Capítulo 7
O azul do céu, logo naquela hora da manhã, fez Giovanna se lembrar das muitas vezes em que foi à praia, com os amigos, com alguns namorados que teve, ou com familiares. Ao lado de Pamela, que olhava para Nicolas mergulhando na água com Roberto, a estudante de Medicina sentiu saudade de casa. Um meio sorriso nostálgico surgiu em seu rosto formoso e jovem, só para em seguida desaparecer quando do nada ela sentiu um estranho arrepio correr por seu corpo.
— O que foi? — Pamela percebeu a amiga tremendo.
— Não. Nada — a garota negra disfarçou sorrindo. Não queria continuar externando suas inquietações.
A loura balançou a cabeça em negação, sorrindo para sua amiga. Escavou com as pontas dos pés um pouco de areia, as mãos do lado dos quadris apoiadas na areia. De vez em quando arrumava o fio dental minúsculo quando sentia sobre si os olhares de Tommy e Roberto. O compatriota não fazia questão de esconder que não nutria nenhuma simpatia pelo americano, e Pamela, embora odiasse homens que se achavam donos dela, no fundo gostava de despertar emoções neles.
De Tommy, a estudante de Educação Física não sabia bem o que pensar. Era inteligente, comunicativo e tinha muito de americanos: um pouco de arrogância, resposta para tudo. Mas Roberto era perfeito, fisicamente falando, em todos os sentidos.
A transa que tivera com o sul-matogrossense fora bem intensa, no sentido mais visceral da palavra, e ela queria esse tipo de experiência há muito. Giovanna podia falar dela o que quisesse, que era fútil, que brincava de amores, mas era seu jeito e ela era feliz assim.
Roberto entrou de novo na água e deu um mergulho, nadando feito um tritão. Nicolas estava ao lado dele. Giovanna, ao vê-lo sorrindo, de repente sentiu uma parte de suas inquietações deixar sua mente ao ver o rapaz por quem começava a sentir-se cada vez mais atraída. Atraída não só pela beleza física dele, mas pelas qualidades internas, que nunca mudavam com o tempo.
A verdade era que Giovanna precisou sair do Brasil para encontrar um homem que a fazia se sentir protegida, que não a via apenas como uma mulher negra bonita mas como uma pessoa com uma história.
Ela não queria que nada do que viveram até ali virasse só uma lembrança de uma viagem, mas algo mais.
Sentindo-se uma colegial que fica babando pelo capitão do time de futebol, a garota suspirou ao ver os músculos abdominais de Nicolas.
Tomou uma resolução.
— Vou dar um mergulho. Você vem? — estendeu a mão para Pamela.
— Claro.
As duas amigas correram de mãos dadas em direção à água, riram e gritaram quando ficaram só com a cintura descoberta. Jogaram água uma na outra, montaram nas costas dos dois rapazes, brincaram como crianças.
Laura, usando óculos de sol, desfilava pela praia em seu biquíni vermelho com alcinhas dos lados. Os banhistas americanos a olhavam admirados com suas belas formas, logo deduzindo que ela era estrangeira. Mulheres americanas não usavam aquele modelo de biquíni.
A morena tomou um gole de sua lata de cerveja, andando sorridente, apreciando cada passo que dava na areia fofa. Olhou para os dois casais que brincavam na água e faziam alarido, chamando a atenção dos outros banhistas. E instintivamente direcionou suas orbes negras para Tommy, conversando com alguém no telefone.
Ela caminhou calmamente até ele, sentou-se ao seu lado, e quando teve sua atenção, trocaram um meio sorriso.
— Quer um gole? — ela brandiu a lata para o americano.
O oferecimento não era lá grande coisa, porque a bebida já estava menos da metade, mas o rapaz fez um breve aceno afirmativo e bebeu.
— Thank you — ele agradeceu.
Laura e Tommy olharam ao mesmo tempo para o mar diante deles. Para as pessoas que nadavam. Para os amigos do hostel.
— Parece que nós dois somos os únicos que estão sem vontade de entrar na água — a morena puxou assunto.
— Yes — o americano respondeu. — Mas eu tenho um bom motivo. Estou um pouco resfriado e a água está fria.
— Ah! Entendo. É bom não entrar mesmo, pode ficar febrio.
