Capítulo 3
A base de controle ficava teoricamente na parte deserta do distrito de Menphis Pearl em Lamburg, próximo a capital, mas ainda dentro de Menphis, mas distante o suficiente, levando cerca de duas horas de viagem, mas apenas trinta minutos voando.
O major Quentin, comandante líder da primeira tropa de pilotos reais, os Sky Riders, estava em um dos seus dias tranquilos - o que era algo raro -, na sala de comando na torre do pavilhão sul, junto dele, o cadete que estava ajudando a organizar as coisas da viagem para a base de controle do norte, onde três pilotos do ranking B iriam para uma missão em segurança do palácio real. Mas em um momento de relance, algo muito, muito rápido fez a pele do major se arrepiar e Quentin sentiu algo estranho, ele fez um sinal de silêncio para o soldado que mexia em papéis, para que ele ficasse em silêncio. Uma nave passou em uma velocidade que nem mesmo o major conseguiu acompanhar com os olhos. Ele correu na direção da vidraça, que dava uma vista para o pátio onde a enorme pista de pouso de 2.400m e mais de quinze aeronaves estacionadas, além dos mecânicos, engenheiros e pilotos que circulavam por lá, e buscou a aeronave mas ela havia sumido.
— O que era aquilo, soldado?— Quentin gritou na direção do rapaz que parecia mais nervoso que ele, enquanto mexia nos equipamentos de rádio e radar..
— Não consegui identificar, senhor, estou buscando dados!— O rapaz corria de um lado para o outro.
— Soldado!
— Um Belta, senhor!— O rapaz gritou arregalando os olhos.— É um Belta de Fihel!
Quentin parecia procurar pelo avião que já havia sumido da vista deles quando escutou o barulho vindo de um dos equipamentos, ele olhou por cima das ombreiras amarelas do uniforme e encarou o cadete olhando para a tela verde do radar. Um segundo apito na tela chamou atenção dos dois que olharam juntos para o monitor.
— O que foi agora?!
— É um dos nossos, um...— Antes do soldado completar uma nave passou na mesma velocidade da anterior, os vidros da janela tremeram e o barulho da nave rasgando o vento de pressão nos ouvidos dos dois na sala.— Constelation.
— Kendric.— Quentin disse aquele nome como se estivesse proferindo um xingamento, ou pior, invocando o próprio demônio. Ele correu na direção do rádio comunicador.— Aqui é base de controle para Constelation, três, oito, seis, quatro. Responda!
Houve um chiado mas nem uma resposta. Quentin bateu o microfone do rádio com tanta força que a máquina quase se estilhaçou. Ele apertou o punho e xingou um rugido. O major era um homem grande, ombros largos e forte. Olhos negros como carvão, cabelos grisalhos mas espensos. Estava a vinte anos naquela posição e era, senão o mais respeitado dos homens naquele lugar, era um dos. Não era casado, não tinha filhos e se dedicava totalmente aos Sky Riders. Podia se dizer que ali era mais sua casa que a própria.
— Desgraçado maluco! — Quentin não conseguiu segurar o palavreado quando correu na direção da janela novamente tentando encontrar as naves que a muito já estavam longe.— Tente rastrear eles — Ele apontou o dedo para o soldado.— Agora!
— Sim senhor!
A nave passava como um raio acima de William, mas ele só conseguia pensar o quanto o dia estava lindo.
— Vê isso, Sean — Perguntou no rádio preso no capacete, do outro lado, em uma nave distante dele, o colega ria.— O sem uma nuvenzinha sequer — Ele pareceu indignado.— A gente poderia estar no rio cosmobec pescando, o que você me diz, hein?
— Acho que o Major vai estrangular você, então volte logo.— O amigo disse do outro lado do rádio.
Will revirou os olhos e puxou a máscara do capacete para cima, cobrindo o nariz ea boca, o ar ali ficava difícil e ele tinha que usá-la para respirar. Acionou alguns botões no painel de controle e puxou o manche todo para baixo, fazendo o bico do avião ir para cima e ele subiu mais, já podia vê o belta voando bem abaixo dele. A nave era menor que um Kansas, mas mais leve. A velocidade era quase superior que a do Constelation e Will sabia disso. Ele escutou o rádio de comunicação chiando com baixa qualidade bem do seu lado esquerdo e sabia que não era Sean. Praguejou baixo e apertou o botão acoplado no fone, liberando o acesso do rádio.
— Base de controle, repito, base de controle, responda.
— Capitão Kendric para a base de controle,— Ele disse procurando a nave que havia sumido entre as nuvens.— Estou seguindo o Belta fora da área, preciso de cobertura, cambio.
— Capitão, aqui é o Major Quentin, retorne à base imediatamente, repito, retorne à base imediatamente, é uma ordem, cambio! — Escutou o rádio chiar.
William piscou ignorando e seguindo. Ele olhou para cima, inclinando a cabeça para o lado em busca de algo, quando a nave surgiu do seu lado esquerdo, fazendo pressão e afastando a Constelation. Ele olhou o piloto nos olhos e sorriu quando a nave se afastou e girou para a direita, passando por baixo dele. Will apertou mais alguns botões no painel e colocou os óculos que lhe davam acesso a mira da artilharia.
