O outro lado

Tem um mês que Grazi veio morar comigo e ontem fizemos uma festa para receber nossa pequena Malu. Finalmente a guarda provisória dela nos foi dada. A definitiva vamos esperar estarmos casados para registrá-la em nosso nome.
Isso acabou em uma pequena discussão entre nós os dois. Eu sei que ela falou que queria fazer tudo com calma. Mas para mim, isso está com passos de tartaruga. Até agora não a vi agir nada relacionado ao nosso casamento.
Ao menos ela gostou a localização do terreno e hoje vamos falar com o arquiteto e descobrir se ele fez todas as mudanças que ela pediu na planta do imóvel.

Deixamos Malu na escola e seguimos para o imponente edifício Morelli, localizado no centro do Rio.

Quase gritei comemorando quando ela aprovou a maquete que foi feita para melhor visualização na nossa futura casa.

-Agora sim podemos começar os preparativos para o nosso casamento. -falou sorrindo e me dando um beijinho antes de entrar no carro.

Como sempre, a puxei para um beijo decente.

A felicidade entrou mesmo em minha vida e eu não faria nada para afastá-la de nós.
*
Um mês para o casamento...

Malu se tornou nossa prioridade e juntos conseguimos estar sempre ao lado dela. Tivemos apenas que contratar uma ajudante para às noites em que Grazi faz show e já estamos adiantando os papéis para adotar Maria.

Eu cozinho enquanto Grazi a ajuda nos trabalhinhos de casa. Minha empregada agora trabalha todos os dias. Meu pai apareceu na pequena recepção de Malu e mesmo assim continuou distante.
Thomas continua fingindo estar bem, mas ao menos já assumiu para nosso pai que quer Júlia de volta.
Nunca mais vimos Júlia, ela nós pediu distância e apenas fala um pouco com Becca e Grazi no telefone e nada mais. Sabemos que ela está bem e que está trabalhando aqui mesmo no Rio com eventos. Fizemos de tudo para convencê-la a organizar nosso casamento, mas ela simplesmente negou. Seu nome já está sendo reconhecido em alguns eventos. Claro que demos um empurrãozinho discreto, porém o talento é todo dela.

Já é noite...

Quando fecho o forno o interfone toca. Hoje minha sogra vem jantar conosco e Grazi convidou o pai sem a mãe saber. Já imagino a merda que isso vai dar.

Gisela chegou sorridente e seu sorriso desmanchou assim que ela viu Cláudio. Ficamos surpreendidos com o tremor em seu corpo quando Cláudio se levantou. Ela deu dois passos para trás e se escondeu atrás de mim.

-Se afasta pai. -ordenou Grazi -fala tudo mãe, estou ao seu lado e ele não pode mais te machucar. -Nessa hora agradeci o fato de Thomas ter passado mais cedo para levar Malu ao parque.

-Que palhaçada é essa Grazi? Gisela minha querida...

-Cala-se Cláudio, ou você fica calado ou saí da nossa casa. -Mando enquanto abraço Gisela.

-Eu saio. -anuncia ele com os olhos cheios.

-Não, você fica. -comanda Grazi com um olhar feroz. -pode falar mãe, fale tudo que tem preso dentro de você por tantos anos.

Gisela não consegue levantar à cabeça e nem ao menos fazer qualquer som. Por isso, Grazi acaba mandando o pai se retirar e ele assegura que vai esperar por Grazi na garagem.

Assim que Cláudio sai, Gisela senta-se no sofa e chora. Grazi lhe oferece um suco de maracujá e se senta ao seu lado.
Ficamos um bom tempo em silêncio até que sua mãe começa a falar:

