11. Tom e Jerry
Clarissa encarava os frascos de vidro. Thomas estava concentrado em selecionar as melhores ervas para realizar suas poções. O garoto colocava as plantas nos frascos misturando-as com líquidos que faziam Clarissa querer vomitar. O cheiro não era nada agradável.
— Beba.
— Você enloqueceu Tom?
Thomas riu, seu sorriso era brilhante. Clarissa cruzou os braços, ela não se atreveria a beber aquele líquido verde fedorento.
— Eu bebo. — disse Tom.
— Você enlo...
Thomas bebeu a poção. Nada aconteceu, seu hálito continuava o mesmo, sua bochecha estava vermelha devido ao tapa, tudo igual. A sala estava silenciosa, Clarissa o encarava com certo receio, não queria que o amigo virasse um monstro e a atacasse.
— O que aconteceu?
Thomas arrotou.
— Desculpe-me, estava com sede.
Clara riu, fazendo o garoto rir também. Eles gargalharam da situação.
— Chamaram esquisitos? — Jade apareceu na porta do Chalé.
— AMIGAS — chamou Clarissa animada. — Vocês receberam a minha mensagem de Íris!
— Por que nos chamou pro seu encontro?
Os dois coraram. Jessica riu.
— Isso não é um encontro, só estamos fazendo poções.
— Soa como o encontro perfeito — disse Jade. — Fazer poções, aterrorizar filhos de Apolo e terminar encarando o luar.
— Filhos de Apolo?
Jade deu de ombros.
— Enfim... — disse Thomas ainda envergonhado. — Nós precisamos da ajuda de vocês.
— Claro. — Jessica estava animada encarando os frascos vazios.
— Preciso de uma fonte de magia poderosa. — ele encarou Jade.
— Para quê?
— Uma poção que transforma homens em animais.
— Essa não é a marca da sua Mãe?
Circe transformava homens em animais, raramente quando os poupava fazia-os se renderem perante à ela. A deusa era perigosa, ninguém gostaria de ser seu inimigo. Thomas apenas assentiu enquanto mechia nas garrafas.
— Preciso usar o caldeirão, alguém tem fogo? — ele olhou para Jade.
— Por que eu?
— Sua mãe usa tochas.
— Ela está ligada aos elementos água e terra. — reclamou Jade.
— Eu achei um fósforo. — Clarissa caminhou até o caldeirão e acendeu-o.
Os quatro encaravam o caldeirão de ferro, cabia umas três pessoas e a quarta poderia fazer uma sopa deles. Agora Clarissa entendia a história de João e Maria, e, definitivamente não queria ser nenhuma das crianças.
— Então, qual o próximo passo?
— Água.
Jade encarou Clarissa, a qual assentiu, elas encheram o caldeirão até a metade. Jessica brincava com as ervas, fazendo-as brotar das rachaduras do chão do Chalé.
— Perfeito. — disse Thomas se referindo à água e as novas ervas, o que pouparia sua ida até a plantação.
Ele arrancou as ervas de qualquer jeito, o que fez Jessica grunhir. Thomas jogou-as no caldeirão de água fervente, as ervas reagiram com os feitiços de Tom. As meninas não sabiam em que ponto a química terminava e a magia começava.
— Está pronto.
Clarissa encarou o caldeirão, a poção estava roxa e borbulhante, ela não se atreveria a bebê-la.
— Quem você vai transformar em animal?
— Eu. — respondeu Thomas.
— O QUÊ?
— Preciso conversar com Circe, tirá-la temporariamente da Ilha, essa é a melhor forma.
— Eu li sobre o spa — disse Clarissa. — As mulheres diziam que era fantástico, os homens não gostavam muito. — ela fez uma careta.
— Achei que a ilha havia sido destruída.
— E foi — concordou Thomas. — Mas ela a reconstruiu, a destruição da ilha só permitiu que Circe saísse com mais frequência.
Thomas terminou de despejar o líquido no frasco com um auxílio de uma concha.
— E se ela não vier? — perguntou Jessica relutante.
— Avisem Belissário.
Ele bebeu a poção, estava esperançoso, poucas pessoas teriam a audácia em transformar outros em animais em nome de Circe. Thomas pulou e ao cair no chão transformou-se, era um belo porquinho da Índia.
— UM RATO — Clarissa corria desesperada.
— Tanto animal e você escolheu um rato? — questionou Jade.
— O Tom virou o Jerry! — Clarissa continuou correndo.
Jessica tentava controlar a amiga explicitando as diferenças entre os porquinhos da Índia e os ratos. Mas Clara não escutava, estava preocupada demais surtando.
— Em quanto tempo Circe vai notar que alguém utilizou a poção dela? – perguntou Jade jogando pedaços de queijo para o animal.
— Eu não sei — confessou Jessica. — Onde você achou queijo?
— Eu sumonei.
— Eu tenho que te supervisionar também?
— Você é péssima nisso, Clarissa acabou de sair do Chalé.
