04 - Ascendência;
Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade. — Paul Valery.
🗡️
Hoseok abriu os olhos no segundo em que o choro manhoso soou através da babá eletrônica — de pé, pouco sonolento, saiu do próprio quarto, seguindo as cegas até o outro, entrando com cuidado, a luz suave vinha do pequeno abajur em formato de lua minguante, o tom alaranjado mantinha o espaço infantil acolhedor. A mamadeira estava aquecida, o ex oficial preparou antes mesmo de dormir, deixando em uma bolsa aquecida pela água quente em cima da cômoda branca com desenhos de flores coloridas.
— Appa chegou, meu universo — sorriu, sua voz mesmo sonolenta era amorosa e meiga, levando a garotinha de dois anos a sorrir.
— Pesadelo — diz, evidenciando o motivo de seu despertar às três e meia da manhã.
— Quer me contar? — a mesma negou, pegando a mamadeira, voltando a se aconchegar na cama quente e macia, era como deitar nas nuvens.
— Tudo bem, appa está com você, tá bom? Não está sozinha.
— Bigada, appa. Eu te amo.
— Também amo você, mi amor.
O moreno ficou ali, contando a mesma história para que sua filha adormecesse. Jung Moon, tinha traços perfeitos de seu ex marido — o sorriso gengival era um registro impagável, o olhar felino, até mesmo a maneira silenciosa e observadora, de certa forma estava aliviado por ela não ter, ao menos por enquanto, os traços de sua mãe.
Às quatro em ponto, Moon adormeceu. Hoseok deixou a porta entreaberta e voltou para cama, deitando nos lençois mornos, pensando em tudo que queria esquecer — e mais uma vez foi levado para a pior lembrança que poderia ter de Min Yoongi.
A porta fora destrancada às dez e meia da noite de uma sexta feira. Yoongi entrou aos tropeços, caminhando lentamente para manter o equilíbrio, passando pelo hall de entrada encontrou Hoseok de costas para si, a taça de vinho próxima e o olhar vazio, encarando um ponto cego a menina que a umidade começou a escorrer.
— Sente-se — não fora um pedido.
Yoongi se sentou, notando um envelope branco em cima da mesa de centro, seus sentidos despertam ao cogitar o que poderia ter ali.
— O que é isso? — o medo estava presente em sua voz rouca e embargada pela embriaguez.
— O resultado de sua infidelidade — o tom amargo doeu no íntimo do policial investigativo.
Sem compreender devido a quantidade absurda de álcool no organismo, com as mãos trêmulas pegam o envelope, abrindo com certa dificuldade, tirando dali um único papel A4 contendo as informações e o medo que gelou seu sangue ao constatar a gravidez da mulher que nem mesmo sabe o nome.
— Hoseo....
— Poupe suas palavras — o corta friamente. — Quero-o fora em vinte e quatro horas. — Informa.
— Isso não está acontecendo — resmunga. — Hoseok isso pode ser manipulado.
— Eu verifiquei. Não é — sorri ladino, magoado, desesperado por lágrimas que não vinham. — O que fará? Hum?
Min largou o papel e levantou-se com dificuldade, cambaleando, tentando se aproximar do marido que o olha com fúria, tristeza e vergonha.
— Não vou assumir. Não tem lógica. Ela está mentindo — aumentou o tom de voz.
Hoseok fechou as mãos, concentrando-se na dor que as unhas curtas causavam na palma da mão fechada.
— Além de traidor, não assumirá a responsabilidade? — a primeira lágrima caiu. — Quem é você? — lamentou. — Foi com este homem com quem me casei? — indaga. — Com quem desejei ter uma vida? — repudiou.
— Hobi. Não diga isso. Eu vou consertar tudo — desesperou-se.
— CONSERTAR O QUE?! — gritou. — Estamos falando de um bebê. O fruto da sua infidelidade cresce no ventre da mulher que mal sabe o nome, duvido que saiba que ela nada mais é que uma promotora de justiça de Seattle.
— O que?! — frustrou-se, pressionando os olhos com os dedos, contendo a ânsia de chorar e implorar por um perdão que não viria.
— Quero-o fora — deu-lhe as costas, caminhando com o pouco de forma que lhe restava. Fora emoções demais por um dia.
— Hoseok! Por favor! — implorou.
De costas para Yoongi, Hoseok respirou fundo e decretou:
— Assumirá essa responsabilidade, caso contrário irei à justiça — sentencia.
Voltando à realidade, o céu já estava claro o suficiente para que não pudesse dormir nem mais um segundo. Estava exausto a muito tempo, tempo este que demorará ser superado. A solidão e tristeza tem feito moradia e parece não ter sinal algum de ir embora.
