Capítulo 15

      Giovanna interrompeu o beijo em Nicolas assim que escutou o estampido. Olhou-o intrigada e também para os lados.

      — O que foi? — o rapaz indagou.

      — Você não ouviu? O tiro — a moça tinha um semblante intrigado.

      O disparo ocorrera muito longe, e só chegara aos ouvidos de Giovanna devido ao eco da mata.

      — É zona de caça dos makais — Nicolas lembrou-a. — É normal que vez ou outra eles atirem em algum animal.

      — E se uma bala atingir a gente por engano?

      O rapaz riu, abanando a cabeça para os lados.

      — Seríamos o casal de mochileiros mais azarado do mundo — ele brincou. — Não faltaria mais nada, depois de tudo o que nos aconteceu aqui.

      Giovanna riu. Uma risada gostosa, que só Nicolas sabia tirar dela. 

      De repente ficou séria e avaliou o rosto do rapaz.

      — Você disse casal? — ela precisava tirar a dúvida.

      O sorriso do moço aos poucos se desvaneceu e seu rosto adquiriu um ar grave.

      — Falei sem pensar — ele achou necessário dar uma explicação, a fim de que não houvesse equívocos. — Você sabe — pigarreou. — Estamos passando por uma coisa tão louca, uma montanha russa de sensações, que…

      — Nicolas…

      Tocando seu corpo ao do rapaz, Giovanna segurou-lhe as mãos, olhou-as, e sentindo calor nas bochechas e em toda a pele bombom de seu rosto bem desenhado, olhou-o. Ofereceu-lhe um sorriso.

      — Não queria que o que a gente viveu fôsse só uma experiência casual — ela declarou, sincera. — Gostaria que criássemos um laço, sei lá…

      Ele semiabriu a boca, fazendo um sutil gesto de afirmação com a cabeça. Pôs o dorso do indicador no rosto da moça, sentindo a quentura provocada pelo rubor. 

      — Também quero isso — retrucou.

      Os dois inclinaram devagar as cabeças, encurtando a distância ínfima entre seus rostos, e se permitiram à troca de um beijo cheio de afeto. Os braços de Nicolas puxaram a garota pela cintura, fazendo o sexo dela se friccionar ao seu, e um gemido fugiu aos lábios de Giovanna, que envolveu o pescoço do rapaz.

      O beijo durou por aproximadamente dois minutos, tempo suficiente para suas respirações se fundirem. A água do rio de repente lhes pareceu quente, tal o estado de excitação dos jovens.

      Giovanna descolou seus lábios dos de Nicolas. Um sorriso esperançoso brincava em seus lábios carnudos.

      — Se sairmos dessa, você promete que vamos fazer alguma coisa juntos? — ela o olhou, angustiada.

      Nicolas apertou-lhe o queixo delicado.

      — Nós vamos sair dessa, sim — prometeu com sua habitual segurança.

      As palavras do moço deram confiança à Giovanna, que tornou a se deixar ser beijada.

      Ela escutou uma risada, e olhando por sobre o ombro, avistou Pamela e Tommy brincando na água como duas crianças. Abanou a cabeça em gesto de negação, apreciando a travessura da amiga. A loura fez uma concha com as mãos e atirou jatos de água no rosto do americano.

      — Parece que aqueles dois não tiveram infância — Nicolas observou.

      — Pamela é má influência pra qualquer pessoa — Giovanna explicou com sarcasmo.

      Nicolas assentiu. Os dois ficaram quietos por alguns instantes, só olhando os outros dois brincarem na água, que lhes pareceu mais fria quando o calor que sentiam por dentro se amainou.

      — Quer dar uma volta comigo? — o rapaz propôs.

      — O que você tem em mente? — não havia malícia nas palavras de Giovanna.

      Nicolas fez um movimento com os ombros.

      — Não sei. Andar pela mata um pouco, deixar a Pamela e o Tommy mais à vontade.

      — Já não vimos mato o suficiente?

      Ele revirou os olhos.

      — Tem coisas que não dá pra fazer com os outros olhando.

      Giovanna, risonha, empurrou de leve Nicolas.

      — Daqui a pouco vai anoitecer.

      — E daí, gata?

      — Temos que voltar para a aldeia. Daqui a pouco a polícia chega para sermos levados de volta à civilização.

      — Eu não ligo de fazer os policiais esperarem um pouco. Você liga?

      Giovanna deliberou. Mordeu os lábios, balançou a cabeça para os lados.

      — Não.