— O quê? — Jessica olhou ao redor, nenhum sinal da semideusa— CLARA.
Jessica arrastou Clarissa para dentro do chalé, a garota reclamava, não queria estar no mesmo ambiente que um animal "asqueroso". Jade jogava queijo nas meninas enquanto elas discutiam.
— Dá pra você parar?
— Eu sou intolerante a lactose. — disse Clarissa preocupada.
— Você vai morrer.
Clarissa choramingou. O Chalé brilhou como o sol. Uma mulher alta morena de olhos verdes penetrantes as encarava.
— Quem ousa roubar a minha poção?
As três a encaravam boquiabertas. Circe estava parada com os braços cruzados, suas roupas roxo escuro combinavam com seu batom preto. Ela arqueava uma sobrancelha aguardando alguma resposta.
— Seu filho — Jessica apressou-se a responder. — Thomas.
A loira apontou pro porquinho da Índia, o qual comia calmamente um pedaço de queijo anteriormente jogado por Jade. Circe suspirou.
— O que ele quer?
— Conversar.
— Eu vou reverter o feitiço — disse a deusa. — Mas não irei conversar.
— Ele quer respostas — disse Jade enfurecida, ela se identificava com Thomas nesse quesito, a confusão, as mentiras contadas, ser um semideus era irritante. — Custa alguma coisa?
— Quem é você? — perguntou Circe irritada.
— Presumo ser sua irmã.
Circe bufou.
— Escuta irmãzinha, eu sou filha de Hécate e do titã Hélio, mesmo não sendo mais influente, Hélio já fora o deus do sol, até ele ser substituído por Apolo — ela irradiava ódio em cada sílaba. — Nós não somos iguais por sermos meio-irmãs, eu sou uma deusa e você é uma mera semideusa, serviçal dos deuses.
Jade apertou o punho.
— Serviçal? Pelo o que eu sei, vocês precisam de nós, não sabem se virar sem os semideuses. Eu li sobre as missões que nós teremos que enfrentar — ela apontou para os amigos, inclusive o roedor. — Vocês não se importam conosco, querem tudo pronto, inclusive querem que procuremos seus filhos. Afinal, vocês se lembram deles? Ou somos apenas "serviçais"?
Circe se surpreendeu com a atitude da garota, ela se viu na menina, toda aquela revolta direcionada aos deuses as unia. Circe prometeu ser fiel aos titãs, mas continuava odiando seu avô, Cronos. Ela odiava servir, queria ser sua própria pessoa.
— Eu vou reverter o feitiço e conversar com o Thomas — a deusa encarou Jade. — Você realmente é filha de Hécate.
Jade deu de ombros, estava zangada, não havia feito um discurso para convencer Circe, afinal a feiticeira poderia ter usado charme, mas não o fez. Circe usou o resto da poção do caldeirão para transformá-lo em humano. A feiticeira foi rápida, não precisou de frascos, apenas colocou um dedo na água fervente e tocou no animal.
Thomas pulou e caiu como humano. Ele olhou para cima, seus olhos verdes encontraram com outros semelhantes. Ele sorriu, Circe não parecia feliz em vê-lo. O garoto levantou com ajuda de Clarissa.
— Sobre o que quer conversar?
— Eu sou o Thomas, seu filho... — ele não havia a escutado, estava nervoso demais, apenas disse o discurso que havia praticado por anos. — Espera, você quer conversar?
A feiticeira assentiu, ela não olhava para o garoto.
— Em primeiro lugar, eu gostaria de saber porque você me deu para a minha mãe — ele percebeu a relutância da deusa. — Milena.
Circe o olhou, aquele nome fez seu coração disparar. Ela olhou para seu filho, ele possuía o sorriso sem jeito, as covinhas e o cabelo bagunçado da mãe mortal. Circe suspirou.
— Sua mãe visitou a minha ilha anos atrás, a fim de explorar novas ervas para a medicina, nós nos... envolvemos. Ela era a alquimista mais linda que eu já havia visto.
A deusa encarava o fogo recém aceso em seus dedos. Jade encarou Thomas com cara feia, insinuando que ele poderia ter acendido o caldeirão.
— Eu não precisei usar charme na voz para ficar com ela, por algum motivo Milena gostava de mim, ela falava sobre o futuro e eu sempre desviava o assunto — ela encarou o chão.— Deuses não possuem futuro com mortais. Na nossa última semana, eu lhe dei, a segunda coisa que ela mais queria; um filho — a deusa encarou Thomas, o qual sorriu.
Jade sentiu-se culpada por ter discutido com a feiticeira, ela percebeu que mesmo os imortais sofrem.
— Ela aceitou mentir ter te adotado, mesmo eu usando o dna dela para te fazer. Você é filho do nosso am... de nós duas.
Tom sorriu, ele abraçou Circe, a qual queria transformá-lo novamente em um roedor, ou talvez em uma criatura maior.
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