4. Bruxas Sim, Patriarcado Não

As meninas caminharam pro chalé principal a procura de Belissário, alguns campistas encaravam Jessica chocados e outros agiam com naturalidade completamente cientes do que acontecia.

— Bel, apareceu uma foice na cabeça da Jessica, ela vai morrer? Me fala que não, por favor. — disse Clarissa tropeçando nas palavras.

As três demoraram a reparar na presença de uma quinta pessoa na sala -uma mulher alta de pele pálida como o luar, cabelos longos e negros, olhos heterocromáticos- estava próxima à lareira de Bel.

— Você é filha de Deméter — disse com uma voz suave. — Eu a conheço.

— Deméter?

Jessica tombou para trás, Jade e Clarissa a seguraram. A loira sentia tudo girar, ela estava confusa e com raiva.

— Minha mãe morreu quando eu era um bebê.

— Mentiram para você minha querida.

— Não. Filhos de Deméter são tímidos e...

— Quem disse que isso é uma regra? Só porque você leu em um livro antigo? Livros antigos mudam a história, eles mudaram a visão sobre o meu grupo, mancharam a nossa imagem.

— Dos deuses? — arriscou Clarissa.

A mulher riu.

— Das bruxas, minha querida.

As três sentiram um baque, não esperavam ver Hécate tão cedo. A vestimenta da deusa explicava tudo, roupas pretas e longas cobriam o seu corpo, em seu pescoço um colar com um pingente de uma pedra preta, em sua cabeça uma tiara com uma lua reluzia.

— As bruxas não eram más — ela sentou-se mais próxima às meninas. — A Igreja católica mandou matar mulheres fortes e independentes — a deusa suspirou. — A maioria das mulheres queimadas nem eram bruxas, muito menos sabiam sobre a magia, apenas estavam a frente de seu tempo.

Hécate suspirou ainda ressentida com o ocorrido, cada fogueira havia queimado um pouco dela.

— As bruxas salvaram muitas da fogueira, infelizmente não conseguiram salvar todas. Além disso, as poucas bruxas que foram condenadas se permitiram morrer, estavam cansadas demais.

Hécate frequentemente se recordava da Idade Média, ela sentia-se extremamente culpada por tudo que havia ocorrido. Pensava que poderia ter salvado todas as mulheres e feito as pazes com os religiosos.

— A Igreja esqueceu que os homens podiam ser seres mágicos também — Belissário se exibiu nesse momento, aliviando a tensão do local. — Mas eles não foram punidos, nenhum homem precisa ser forte e independente, a sociedade já é perfeita para ele.

Hécate jogou uma bola de fogo no ar com raiva. Seu filho olhou-a cauteloso, sabia o quanto sua mãe se culpava por esse episódio, mesmo ela tendo feito o seu melhor para salvar as mulheres.

— Deméter estava lá — disse Hécate encarando Jessica. — Como é ligada as estações do ano, ela possui controle sobre os elementos primordiais da matéria, como o fogo, e, em uma época de fogueiras, ela foi chave essencial.

Jessica sorriu. Parte dela se sentia aliviada por saber de sua mãe e de seus poderes ligados às plantas, ela não se sentia mais tão estranha. Outra parte duvidava de tudo, estaria a deusa da magia contando a verdade? Ou ela estaria apenas mechendo com sua cabeça?

— Você e Deméter são muita vezes retratadas com tochas, agora tudo faz sentido. — disse Clarissa se sentindo inteligente.

— Deméter usou as tochas para se guiar no submundo a procura de Perséfone, eu uso tochas para os meus rituais.

— Dá na mesma. — disse Clarissa sorrindo envergonhada.

Hécate percebeu Jade próxima a Clarissa, a deusa sentiu-se feliz, esqueceu da tragédia por um momento, mesmo não sabendo demonstrar suas emoções positivas, ela resolveu tentar.

— Jade. — disse ela.

Jade parou de zombar de Clarissa e olhou para deusa, ela sentiu uma pontada em seu estômago. O que ela havia feito? Hécate apenas encarava a morena em sua frente, a pele dela não era tão branca quanto a sua e seus olhos não eram heterocromáticos como a maioria de seus filhos. Mas Hécate não se importava, tudo isso parecia ser padrões de um livro estúpido e a deusa odiava os livros não mágicos, eles nunca a mencionavam, mesmo tendo nascido na era dos Titãs, os mortais acabaram esquecendo-a e ela não podia culpá-los. Era culpa dos livros e dos deuses.

Hécate era péssima em proclamar seus filhos, ela havia adotado um método único, ela sumonou um colar com uma pedra de ônix como pingente. A deusa caminhou até Jade e entregou-o, a garota estava confusa, Belissário já sabia o que estava acontecendo e não conseguia disfarçar o sorriso em seu rosto.

