♡• q u a t r o • ♡
Don't you know I'm no good for you?
I've learned to lose you, can't afford to
Tore my shirt to stop you bleedin'
But nothin' ever stops you leavin'
When The Party's Over • Billie Eilish
♡•♡
R a v e l
doze anos antes
Eu gostava de casamentos.
Por um tempo, ousei sonhar que me casaria com Verdana. Às vezes, olhava para ela e a via em um vestido branco, com flores nas mãos e nos cabelos; uma visão bela e etérea, como o sonho que eu tinha medo de nunca se realizar.
Esse sonho se transformou no meu pior pesadelo.
Estou sufocando.
Mas a gravata-borboleta que circunda o meu pescoço não é a culpada pelo aperto que oprime a minha garganta no instante em que as portas da catedral se abrem, e eu avisto Candara.
Perco o ar. E minha noiva não tem nada a ver com a minha dificuldade em respirar. Ou com o choro que estou tentando conter.
Olho para ela, começando a arrastar a cauda de seu vestido pelo tapete, e a minha vontade de chorar transcende.
As lágrimas que ameaçam cair embaçam a minha visão enquanto o som que reverbera no interior da igreja se infiltra em meus ouvidos.
A marcha nupcial soa como uma marcha fúnebre, que casa perfeitamente com a minha tristeza.
Devagar, Candara se move em minha direção, com os olhos marejados fixos nos meus e um sorriso emocionado estampado no rosto radiante.
Dói demais vê-la tão feliz por algo que me destrói um pouco mais a cada segundo.
Cerro as pálpebras por um instante, como se isso pudesse me impedir de testemunhar sua dolorosa felicidade.
Em minha momentânea escuridão particular, atrevo-me a imaginar a garota que amo sorrindo e caminhando até mim. Seus grandes olhos azuis cintilando, os lábios cheios esticados, as ondas do cabelo escuro desaguando nos ombros, o vestido de noiva ressaltando as curvas que me fazem perder a linha.
Sem me dar conta do que estou fazendo, giro o pescoço e a vejo. Eu realmente a vejo. Tão perto e, ao mesmo tempo, mais distante que tudo. Tão linda e tão perfeita que quero cair de joelhos aos seus pés e implorar que se case comigo, aqui e agora.
Só que eu não posso.
Paro de olhar para Verdana, antes que alguém perceba. Paro de pensar nela. Tento me concentrar no meu casamento. Com Candara. Eu vou me casar com Candara.
Porque preciso. Porque é a única maneira de evitar uma tragédia muito maior do que esta.
Mirando a entrada da igreja, engulo com força, tentando aliviar a dor que me estrangula por dentro.
Permaneço estático, mas quero desabar e permitir que os soluços contidos ecoem, até que todos percebam que isto aqui é um erro.
Porém, não é. Estou fazendo a coisa certa, pela primeira vez na minha vida.
E é por isso que forço um sorriso quando recebo minha noiva diante do altar.
Entrelaço meu braço ao dela e, assim que nos viramos em direção ao púlpito, um silêncio repentino recai sobre a igreja, oferecendo-me a oportunidade de gritar que amo Verdana e que é com ela que desejo me casar.
No entanto, eu me mantenho penosamente calado. Então, o padre começa a falar em meu lugar.
Não o escuto. Não ouço nada. Fico imerso em meus próprios pensamentos. E Verdana está em todos eles.
Preciso tirá-la da minha cabeça, do meu peito, da minha pele. Preciso que ela saia da minha mente, do meu corpo, do meu coração. Mas não quero. Não quero que ela vá embora. Quero que fique. Quero que nunca me deixe.
O que estou fazendo não é justo com Candara. Mas, se a vida fosse justa, eu não precisaria me casar com a irmã da garota que amo. Se a porra da vida fosse justa, a minha não seria tão fodida assim.
— É de livre e espontânea vontade que o fazeis? — o padre pergunta, e percebo que está falando comigo.
Meus batimentos aceleram quando me dou conta de que fiquei absorto por tempo demais.
Com a frequência pulsando freneticamente em meus ouvidos, vejo que chegou a hora de pular no buraco que eu cavei.
Não, não, não... Por favor, não... Não faça isso. Diga que não. Negue. Por favor, negue!
— Sim. — Antes que eu me acovarde, meu cérebro ignora os pedidos suplicantes do meu subconsciente e, em modo automático, segue oferecendo afirmativas para as demais perguntas.
— Agora, repita o que eu disser — o celebrante prossegue. — Eu, Ravel Rocha...
Não repita. Não diga nada. Ainda dá tempo de desistir! Desista! Por favor, desista!
— Eu, Ravel Rocha — acato o comando, evitando que a vontade de sucumbir prevaleça —, te recebo, Candara Fontoura Fontes — continuo repetindo e vou morrendo por dentro, um pouco mais a cada sílaba que sai da minha boca —, como minha esposa e te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe. — Olho para ela e me pergunto se consegue perceber que se casou com um homem morto.
Candara não percebe. Exala euforia e emoção quando deslizo a aliança em seu anelar.
Não sei se está se fazendo de besta ou se realmente está feliz demais para notar a minha tristeza. Presumo que seja a segunda opção, porque a conheço o bastante para saber que jamais aceitaria se casar comigo sabendo que sou apaixonado por Verdana.
O único filho da puta aqui sou eu. Filho da puta e, talvez, um bom ator.