— Peguei você, passarinho — Ele murmurou e apertou o botão vermelho acoplado no manche, disparando fogo na nave na frente dele.
Na base, o pavilhão do dormitório estava inquieto, e Dominic estava procurando William e Sean, pois sabia que se os dois haviam sumido juntos, provavelmente estariam juntos e se estavam juntos, estavam fazendo merda. E se ele ficasse encrencado por causa dos colegas de novo, seria suspenso de novo, o que queria dizer: ficar sem salário de novo e Dominic não queria passar o mês de novo comendo feijão enlatado.
Ele escutou o barulho de uma explosão vindo lá de fora e olhou para cima, onde o lustre tremia e balançava. Os soldados e pilotos começaram a correr na direção da saída e Dom correu mais ainda. Era tarde demais para evitar que os colegas fizessem alguma besteira, mas ele teria que ir até lá para pelo menos enforcar os dois. Dom era o do meio, com vinte e nove anos, tinha cabelos claros cortados rentes, era o mais baixo dos três também, o que fazia ele ter que lidar com os apelidos carinhosos dos dois companheiros de Ranking. Sean, com trinta e um anos, negro, alto e forte como um touro, era descendente de Teslianos, por isso falava com um sotaque meio puxado pro continente. Já William, era o mais novo. Com vinte e seis anos, o jovem piloto e filho de um dos ícones dos Sky Riders, era o problema que ele tinha que lidar. Quando Dom entrou para a universidade e se inscreveu para a liga de aviação real, não imaginou que um dia fosse estar naquela posição.
O fato era que os Sky Riders eram divididos em Rankings, sendo eles:
RANKING A: Pilotos que cuidam da segurança real.
RANKING B: Pilotos que cuidam de voos internacionais para trabalhos do exército real.
RANKING C: Pilotos que cuidam do carregamento de armas, naves de guerra.
E havia o RANKING D: Pilotos que atuam em missões de extrema periculosidade, ou como eles gostam de chamar: Missões suicidas.
Dom nunca quis ir para o Ranking D e sempre havia deixado isso claro, mas não havia escolha e agora ele era colega de equipe de Sean e William, ou como ele gostava de pensar, responsável.
— Quando eu pegar vocês dois...— Dom murmurou enquanto esbarrava nos pilotos e soldados para sair do dormitório.— Vou enforcar vocês...ah, eu vou sim...— Quando saiu, olhou para o acúmulo de fumaça e fogo perto das montanhas. Ele arregalou os olhos e suspirou, estava ferrado.— Mas que merd...
Will desceu da nave e encarou Sean que aguardava por ele, o macacão de vôo verde musgo com um crachá escrito Thompson, Sean. O amigo sorria de lado a lado, expondo os dentes incrivelmente brancos e retos. O brinco na orelha direita tinha um pingente de cristal que quando refletia no sol, batia nos olhos dele. Era mais alto que Will, que por mais que tivesse 1,85, não era alto o suficiente para passar dele. Sean deu um tapinha no ombro dele segurou seu capacete entre o braço e a costela. Ele olharam para trás juntos e viram a carranca de Dominic que se aproximava dos dois.
— Ele vai começar o sermão? Mas já? — Sean disse quando os dois começaram a andar e escutou Will rir do seu lado.
— Eu prefiro a morte —Will disse segurando o riso.
Dominic parou na frente dos dois e segurou cada um pela gola da camisa branca, serrando os dentes tão fortes que Will ficou com medo de que eles quebrassem. Uma veia saltou no pescoço dele e na testa.
— Calma, Dom...— Sean disse.
— Isso, calminha...— Will tocou o ombro deles.
— Vocês dois, eu vou matar vocês dois...— Dom dizia quando uma voz veio atrás deles, o corpo dele gelou só de ouvir.
— Capitão Kendric — A voz do Major fez os três se virarem para olhar.— Você e seus homens, na minha sala, agora!
Dom soltou os dois e os três prestaram continência, quando o Major entrou no pavilhão, os três se olharam e eles começaram a andar, passando pela multidão que ia se abrindo para eles de acordo com o quanto ele avançavam na direção do portão central do pavilhão um.
Enquanto seguiam, Sean olhava para Will e os dois começaram a rir. Dom cerrou o punho e rezou por Abramov que iria matar aqueles dois assim que saíssem de lá.
— Calem a boca vocês dois! — Ele cochichou para os amigos, enquanto seguiam corredor adentro.
— Mas a gente não ta falando nada! — Will cochichou de volta rindo.
— Will eu juro que vou te bater tanto que você não ter um dente mais na boca para rir — Dominic pisou no pé dele.
Will soltou um "Ai!" olhando para o amigo ainda rindo. Sean riu junto e Dominic ficou ainda mais vermelho. Os três pararam na frente da porta do escritório do Major e ficaram lá se olhando. Will deu um longo suspiro e deu duas batidas na madeira.
— Entrem.— O major disse.
Will girou a maçaneta e entrou na frente, os colegas logo atrás.
