Capítulo 07: Revelado

A detetive particular e o seu cliente não podiam acreditar no que acabavam de ouvir. Mark Stone estava suando e solidificara-se em uma expressão estática, sem movimento e sem dizer palavra alguma.

–Esta é toda a verdade. –Disse o auto intitulado Pensador Mosa, finalizando o relato. –Mark, eu sou o seu verdadeiro pai. Por favor, acredite, é verdade. –Dizia Mosa enquanto se levantava e se aproximava de Mark tendo ímpetos de o abraçar, mas o mesmo se afastava do pai.

–É impossível. Está mentindo! – Gritava Mark.

–Acredite, eu não estou mentindo! Por que eu mentiria para o meu próprio filho? –Dizia o velho tentando o convencer

–Para de me chamar de filho! Eu não sou o seu filho! É impossível! –Dizia Mark alterando a voz.

–É mesmo? Então questione aquele que você chama de “pai” ou... para Robert Joseph e veja a reação deles. É algo que não podem esconder. Ou melhor, leia o meu diário, porque parece que não leu uma única página. Acha que eu perderia o meu tempo escrevendo um autobiografia por nada? –Continuava o velho.

–Eu não acredito nessa sua biografia medíocre! –Bradava o arqueólogo.
Mark não conseguia conter o seu ódio e o seu medo. Estava prestes a assumir o papel de uma bomba relógio. Partiu para cima do pobre velho, agarrou-o pelas roupas gritando e bradando.

–Cale a boca desgraçado! –Gritava o arqueólogo, enquanto Lisa tentava o acalmar. Cheio de raiva agarrou o velho pela garganta, tendo vontade de o estrangular.

–Perdeu o juízo? Pare com isso imediatamente! –Gritava a  detetive particular.

O Pensador não viu opção, além disso estava furioso com a reação de seu filho. “Como poderia ter sido tão ingrato?”. Não perdeu tempo. Pegou o sedativo spray que havia na mesa e, com um preciso golpe, aplicou a substância no convidado ingrato e este desmaiou. A detetive espantou-se. Tentou fugir, mas o velho a agarrou.

–Quem o senhor pensa que é? Me solte ou... –A repreensão dela foi interrompida pelo sedativo e ela apagou lentamente. Tudo ficou embaçado e, lentamente escureceu.

   ***

    O arqueólogo acordou novamente no famoso hospital de Barrymore. Seu pai estava sentado ao lado de sua maca.

–Droga! –Exclamou o paciente irritado.

–Me respeita! –Repreendeu o pai. –Você é o culpado de estar mais uma vez aqui.

–Droga! –Replicou novamente. Desta vez, estava se levantando da maca tendo ímpetos de estrangular o próprio pai. –Droga! Velho desgraçado! –Gritava de maneira cada vez mais aguda e agarrou o pai pelo casaco que usava.

–Mark? O que deu em você?! Me solte! –O velho se desgrudou do filho e se retirou. O arqueólogo estava louco. Permaneceu descontando a raiva dando socos na própria coxa, e gritava:

–Não, não! Droga! Não aguento mais!
O seu pai se retirou rapidamente da sala para chamar o Dr. Theos.

–O seu paciente... está impaciente! –Disse o velho para o médico e este riu-se levemente, mas por pouco tempo. Tratou de rapidamente se dirigir até a sala onde estava Mark. O paciente já havia se acalmando um pouco e estava novamente deitado na maca.

–Sr. Stone...
–O que exatamente aconteceu desta vez? – Questionou Mark um pouco mais calmo, porém aéreo. Sabia o que havia acontecido, mas seu desejo era saber qual a mentira contada pelo homem que se dizia ser o Pensador Mosa.

–Você precisa tomar mais cuidado. –Acho que preciso lhe recomendar um  exame detalhado de sua visão Sr. Stone.

–Por que?

–Já é a segunda vez que o senhor é atropelado. O senhor olha para os lados em quanto atravessa a rua? –Perguntou o Dr. Theos de maneira levemente debochada.

–Vá para o inferno, doutor! –Disse Mark. –Às vezes quando vou atravessar a rua... não é nada, eu... eu devo ter me distraído com alguma coisa, com alguma ligação talvez... Eu não me lembro direito.

–Ah... Entendi... Enfim, descanse. –Disse por fim o Dr. Theos de forma zombeteira e se retirou da sala.
Mark estava esperando receber outro sermão de seu pai, algo que não ocorreu. O velho simplesmente não disse nada, nem mesmo quando o filho recebeu alta no Barrymore Healthy.

