Capítulo 3


LÍVIA

Essa semana se passou como um furacão na minha vida, para começar na segunda feira quando estava ocorrendo a reunião dos donos da empresa e de repente o senhor Bento passou pela minha mesa como um raio em direção ao elevador, eu fiquei estática por alguns momentos, mas rapidamente me recuperei e fui atrás dele. Entramos os dois no elevador e com horror eu vi o senhor Bento arrancando a gravata, tirando o terno e abrindo os primeiros botões da camisa branca que ele usava, eu fiquei abismada no canto encarando meu chefe. Enquanto o elevador descia os dez andares até o estacionamento ele se escorou na parede e ficou de olhos fechados com os dedos sobre a têmporas fazendo uma massagem.

– Senhor Bento ocorreu algo errado? A proposta não foi boa o suficiente? – resolvi quebrar o silêncio entre nós.

– Eu nem cheguei a apresentar a proposta Lívia.

– Lívia? – de tão chocada o questionamento saiu dos meus lábios antes que eu possa impedir.

– Não é esse o seu nome afinal de contas? – ele falou.

Isso é humor na voz dele? O senhor Bento estava fazendo um gracejo?

Acho que eu caí e bati a cabeça e agora estou em coma no hospital porque na vida real isso nunca iria acontecer, a semente do mal não tira a gravata em pleno horário de expediente e muito menos faz gracinhas. Quem é esse homem e o que ele fez com meu chefe? Desde que entrei na MonteGlass eu aprendi a lidar com o senhor Bento, ele é um homem bastante difícil e rígido e eu tive que usar de todo meu jogo de cintura e paciência para lidar com ele, sou a quinta secretária que ele teve e todas as outras foram demitidas por não conseguir atender a todas as exigências dele, mas por algum motivo eu consegui me adaptar bem ao modus operandi do senhor Bento, tem dias que eu quero arrancar meus cabelos ou arrancar os cabelos dele, mas na maioria do dias ele é totalmente metódico em sua rotina o que facilita bastante minha vida já que eu passei a ser capaz de antecipar suas demandas.

– Sim é o meu nome, mas o senhor sempre me chama de senhorita Lívia.

– As coisas estão mudando, senhorita Lívia. – Ele deu ênfase a palavra senhorita e isso com certeza foi uma gracinha vinda da parte dele; "o apocalipse está se aproximando" eu pensei enquanto o elevador parou no subsolo e o senhor Bento saiu indo em direção ao seu carro. – eu acabei de pedir demissão Lívia.

Eu parei de caminhar e fiquei estática no lugar, meu coração acelerava tanto que acho que consegui ouvir as batidas, minha boca ficou seca e minhas pernas fraquejaram e eu já não conseguia acompanhar o ritmo das passadas dele. Como assim ele se demitiu? Se ele se demitiu significa que eu fiquei sem emprego? Ai meu Deus, o que eu vou fazer da minha vida agora?

– Como assim o senhor se demitiu? – falei com a voz trêmula e ele parou de andar, se virou em minha direção e veio até mim, eu sou uma mulher relativamente alta tenho um metro e setenta e cinco mas ele e uns bons centímetros maior que eu, então ele sempre me olhou de cima. – Se o senhor se demitiu o que vai acontecer comigo? Eu estou no olho da rua? E por que você se demitiu? ficou maluco homem, você é o dono da pora toda não pode se demitir do que é seu.

Eu não acredito que disse isso, levo minhas mãos a boca tapando o grande "O" que se forma nela, fiquei tão estupefata que simplesmente não consegui evitar as palavras saírem descontroladas pela minha boca; é agora que o semente do mal vai me trancar em seu calabouço e roubar minha alma, olhei para ele com receio, mas não me pareceu que ele estava bravo com o que eu disse.

– Eu não sou o dono,meu pai ainda é, então eu posso sim pedir demissão. Quanto ao seu emprego você não vai sair prejudicada, não se preocupe. Agora eu tenho que ir.

E com isso ele entrou em seu carro e me deixou lá plantada super confusa com tudo que ele me disse.

Depois que o senhor Bento saiu da empresa tudo virou um caos, o Senhor Vitório anda mais nervoso do que nunca, as fofocas se alastraram pelos corredores como fogo em feno, não há outro assunto senão a renúncia do Bento. A imprensa anda acampando à frente da empresa e ocupando os telefones do setor de relações públicas da empresa. Existem várias teorias da conspiração algumas acham que ele brigou feio com o pai e na verdade foi expulso, outros acham que ele tem depressão ou bipolaridade, alguns afirmam que tem mulher no meio, outros que ele ficou com medo do senhor Benício superar ele na competição ou que tudo não passa de uma jogada de marketing. Mas a verdade é que pelo visto nem mesmo a diretoria sabe quais foram os reais motivos para o Bento ir embora da empresa e sumir do mapa.