Na sala grande mas cheia de prateleiras com livros, uma parede atrás da mesa do Major estava livre com um único quadro que parecia uma placa de honra por serviços reais. Quentin não estava com uma aparência nada contente. O Major estava com um cigarro amassado na boca enquanto procurava um isqueiro no bolso do blazer do uniforme e acabou se estressando ainda mais por não encontrar nada, o que o fez acabar arrancando o cigarro e o jogando em cima da mesa. Ele respirou fundo e olhou para os três parados como estátuas atrás de sua mesa.
— Capitão, pode me dizer que merda você pensou que estava fazendo?— Quentin disse calmo, calmo demais.— E porque toda vez que algo sai do controle no meu batalhão, a culpa sempre é de vocês três?
— Eu também queria saber...— Dominic murmurou mais para ele que para os outros, mas o Major ouviu e antes que fosse o repreender, Will se pôs a falar.
— Abati uma nave inimiga, senhor — O capitão disse.— Sean e Dominc não tem nada a ver com minhas atitudes.
O major coçou a cabeça grisalha e olhou para ele com as sobrancelhas juntas, como dois texugos.
— É, eu percebi, seu idiota! —Ele disse alto.—Enlouqueceu,William? perdeu o juízo de vez?
— Não, senhor — William disse ainda sério.— Fiz apenas meu trabalho.
Quentin começou a rir, se fosse uma cobra certamente estaria cuspindo o veneno na cara do capitão neste momento. Ele se levantou e foi na direção da janela olhando os aviões estacionados lá fora. Ainda estava movimentado lá fora e uma equipe foi atrás dos destroços do Belta para pesquisas, enquanto os outros faziam testes de vôo.
— Não sei se sabe, capitão, mas o avião que o você pegou sem permissão hoje custa mais do que oito anos de serviço seu para a coroa, e é um dos únicos cinco exemplares existentes — Ele fez uma pausa massageando as têmporas.— Se vocês três voam em Constelation hoje é graças a rainha Catharina, sabem disso não é? — Foi uma pergunta retórica, por isso os três não responderam, mas isso não impediu Sean de balançar a cabeça como um retardado, o Major levou a mão a cabeça de novo, suspirando.— Fora uma possível destruição desta nave, você estaria arriscando sua vida. Você não é um sargento ou um piloto comum, nem um de vocês três! Vocês são os nossos investimentos mais caros, sabe o que custaria a essa companhia perder três pilotos Ranking D?
Outra pergunta retórica, mas agora os três balançaram a cabeça. Quentin suspirou.
— Eu entendo, senhor — Will disse erguendo a cabeça.— Mas minha equipe e minha lealdade são minha prioridade.
— Ah pelo amor de deus, saiam da minha sala antes que eu mude de ideia e coloque vocês três de suspensão! — os três fizeram o movimento de continência e quando deram as costas, Quentin chamou por Will, fazendo ele se virar.— Ia me esquecendo, tentem não se meter em confusão até às três da tarde, vocês três tem uma reunião com a mão do rei.
— Sim senhor, Major.— Disseram em conjunto.
Eles saíram da sala deixando Quentin mais uma vez nervoso em busca de um isqueiro para acender o cigarro.
Quando cruzaram a porta e chegaram na metade do corredor, Will e Sean se olharam deram um tapa de de mãos e riram, comemorando. Dominic olhou para os dois e eles pararam, mas o sorriso ainda estava na cara.
— Ah, Dom, vamos — Will disse dando um soquinho no ombro do amigo.— Nós nem fomos castigados.
Dom juntou as sobrancelhas, fazendo um grunhido na testa como ondas do mar, apertou o punho, respirou fundo e quando Will e Sean se olharam, Dominic pulou em cima dele, acertando um soco no seu queixo. Will gemeu, os dois caíram no chão e Sean segurou Dom pela cintura, tirando o amigo de cima de Will, mas ele só conseguia rir. William massageava o queixo que futuramente teria um hematoma, mas ele merecia.
— Ai, Dom! —Will disse se levantando com a ajuda de Sean que ficou no meio dos dois.— Que mau humor!
— Vocês dois me deixam de mau humor, droga! — Dominic disse enquanto seguia na frente.— Caramba, eu pedi "Gente, por favor, fiquem aqui enquanto eu faço uma ligação" é tão difícil para vocês ficarem quietos?
Will e Sean iam logo atrás dele, rumo ao pavilhão de dormitório.
— Você viu só como eu peguei ela? — Will disse para Sean ignorando o amigo que seguia na frente resmungando sozinho.— Bem na minha mira.
— O que será que a mão do rei quer com a gente? — Sean ignorou Will e Dom parou para olhar para eles.
— Vocês dois são duas mulas, sabiam? — Dom perguntou com as mãos na cintura quando os dois alcançaram ele.
— Ah, é? E você sabe, não é senhor espero? — Will deu uma cotovelada no ombro dele, o empurrando.
— Por um acaso eu estive nas reuniões diferente de vocês dois e sei sim — Disse se gabando.— Vamos renovar o nosso patrocínio.
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