Capítulo 20
William desceu do carro e foi até o outro lado para abrir a porta para que o rei saísse. Theodore estava fascinado. Parecia uma criança em um parque de diversões.
— Onde consigo um igual para mim, capitão?
William tirou as luvas da mão, dedo por dedo e prendeu no bolso de trás da calça.
— Foi um presente de um amigo engenheiro em Gilian, posso encomendar um para o senhor, para que seja transferido para cá.
Theodore deu um sorriso largo.
— Eu ficaria muito feliz, capitão.
Os dois caminharam pelo campo na direção da entrada do palácio, que William não havia percebido que era tão grande quando parou na frente da entrada e olhou para cima, encarando os quatro andares e nas quantidade de janelas e varandas. Havia uma dúzia de criados caminhando de um lado para o outro e um homem baixo e careca se aproximou deles, as vestimentas impecáveis. Se curvou para Theodore dizendo um "majestade" e se virou para William com a sobrancelha erguida.
— Silver, meu caro, onde está Lizzie? — Theodore disse dando um tapinha no ombro do mordomo.— Ah, claro, senhor Silver este homem é o capitão William Kendric dos Sky Riders, nosso convidado.
Silver meneou a cabeça para Will, mas ainda que um sorriso simples tivesse brotado em seu rosto, o mordomo ainda parecia muito sério.
— Vossa graça está se arrumando para descer, — Ele disse pegando o casaco do rei e apoiando no punho, se virou para Will mas ele negou com a cabeça, não estava com a intenção de tirar o sobretudo.— Ela teve um dia bastante agitado, mas pediu para que fossem acomodados. Irei acompanhar o senhor até seus aposentos, majestade.
— Não, não, Silver — Ele negou com a mão.— Vou ficar no campo esperando pela carruagem de Yvanna, mas pode acompanhar o senhor Kendric até o dele, bem?
William sorriu agradecido e observou o rei se afastar.
— Por favor, senhor, — Silver se virou para William.— Queira me acompanhar por gentileza.
William colocou as mãos no bolso e jogou a mochila nas costas, caminhando atrás do mordomo. Os dois subiram vários lances de escadas, diversos corredores que eram como labirintos e William, por mais que estivesse se esforçando para decorar cada cando, estava começando a ficar completamente perdido. Silver finalmente parou na frente de uma porta meio aberta e usou a mão para terminar de abri-la.
— Seu quarto, milorde — Apontou para dentro.
— Obrigado.
— Precisa que eu chame criados para ajudá-lo a desfazer sua mala? — Silver ergueu a sobrancelha encarando a mochila de Will que tinha pouco menos que quatro peças de roupas.
— Ah, não — Sorriu de maneira sem graça.— Não será necessário, mas obrigado.
— Se precisar de algo, pode tocar o sino e uma criada virá atendê-lo.
William se virou para olhar de que sino Silver falava e encarou o pequeno sinete sobre o criado mudo. Voltou para Silver e sorriu fechando a porta quando o mordomo se afastou.
Ele observou tudo. Os lençóis em quantidades exageradas, edredons que formavam uma camada mais fofa sobre o colchão que já era confortável o suficiente, de penas e molas, sacudia e fazia barulho e ele pensou como deveria ser frustrante para um casal fazer amor ali em cima. Havia uma prateleira pequena com livros, bustos pequenos de estátuas, vasos sem flores, apenas para decoração. Um tapete felpudo de pele no centro do quarto, cortinas densas e pesadas e por fim, o teto de gesso bem trabalhado com desenhos em tons pastéis, copiavam tudo para agradar ao ambiente com o enorme lustre de cristais que parecia uma miniatura do que virá na sala da frente.
Aquele não era nem de perto familiar ao mundo dele. William não era pobre, mas também não era nem um herdeiro rico. A família Kendric descendia de advogados, seu pai era filho de um, até estudou para se tornar um, mas escolheu a aviação. William se lembrava da infância na casa do avô, vivia bem, tinha uma cama, mas nunca teve um quarto. Sempre dormiu com os primos, na mesma cama. O restante de sua vida foi no quartel, mudaram as coisas mas o fato de ainda dividir um quarto com mais quatro homens adultos não melhorava 100% a situação. O que ele tinha no banco era sua herança e alguns zenins, nada demais, mas isso não importava nem um pouco.
William arrumou a mala, pegou o casaco, deixou dobrado sobre a cama e saiu pelo corredor.
Eu já passei por esse corredor, não? Pensou. Achou que estivesse perdido, malditos corredores, porque diabos uma casa era tão grande? Ele pareceu irritado e torceu para um criado aparecer para que pudesse pedir ajuda, então desceu as escadas que ficavam no fundo de um corredor e percebeu que estava na ala dos criados, leu isso na placa pendurada na parede: Entrada apenas para criados.
— Como eu saio daqui? — Resmungou murmurando enquanto dava meia volta no corredor.— Porcaria...
— Está do lado errado, senhor Kendric — A voz atrás dele fez Will se virar e encarar a figura da duquesa sentada embaixo de uma escada giratória que deveria levar para para o sótão. Ele teve que conferir duas vezes para ter certeza de que era mesmo Lizandra sentada no chão naquele breu, escondida atrás de uma escada. Ela estava com as bochechas e o nariz vermelho, os olhos pareciam inchados de chorar e algo se apertou no fundo de seu estômago, como se ele tivesse levado um soco bem forte. Respirou fundo e começou a caminhar até ela.— A saída fica pra lá.