-Eu era secretária do seu pai, um dia ele me chamou para jantar e eu aceitei. Estava muito magoada pela traição de meu ex-marido e sempre deixei isso claro pra ele -Ela olha diretamente para Grazi -ele começou a me dar presentes e saímos algumas vezes para jantar, depois automaticamente começamos a namorar, só que ele era muito cuimemto e tinha crises horríveis de ciúmes, me xigava e ameaçava me bater. Começei a me sentir encurralada e pedi as contas. A partir daí ele mudou. -respira fundo e bebe mais um pouco do suco -ele disse que estava indo ao psicólogo e que entendia que as coisas que faziam não era certo, mas que me amava e me daria o mundo se eu lhe pedisse. Ele realmente mudou. Me tratava bem e nos levava em viagens com os amigos. Gabriel o adorava e em pouco tempo começou a chamá-lo de pai. Nos casamos um ano depois e na lua de mel mesmo ele mostrou que nada tinha mudado. Ele me bateu porque eu sofri um aborto espontâneo durante o nosso curto noivado e gritava falando que Gabriel jamais seria seu sucessor. -ela se levanta e anda de um lado para o outro - nessa mesma noite eu fui obrigada a transar com ele. Eu pedia para ele parar e ele não parava, ele me exigia um herdeiro. Passei dois dias nesse inferno e quando voltamos fui a delegacia dar queixa dele. Ali descobri como o dinheiro fala alto. Ele mantinha Gabriel sobre seu domínio e o usava para me manter ao seu lado. As surras pararam, mas as humilhações às vezes eram piores. -ela torna a se sentar, agora de frente para a filha. -ele dizia que quando eu lhe desse um filho eu poderia ir para o inferno que ele não ligaria. Você nasceu de oito meses e eu tive umas complicações que me impossibilitaram de ter mais filhos. Eu não tive coragem de partir e te deixar. Mas o álcool ja tinha entrado me consolando. Fiquei até você completar três anos, eu não queria ir mas ele ameaçava me enternar e jogou um monte de dinheiro sobre a cama. Mesmo assim fiquei, aí ele atingiu meu outro ponto fraco. Gabriel, Ele brigava com seu irmão e o proibiu de chamá-lo de pai. Eu só podia te ver aos domingo, no restante da semana eu era proibida por seus capangas. Ele me acusava de ainda amar o pai do Gabi. Às vezes eu via você com ele. Ele era ignorante comigo, mas parecia bom pai. Dona Flora trabalhava há anos com ele e me garantia que ele te amava muito. A última briga foi quando você fez quatro anos e eu me atrevi a ir na sua festa bebada. Na madrugada ele me obrigou a assinar o divórcio e um papel dando a ele, sua guarda total. - Ela volta a chorar -Eu fui fraca minha filha, eu tive medo de morrer e assim não poder proteger nem você nem Gabi. Assinei e ele me manteve ali por mais três dias alegando que era para eu me acalmar.

-Chaga mãe! Vamos pensar no futuro-propõe Grazi se ajoelhado de frente para a mãe.

-No decorrer dos anos ele me procurava e me deixava te ver de longe. Nunca mais foi agressivo e por várias vezes me ligava pedindo perdão. Quando você fez dez anos, ele parou de sair com você em lugares que eu poderia frequentar e eu nunca mais te vi. Gabi já estava com dezoito anos e foi atrás de você. Ele só permitia Gabriel se aproximar quando estava presente e assim vigiava de perto vocês dois. Trabalhei e quando você completou quinze anos. Apesar de eu quase não ter usado nada do dinheiro que ele me deu. Um advogado me procurou e me entregou um novo valor alegando ser pelo divórcio e eu entreguei o dinheiro a Gabi, pedindo que ele aplicasse em algo que pudesse garantir o futuro de vocês. Eu sei que fui má com meus comentários sobre seu peso, mas eu sempre me preocupei com sua saúde. Você nasceu tão fraquinha. Te cutucava com a intenção de te fazer uma mulher forte. Sei que errei, mas nunca deixei de te amar, mesmo você sendo tão parecida fisicamente com ele.

-Ele nunca mais te ameaçou? -questionei.

-Não, mas eu não consigo ficar perto dele. Eu realmente acho que ele se arrependeu e até mudou, mas isso não significa nada pra mim. Aquele período foi horrível demais e sempre o vejo como um carrasco.

-Me perdoe mãe. Me perdoe por te julgar sem nunca ter tentado saber o seu lado da história.

-Não tenho nada para perdoar minha filha. Você me enche de orgulho com suas conquistas e Gabi sempre me cortou com medo de eu falar sobre seu pai e você se voltar contra mim. Por isso ele sempre estava presente ocupando a vaga que deixei vazia. Seu irmão se tornou um homem bom e lindo. Principalmente lindo por dentro. Ele também teve seus medos, se sentia um lixo e todas as vezes tive que lembra-lo o quanto és belo. Me perdoe filha, eu não aprendi ser mãe de menina, me perdoe se não soube te transmitir o amor que tenho por você aqui dentro do meu peito.

Grazi envolveu a mãe pela cintura e Gisela passa as mãos em seus cabelos se abaixando e dando um beijo sobre eles, as duas choraram...

A comida quase não foi tocada. Grazi aconselhou Gisela a procurar um psicólogo e ela prometeu fazer isso na segunda.

Malu chega com Thomas e ficamos surpresos por ela chamar Gisela de vó. Depois Gisela explica que soube que íamos adotá-la, passou a ir fazer trabalhos voluntários no orfanato e se aproximou de Malu na tentativa de ser melhor avó do que foi mãe.

Grazi pede que Gisela fique aqui essa noite e desce para falar com o pai. Eu vou junto.

A cena que encontrei na garagem me deixou incomodado.

Cláudio tinha os olhos inchados de tanto choro e digo que em duas horas esse homem envelheceu dez anos.