[...]
— Moon? — chamou a criança que o olhou com dificuldade, visto que o sol prejudicava seus olhos sensíveis. — Se comporte tá bom? Tenha um ótimo dia amor, appa virá te buscar mais cedo, sabe que dia é hoje?
— Dia de natação — quase grita eufórica.
As crianças já entravam animadas, despedindo-se novamente, a observou correr para a professora que aguardava com um sorriso iluminado e olhar afetuoso. Seguindo para o carro, entrou, precisava passar na delegacia para verificar alguns casos antigos — saindo do acostamento, pisou fundo no freio, o carro deu um solavanco para frente, assustando-o de imediato, pois um conversível vermelho o fechou em um piscar de olhos. Uma mulher alta de vestimentas elegantes desce em pânico.
— POR FAVOR! ME AJUDE. MEU FILHO NÃO ESTÁ RESPIRANDO — grita.
Hoseok desceu às pressas e correu até o carro, pegando a criança do colo da babá e fazendo a manobra de heimlich, todos pararam para ver a situação desesperadora, a mãe era amparada por quem estava perto, em cinco minutos o garotinho vomitou tudo que havia comido e voltou a respirar.
— Meu Deus! Muito obrigada — pegou o filho, o ninando e dizendo o quanto a ama.
— Leve-o ao hospital mais próximo, apenas para verificar se está tudo bem.
— Sim senhor. Obrigada.
Ignorando os aplausos e agradecimentos pelo ato heroico e altruísta, Jung retorna ao carro, aguardando passagem para seguir ao seu respectivo destino. O céu estava azul, sem nuvens, apenas com o sol aquecendo e trazendo vida a tudo que tocava — o departamento de Seul era perto da escola, portanto ao chegar, parou na mesma vaga de sempre, ajeitou o terno escuro destacando a camisa social branca por baixo.
Nenhum de seus amigos poderiam saber que estava investigando a morte precoce de seus falecidos amigos. Passando pelas portas duplas de vidro, cumprimentou quem passava por si, indo até a sala que mesmo tendo saído da corporação, continuava sendo sua.
— Caramba. Senhor Jung voltou — uma comenta.
— Sem pânico, ele deve estar nos ouvindo. Sua tonta.
— Tanto faz — da de ombros. — Uma pena o que aconteceu com todos eles, não acha? — comenta. — Parece que com o senhor Jung, pareceu pior.
— Por qual motivo?
— O marido o traiu e engravidou uma promotora de justiça americana, dizem os boatos que ele assumiu toda a responsabilidade, porque essa mulher queria abortar.
Hoseok parou, encarou ambas policiais que arregalaram os olhos ao notar que ele parou de caminhar, que ouviu atentamente cada palavra dita por elas.
— Nos perdoe, senhor Jung.
— Sem problemas, a minha vida é de conhecimento público, porém sugiro que não façam esses tipos de comentários em minha presença. Não é educado.
— Sim, senhor.
Em sua respectiva sala, tirou o paletó, colocando-o no encosto da cadeira alta de couro, sentou-se e observou a porta de vidro, analisando cada um que passava por ali, inerte em pensamentos que estavam a todo vapor.
— Hobi? — uma voz suave e conhecida o trouxe de volta.
— Oi.
— Voltou ao cargo? — Jin pergunta esperançoso.
— Não. Ainda não — suspira. — Vim pegar alguns casos para analisar.
— Você não engana ninguém, sabe? — Kim se acomoda na cadeira de frente para o melhor amigo. — O que ganha em remexer em um caso que fora arquivado? — Lamenta. — A justiça será feita em algum momento, Jung. Foi uma perda terrível para todos nós.
— Sei disso. É necessário que isso não fique arquivado, Jin. Eles não merecem isso.
— Sei disso. De qualquer forma, pode fazer o que precisa ser feito, apenas tome cuidado.
— Pode deixar.
Jin o encarou por alguns instantes, notando o cansaço, o quão fosco eram as íris castanhas, antes exalavam brilho e calor. Agora não havia nada.
— Onde está a Moon?
— Na escola, hoje ela tem natação.
— Que ótimo — assente. — Aliás, além de vir para saber como está, gostaria de te convidar para jantar hoje. Namjoon queria convidar a um tempo, mas decidiu lhe dar espaço.
— Estou bem, Jin — omite. — Iremos sim.
— Perfeito, vou fazer algo especial — animou-se, ficando de pé.— Estamos com você, sempre estivemos e sempre vamos estar.
— Obrigado.
