Capítulo 22


BENÍCIO

Eu tinha dezenove anos quando conheci a Diana, era o meu primeiro ano de faculdade e eu era ainda muito tímido, principalmente devido ao meu peso e a tudo que passei com o bullying no ensino médio. Na festa dos calouros ela se aproximou do meu grupinho pequeno de amigos, durante a noite nós conversamos , bebemos juntos e no fim nós ficamos.

Nosso envolvimento não parou por aí, depois disso nós ficamos mais algumas vezes, regularmente na verdade, ela era linda, legal, divertida com um humor meio sarcástico e apurado e sua aparência... Ah era tão linda por fora quanto seu interior: ela era loira com brilhantes olhos azuis, era bem mais baixa que eu, seu corpo era perfeito e eu amava a beijar a boca macia dela. Ela gostava de cinema e de balada me levava para lugares que eu nunca pensei em frequentar e foi assim que eu criei gosto por festas e comecei a me soltar mais. Foi com ela que pela primeira vez em muito tempo eu não era o cara gordo e sim o Benício, ela me enxergava além da minha aparência.

Me lembro até hoje, era uma quarta-feira, eu tinha feito uma prova horrível na faculdade e tirei 4,5, não é incrível como nosso cérebro às vezes guarda informações totalmente desnecessárias? Eu nem me lembro qual era a matéria, mas lembro-me que estava chateado pela nota baixa e quando saí da sala a Diana me esperava no corredor ela disse que tinha algo importante a dizer e pediu para que fossemos para um lugar reservado, eu pensei que ela fosse terminar comigo naquele momento.

Saímos da faculdade e fomos direto para o apartamento em que eu morava na época, fomos a pé mesmo pois ficava próximo do polo universitário, durante toda a caminhada ela se manteve calada e olhando para baixo, nem mesmo demos as mãos o que reforçou a minha suspeita que ela queria por um fim ao nosso lance, eu estava chateado claro, mas não surpreso eu era inseguro demais para esperar que a loira linda de sorriso fácil iria ficar comigo por tanto tempo.

Entramos no meu apartamento e ela parecia preocupada torcendo nervosamente a barra da sua camiseta verde oliva, por um tempo eu também não falei nada queria manter por mais alguns minutos a relação que nós dois tínhamos, foi então que ela veio e ficou parada à minha frente, levantou a cabeça e olhando em meus olhos disse as palavras mais inesperadas que eu podia imaginar.

– Beni, eu estou grávida.

Eu não podia acreditar naquilo, eu só conseguia pensar que o meu pai ia me matar com toda certeza; pora, como eu deixei isso acontecer? Nós usávamos camisinha, mas obviamente houve alguma falha. Encarei o rosto da Diana e ela estava com os olhos cheios d'água, fazendo força para não chorar, ela parecia ainda menor ali com os ombros encolhidos esperando a minha reação. Acho que a surpreendi quando a puxei para os meus braços e beijei o topo da sua cabeça.

– Vai ficar tudo bem, nós dois vamos dar um jeito, quer dizer não vai ser fácil, mas nós não somos as primeiras pessoas a serem pais cedo, eu vou cuidar de vocês eu prometo que vai dar tudo certo no final. – foi por causa disso que eu aprendi a nunca mais fazer promessas que eu não tinha como cumprir.

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O tempo passou e Diana estava com quase oito meses de gestação, ela não tinha família na cidade, pois veio para cursar a faculdade, então ela saiu da república onde morava e veio para o meu apartamento, e desde que isso aconteceu nossa relação ficou estranha a Diana passa a maior parte do tempo reclamando e fazendo exigências, nós dois não transávamos mais e ela passava a maior parte do tempo grudada no celular. Claro que eu não disse nada ou fiz alarde, afinal de contas ela estava grávida e eu não era estupido o bastante para cobrar alguma coisa ou questionar a oscilação de humor dela, afinal de contas gravidez é uma mudança enorme na vida de uma mulher.

E falando a verdade a culpa pode ser minha também, pois estava atolado com minhas obrigações na empresa, na faculdade e tentando encontrar um apartamento maior, pois o meu era de solteiro com apenas um quarto, o que não era adequado para uma criança. A única pessoa que sabia que seria pai era a Beatriz, eu ainda não havia tido a conversa com o meu pai, porque sinceramente queria adiar o máximo que pudesse, além disso eu recebia um salário na MonteGlass e a minha conta bancária já era suficiente para sustentar um time de futebol, então dinheiro não nunca foi uma preocupação para mim, mas meu pai surtaria por ter engravidado com alguém abaixo do nível, doentio, em que ele se baseia.

Outra preocupação era com a saúde da Diana, ela passou mal varias vezes e os médicos classificaram a gestação dela como de alto risco, pois ela estava com a pressão elevada e até chegou a perder líquido amniótico o que resultou em um período de total repouso e então ela teve que trancar a faculdade e ficar em casa, o que a deixava ainda mais nervosa. Por isso que naquele dia eu resolvi fazer uma surpresa, saí mais cedo da faculdade e peguei o meu carro para ir até o shopping. Comprei os chocolates favoritos dela e depois fui a um restaurante que amávamos e peguei o nosso jantar. Quando cheguei em casa ela estava na cama descansando, sem fazer barulho arrumei a mesa do jantar com direito a velas e música romântica quando me dei por satisfeito fui ao quarto a acordar.

