Perde-se o jogo, ganha-se algo melhor
Jacques estava bastante satisfeito pelos acontecimentos dos últimos meses. Sua irmã Brione estava casada e devidamente instalada no castelo de Valedo; Arturo crescia forte e já lhe parecia alguns centímetros mais alto. E ele, Jacques, vivia os melhores momentos de sua vida ao lado de Lizabeta.
Naquele dia, Belaventura tinha amanhecido particularmente ensolarada. Pietra, Enrico e Lizabeta estavam sentados em uma toalha estendida na grama perto do lago, enquanto observavam Jacques e Arturo em uma partida de malha. O rei e a rainha não prestavam muita atenção ao jogo, entretidos com o pequeno Valentim, que acabara de nascer. Lizabeta batia palmas, animada.
O jogo de malha era popular entre as crianças da vila. Quem derrubasse o pino mais vezes, ganhava. Para isso, usava-se qualquer coisa que pudesse ser lançada a distância para fazê-lo cair. Joniel havia feito discos finos e leves de madeira para que voassem com facilidade.
Jacques e Arturo já haviam jogado quase todos os discos da segunda rodada. Arturo correu para buscar alguns caídos perto do pino, quando um familiar par de pernas agitadas chamou sua atenção. Correndo com a saia do vestido nas mãos para não tropeçar, Ariela foi até Lizabeta e se sentou junto a ela. Olhando para frente, lançou um sorriso aos meninos.
Arturo levantou o braço para acenar para ela, enquanto andava de volta até sua marca quando Jacques gritou:
- Arturo, cuidado!
O menino não conseguiu desviar-se a tempo. Jacques havia lançado o disco e acabou acertando a testa do irmão menor, que caiu no chão.
Ariela se levantou assustada. Lizabeta levou as mãos à boca e Enrico e Pietra estavam com os olhos arregalados.
Arturo piscou, levando a mão a testa.
- Você está bem? - Ariela perguntou, se ajoelhando ao seu lado.
- Sim, não foi nada... - Arturo respondeu. - Mas acho que irei ficar com um galo.
Ariela afastou o cabelo de Arturo para trás, beijou onde estava machucado e depois o abraçou.
- Se eu soubesse que ganharia um beijo seu, teria sido acertado antes. - Ele disse.
- Não seja bobo! - Ariela respondeu.
Eles sorriram um para o outro e Jacques suspirou, impaciente.
- Vamos continuar o jogo ou irá passar o resto do dia com galanteios?
Arturo olhou para a menina, como se estivesse se desculpando pelo irmão e correu até ele.
Lizabeta olhou para o restante do grupo.
- O que vão fazer mais tarde? - Perguntou.
- Eu e Pietra iremos ter aula de arco e flecha com Brione. - Ariela respondeu, sentando-se ao lado dela novamente. - Quer vir?
Lizabeta fez um muxoxo.
- Ah, estou tão cansada! Talvez uma próxima vez. Quero passar o resto do dia no castelo e pensei que talvez pudéssemos tomar chá.
Pietra olhou para ela, preocupada.
- Está doente?
Lizabeta sorriu para ela.
- Não, Pietra, está tudo bem.
Arturo havia ganhado a segunda rodada, mas como Jacques havia ganho a anterior, teriam que fazer uma terceira para um desempate. Jacques caminhou até a família.
- Algum de vocês está interessado em jogar? Pensamos que seria divertido formar duplas. - Ele olhou diretamente para a esposa.
- Estou bastante entretida apenas o olhando jogar. - Ela respondeu. Jacques pareceu desapontado.
Lizabeta não queria se arriscar. Há dias ela estava começando a desconfiar de que algo estivesse acontecendo com ela e naquela manhã, o físico tinha confirmado o diagnóstico. Estava grávida do primeiro filho e ainda não tinha revelado a ninguém. Depois de ver Arturo ser acertado com o disco, ficou com medo de que algo também pudesse atingi-la durante o jogo. Lizabeta levou a mão à barriga inconscientemente, mas não sem que Pietra percebesse e logo desconfiasse sobre o motivo da recusa.
- Tudo bem Jacques, posso ser sua dupla. - Enrico disse, levantando-se.
- ARIELA VAI SER A MINHA! - Arturo gritou de onde estava e a menina se levantou, correndo até ele.
O resto da manhã passou rapidamente. Quando o jogo chegou ao fim, todos recolheram suas coisas e foram caminhando até as carruagens que levariam de volta a Redenção e Valedo.
- Quero uma revanche. Aguarde-me, irmãozinho! - Jacques disse de braços dados com Lizabeta.
- Está com inveja porque perdeu para nós! - Respondeu Arturo, rindo.
- Realmente acho que deveria me preocupar por ter perdido para duas crianças de dezesseis anos!
Arturo levantou uma das sobrancelhas quando ouviu aquilo.
- - - - -
Quando chegaram a Redenção, Lizabeta pediu para que Enrico e Pietra fossem à frente, pois queria conversar com o marido no jardim.
- O que está acontecendo? - Jacques perguntou. - Observei que esteve bastante distraída hoje. Normalmente você fala bastante, mas me parece um pouco calada demais ultimamente.
- Tem razão. - Lizabeta respondeu. - E há um motivo para tal. Não queria dizer nada antes que tivesse certeza, mas agora finalmente chegou o momento para lhe contar.
Ela abriu um sorriso e pareceu mais radiante do que Jacques podia se lembrar.
- Eu estou grávida, Jacques! - Revelou.
Jacques olhou nos olhos de Lizabeta e ela viu que ele chorava e sorria ao mesmo tempo.
- Me desculpe! - Ele disse. - É que passei tanto tempo vendo eu e meus irmãos sendo maltratados pelo conde Severo que agora finalmente percebo que terei a oportunidade de ser um pai amoroso, diferente do meu. Ensinarei nosso filho a ser bom, livre para ser quem quiser e farei de tudo para que tenha felicidade.
- Tenho certeza de que irá! - Lizabeta respondeu, enxugando-lhe o rosto com as próprias mãos. - Está feliz?
- Mais do que possa imaginar! - Ele respondeu. - Eu estou muito feliz, Lizabeta.
Jacques se lembrou de quando a beijou naquele jardim, no dia em que foi recebido novamente na corte de Redenção, daquela vez para ficar. E a beijou novamente naquele instante. E a beijaria de novo e de novo, durante todos os dias em que viveriam ali, com o desejo de que fossem felizes para sempre.
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