Já eu que estava disposta a me manter afastada do Benício, não pude colocar essa minha resolução em prática, pois com a saída do meu chefe eu estou tendo que passar todo o trabalho para o Benício, eu passo todas as minhas tardes na sala com ele, nós estávamos correndo contra o tempo para reunião com a empresa Pushkin que será hoje, não houve tempo para conversar com ele sobre assuntos alem o trabalho. As duas equipes se juntaram para unir as propostas e assim conseguimos deixar tudo pronto e de uma forma que não tem como a empresa russa recusar a proposta que a MonteGlass vai apresentar.

Agora eu estou aqui parada no aeroporto segurando uma plaquinha escrita: "Pushkin" quando as últimas pessoas estão saindo do portão de desembarque vejo os sócios da empresa saírem, eu já tinha visto fotos deles e achei que eram muito gatos, mas pessoalmente eles são ainda mais lindos o Andrei é o ceo da empresa de distribuição, assim como a MonteGlass a empresa dele vem de bases simples e familiares que com o tempo ganhou espaço e prestígio se tornando uma das empresas de importação, exportação e distribuição mais importantes dos continentes Europeu e Asiático, a sede fica na Rússia, mas existem filiais em vários países. O outro homem é Dimitri, ele e Andrei são primos além de sócio, ele é responsável pela filial da Pushkin que fica em Pequim.

Privet dobroye utro – dou bom dia aos dois e logo depois me apresento.

krasivaya zhenshchina govorit po russki – o senhor Andrei diz que eu sou uma bela mulher e parece se impressionar por eu falar russo.

– YA uchil russkiy s babushkoy, YA budu tvoim provodnikom – conto a eles que aprendi falar russo com minha avó e que serei a guia deles, levo-os até o carro e depois para um restaurante muito famoso onde encontramos com o senhor Benício, durante o almoço eu não preciso ser a interprete pois eles se comunicam em inglês.

Percebo que o Dimitri volta e meia me encara e eu procuro ignorar,afinal estou a trabalho e não quero que dê a impressão que não sou uma profissional, não posso negar que o homem é um gato com seus olhos verdes provocadores e um sorriso super sexy, mas o efeito desse sorriso não chega nem perto de despertar as borboletas em meu estômago, ao contrário do homem sentado ao meu lado, cada vez que o Benício sorri eu me sinto derreter um pouco, passei esse almoço inteiro admirando o quanto ele é inteligente e sagaz, seu perfume gostoso torna a experiência de estar perto dele torturante para mim, pois tudo que eu mais queria era me inclinar um pouco e sentir o perfume diretamente da sua pele.

– Então você prendeu a língua com a sua avó? – Dimitri pergunta em russo chamando minha atenção e eu sorrio para ele.

– Sim. Eu morei com ela depois que meus pais morreram,ela só falava em russo em sua casa então eu praticamente fui obrigada a aprender.

– Sinto muito pelos seus pais. – ele me fala e posso sentir sinceridade em suas palavras. – Então a sua avó era uma russa cabeça dura?

– Sim, a vovó tinha muito orgulho de sua cultura russa, ela me ensinou a língua, me ensinou a cozinhar pratos típicos, além de escutar comigo várias e várias músicas típicas de sua terra natal.

Falar da minha avó ainda é doloroso, tem dias que eu não consigo acreditar que ela realmente se foi, ela já era uma senhoria quando fui morar com ela, mas ela me acolheu com todo seu amor, me consolou quando a dor de perder os meus pais era pesada demais,ela me divertia contando as histórias de sua infância na Rússia e de como veio fugida para o Brasil junto com seu amor de juventude. Ela me ensinou Russo, me ensinou a fazer crochê e trico, me ensinou a dançar e apesar da dor de estar sem meu pais, que eram os amores da minha vida, consegui ser feliz morando com a babushka.

– E você já conheceu a Rússia?

– Ainda não tive a oportunidade, mas é um grande sonho.

– Se eu estiver por lá posso ser seu guia ou você sempre pode ir conhecer Pequim faço questão de te mostrar tudo que o tem de melhor na cidade. – ele diz tudo isso com um olhar sedutor e eu apenas sorrio

Quando desvio meu olhar do russo percebo que Benício estava olhando para nossa interação e ele não parece estar muito feliz, eu sei que não fiz nada anti-profissional que possa estar deixando o Benício irritado, mas o jeito que ele me olha parece que fiz algo muito grave e errado, ele desvia o olhar do meu e sinto um peso se formar e meu peito, durante o resto do almoço fico um pouco retraída tentando entender a atitude do Benício.

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