    Quanto a Mark, nunca se sentira tão estranho, fora de si mesmo em toda a sua vida. Não conseguira comer, nem dormir adequadamente. Ao contrário de uma pessoa que acorda após uma noite de bebedeira, o arqueólogo se lembrava muito  bem do que acontecera. Precisava questionar o seu pai. Desejava ver qual seria a reação do mesmo ao ouvir as mesmas palavras do velho desconhecido. Será que ficaria furioso? O repreenderia? Tomaria outra atitude ou simplesmente negaria? Algo o impedia de ir ter com o pai, ou melhor, para aquele que ele chamava de “pai”. Uma sensação de vergonha. Afinal, apesar de não sentir afeto pelo seu pai, sabia que ele havia feito a sua parte em sustentá-lo economicamente durante a infância. O pobre homem ficou durante horas neste dilema. Levou um significativo tempo para assumir a responsabilidade de ir ter com o seu pai, questioná-lo, enfim.

–O que sabe sobre a minha mãe? –Disse Mark.

–O quê?

–Por favor, fale a verdade.

–Você não se lembra?

–Eu era muito novo. Por favor, diga.

–Mas eu já lhe falei...

–Não, você nunca me falou. –Alterava a voz. –Acho que já sei o porquê de o senhor não me falar nada sobre ela.

–É mesmo? Por que, então?
–Porque o senhor nunca a conheceu de verdade!

–O quê? Eu... Eu... é claro que eu a conhecia, mas do que ninguém! Ela foi... foi o amor de minha vida.

–E quanto ao estado de saúde dela? Foi realmente um acidente?

–Mark, você está assustado. Está com cólera e está descontando está raiva no seu pai pobre e coitado. Vá descansar! –Ele estava com um aspecto um pouco inquieto.

–O senhor conheceu meu pai biológico, pelo menos? Conheceu Mortin Gomet Stone? –O velho estampou um medo mortal e permaneceu por três segundos calado.

–Desculpe filho, eu não estou conseguindo acompanhar. –Disse o pai.

–Apenas me conte. Me conte que o senhor é o meu pai verdadeiro. Me conte.

–Já chega Mark! O que aconteceu com você?

–Eu não sei. Pode ser que eu tenha apenas descoberto a verdade.

–Do que você está falando? Qual verdade?

–A única verdade sobre mim, sobre o meu passado.

–Olhe, eu estou cheio disto. Não sei o que está tramando filho, eu não vou ficar aqui ouvindo este tipo de conversa.

–Quer que eu seja específico? Tudo bem. Eu serei específico. Um senhor me disse que é o meu pai e disse também que você conseguiu a minha guarda. Ele foi obrigado a se exilar na ilha de Barrymore e eu fiquei abandonado. Ele disse que o senhor me adotou. Isso é verdade?

–Você confiou em um velho que simplesmente... eu cuidei e você, não se lembra?

–Na verdade, sempre que eu me lembro da minha infância, eu não consigo ver claramente como a minha vida era. É como se houvesse uma neblina que me impedisse. Mas, de qualquer forma, não é um velho qualquer. É Mosa.

–Mosa? Ele está morto!

–Desaparecido. Por favor apenas fale: isso é verdade?

–Tudo bem. Talvez. Talvez eu não seja o seu verdadeiro pai. Talvez este velho que diz ser o tal do Pensador Mosa esteja certo. –Dizia o velho ironicamente.

–Olhe, desculpe. Esqueça o que eu falei. –Disse por fim Mark em tom desanimado.

–Não se preocupe filho. Vá descansar.

Desta vez o arqueólogo obedeceu ao pai. Nunca dormiu tanto em uma tarde de domingo.

    Mark estava com um grande pesar, uma vergonha. Não por ter acusado o pai, mas por ter o acusado sem provas concretas. O arqueólogo nem conseguia ter inspiração para continuar escrevendo o volume sobre o anel de Mosa.  Tratou de deixar o tal Diário de Mosa no quarto do pai ao lado da cama que havia no quarto.
Naquela tarde, recebeu um telefonema. Era Lisa.

–Mark?

–Pois não?

–É a Lisa. Eu quero saber se você não se importa em marcar outro encontro na casa daquele... daquele...

–Sim, eu gostaria que fosse no próximo sábado às 8:30 da manhã.

–Ok.  Vejo você lá, então. –Disse a detetive finalizando a ligação.

