sou." Beijei a ponta do seu nariz e pousei as mãos na sua nuca. "Não sou?"
"És." Disse secamente, mas na brincadeira, notei. "Perfeito para mim. Mas eu não sou perfeito para ti com este cheiro."
Era verdade, embora estar no seu colo, o seu cheiro não agradava nada. "Sim, tenho saudades do teu cheiro a laranja." Beijei a sua bochecha e saí do seu colo. "Vai tomar banho!" Ordenei.
Ele pegou nas suas roupas limpas que estavam espalhadas pelo seu lado da cama, ao lado das minhas que estavam organizadas, limpas, dobradas. Tera era desorganizado neste ponto. "Venho já, Ariel."
TERA MARSHALL
Tirei todas as peças de roupa que tinha vestido e pu-las em cima do tampo da sanita. Pus uma musica aleatória de uma playlist aleatória do meu telemóvel.
Olhei-me no espelho.
Estou a ficar gordo.
O ginásio não está a funcionar.
Encolhi a minha barriga e fiz força, na tentativa de melhorar a minha autoestima. Liguei a água quente e fria, deixando a temperatura ao meu gosto. Entrei no chuveiro, sentindo logo a água aquecer o meu corpo, em poucos segundos.
Enquanto passava o shampoo pela cabeça, o Ariel veio-me na mente. Como raio o rapaz foi capaz de acertar diretamente no meu coração? Não sei se foi pelos seus cabelos invulgares, se foi pelos seus olhos brilhantes, ou se foi até a sua mente. Apostava em todas, elas completavam-se.
Tirei o shampoo e passei a espuma de barbearia.
"Life doesn't discriminate
Between the sinners and the saintsIt takes and it takes and it takes.And we keep living anywayWe rise and we fall and we breakWe fall and we make our mistakes.And if there's a reason I'm still aliveWhen so many have died
Then I'm willin' to- then I'm willin' to-
wait for it..."
(Compositores: Lin-Manuel Miranda
Letras de Wait for It © 5000 Broadway Music
Peça: Hamilton
Amo e recomendo muito)
(Gente, um aparte. EU TENHO SAUDADES DAQUELE TEMPO EM QUE O WATTPAD DAVA PARA POR MÚSICA!!!)
Cantarolei ao som alto da música que saía da coluna do telemóvel. Limpei a espuma da cara e comecei a lavar o meu corpo. Eu não era do tipo musculoso, mas tinha os meus músculos, alguns definidos, outros nem tanto. Não sabia o que o Ariel via no meu corpo. Embora eu estar sempre a dizer-lhe que ele tinha sorte por ter um namorado como eu, eu não via algo muito interessante em mim.
Acabei o banho, saí da banheira e passei uma toalha pelos quadris. Quando comecei a secar o meu cabelo, com outra toalha, senti uma mão tapar-me os olhos num repente, e outra circundar a minha cintura. Virei-me rapidamente e consegui parar-me antes de me defender. Mantive a mão na cara. Sentia-a tremer. "A...Ariel?" Receei.
"Tha." O sotaque escocês revelou-me a personagem que me assustara. Tentei tirar a sua mão do meu rosto, mas estava colada à minha cara.
"E-Eu estava a tomar banho. O que se passa?" Percebi naquele instante que ele queria e não queria que eu visse o seu corpo. "Podes tirar a mão dos meus olhos? Por favor?" Tentei tocar-lhe na cara, mas acabei por tocar-lhe no tufo de cabelos. Ele é mais baixo do que pensava.
Voltei a vê-lo segundos depois, mas, antes de a informação chegar ao meu consciente, levei (quase) uma chapada nos olhos. Voltou a tapá-los. Limpei a garganta. A sua mão lentamente descolou-se da minha tez e eu pude ter uma visão nítida dele.
Finalmente.
Ariel estava apenas de boxers. De perfil para mim, com os braços cruzados envolta da sua cintura, não consegui não olhar para as suas cicatrizes e marcas. Enquanto ele se mantia paralisado, notei em cada detalhe da sua cútis. As suas sardas desciam até aos seus ombros, que também eram pormenorizados com os estigmas das queimaduras de cigarro. O seu peito, local que nunca tive uma visão fúlgida, tinha uma pequena cicatriz na metade esquerda.