      Satisfeito com a resposta, o sul-matogrossense cingiu a cintura da bela moça negra, trazendo-a para si, e depositou outro beijo em sua boca macia e carnuda, soltando-a. O corpo da jovem vibrou em satisfação com o contato e desejou que este se prolongasse, mas sua mente a alertou de que perderiam o controle se continuassem.

      — Vamos — ela decidiu.

      E olhou para a amiga.

      — Pamela! O Nicolas e eu vamos andar um pouco por aí.

      — Tá, podem ir! E juízo, hem? — a loura advertiu à modo de brincadeira, enquanto Tommy a abraçava por trás.

      — Nos vemos na vila daqui a pouco.

       Nicolas e Giovanna acenaram para o outro casal e saíram do rio, pondo nos ombros as roupas gentilmente oferecidas pelos moradores da vila de caçadores. Quando caminhassem um pouco, seus corpos se enxugariam, de modo que então poderiam se vestir.

      A moça olhou por sobre o ombro para Pamela e Tommy, constatando, ao vê-los se abraçando, que ficar sozinhos era o que aqueles dois almejavam.

      — Daqui a pouco vai escurecer — ela observou o céu, cinza, com poucos pontos de azul entre as nuvens.

      — Não vamos demorar, só vamos caminhar um pouco e voltar — Nicolas falou com segurança.

      Giovanna assentiu. Nicolas segurou sua mão e a ajudou a pular um tronco à frente dos dois.

      — Você acha que a Laura e o Roberto voltaram? — ela se lembrou de que os mesmos tinham saído do rio há algum tempo.

      Nicolas demorou a responder. Chegou a esquecer da existência do rapaz antipático, mas a pergunta da jovem que andava ao seu lado o fez lembrar do companheiro de viagem. Afinal, a sorte de um deveria ser a sorte de todos.

      — É possível — respondeu secamente.

      De repente ouviram ao longe um barulho conhecido: de hélices girando. Eles olharam para o céu e avistaram ao longe um helicóptero voando em velocidade média, cada vez mais baixo, objetivando um ponto que só poderia ser a vila de caçadores.

      — Será que é a polícia? — Giovanna trocou com Nicolas um olhar de esperança incerta.

     Ele tomou a mão direita da garota por entre as suas, delineando um meio sorriso.

      — Daqui a pouco tudo isso vai acabar — atalhou com empolgação.

                              …

      As copas das árvores se agitaram com a aproximação do enorme helicóptero. Algumas, com troncos mais finos, davam a impressão de que se quebrariam, mas a presença imponente e intimidadora do aparelho não inibiu os moradores da vila, que saíram fora tão logo ouviram o barulho das hélices.

      Susie adiantou-se segurando a mão do filho, se colocando ao lado do marido. Seu semblante, diferentemente do mostrado há pouco tempo, era alegre.

      As hélices pararam de girar e uma portinhola se abriu. De seu interior saltou Fischer, com uma mochila preta nos ombros. Alguns dos nativos se adiantaram e tiraram, ao sinal de uma de suas mãos, grandes caixas térmicas.

      — Boa tarde — o recém chegado tirou os óculos de sol com um gesto teatral e apertou cordialmente a mão de Isaac.

      — Estávamos à sua espera, Dr. Fischer — o líder do vilarejo retrucou, fazendo sinal para que o médico adentrasse sua casa. — Está com fome? Susie preparou uma fornada de folheados de presunto e queijo.

      O barbudo taciturno esboçou algo que lembrava remotamente um sorriso.

      — É por isso que gosto de vocês, meu amigo. Sua gente é muito hospitaleira. Trata a todos com amabilidade.

      Isaac sentiu-se agradecido com o elogio e insistiu no convite.

      — Levem para dentro da casa e não deixem cair! — Fischer ordenou com rispidez aos rapazes que carregavam as caixas térmicas e alguns caixotes de madeira.

      — Vou declinar do convite, meu amigo, porque almocei tarde e só como uma refeição durante o dia — explicou. — Quero logo começar meu trabalho e fazer com que os órgãos dos nossos jovens chegue logo aos seus destinos. 

      — Perfeitamente. Eles foram à cachoeira, mas logo voltam. Daqui a pouco vai escurecer. Mas não tenho uma boa notícia.

      Fischer empinou o queixo, com ar sombrio.

      — O que aconteceu?

      — Um deles teve que ser descartado. Uma cobra o picou, e como o senhor disse, com veneno pelo corpo eles são imprestáveis.