— E você, por que não entra? Não são seus amigos?
— Não necessariamente. O Nicolas e o Roberto vieram comigo no mesmo avião. Somos do mesmo Estado, mas não nos conhecíamos. A Giovanna e a Pamela, conhecemos no ônibus que nos trouxe para cá. Não temos afinidades, mas temos em comum o gosto de conhecer lugares diferentes no mundo, e claro que isso fez nascer um tipo de… camaradagem.
— Vocês, brasileiros, têm fama de ser simpáticos e receptivos. Recebem de braços abertos gente do mundo inteiro e acho isso bem legal.
Laura gostou de ouvir isso de seu povo.
— Em alguns Estados do Brasil, o povo é mais espontâneo. Paulistas são mais sérios. Já cariocas e bahianos, todo o povo do nordeste, são mais alegres, despojados. No Sul do Brasil, onde temos colônias de alemães, italianos e ucranianos e poloneses, as pessoas valorizam muito o trabalho e a educação.
— E de qual Estado você é, Laura?
— Mato Grosso do Sul, como o Nicolas e o …
Tommy cofiou o queixo.
— Não conheço nada de lá.
Laura não se sentiu ofendida pela ignorância do ianque quanto ao seu Estado. Mesmo os brasileiros conhecem pouco do Centro Oeste, com excessão do Pantanal, das fazendas onde se cria gado e as plantações de soja, milho e algodão.
— Fale um pouco sobre o Mato Grosso do Sul — Tommy pediu. — Gosto de aprender coisas novas.
Laura, estimulada pelo interesse do americano, contou muitas coisas sobre a cidade onde nasceu e cresceu. Falou sobre o tererê, uma bebida típica da região que os vaqueiros tomam gelada em guampas, e que é a mesma erva que o mate do chimarrão, e sobre as viagens que fez.
— Wow — Tommy disse impressionado. — Você tem uma boa bagagem cultural, Laura. Eu não conheço quase nada do meu próprio país.
— Mas ainda pode conhecer. Quando a gente faz a primeira viagem, já pensa logo na segunda, na terceira, na quarta. Acaba virando um vício, igual tatuagem.
Tommy concordou com um aceno de cabeça e parou de olhar para a morena por um instante para prestar atenção nas brincadeiras de seus quatro colegas de quarto na água. Laura percebeu a atenção especial que ele dava às belas formas de Pamela. Reivindicou para si uma atenção que julgava merecer ao pôr sua mão na do americano.
— Você costuma viajar? — ela abriu campo para outro assunto a fim de saber um pouco mais sobre o rapaz.
Ele franziu a boca de um jeito engraçado.
— Nas férias de inverno costumo viajar para alguns países quentes — respondeu. — Porto Rico, México. Brasil — Laura gostou da animação que ele passou ao pronunciar o nome de seu país. — Uma vez fui ao Rio de Janeiro. Praia do Leblon. Conhece? — a brasileira respondeu que fora a Ipanema, do lado. — Eu me hospedei num hostel, com doze pessoas. Tinha um casal de argentinos, uma italiana e os demais eram brasileiros.
— Que incrível! E o que achou, tipo, de se hospedar com gente de países tão diferentes?
— Tivemos uma interação muito boa. Para minha sorte, todos falavam inglês, então me senti em casa. Só senti um pouco de medo quando subi na Rocinha, para tirar uma foto. Mas o risco valeu a pena. Tirei uma selfie incrível junto com dois colegas de quarto que toparam subir o morro comigo.
— Uau! Eu queria ver, você tem aí no celular?
Tommy destravou a tela de seu celular e mostrou várias fotos para a simpática morena. Na foto em questão ele estava com um rapaz e uma moça, o mar atrás deles, lá embaixo.
— Caramba, ficou linda mesmo — Laura concordou.
Tommy guardou o celular no bolso da bermuda.
— Espero voltar um dia para seu país — informou —, mas desta vez não para conhecer praia ou cidade.
As sobrancelhas de Laura se uniram.
— Quer conhecer o quê, então? — a garota o questionou.
— Uma fazenda. No Mato Grosso do Sul.
Uma risada saiu da garganta da morena.
— Ah, não! Fala sério, cara. Você quer conhecer uma fazenda brasileira?
— O que tem?