Quando acendi a luz do quarto já notei de imediato que havia algo errado a Diana estava encolhida em um canto da cama, fui até ela e assim que olhei em seu rosto percebi que ela estava muito pálida, sua pele branca estava quase translúcida, uma camada de suor cobria sua testa e sua boca tinha perdido totalmente o tom de vermelho , ela parecia uma fantasma. Encostei a mão em seu rosto tentando acordá-la e percebi o quanto estava gelada.

– Dia acorde, fala comigo amor, o que você está sentindo? – eu chamei, mas não obtive nenhuma resposta, peguei o celular dela que estava na mesa de cabeceira e disquei o numero do resgate enquanto a chamada completava eu puxei o edredom que a cobri foi aí que vi...

O sangue cobria todo o colchão, suas pernas estavam banhadas em sangue e aquilo me assustou pra caralho, eu não sabia o que fazer até que ouvi a voz da atendente do outro lado da linha e expliquei o que estava acontecendo e depois passei o meu endereço. Depois disso, tudo foi um borrão rápido em minha cabeça os socorristas chegaram, ela foi resgatada, chegamos a uma maternidade as enfermeiras me mandaram esperar e foi isso que fiz pelas próximas horas.

Quando a médica se aproximou de mim eu sabia que tudo tinha dado errado, ela me olhava como a minha mãe me olhava quando precisava contar que não teríamos dinheiro naquele ano para o presente de natal. A médica se sentou ao meu lado segurou a minha mão e disse a Diana tinha um quadro de pré-eclâmpsia e quando ela passou mal e não foi socorrida a tempo o quadro se complicou e nenhum dos dois tinham sobrevivido.

Por um momento eu voltei a ser o garotinho sentado no chão do hospital ouvindo que mamãe tinha morrido, as duas situações se misturavam na minha cabeça de repente eu podia ouvir os gritos do meu pai e o choro da Beatriz, cheguei a olhar para o lado tentando encontrar os dois. Meu coração começou a acelerar, o ar faltou a minha garganta e uma dor imensa se fez presente a minha cabeça, eu ouvia a voz da médica, mas era como se ela estivesse muito longe lutando para chegar até mim, a minha cabeça virou um caos com o passado e o presente brigando por espaço dentro de mim. A dor me rasgava e dilacerava tudo por onde passava.

Quando acordei já era o dia seguinte, a enfermeira me explicou que tiveram que me aplicar um sedativo, pois tive uma crise de ansiedade forte e que também fiquei um pouco descontrolado, uma psicóloga veio e conversou comigo me recomendou a fazer alguma sessões para que eu pudesse lidar com o luto, outro médico veio e me recomendou um calmante leve e por fim alguém da administração do hospital veio para perguntar sobre os trâmites do enterro e perguntar se eu queria ver o meu filho antes dele ser recolhido pela funerária.

Eu aceitei, pedi para que ele fosse levado a outro lugar, pois não seria capaz de entrar no necrotério do hospital. Minha vontade foi acatada rapidamente, não sei se foi uma situação padrão ou se resolveram fazer minha vontade por eu ser filho de quem sou, mas também não questionei sobre isso. Um tempo depois a enfermeira veio me chamar e me levou a um quarto a alguns metros de distância do meu. Eu fiquei por um tempo parado a porta até ter coragem de entrar, depois fiquei parado pelo lado de dentro sem coragem de chegar até a cama, mas eu precisava fazer aquilo pelo meu filho, eu precisava conhecê-lo, se eu saísse por aquela porta nunca iria me perdoar.

Luiz Gustavo era um menino lindo, ali deitado ele parecia apenas que estava dormindo, descansando, sereno. Foi colocado nele uma touquinha branca e ele estava enrolado em uma mantinha azul, sua pele era branca e seus cabelos loiros e bem ralinhos se mostraram quando passei a mão pela sua cabeça e tirei a touca do lugar, eu limpei as lágrimas dos meus olhos, enxuguei as mãos na calça e toquei sua mão... Era tão pequena que estava fora do rolinho azul de tecido, ela estava tão fria e acho que é isso que me quebrou, eu caí de joelhos ao lado da cama e deixei o sofrimento assumir o controle do meu corpo, chorei até ficar sem ar, senti a dor da perda e da saudade prévia de tudo que nós poderíamos ter vivido, de todos os aniversários que não vou passar com ele, de todas as primeiras vezes que vamos perder, chorei por todo amor que senti por ele e que nunca poderei demonstrar.

Eu prometi a mim mesmo nunca mais sentir essa dor, nunca mais me colocar em uma situação de tanto sofrimento.

Eu jurei nunca mais ser pai, Luiz Gustavo seria meu único filho.

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oie, como vocês estão só queria desejar que o 2022 de vocês seja repleto de muito amor, paz e prosperidade.  

feliz ano novo pessoal

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