Tentei virá-lo para mim, ficando frente a frente com ele, mas ele resistiu. "Ariel, deixa-me ver, sim?" Sussurrei. Obedeceu-me.
Passei o dedo pelo risco vertical natural que tinha no meio do abdómen, traçando um caminho contra a sua cintura, onde tinha marcas de chicotadas perlongadas até às suas costas. Examinei os seus pulsos. Ainda tinham pequenos cortes um pouco recentes, notei, mas fiquei contente, por, enfim, ele estar a parar com este vicio. Os cortes mais profundos já deixaram cicatriz e estavam para lá do passado. "Ainda te dói?" Passei a mão pelo alto que ele tinha no seu braço, um pouco abaixo do cotovelo.
"Não..." Ele desengelhou-se das minhas mãos e pousou a sua cabeça no meu peito. Beijei o topo da sua cabeça, antes de notar na queimadura que ele tinha nas costas.
"Vês, não era preciso teres medo disto. Achas que eu iria parar de gostar de ti só por causa do teu passado?" Não me respondeu. "O teu corpo não me preocupa, Ariel. Não foi por causa dele que me apaixonei por ti. Nem sei porquê me apaixonei por ti." Encostei-me na parede, afastando-o de mim.
A playlist acabou de tocar, e ouvi as pequenas gargalhadas do Ariel. "Acho que é por causa da minha perfeição."
"Talvez."
"Ou da minha inteligência."
"Ou por causa dos trabalhos de casa de Química que me dás." Passei a minha mão pelo seu queixo, obrigando-o a olhar para mim. "Obrigado por me mostrares." Tentei em poucas palavras dizer-lhe que agradecia por ele ter confiança em mim e quebrar a barra que nos dividia. "Amo-te."
"Eu sei." Sorriu.
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑
Ariel dormia no seu banco de autocarro. Com a sua cabeça encostada ao meu ombro e a minha mão na dele, sentia-o bastante frio, mesmo com o meu casaco a tapá-lo e as suas mãos debaixo das minhas coxas. Partilhávamos os fones, e, a pedido dele ouvíamos uma música relaxante. Aprendi com o tempo que ele gostava apenas de melodias que contenham violino, então tive de baixar várias músicas desse tipo.
Se eu mudasse o tipo de música para aquilo que queria, ele beliscava-me.
Tinha o braço roxo, já. Desde que o conheci ele tem este lado mais controlador (?). Sempre que eu fazia algo que não era muito do seu gosto, ele dava-me uma pequena estalada. O meu braço é o alvo mais comum. Penso que este tic de ações provêm da infância que ele tinha. Claro, não me fazia confusão, já que ele nunca fez nada parecido com que o pai lhe fazia, porém existiam algumas parecenças, poucas e insignificantes.
Para amainar este pensamento, desbloqueei o meu telemóvel e verifiquei as minhas redes sociais.
Instagram: gpmacedinho gostou da sua publicação; gpmacedinho comentou na sua publicação: cada vez mais gato, saudades."
Twitter: Ray retweetou o seu tweet.
WhatsApp: 256 mensagens de 7 grupos.
Com tantas notificações apenas uma me interessava: Camoren Diaz. Por muito que eu ame o Ariel, ainda havia um lado meu que não consegue a esquecer. Foram três anos com ela, não me julguem. Depois de a ter conhecido, pensei que nunca iria ficar com mais ninguém, mas estava enganado.
[Mensagem: Camoren Diaz]: Tu não és...gay, pois não?
Decidi não responder. Não lhe respondo desde daquele bocado que tivemos juntos na pequena paragem da viagem. "Certas pessoas apanharam-vos aos abraços. E eu não quis acreditar, claro. Tu não és gay. Namoraste comigo." O Ariel foi certeiro em me decidir ligar naquele preciso momento. Ainda não estava pronto para contar à minha ex-namorada que a troquei por um rapaz, por ele.
[Mensagem: Camoren Diaz]: É que o boato já ronda por aí e os momentos que andas a passar com esse Omega paneleiro reforçam.
(Paneleiro= Gay, bixa, essa coca é fanta. Aparte mais para os leitores br).
[Eu]
: Não, Camoren, eu não sou homossexual. Não, Camoren, os boatos não são verdadeiros. E não, Camoren, o Ariel não é um Omega paneleiro.
[Mensagem: Camoren Diaz]: Só estou a avisar-te, mor. Cuidado.
[Continua]
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