Seokjin saiu sem dizer nada, com isso, Jung pegou a caixa contendo tudo sobre as investigações feitas nos EUA — separou os papeis e os leu atentamente, fazendo anotações e ligações para o exterior para obter melhores resultados. Após duas horas e meia, tomando café já frio, seu celular tocou, seu coração saltou do peito ao ver que era da escola de sua filha.
— Alô? O que aconteceu?
— Acalme-se senhor, Moon está bem. O motivo da minha ligação é que Min Yoongi está aqui e solicita sua presença, pois ele queria ver sua filha e nós não permitimos.
— Estarei aí em quinze minutos — encerrou a chamada.
Sem esboçar reações, guardou tudo dentro da caixa e deixou a sala sem ao menos pegar o paletó, Jin o chamava, todavia não o ouviu, apenas correu porta a fora até o veículo.
Os pneus derrapam ao parar no acostamento, ofegante desceu e correu até a sala da diretoria, através da pequena janela na porta de madeira, viu seu ex marido — contando até três entrou, cumprimentou a diretora no mesmo instante.
— Poderia nos deixar a sós por alguns minutos, senhora Soo.
— Claro.
Assim que ficaram sozinhos, Hoseok apoiou as mãos na cintura, totalmente desacreditado na coragem deslavada de Yoongi aparecer ali.
— O que pensa que está fazendo? — questiona. — Que direito você acha que tem, para chegar aqui e exigir ver a minha filha.
De costas para si, Jung ouviu o sorriso rouco e debochado, a postura totalmente ereta e elegante o mesmo se levantou e virou, encarando o homem por quem prometeu amar incondicionalmente.
— Sua filha? — crispou os lábios. — Que traços dela são parecidos com os seus?
— Ela se tornou minha porque você não cumpriu o seu papel como pai dela. Nem ao menos lutou por ela quando aquela vadia falou para mim que abortaria, pois uma criança indesejada atrapalharia sua carreira — por pouco a raiva não o tomou por inteiro. — Eu não fiz a mínima questão de te colocar na justiça para ter o mínimo. Eu quem permaneci em alerta por nove meses, temendo que aquela mulher fizesse algo. Eu paguei tudo, para que ela ao menos se cuidasse e carregasse o bebê. E todos os meses eu te enviei mensagens, quais você não respondeu nenhuma. EU QUEM ESTIVE QUANDO ELA ENTROU EM TRABALHO DE PARTO. EU QUEM ESTIVE QUANDO ELA SIMPLESMENTE ASSINOU OS PAPEIS E ME ENTREGOU A CRIANÇA — soltou o ar que segurava. — Agora, depois de anos você aparece, exigindo algo que não possui direitos legais — aproximou-se, ficando quase um palmo de distância do menor, que não proferiu uma só palavra. — E eu sei que quem está diante de mim é sua pior parte. Sua pior versão.
O sorriso ladino brotou na face alheia e o moreno recuou alguns passos.
— Você não tem o direito de vê-la. Se realmente quer recuperar o tempo perdido com sua filha, sugiro que procure as autoridades e faça como tem de ser feito. Do contrário, você está proibido de vir a essa escola, de ir em qualquer lugar onde ela esteja — promete.
— Sou apenas eu quem está na sua frente, Hoseok.
— Não é.
— Como pode ter certeza?
— Pelo fato de você estar usando o anel na mão esquerda e não na direita — pontua. — Acha que eu não iria notar, né? Enfim. Faça o que ordenei ao menos uma vez em sua vida.
Sem mais nada a dizer deixou a sala, seguindo pelo corredor longo até encontrar um dos seguranças conversando com a diretora.
— Terminamos — avisa. — Quero que contrate mais seguranças e em hipótese alguma permita a entrada dele aqui.
— Sim senhor — a mais velha assente.
Do lado de fora dos portões, enconstou-se no capo do carro e aguardou a saída de Yoongi, quando aconteceu não houve palavras, apenas olhares distintos.
— Você sabe que sempre quis ser pai — o timbre rouco soou um pouco alto.
— Então deveria ter feito seu dever.
— Queria com você.
— Comigo ou não, tinha que cumprir, ela não tem culpa alguma de sua traição, do seu desamor — seu tom de voz era amargurado. — Sua outra metade detesta crianças, vale ressaltar.
Dito isso entrou no carro, saindo sem olhar pelo retrovisor, afrouxando a gravata, Hoseok chorou. Chorou enquanto dirigia, esmurrou o volante ao parar no sinal vermelho.
Depois de quatro anos, Yoongi retorna como se nada tivesse acontecido, como se houvesse se passado apenas dias, e isso era tão frustrante quanto tudo que tinha de lidar.
Mais do que tudo, Hoseok sabia que isso era o começo do seu pior pesadelo.
:)
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