— Você não pode estar falando sério. Fazenda?
— Você me falou tanto do Pantanal, dos costumes pantaneiros, do tal tererê que se toma em guampa, que fiquei com vontade de conhecer.
— Cara, não sei o que dizer…
— Você é a culpada, Laura. Me deixou curioso para conhecer os costumes dos seus conterrâneos. Sabe, eu sempre quis andar de barco… Chalana, não é? Comer queijo fresco de manhã, beber leite ordenhado na hora.
Laura riu, achando que o rapaz estava brincando. Mas ao perceber que este falava sério, confessou:
— Você quer conhecer uma coisa da qual fugi há quatro anos.
— Não gosta da vida no campo? — o rapaz ficou intrigado.
— Eu não me identifico com os costumes dos vaqueiros. São brutos. E muitas vezes eu tinha pesadelos com os bois que eram abatidos na fazenda do meu pai. Aquilo ficava na minha cabeça, eu morria de pena dos animais, que em primeira instância, eram vidas.
— Vidas que nasceram para ser sacrificadas para saciar a fome do homem.
— Que horror! Você acha que isso justifica a morte de animais? Matar a fome do homem? Isso livra a sua consciência de culpa?
Tommy riu com desdém da preocupação que a brasileira tinha com as vidas dos bois.
— É a cadeia alimentar. Predadores e presas. Os bois precisam ser abatidos para que sua carne sacie a fome do homem, e o homem viva. Simples assim.
Há espécies inferiores que nasceram para morrer a fim de espécies superiores vivam, e pronto.
Você parecia ser tão cheio de luz, Tommy, Laura pensou. De repente, os dois viram a aproximação de Pamela. Um sorriso pendia dos lábios da loura, que logo foi ladeada por Roberto.
O americano e o brasileiro se encararam com animosidade recíproca e inconfessa, e Pamela quebrou o silêncio:
— Por que não foi mergulhar com a gente, Laura? A água estava ótima.
A sul-matogrossense logo percebeu a acidez na pergunta da estudante de Educação Física.
— Preferi tomar uma cerveja e conversar com o Tommy — respondeu com um risinho. — Acredita que ele quer conhecer o Pantanal?
— Sério? — Pamela fixou suas orbes azuis nas do americano.
— Sim — Laura parecia ter se esquecido que o rapaz sabia falar.
— Se você resolver andar de barco, tome cuidado — Pamela pôs as mãos na cintura. — Os rios são perigosos. Tem onça, jacaré — e olhando para Laura: — e PIRANHA.
Sorrindo com malícia, Pamela passou por Laura e Tommy. Este virou o pescoço a tempo de ver a garota loura arrumar o micro fio dental por trás enquanto desfilava pela areia como se estivesse numa passarela.
A morena pôs reparo no embasbacado rapaz com a cabeça virando em quase 180 graus acompanhando cada passo dado por Pamela, em seu conjunto em movimento, principalmente na bunda da garota toda aparecendo.
Não importa que sejam americanos ou brasileiros, homens são todos iguais, pensou.
Alheios ao climão entre as duas garotas e andando em direção ao quiosque onde na noite anterior conversaram com Pavel e Sacha, Giovanna e Nicolas seguravam a cintura um do outro. Entraram e se sentaram em bancos altos de frente para um monitor que transmitia uma reportagem sobre um jogo de American Football.
— O que desejam? — a simpática moça de pele morena e traços de índia perguntou.
— Duas cervejas, por favor — Nicolas pediu.
Sentado num banco ao lado deles e bebericando um copo grande de uma bebida preta, um homem de meia idade os espiava a furto. Um senhor alto, de traços duros e com óculos, com um boné branco. Em sua mão esquerda havia um anel de doutor e uma barba rala cobria seu rosto, dando-lhe um ar viril e charmoso ao mesmo tempo.
Ele presenciou o casal trocar um beijo rápido com uma quase imperceptível troca de toques no rosto. Lá fora, viu Pamela se banhando com o chuveiro na areia, com Nicolas a segurando por trás e beijando-a no pescoço. Tommy estava mais distante, mas ali por perto.
O homem terminou de tomar sua bebida, deixou uma nota de dez dólares abaixo do copo vazio, saiu sem se despedir.
Helmut Fischer tinha que garantir os preparativos da ação.
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