CAPÍTULO 19


Descobri por que não tenho amigos. 

Eu sou uma péssima pessoa. Não tenho palavra. Quer dizer, palavra eu até tenho, só que é mais sem valor que um cheque sem fundo.

Eu quebrei o juramento.

Eu iniciei A Técnica com o Nam Joo Hyuk, ou o quase-sósia. Preciso perguntar para a mamãe o nome do bendito. Só por curiosidade mesmo.

Aposto que a Débora me mata se descobrir.

Não foi como se eu tivesse, de propósito, testado A Técnica. Foi um acidente, juro!

Estava observando disfarçadamente a pessoa, até que comecei a pensar no que a Débora ensinou. Mas foi sem querer...

Daí minha cabeça mostrou ela dizendo mais ou menos assim: "Se quiser manter os Admiradores você sempre, Hessi, sempre tem que parecer séria e confiante." E as duas últimas palavras ficaram repetindo: séria e confiante, séria e confiante, séria e confiante… Talvez seja por isso que, de novo, sem querer, eu tenha feito uma cara bem séria e confiante. Não sei se prestou, no final das contas. Só sei que quando fiz a cara séria e confiante, bem na hora, o quase-sósia olhou para mim. Ele olhou como quem estava só passando as vistas por aí, mas, quando me viu, começou a encarar. E foi nessa hora que o bonde desandou.

Eu não sabia mais se a minha cara continuava séria e confiante, se ele se ofendeu ou o quê. Só sei que quando percebi que estraguei tudo, lembrei da academia e saí correndo. 

É, eu literalmente saí correndo. 

E só parei quando cheguei na vovó.

Depois disso, a fome nem quis voltar. Mas comi o pré-treino — um pão-de-fôrma com pasta de amendoim e banana —, mesmo assim, só para garantir.

Agora que cheguei em casa, que tomei um banho e a adrenalina abaixou, o desespero invadiu.

Me tranquei no quarto para pensar. Tarefa de geometria valendo visto que vale ponto? Esquece! Não dá para focar em outra coisa quando se tem um problemão desse nas mãos.

O primeiro erro foi ter testado A Técnica. Eu só tinha que ter ido embora, para que ir atrás do homem? 

E ainda tem aquela coisa do TOD. A Débora disse que tinha que ser exatamente três segundos. Nem um a mais, nem um a menos. 

Eu não contei os malditos segundos. Tenho certeza que foram mais de três. Não sei, fiquei hipnotizada. E agora estou enlouquecendo.

O que acontece se você fizer A Técnica do jeito errado? Qual é o protocolo para Ficantes? E o TOD? E se o quase-sósia iniciar o CD? O que eu faço? Ou será que precisa ter mais encontros e TODs para isso acontecer?

Estou com tantas dúvidas e não posso perguntar nem um A para a Débora.

De qualquer forma, ela também explicou, naquele dia, no terminal, que se o meu HIV estivesse baixo não ia funcionar. Sem falar que A Técnica não dá certo com asiáticos.

O quase-sósia com certeza pensa que eu sou só uma sem noção. Como se ele fosse pensar em mim…

É isso. Posso respirar fundo. A Técnica não funciona com quem é da Ásia. Nada vai acontecer.

Mas, e se ele for brasileiro? Isso muda alguma coisa?

Desse jeito não vai dar. Tenho que descobrir tudo o que der sobre o quase sósia do Nam Joo Hyuk. Primeiro que não dá para chamar ele assim. Não que eu vá precisar chamar o nome dele…

Levanto da cama e saio do quarto correndo.

A dona Síl está na mesa da cozinha, entretida com o notebook e tomando suco de acerola. Certeza que está trabalhando no projeto novo.

— Mãe…

— Hum. — Ela não tira os olhos da tela e as lentes dos óculos ficam refletindo o brilho.

— Mãe, como era mesmo o nome daquele rapaz do supermercado?

— Quem, o Tiaguinho?

— Não, mãe, que Tiaguinho! Aquele que você ficou defendendo na fila do caixa! Que a dona Tiana e as outras ficaram falando um monte!

— Ah, o Mateus!

— Mateus… com esse nome, deve ser brasileiro… agora já era...

Do nada minha mãe fecha o notebook e me encara com os olhos arregalados: — Hessi, eu não te contei!

— O quê?

— Nossa, é mesmo, eu não te falei! O Mateus trabalha na Kongang, foi ele que pegou o lugar do Rick!

— Kon-Kongang?! Quer dizer então que vocês dois… trabalham juntos, tipo, a senhora vê o quase-sósia, quer dizer, a senhora vê ele todos os dias?!

— Ué, nós somos da mesma equipe, mas eu sou de uma área e ele de outra… — Ela pára de falar e arruma os óculos no nariz. — Por que, Hessiene Camile? Está com inveja? Fica tranquila, não acho que ele goste de mulheres mais velhas. Quer que a mamãe arrume ele pra você?

— Mãe!

— O que? Você que veio perguntar do menino aí, toda desconfiada…

— Grande coisa! É só que vi ele no terminal e lembrei! Eu, hein, nada a ver...

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No próximo cap, vamos voltar um pouquinho no tempo pra descobrir como foi a visão do Mateus com tudo isso 🤭

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