Capítulo 17
A chuva cessara.
O som do trem se aproximando foi o suficiente para William se levantar apreensivo e deixar Lizandra o seguindo com os olhos enquanto ele andava de um lado para o outro, ansioso.
— Tem certeza que não se feriu? — William havia perguntado pela quinta vez.
Lizandra já estava começando a achar que talvez ela estivesse mesmo ferida. Mas por mais que checasse todos os membros, não havia nada além dos pés frios, cabelos bagunçados e roupas molhadas.
Aliás, William Kendric estava com uma aparência muito pior que a de vossa graça. Ele parou na frente dela batendo os pés em puro frenesi, as mãos na cintura e cada uma das pessoas na estação já passavam olhando para eles por seu estado, com a movimentação constante do piloto, William estava chamando muita atenção, isso deixou Lizzie nervosa. Ela lhe agarrou a mão e o puxou para baixo, fazendo ele se sentar de vez ao seu lado. William se virou para ela confuso.
— Que inferno, homem! — Ela balançou a cabeça olhando para o outro lado, onde o trem apontava no horizonte.— Se mexe como se tivesse em uma descarga elétrica, senhor Kendric, pare por um momento, por favor!
William poderia ter reagido como todos os cavalheiros que assim que escutam uma dama gritar um palavrão como aquele, estaria no mínimo chocado. Mas ele não estava chocado, na verdade, era justamente o que pensava que a duquesa diria, por esse motivo ele jogou a cabeça para trás e começou a rir.
— Estou impressionado com o que ensinam nas escolas de grã-duquesas — Comentou enquanto parava de rir.
— Não frequentei uma escola — Esclareceu.
William parou de rir bruscamente e lhe olhou de lado, de cima para baixo, descrente.
O trem parou na frente deles e uma movimentação de pessoas começou a sair de dentro das cabines.
— Trem para Clover Adele! — Um homem anunciou enquanto apitava um apito.— Trem para Clover Adele! Estamos partindo!
— A senhorita não frequentou uma escola? — Pela primeira vez estava demonstrando estar chocado, talvez um tanto curioso. Ela negou com a cabeça.— Enquanto a universidade?
Ela pareceu desconsertada, envergonhada. Lizzie não tinha medo de não ser suficiente bonita em um salão, não tinha medo de não saber valsar ou de não conseguir se casar. Ela tinha medo somente de uma coisa, de parecer burra. Odiava parecer burra e se esforçava o máximo, desde pequena para aprender tudo. Desde política, filosofia, literatura, até a música e artes. Mas não era um homem e se não era um homem, não poderia ir a universidade como Theo foi.
— O senhor me acha uma ignorante, senhor Kendric?
William estava tão paralisado lhe encarando que Lizandra pensou em se levantar e sair dali. Ele estava tão encantado com as rugas que se formaram quando ela juntou as sobrancelha e grunhiu a testa, que ele pensou que poderia ter decorado todas as texturas e tons de castanho e verde que estavam nos olhos. Pensou que não poderia existir criatura mais graciosa no mundo e sentiu que estava respirando tão devagar que estava quase parando.
— De maneira alguma, vossa graça — Ele finalmente disse e Lizandra sorriu aliviada.— Na verdade a acho muito inteligente.
— Diferente do senhor eu não frequentei uma escola, tudo que aprendi foi no palácio.
— Perdeu uma boa experiência, apesar que a universidade de aviação não tenha sido muito gentil...— Ele sorriu abaixando a cabeça quando deu de ombros.— Na verdade não foi nem um pouco gentil.
— Gostaria de saber sua experiência, senhor Kendrick.
— E eu ficaria feliz em lhe contar tudo, mileide.
O sorriso dela foi tão sincero que William teve que se levantar e pôr as mãos no bolso, pois não sabia se seria possível controlar os próprios sentidos.
O trem parou do lado deles e dessa vez era o correto. Lizandra se levantou, tentando arrumar o vestido que já estava completamente arruinado. William desejou estar com um casaco apenas para emprestá-la para que não se sentisse completamente confortável.
Ele lhe deu a mão para que acompanhasse até o trem. As pessoas saiam com bagagens e eles esperaram até que não estivesse tão cheio.
— Trem para Winter Solei! — O homem anunciou.— Trem para Winter Solei! Partimos em quatro minutos!
Ele ajudou Lizandra a subir os degraus e quando Lizandra já estava no trem, William se curvou levemente com os braços para trás, um perfeito cavalheiro, ela imaginou.
— Mais uma vez obrigado pelo que fez, senhor Kendrick.
— Não precisa agradecer, fiz o que qualquer um faria, mileide.
Ela engoliu seco e concordou com a cabeça. Se virou levemente e passou pela porta, mas William não se moveu, permaneceu no mesmo ponto, os olhos dele encarando a barra do vestido dela ainda na parte de fora, o que indicava que Lizandra também estava parada, como se esperasse por algo. Então o som agudo dos ferros se movendo mostravam que o trem estava se preparando para sair, devagar e pesado sobre os trilhos, a fumaça e vapor tomou conta do lugar e William nem se moveu, recebendo tudo em sua direção.
Lizandra deu a volta e se apoiou no parapeito de segurança, os cabelos esvoaçantes enquanto o cortava o vento quando o trem se movia, se distanciando, ela se virou na direção dele e gritou:
— Não irei me esquecer do que fez por mim, William!
Ele moveu a cabeça e sorriu. Não conseguia se lembrar do afastamento das missões, do acidente de Sean, das broncas que levou - e que levaria - do Major. Tudo pareceu não importar depois daquele momento. Naquele momento, a visão de Lizandra olhando para ele daquele jeito tão devoto e dizendo aquelas palavras, ele poderia levar um tiro no peito naquele momento, mesmo assim saberia que havia ganhado seu dia apenas por aquele momento e teve certeza, faria tudo de novo apenas para que sentisse.
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