***

    Era uma segunda-feira. O inverno dava os seus primeiros indícios. A cidade estava tomada por um vento vindo do sul, um vento levemente gelado. Porém, o sol ainda se mantinha radiante. A população se movimentava pelas ruas da cidade de agasalhos leves.
No horário das 5:30, Davis foi ter com Joseph, que estava no Museu organizando a sua sala.

–Davis? Entre. –Convidou o diretor do Museu, enquanto Davis adentrava na sala atrás do mesmo e se sentava na poltrona. –Então, como estão as investigações? Descobriu alguma informação relevante que eu não saiba?

–Eu tentei  interrogá-lo uma vez, mas não consegui nada de relevante. No entanto, ele continua se encontrando com a aquela mulher... Aquela...

–Lisa Whitesnake? A detetive particular?

–Isso! Como sabe?

–Sabe Davis, acho que estou conseguindo mais informações de real relevância do que você. Espero que não tenha perdido de vista a sua recompensa final.

–Mas é claro que não, senhor. Eu lhe agradeço por tudo o que o senhor fez por mim. Imploro ao senhor que não me retire do acordo.

–Eu já te dei uma quantia em dinheiro, mas eu posso lhe dar muito mais do que isso. Então, faça o seu trabalho direito. Eu tenho quase certeza de que o maldito filho de Mosa está atrás da verdade por trás daquele anel maldito. Pode ser que até já tenha encontrado o pai.

–Creio que Mosa esteja morto, senhor.

–Não, ele está desaparecido. Mas ele pode estar vivo. Eu posso sentir. Enquanto o Pensador existir, representará sempre uma ameaça para nós. Ele precisa ser morto.

–Mas senhor, já se passaram anos e ele nunca apareceu! Como pode estar vivo?

–Ele é um homem inteligente, com certeza está armando uma emboscada para se vingar. Só não deve saber o risco que corre. Com certeza deveria nos temer.

–Senhor. Acredite, ele deve estar morto. Ele poderia muito bem nos fazer presos. Não daria tempo de darmos o troco.

–Cuidado com o seu raciocínio. Eles podem  te trair. Mas, enfim, por enquanto precisamos prestar atenção naqueles que temos certeza de que estão vivos: Lisa Whitesnake e Mark Stone. Mas, antes darmos um jeito em Mosa, caso ele esteja vivo, precisamos tomar conta da detetive e do Mark. Eles também são uma ameaça. Podem estar realizando uma investigação com objetivo de nos denunciar. Quer dizer, com certeza estão fazendo isso!

–Mas senhor, como o senhor fará isso?

–Não se preocupe eu tenho um plano. Apenas, faça a sua parte. Sabe o que deve ser feito.

–Sim senhor. Dentro do possível, tratarei de vigiar o Mark nos fins de semana. Embora ele tenha saído muito de casa... sem falar no fato de que eu dei uma festa em minha casa certa vez e...

–O quê? –Interrompeu Joseph. –Sabe onde ele vai estes fins de semana?

–Não senhor. Eu nunca fui atrás dele.

–Pois então faça isso! Não se esqueça de ser discreto. Discrição é tudo. Eu saberei a hora certa de agir. E guarde as suas transas para quando tudo isto acabar! Eu fui claro, Davis?

–Ok. Farei o que deve ser feito.

–Ótimo!

O guarda das peças do Museu se retirou do local e voltou ao trabalho.

    No horário das 7:35, os funcionários chegavam ao local e alguns turistas de férias de outono vinham visitar a instituição. Mark também adentrou no Museu. Estava exausto, cansado do último final de semana. Não conseguia digerir direito o que acontecera nos últimos dias. Para se adaptar ao clima momentâneo usava uma boina preta na cabeça e um casaco preto longo e de camurça, uma calça de moletom preta e sapatos marrons. O arqueólogo chegou em seu escritório, retirou a boina, tomou o seu assento e começou o seu trabalho como em outro qualquer outro dia.

Enquanto o arqueólogo trabalhava em seu escritório, o guarda das peças do Museu Davis foi interrogá-lo.
–Mark! –Disse debochadamente Davis.

–Davis, se você acha que vai conseguir me convencer a ir em uma festa sua... desista, você sabe que é perda de tempo. Não tenho tempo para isto.

–Eu só sigo as regras. –Soltou uma gargalhada irônica. –E é meu dever supervisionar o seu trabalho. Assim como o trabalho de qualquer funcionário nesta empresa.

–Do que você está falando, você é o guarda das peças do Museu!

–Como eu já falei, eu apenas sigo as regras aqui. Mais precisamente as regras do Joseph. Se ele diz que o guarda das peças do Museu deve supervisionar o trabalho de alguns funcionários, eu faço exatamente isto.

