Capítulo 2


CAMILLY

          O dia amanheceu e eu começo a por o meu plano em pratica. Não era o melhor do mundo, mas teria eu servir, e inadmissível seque pensar em deixar alguma coisa acontecer com a minha pequena vida. Me arrumo com uma calça leggin, uma bata de algodão e tênis confortáveis, calçar tênis é praticamente uma operação de guerra já que eu mal consigo ver meus próprios pés. Desço as escadas e vovó já esta acordada conversando com a cretina da Vera, respiro fundo algumas vezes coloco um falso sorriso no rosto e vou ate elas.

          - Bom dia

         - Oi minha neta venha sente-se pra tomar café, logo vamos a cidade. Hoje é dia de feira e quero pegar as coisas mais frescas.

          Aceno pra minha avó e começo a comer preciso estar forte para o que pretendo fazer. Vovó mantem um dialogo comigo e eu apenas respondo com monossílabos, meus pensamentos voam com mil e uma possibilidades, será que minha avó esta ciente do que minha mãe pretende fazer? Difícil dizer vovó me ama, mas sei que ela faria tudo que minha mãe quisesse. Melhor não confiar nela tem muita coisa em jogo.

          - Camilly querida você esta me ouvindo? – olho para seus olhos verdes tão parecidos com os meus e tento ver algum sinal neles, mas não há nada somente a ternura costumeira.

          - Desculpe, eu não estou muito bem.

          - Há querida o que você esta sentindo? - mal minha avó termina de falar noto a vera chegar mais perto de nós interessada na conversa, minha vontade e avançar em cima dela e tirar essa cara fingida de preocupação na base de tapas.

          - É só muita azia e uma cólica chatinha, acho que não vou a cidade com vocês hoje, prefiro ficar aqui deitada.- por sorte vovó sabe que eu não gosto de ir na cidade e evito ao máximo faze-lo então ela não me questiona e apenas concorda:

          - Claro meu amor, nessa faze da gravidez e normal sentir mal estar as vezes, vou comprar na feira alguns limões para te fazer um suco isso ajuda a controlar a azia.

          - Ta bom, vou me deitar na rede na varanda por um momento.

          Saio da cozinha e vou para o lado de fora, esse é meu lugar favorito na casa, uma ampla varanda que tem uma visão privilegiada da frente da fazenda Aliança e de toda mata nativa que fica logo a frente depois da estrada, eu adoro me deitar na rede ou ficar na cadeira de balanço olhando esse mundaréu de árvores, ouvir os pássaros e os outros sons que são naturais da mata. No meio da vegetação há um estreito atalho quase que totalmente escondido entre as árvores que leva a uma nascente linda onde eu adoro ir me refrescar e é por isso que hoje quando for embora vou ter que ir pela parte de trás da fazenda, pois muito raramente me aventuro por aqueles lados, pois e onde fica o pasto com as poucas vacas que sobraram depois da morte do meu avô e do é lá também que fica o velho celeiro e o galinheiro. Me deito na rede e fico observando o céu, tentando me manter calma para não gerara desconfiança na minha avo e na Vera, nesse momento um sentimento de solidão se faz notar no meu peito e me sinto mal por não ter uma amiga com quem contar, com quem desabafar, um lugar para correr e me sentir amparada, minha avó era esse lugar e por isso eu estou aqui depois de tudo que passei em são Paulo e agora nem isso eu tenho. Estava sozinha. Claro tinha o meu pai e o meu irmão Camilo, mas eles nunca ligaram para mim e com certeza não sera agora que eu poderei contar com eles.

          - Camilly querida nos já vamos, tem certeza que ficara bem?- Vovó Elisa pergunta me tirando do devaneio.

          - Sim, vou ficar bem, o Norberto ira acompanhar vocês?- Norberto era o único funcionário que ficou na fazenda além da Vera, o filho dele Guilherme estudava medicina veterinária na capital e só vinha até aqui nos finais de semana para olhar os animais e ajudar no que fosse preciso, ele faz isso porque meu avô deixou especificado no testamento que era para minha família arcar com as despesas de sua faculdade como forma de agradecimento a tudo serviço prestado por seu pai à fazenda aliança, Guilherme por sua vez cuida dos nossos animais de graça como forma de agradecer por seus estudos.

          - Sim, ele vai dirigindo eu não tenho mais confiança em guiar a caminhonete por essas estradas de chão.

          - Então fico mais tranquila

          - Não vamos demorar não gosto da ideia de você ficar sozinha aqui passando mal - ela disse com carinho na voz, antes que eu respondesse Norberto chega buzinado - Vera vamos logo se demorar as verduras mais frescas vão acabar – vovó grita me fazendo sorrir, ela vem até mim e beija o topo da minha cabeça.

          - Vó Elisa - ela se vira pra mim e nesse momento penso em falar com ela tudo e pedir por ajuda, mas Vera sai da casa e eu desisto, elas me olham em expectativa - traga pra mim um pouco de caldo de cana, fiquei com vontade - improviso.