Ela apontou, mas William ignorou.
— Vossa graça — Disse se abaixando até ela— Está tudo bem?
— Sim — Ela passou a mão no rosto que parecia molhado.— Só pensei que estivesse sozinha.
William sorriu de lado.
— E pode continuar é só me pedir para sair.
Ela negou com a cabeça.
— Por favor — Pediu.— Fique.
Ele assentiu e se inclinou mais para o chão, indicando com a cabeça quando apoiou as mãos no piso de madeira.
— Posso?
Ela confirmou com a cabeça e Will se sentou ao lado dela.
Depois de alguns minutos em silêncio, escutando apenas a respiração e o som dos canos da casa estalando, Lizzie se virou para ele com a boca curvada.
— Não acreditei que Theo conseguiu arrastar você para cá — Sorriu, depois ficou séria.— Não achei que viria.
— Então nesse caso a vossa graça cogitou que eu viesse? Interessante.
Ela ergueu a sobrancelha para ele, confusa, então entendeu o flerte. Sempre fora muito lerda para isso.
— Não fale desse jeito — Repreendeu ele mais como uma brincadeira e não verdadeiramente.— Não foi o quê quis dizer.
Ele ergueu as mãos como quem se rende para a polícia, sorrindo.
— Claro que não foi — Abaixou as mãos e olhou para ela animado.— Bem, o rei usou seu poder autoritário sobre mim, foi uma ordem direta.
Ela abriu a boca em um O e soltou um "Ah" sorrindo.
— Isso é bem a cara de Theodore...
— A senhorita tem o Theodora no nome, estou certo? — Perguntou, Lizandra confirmou com a cabeça.— Foi um plano?
Ela pensou por um momento, depois deu de ombros se virando para ele.
— Me pergunto isso desde pequena, mas acho que foi apenas coincidência.
Três criados passaram no corredor e os dois ficaram em silêncio até que elas sumissem no corredor, se escondendo. Quando não havia mais ninguém, Will se levantou e ajudou a duquesa a sair do chão.
Ela limpou a poeira das saias e passou a mão na parte de trás para que não parecesse tão amassada. Will e ela foram para o outro lado do corredor, descendo as escadas rumo a saída, e com Lizandra sempre dois passos à frente.
Os dois passaram por um corredor cheio de quadros, conheceu os rostos de um ou dois da família Mallmann, mas outros ele apenas leu o cartão de indicação em baixo. Viu o de Augustus Victori, O grande. Damon, O jovem. Catharina, com um quadro maior que o de alguns e então quando Lizandra já estava bem a frente, percebeu que ele havia parado no corredor. Ela se virou e viu Will encarando o quadro de Acsa. Prendeu o ar e foi até ele, parando ao seu lado, os dois observaram o quadro da rainha.
Os cabelos fortemente pretos, como carvão. Os olhos azuis como o oceano e os lábios avermelhados. Era apenas um pintura de busto. Os cabelos presos, a coroa de pérolas e diamantes na cabeça, os brincos que eram apenas uma enorme pedra brilhante na orelha. O olhar delicado e singelo da filha de Magnum.
— Ela era linda — Lizandra disse quebrando o silêncio e fazendo Will se virar para olhá-la.
Ele engoliu e confirmou com a cabeça.
— Mas parece diferente de quando a vi — Respondeu. Lizandra sentiu seu corpo paralisar. Era ele. Ele era o piloto que havia trazido Acsa de volta. Seu coração disparou no peito e ela arfou se sentindo pesada, colada no chão.— Quando eu a vi...ela parecia infeliz por voltar para casa.
Os dois voltaram a andar rumo a sala e estavam descendo a última escada para isso.
— Acsa se apaixonou por um comandante da guarda na Teslia — Explicou Lizzie quando chegaram à sala.— Ele morreu no dia seguinte que ela foi embora...— Os dois ficaram em silêncio por um momento. Então ela se virou e percebeu que Will lhe encarava sério.— Acsa morreu achando que ele estava vivo e ele morreu achando que Acsa iria viver para reinar. No fim ambos estavam errados, mas não deixa de ser uma história bonita.
Ela disse com frieza, quando cruzaram a porta. A carruagem de Yvanna já havia chegado e estavam todos lá fora.
— Ah, olha quem resolveu nos dar o ar da graça! — Theodore disse alto apontando para Lizzie.
Sem aviso, ela enlaçou seu braço no de Will e caminhou ao seu lado até o rei, onde se soltou dele e abraçou o primo, depois a cunhada.
— Vamos, esse é o melhor horário para começar, vamos para o lago! — Theodore disse animado indo até a mesa onde haviam as ferramentas, balas, armas, galochas e luvas.— Vamos separar as equipes de caça.
Lizandra revirou os olhos de maneira irritada encarando Theodore com raiva.
— Odeio caçar em grupo — Declarou na tentativa de desanimá-lo.
Theodore estava escolhendo sua arma quando Will parou atrás dele observando tudo confuso.
— O que vamos caçar? Lebres? — Perguntou.
— Patos, capitão — Theodore jogou uma mosqueta na direção dele, William a pegou no ar, assustado.— Vamos atirar em patos.
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