Quando ele falou isto, Mark se retirou bruscamente do seu escritório e foi ter com Joseph:

–É verdade que o senhor designou o guarda das peças do Museu para supervisionar todo o meu trabalho? –Dizia com a voz um pouco alterada.

–Sr. Stone, confiança é algo que leva anos para construir e alguns segundos para destruir. O que eu estou fazendo é justamente...

–Quando foi que eu destruí a sua confiança em mim? Responda! Quando foi?

O então diretor e proprietário do Museu ficou por um tempo calado.  Por fim, disse:

–Me respeite! Esta é apenas uma medida de segurança. Espero que compreenda e relembre que eu sou o diretor deste Museu. E é bom saber que se está desobedecendo as minhas instruções, não é só o seu emprego que estará em risco.

–O que mais vai estar em risco? –O diretor ficou inquieto com esta pergunta.

–O que mais?... O seu.... seu salário... sua vida... enfim... agora, fora de minha sala! –Gritou com um soco na mesa.

–Obrigado pela... atenção. –Disse o arqueólogo  de forma irônica, porém séria, e se retirou da sala.

Cada palavra do diretor do Museu deixava Mark cada vez mais desconfiado sobre a possibilidade de tudo o que aquele velho falou ter sido verdade. A maneira como falava quase que o denunciava para o arqueólogo. Este raciocínio, consequentemente, deixava o seu trabalho cada vez mais lento, enquanto a data de entrega dos artigos para a publicação dos volumes na biblioteca do Museu se aproximava.

***

   A cidade amanhecera em uma manhã de sábado úmida e nublada. Um leve vento vindo do sudeste levava para longe algumas das folhas caídas no chão das frondosas árvores nos bairros e distritos menos populosos da cidade, já amareladas pelo outono que se aproximava do fim.

   No horário das sete horas da manhã, o despertador tocou no quarto de Mark. Veio-lhe de súbito a lembrança do compromisso com a detetive particular. Levantou-se rapidamente da cama. O seu pai ainda não acordara. O arqueólogo estava cansado, não se alimentou, apenas arrumou-se com uma calça jeans preta e um casaco de lã leve e chamou um táxi para Morris, onde estaria o dito Pensador Mosa. Enquanto o arqueólogo se dirigia até a estação de táxi, não percebia que um pequeno carro vermelho pairava debaixo de uma árvore. Era Davis, com um agasalho negro e óculos escuros. À serviço de Joseph, observava e seguia cautelosamente o arqueólogo. Havia um outro indivíduo fraco e estranho, vestido com uma roupa maior do que o seu próprio corpo. Indivíduo este que andava com o rosto coberto e com a cabeça baixa.

    O veículo do guarda das peças do Museu, também seguiu o táxi até a rua Thompson, 1334 da cidade de Morris. Davis deixou o seu veículo estacionado em uma calçada no outro lado da rua onde ficava a casa do velho, mesmo lugar onde o passageiro do táxi desembarcara.

A detetive esperava em frente da residência. Ela estava com uma calça jeans marrom, um casaco leve preto e a mesma bolsa batida de sempre.

–Você veio prevenida? –Perguntou Mark debochadamente.

–Depois do que aconteceu? Claro! –Disse ela rindo  mostrando o spray de pimenta na bolsa ao mesmo tempo.

–Ótimo! –Disse o arqueólogo assentindo e rindo.

–Aí está! –Disse a detetive apontando para a casa.

    Ambos se dirigiram até a casa, caminhando através da pequena estrada enfeitada de arbustos que conduzia até a residência. Mark se aproximou da casa à frente de Lisa e apertou a campainha da casa. Mas, como uma repetição do que havia acontecido no anterior encontro em Barnely, o morador não atendeu. Apertou novamente. Desta vez, foram atendidos, mas não pelo velho e sim por um jovem universitário de 22 anos, baixo, boa postura física, pele amarela, olhos estreitos, cabelos loiros e olhos negros que transmitiam ingenuidade e um sorriso que passava o sentimento de malícia.

–Lisa! –Exclamou o rapaz.

∆∆∆

Nota: Se você gostou, não se esqueça de deixar o seu voto. Comente e dê a sua opinião. Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa muito aberta com respeito a críticas, tanto positivas, quanto negativas. Então, não tenha medo de dar a sua opinião. Eu sei que este capítulo foi bem leve, mas antes da tempestade sempre tem a calmaria. Muito obrigado e até quarta!

                 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top