          - Claro querida tudo pra satisfazer meu bisnetinho que esta a caminho.

          Depois que a caminhonete sai da propriedade fico aguardando algum tempo para ter certeza que eles não vão volta, minha avo sempre esquece alguma coisa, depois de um período que julgo razoável entro na casa pego a mochila com poucos pertences que arrumei na madrugada, deixo os cartões de banco sobre a cômoda e levo apenas o dinheiro vivo que tenho e meus documentos. Vou ate a cozinha pego uma sacola coloco dentro frutas e uma garrafa de água e logo depois saio apressada da propriedade e começo a andar.

+++

          Faz horas que estou andando e não cheguei a estrada sul, achei que levaria menos tempo, o plano era chegar a estrada sul que fica no lado oposto a fazenda e que leva até a cidade vizinha e de lá pedir uma carona, mas estou caminhando a horas é ainda nem sinal da estrada. Pelo mapa que olhei no celular ontem o caminho era fácil e já era para eu ter chegado, me lembro que quando era pequena andava com o vovô por esses caminhos e isso me deu confiança para me aventura por aqui, mas agora admito que estou perdida e isso me deixa apavorada.

          Pelas minhas lembranças depois que acabasse a estradinha de chão era só continuar pela mata sempre em linha reta que daria direto na estrada. Essa estradinha era um caminho para ligar as fazendas mais afastadas a estrada que leva direto para Ribeirão, a cidade vizinha, sem precisar dar a volta na rodovia o que leva cerca de vinte minutos; pensei que andaria pouco mais de uma horas até consegui chegar no meu objetivo, mas parece que estava enganada.

          Resolvo me sentar um pouco, penso em tirar o tênis, mas desisto da ideia pela dificuldade que será para vesti-lo novamente. Tiro a mochila das costas e pego água e fruta, Como devagar par não passar mal ou ficar com desconforto no estômago, acabo dormindo e acordo no susto de sentir o meu bebe chutando, aproveito que estou me sentindo melhor e volto a caminhar.

          Minha avó deve ter chegado a casa e não me achado. Me sinto culpada por deixa-la preocupada ela é a única pessoa eu sei que verdadeiramente me ama na vida. Somente ela é meu avô. por isso que depois que ele morreu fiquei anos sem vir até a fazenda, doía andar por aquelas terras e não ver ele mexendo na horta, ou montando seu cavalo ou me ensinando ordenhar uma vaca. Só na fazenda eu era livre dos caprichos da minha mãe da ausência do meu pai, da indiferença do meu irmão. Esse lugar sempre foi meu refúgio meu santuário é muito injusto isso ser tirado de mim logo no momento eu mais preciso.

          Tomara que minha avó ache o bilhete que deixei e entenda que foi necessário, não contei a ela o que ouvi, pois não sei se essa Vera pode ser perigosa ao ponto de machuca-la, então escrevi algo sobre estar me sentindo sufocada e triste precisando de um tempo para mim a sós antes do bebe nascer. Na verdade era isso mesmo que eu deveria estar fazendo: curtindo minhas ultimas semanas como uma pessoa sem filhos, mas ao invés disso estou perdida no meio do mato. Não, Pensamentos positivos: eu não estou perdida apenas calculei mal o tempo. É nesse tipo de pensamento que devo me apegar, energia boa atrai coisas boas é o que dizem.

          Meus pés doem cada vez mais e o peso da minha barriga não ajuda, meu pequena príncipe esta muito agitado hoje dando chutes que às vezes me fazem perder o ar, sei que ele sente meu nervosismo. Minha água acabou a algum tempo e para o meu desespero sinto gotas de chuva que começam a cair. Ai meu Deus, por favor, que não chova até eu chegar a estrada.

          O que mais me apavora é o silêncio nenhum pássaro cantando ou mesmo o barulho de alguma fazenda próxima. Nada, apenas o vento forte batendo na copa das arvores. O dia ficou mais escuro e sei que uma forte chuva se aproxima. Um estrondoso trovão rompe o silencio me fazendo estremecer e logo depois gotas de chuva grosas e fortes começam a cair, o desespero toma conta de mim a última coisa que eu preciso e dessa chuva toda olho para todos os lados e vejo uma enorme arvore e corro para ela tentando me abrigar da tempestade que agora cai sem piedade.

          Estou ensopada e morrendo de frio, apesar da árvore ter uma folhagem grossa a chuva esta muito forte e parece vir de todos os lados. Tento me levantar, mas minhas pernas parecem gelatina de tão moles. Meus dentes batem um no outro com os fortes tremores do meu corpo. Não me sinto bem meu corpo parece que esta perdendo a força, minha visão está embaçada, todo meu corpo doí e sinto a escuridão tomando meu corpo. Sei que vou desmaiar.

          Antes de apagar vou pedindo a Deus que proteja a mim e ao meu filho.

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