PRÓLOGO

Naquele dia, o relógio não precisou despertar, uma galinha não precisou cantar, nenhum barulho o acordou. Milagrosamente, ele despertou do sono por conta própria, algo que era meio raro de acontecer. Ainda semi acordado, deu uma olhada na hora e eram 3h30min da manhã. Trabalhava distante da sua casa, num prédio que ficava no centro da cidade... E isso significava uma viagem longa, começando pelo bairro onde sua casa se localizava, bem no subúrbio da metrópole.

Seu cachorro, um pinshcer bem pequenino e velho era sua única companhia naquela casa de dois andares. Não era religioso, então, não dava nem para dizer a ele que ele não morava sozinho, morava com Deus.

Se levantou da cama se esticando, e esfregando os olhos. Dirigiu-se até o lugar onde guardava a ração de seu cachorro e colocou dentro do saco um copo, e com ele retirou vários biscoitinhos de carne e os colocou na tijela do animal.

A rotina, iria revelando cada vez mais a personalidade do homem: um pouco rabugento, meio desgostoso com a vida, terrivelmente solitário, e claro, isolado em seus pensamentos. Era como se ele mesmo fosse sua outra companhia humana, uma outra companhia racional, a qual não podia ver e que morava dentro de si.

Todo dia, sempre tomava o mesmo café da manhã, pão com manteiga e chá... Sim, chá...

Enquanto passava a manteiga no pão, ele mergulhava em seus pensamentos, e por alguns momentos, nem percebia que estava na realidade.

Como vim parar aqui? Nessa pocilga? Ela tem cheiro de testículos... E é pequena... Pelo menos tem dois andares. O que você fez da sua vida, cara? Por que você a jogou fora? Você poderia estar viajando agora, curtindo sua vida... Não tendo que trabalhar num emprego ruim e morar apenas com a merda de um cachorro... Você era talentoso... Cadê você? Eu sei que está em algum lugar dentro dessa cabeça bagunçada!

Pegou a xícara de chá e o prato com o pão e levou em direção a mesa que ele tomava café da manhã. Tudo era tão repetitivo, que até seus pensamentos eram os mesmos. Eles todos os dias diziam as mesmas coisas... Martelavam na cabeça do homem as mesmas coisas, e jogavam em sua cara diversos fatos desconfortáveis sobre sua vida.

Não é mesmo? Você está aí em algum lugar...

Sentou-se na cadeira e se preparou para dar a primeira mordida no pão.

Você está aí, não é?

O pão já estava perto de sua boca, mas antes de ele morder, colocou-o de volta no prato, apontou para a cadeira que estava do outro lado da mesa e disse:

- Eu sei o que você acha... Que sou um fracassado que não aproveitou nenhuma droga de oportunidade que tive na vida, não é?

E estou mentindo?

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