— Para você.

— Hm, obrigada.

Jade pegou-o assustada, todos esperavam que ela colocasse, ela suspirou e tentou fazê-lo sozinha.

— Quer ajuda? — disse Clarissa ao seu lado.

Jade cedeu, Clarissa fechou o colar. A pedra reluziu em seu pescoço, a luz não era como Jade esperava, ela era prateada como a lua.

— Por quê? — Jade olhou para Hécate.

— A pedra ônix simboliza o poder. Todos os meus filhos a possuem.

Jade sentiu seu estômago revirar, "filhos? Isso quer dizer quê?"

— Você é minha irmã Jade. — Belissário a abraçou sorridente.

Jade não se afastou, estava chocada demais, Clarissa e Jessica aproveitaram para um abraço em grupo. Hécate apenas os olhou, ela se sentia melhor sozinha, interação social a assustava. Jade encarou a deusa, Hécate tentou sorrir. A morena se viu naquela mulher, o sorriso desajeitado, as roupas pretas, o distanciamento das pessoas. Mas, o que levou Jade a criar essa imagem de durona foi o abandono dos seus amigos e a rejeição após se assumir.

Jade sentia-se feliz em saber que a sua mãe não havia a abandonado porque quis, ela era uma deusa e isso explicava muito, mas não tudo. Sua sensação de alívio sumiu tão rápido como chegou, quem era a mãe de sua irmã? Havia ela abandonado Brie? Hécate encarou Jade preocupada, ela constantemente usava feitiços para ler as mentes dos outros sem permissão.

— Eu não sou a mãe da sua irmã, Jade.

Jade a olhou, seus olhos lacrimejaram contra sua vontade, sua irmã havia sido abandonada e ela conhecia aquela sensação.

—Seu pai não sabia que eu era uma deusa. Ele não poderia saber, arruinaria a mente dele.

Jade assentiu. Seu pai se tornou um alcoólatra após a morte de sua irmã, ele também se culpava. Belissário encarou Hécate.

— Afinal, o que faz aqui?

— Vim proclamar Jade e acabar com os rituais das montanhas.

Clarissa encarou Jessica e Jade.

— Magia negra não é para semideuses. Somente deuses podem controlá-la, em especial eu e minha filha, Circe. — disse ela, as meninas sentiram o poder sendo emanado em cada palavra.

Clarissa ergueu a mão, Hécate estava confusa. Belissário aceitou a pergunta.

— Por que os filhos de Hécate e Circe não podem? Eles são bem mais poderosos do que os abençoados. Às vezes eles conseguiriam lidar melhor.

Jade sentiu um frio na espinha. Hécate sorriu, ela apreciava perguntas como aquela.

— A magia negra é muito poderosa, Clarissa — a garota ficou boquiaberta, ela não havia citado seu nome. — Ela quer apenas um corpo, porque poder já tem e essa forma física deve ser forte, o que de fato os meus filhos são. No entanto, as suas mentes são facilmente dominadas pela magia, ela os chama com maior frequência. Por isso você deve ter cuidado. — Hécate encarou Jade, a garota sentiu seu corpo aquecer como o Tártaro, ela queria sair correndo, pois já sentia suas lágrimas a caminho. Porém, suas amigas seguraram suas mãos, a acalmando, Jessica sorriu terna, o que fez Jade respirar fundo.

Clarissa levantou a mão quebrando o clima, o líder do acampamento novamente aceitou seu questionamento.

— Eu li em um livro que semideuses gregos são levados para o acampamento Meio-Sangue quando completam 12 anos, por que demoraram tanto para encontrarem as meninas?

Hécate sorriu.

— Novamente uma pergunta coerente. Vocês três são minhas protegidas, aliás, todos aqui do acampamento são, então vocês não corriam tanto perigo a viverem vidas comuns por um tempo até encontrarmos vocês. O que demora bastante pois temos poucos detectores, por isso todos os meus abençoados tem feitiços de proteção evitando que qualquer monstro os ataque.

Clarissa se deu por satisfeita.





Autora: temos duas semideusas, OH WOW. O que acham disso?

Estou amando a reação de vocês, muito obrigada de verdade♡♡♡♡♡♡ (esses corações estão vazios, mas o meu está cheio de amor por vocês. Credo, quanta melação).
Enfim, postei esse capítulo antes, pois o próximo é MUITO importante pra mim e eu quero que vocês o leiam logo.

Rápido esclarecimento aos católicos, minha intenção não é feri-los com os acontecimentos da Idade Média, se vocês se sentiram ofendidos, me perdoem de verdade. Só quis mostrar uma perspectiva feminina sobre tudo isso.

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