Capítulo 7



— Um chá, mileide? — A governanta perguntou e Lizandra assentiu.

O chá foi servido e Lizzie tomou enquanto lia um volume de "Petras, o escudeiro". O livro que deveria ter pelo menos sessenta anos, estava gasto e com as páginas amarelas. A fita vermelha que marcava as páginas era de cetim e brilhava conforme a luz batia. Ela estava sozinha na sala, com companhia apenas das plantas e das mariposas que rodavam em volta do lustre de cristais. Lady Marta deveria estar na cozinha com os outros. O sol havia acabado de se pôr e lá fora no campo, a noite cobria tudo de neblina baixa.

Houve duas batidas na porta, mas Silver não pareceu estar perto para ouvir. Lizandra fechou o livro sobre o dedo e se levantou, olhando em volta na esperança de algum criado estar por perto. Quando as batidas voltaram, ela respirou fundo e caminhou até a porta. Querendo ou não, as terras do palácio de Thornes eram bem vigiadas e tinha homens e vigias por todo canto, se fosse alguém querendo problemas aquela hora da noite, tudo que iria achar ali seria um tiro bem no meio dos peitos.

Lizzie abriu a porta e encontrou Theodore segurando uma garrafa de vinho, estava desgrenhado como se tivesse corrido pelo campo a tarde toda e as roupas estavam suadas e fedendo. Lizandra fez uma cara de espanto e sua primeira reação foi começar a rir, se apoiando nos próprios joelhos para sustentar o corpo.

— Por Deus, Theo! — Ela tentou parar de rir e Theo entrou na sala tropeçando nos próprios pés.— O que está fazendo, homem?

— Vim visitar minha prima, qual o problema nisto?

Lizandra balançou a cabeça e balançou os ombros, fechando a porta atrás dela.

— Você é o rei — Disse indo até ele, Theo se sentou de maneira desajeitada no carpete fofo da sala, o sofá estava atrás dele, mas Lizandra agradeceu por ele se sentar no chão e ela fez o mesmo.— Pode fazer o que quiser, majestade.

— Ah, pare — Theo fez uma carranca brava para ela, como a ameaça de um coelho fofo, Lizandra riu.— Falo com você por que me trata como seu igual e não como o rei.

Lizandra pegou a garrafa de vinho da mão dele e tirou a rolha com os próprios dentes, cuspindo no chão.

— Você bebeu demais, pelo visto, deixe o resto comigo.

Theo lançou um olhar brincalhão para ela e arrotou. Ela riu quase cuspindo o vinho nele.

— Eu não bebi demais, eu estava fazendo uma degustação de vinhos — Disse em pausas, como se não soubesse como fazer a língua caber na propria boca.—Sou o rei...você sabe.

— Sei...— Ela deu uma golada generosa no vinho e fez uma careta com o amargor que lhe queimou a garganta.— Deus, como consegue beber isso? É horrível!

— Continue achando isso, sobra mais pra mim — Ele fez a menção de pegar a garrafa de volta, mas Lizzie impediu ele.— Quando se tornou uma mulher tão cruel?

Lizandra piscou os enormes cílios como leques e deu um sorriso cínico, arrumando o cabelo para o lado.

— Eu só finjo bem — Respondeu.

— Ei, você ainda tem aquele baralho? Vamos jogar uma partida.— Theodore pareceu realmente animado e Lizzie não quis dizer não.

— Tenho, claro — Ela se ajoelhou e se levantou e foi até o pequeno baú perto da janela, abriu e pegou outro baú menor, onde ela guardava chaveiros, broches, botões e outras coisas quando era menor. A caixa de baralho estava no fundo e suja de poeira. Lizzie soprou o pó e voltou para o tapete, tirando as cartas de dentro.

— Valendo o quê? — Ela perguntou enquanto separava as cartas em grupos.

Theodore olhou para ela de lado desconfiado da duquesa e apoiou os braços nos próprios joelhos.

— Vai jogar apostado? — Ele ergueu a sobrancelha pra ela.

— Qual o problema? — Ela que olhou desconfiada para ele.— Acha que eu não posso ganhar de você? Pois fique sabendo que eu sou muito boa.

Theodore fez um sinal de rendição.

— Se você ganhar, o que vai querer? — Ele perguntou pegando as cartas.

Ela sorriu de lado para ele.

— Vai me dar as honras? — Sorriu.— Mas que cavalheiro...

— Cale a boca, Theodora, ou vou mudar de ideia.

Ela pareceu pensar por um momento, olhou envolta e depois olhou para ele de novo.

— Férias.

Ele olhou chocado para ela, os olhos castanhos arregalados.

— Férias? — Theodore repetiu de maneira abismada.

— Férias.

— Não acredito nisso, Lizandra — Ele levou a mão ao peito.— Está me fazendo parecer um explorador maldito.

— Ah, não seja dramático — Ela rebateu.— É um pedido simples e eu estou sendo bastante generosa, poderia por exemplo, lhe pedir...O palácio de inverno em Tallulah Rey.

Ele fez uma careta sacudindo a cabeça e bagunçando mais os cabelos desgrenhados.

— Você odeia Ruaely.

— Bem, você também!

— Tudo bem, tudo bem — Theodore concordou coçando o queixo.— Você ganha um mês de férias.

— Justo — Concordou.— Quanto a você?

— Um casamento.

Lizandra olhou para ele atônita como se não tivesse entendido o que Theo havia dito, como se ele tivesse falado outra língua

. — Como assim "casamento"? — Perguntou confusa.— Não entendi...

— Eu estive falando com Yvanna...

— Ah, não comece...

— ...E estivemos pensando que essa casa está muito vazia, talvez esteja na hora de se casar, Liz.

— Ah, deixe de brincadeira — Ela negou com a cabeça de maneira indignada.— Eu não vou me casar, Theodore.

— Neste caso então, é só vossa graça jogar muito bem e não perder.— Ele disse convencido, abrindo o par de duas cartas nas mãos.

— Você deve estar bem bêbado mesmo se acha que vou concordar com isso.

— Vai sim —Ela abriu as cartas e puxou uma do bolo no meio dos dois.— Faça as honras, Vossa Graça.

— Maldito, nunca mais abro a porta para você.


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