Chorou mais quando viu Grazi e pediu perdão por tê-lá afastado da mãe. Contou que foi viciado em cocaína e que muito dos surtos era pelas crises de abstinência. Foi chocante o seu relato, mas nada disso amoleceu o coração da minha mulher.
Ela apenas lhe pediu para manter à distância de sua família e principalmente para não se aproximar de Malu.
Ele implorou, se ajoelhou e ela continuou irredutível.

-Não chegue mais perto da minha mãe. -avisou Grazi, quando ele saía do condomínio.

-Eu prometo que não farei. Mas pense com calma filha, não me afaste assim da vida de vocês. -sua resposta foi virar as costas e entrar no prédio.

Na madrugada ela chorou as dores dos pais e entendeu o porquê da mãe ter se tornado alcoólatra. Me confessou que desconfiava que a mãe havia sofrido maus tratos e com a postura que a mãe tomou. Teve certeza.

-Thiago, vamos prometer sempre nos respeitar. -pediu deitando em meu peito.

-Sempre minha Pequena. -prometo, a apertando em meus braços.
*

Gisela parecia uma nova mulher. Estava há quinze dias frequentando um grupo de alcoólicos anônimos e passou a morar conosco. Estava na segunda consulta com a psicóloga, mas parecia estar há anos.

-A doutora falou, que quando contei para minha filha, um peso enorme me deixou, eu concordei. Acho que deixei de sentir culpa. -relatou

-Fico muito feliz mãe. -Grazi sorriu dando um beijo em sua face.

-Eu quero me encontrar com o seu pai. -anunciou num rompante, deixando-nos surpresos.

-Tem certeza mãe?

-Filha, seu pai foi um péssimo marido, mas não foi um mal pai. Ele me afastou de você por causa do álcool. Nós erramos mas nada disso diminui o amor que temos por você. Eu tenho que perdoá-lo para seguir em frente e queria que você fizesse o mesmo. A mágoa e uma coisa muito ruim e não acho que deve privá-lo de estar em seu casamento.

-Se quiser eu acompanho vocês. -ofereci.

-Eu quero amor, faremos isso quando a senhora quiser mãe.
*

Eu estava de boa na piscina com Malu até que Grazi, inventou a porra de uma despedida de solteiro.

Thales me ligou quase tendo um  infarto ao ver Becca com uma barriga enorme, saindo pra se encontrar com Grazi. Por conta disso passei uma noite de cão bebendo com meus irmãos, uns amigos e Gabi que chegou um pouco depois, em frente à uma das boates GG.

-Se acalma donzela. Amanhã a essa hora ela já estará usando seu sobrenome. -arrisca Thomas.

-Sua hora vai chegar Thomas, aí eu quero ver você ficar calmo. -Provoca Thales.

-Meus irmãos, se Julia me der uma chance, ela pode fazer despedida de solteira o mês inteiro antes do casamento.

-Conseguiu falar novamente com ela? -questiona Thales

-Resolvi deixar o destino se encarregar desse encontro. Se for para ser, será.

-Belas palavras donzela, mas não custa nada às vezes darmos uma mãozinha para o destino. -aconselho bebendo mais um gole do meu chope e me virando para o Gabi. -Bem que você como dono, poderia ir lá dentro conferir se está tudo bem.

-Eu não sou louco Thiago. Se Grazi ver minha sombra ela me mata. Deixa de ser inseguro e relaxa.

-Bom saber que você está tranquilo com a Barbara soltinha lá dentro com as meninas.

-A Bárbara está em casa. -afirmou convicto.

-Estas enganado cunhado, ela está la dentro com a atrevida da sua irmã. -relatei rindo com deboche.

Nossos celulares apitam ao mesmo instante recebendo mensagem.
Abro a minha e me deparo com Grazi rebolando até o chão acompanhada de Barbara e até mesmo Becca com aquele barrigão.

Não teve segurança certo, entramos na boate e trouxemos nossas mulheres pra casa.

A discussão comeu solta aqui em casa e a abusada falou que não ia mas se casar comigo porque eu era mandão.
Dormiu emburrada no quarto da Malu.

*
Ela saiu cedo, sem ao menos me dar um beijo. Apenas Malu me deu um abraço gostoso.

-Relaxa papai! Mamãe te ama. -Falou minha princesa me enchendo de felicidade por me chamar de pai e também por tranquilizar um pouco meu coração.

....

Agora estou aqui no altar morrendo de medo da maluca, abusada, atrevida; não aparecer e suportando os meus irmãos que a todo instante aparecem na porta para rir da minha cara. Estou preocupado, mas no fundo sei que ela não vai desistir assim da gente.

Porém, meu coração somente se acalma, quando vejo Malu do lado de fora da igreja.

                           🌻🌻🌻

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💋Beijos da Aline💋💋.

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