      O curto relato de Isaac fez o queixo de Fischer endurecer. Não esperava ouvir uma notícia tão desagradável. Desejou dar um soco no rosto do caçador por ter sido tão negligente em garantir o bem estar de seus acolhidos, mas controlou sua raiva.

      — Isso não podia ter acontecido. Merda! — agitou os braços no ar.

      Brown abaixou a cabeça. O doutor pôs as mãos nos bolsos das calças e se recolheu num silêncio opressivo, até que uma figura conhecida se colocou ao seu lado. A velha Emma, do hostel Olympic Hostel. Ela abotoava um jaleco branco, de enfermeira, e destilou ao caçador um olhar tão frio quanto reprovador.

      — Amadores! — ela cuspiu a palavra.

      — Uma das moças já está lá dentro — Isaac tentou se desvencilhar do aperto. — Ela estava junto do rapaz, e o Sam e o Jeff a trouxeram.

      — Ótimo! — Fischer disse com energia. — Então chame a Cassie. Ela e Emma serão minhas assistentes. Quanto a você, vá buscar os outros, não importa onde eles estejam. Traga-os sem machucá-los. Cassie! — ao grito do médico, a garota índia saiu de dentro de uma das cabanas, sorridente, segurando a mão de Sam, e correu para junto de Emma. 

      As duas mulheres e o médico entraram na cabana onde Laura fora levada. A morena se encontrava deitada numa cama, nua, amarrada pelos tornozelos e pulsos. Sob efeito de uma droga de efeito sedativo, sua boca machucada, sem a maioria dos dentes da frente — quebrados pelos socos raivosos do capanga de Fischer —, tremia. Seus olhos irradiavam pavor e desespero.

      Fischer a olhou com desprezo, um sorriso cruel se formando sob sua barba grisalha.

      — Vamos começar — ele sinalizou para Emma e Cassie, já vestida com um jaleco branco e com luvas cirúrgicas nas mãos.

                              …

      Nicolas e Giovanna continuavam caminhando, sorrindo e conversando. A aproximação do helicóptero os havia enchido de esperança. Era o primeiro vislumbre de civilização que havia se apresentado a eles.

      — Acho que devemos voltar — ela conjecturou, por mais que quisesse ficar a sós com o rapaz.

      — Devemos chamar os dois? — Nicolas se referia a travessa Pamela e ao americano.

      — Está brincando? Ela me xingaria de todos os nomes possíveis. Deixe que eles encontrem o caminho sozinhos.

      Uma risada agradável irrompeu da boca de Nicolas. Giovanna o imitou.

      — Tem planos para esse começo de semana? — ele quis saber, segurando de novo a mão da garota.

      Ela deu de ombros.

      — Acho que vou ficar a semana toda em casa. Vou à academia de manhã, depois volto e fico maratonando algumas séries. Preciso descansar minha mente antes de voltar para a faculdade.

      O rapaz mordeu o lábio inferior. Se lembrou da conversa que os dois tiveram no dia anterior, sobre a traição dela ao namorado, com o médico chefe do hospital.

      — Como está sua cabeça? Deve ser difícil voltar a estudar tendo que olhar para a cara daquele babaca.

      Giovanna hesitava. De repente, as lembranças povoaram sua mente. Ela sabia que precisava se reinventar.

      — Tento não pensar nisso. Não vou deixar que um macho escroto, que não soube valorizar os sentimentos de uma mulher, tirem minha alegria de viver. Além disso, se não fosse por essa decepção, eu não teria saído viajar, não teria vindo para Brookville e não teria…

      Ela se interrompeu, temerosa de que o rapaz a achasse melosa.

      — Nós não teríamos nos conhecido, não é? — o sorriso dele a desestabilizou.

      — É — ela sentiu um calorzinho percorrer sua face.

      Nicolas pôs a mão no queixo da moça, a puxou gentilmente para si e deixou um beijo em seus lábios.

      — Eu acho melhor a gente voltar — Giovanna decidiu, a malícia evidente em seu sorriso faceiro. No fundo, ela tinha receio de sair de si.

      Nicolas assentiu.

      Eles voltaram a caminhar, seguindo o fluxo contrário do rio. Por alguma razão, sentiram que haviam saído da trilha, e Giovanna conjecturou que estavam perdidos.

      — Eu tinha certeza que tínhamos vindo por aqui — ele disse, já vagamente inquieto.

      A moça passou a mão nas têmporas. Andaram por mais alguns metros, já temerosos de que a noite caísse antes de chegarem à vila.

      Então ela virou-se instintivamente para uma direção e viram um corpo estirado no chão.

      Roberto.

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