Sim, provavelmente sou, porque, ciente de que todo esse show de horrores está sendo filmado, faço um arremedo de sorriso, tentando aparentar uma felicidade que nunca vou sentir.
Então, ouço os votos dela, e um aro dourado é colocado em meu dedo. É tão pesado e... estranho. Parece que acabei de receber o anel de Sauron. Só que, em vez de considerá-lo precioso, a exemplo de Gollum, quero tirá-lo e destruí-lo no instante em que o vejo em minha mão.
Candara ficaria desolada se soubesse que acabei de pensar isso. Primeiro, porque ela odeia "O Senhor dos Anéis". Segundo, por motivos óbvios.
Verdana ama os livros de Tolkien e...
— Eu vos declaro casados.
O quê?
Arregalo os olhos.
Eu já me casei?
— Pode beijar a noiva.
Beijar a noiva?
Cacete! Eu me esqueci completamente de que, em um casamento, o noivo precisa beijar a noiva!
Não posso beijar Candara.
Não que eu nunca tenha beijado Candara.
É só que... não quero fazer isso aqui, na frente de Verdana.
Não que ela não saiba que já beijei sua irmã.
É só que...
Merda.
Merda.
Merda!
Um silêncio absoluto paira sobre a igreja. Todos os convidados estão aguardando o maldito beijo e Candara está olhando para mim, visivelmente ansiosa.
Percebo que minha hesitação está começando a ser notada quando seu sorriso vacila. É uma mudança sutil, nas comissuras de sua boca. Mas isso basta para que eu dê um passo e faça o que preciso fazer.
Abrigo a palma em sua nuca e permito que meus lábios toquem os dela por alguns segundos. No instante em que ergo a cabeça, a minha ficha cai.
Estou casado. Estou mesmo casado.
Não, não estou. Ainda preciso assinar a ata.
E se eu der um jeito de deslocar meu pulso direito? Será que consigo quebrar meu polegar antes de alcançar a mesa?
Chego até lá com todos os ossos do corpo intactos. Pego a caneta e escrevo o meu nome na linha indicada.
Agora sim. Estou oficialmente casado.
Mas, e se eu der uma de louco e rasgar o papel?
Não destruo a folha. Não destruo o anel. Destruo a minha vida.
Poso para todas as fotos que são feitas logo em seguida, sorrindo da melhor maneira que consigo. Em nenhum momento busco os olhos de Verdana.
Eu sempre soube que não sou bom o suficiente para ela. Mas, depois do que acabei de fazer, sequer me sinto digno de olhar em sua direção.
Sei que ela me odeia. Agora, mais do que nunca. No entanto, por mais furiosa que seja a sua ira, jamais superará o ódio que sinto por mim mesmo.
Era exatamente isso o que eu queria. O plano era fazê-la me odiar com todas as forças. Consegui. Consegui salvá-la. Eu deveria me sentir aliviado por isso. E estou. Mas a minha dor por perdê-la para sempre é maior que tudo.
Saio da igreja como se tivesse acabado de presenciar o meu próprio funeral. As pessoas jogam arroz sobre mim, e só o que eu queria era que jogassem terra e me sepultassem, porque realmente me sinto morto.
Em vez disso, elas me cumprimentam. Sorrisos, abraços.
Faço o possível para parecer um noivo normal. Sorrio, abraço.
É o que estou fazendo quando a voz dela ressoa ao meu lado, provocando um atropelo tresloucado nas batidas do meu coração.
— Parabéns, Candara! Que você seja muito, muito feliz! — A entonação animada não oculta a nota de tristeza que capto em seu tom.
— Muito obrigada, irmãzinha! — As palavras de Candara são acordes de alegria.
As duas se separam, e Verdana se aproxima de mim. Olho para ela e me dou conta de que estou diante da minha cunhada. E é neste exato momento que noto que nada mudou e que nunca vai mudar. Eu a amo e vou amar para sempre.
— Parabéns. — Estende a palma, sem desviar o olhar do meu.
Em suas íris pesarosas vejo o reflexo do meu próprio desconsolo.
Minha mão encontra a dela, e o toque macio e quente de sua pele afaga minha alma.
Quero tomá-la em meus braços e inspirar seu perfume; colar nossos corpos e unir nossas bocas. Mas não posso. Não posso. Nunca mais.
— Obrigado... — É a única coisa que tenho tempo de falar, antes que ela puxe os dedos e comece a se afastar.
Roman diz algo e seu pai retruca, mas não escuto nenhum dos dois. Estou olhando para os degraus que levam Verdana para longe.
Tento segui-la com o olhar, mas ela caminha depressa e logo sai do meu campo de visão.
Racionalmente, sei que ainda vou vê-la muitas vezes. Mas a sensação que me acomete é a de que ela se foi para nunca mais voltar.
— Ravel... você está... chorando? — Ouço a voz de Candara e imediatamente seco as lágrimas que escorrem pelas minhas bochechas.
— É de alegria. — Tento conjurar um sorriso.
— Não é o que parece. Já se arrependeu, Rocha? — Roman deixa uma risada escapar. — Eu falei que você estava se metendo numa roubada, cara! Eu te avisei! Você só não é mais doido que Donato, que inventou de virar padre! Padre! Dá pra acreditar? — E gargalha.
— Roman, isso aqui é uma igreja, meu filho. Para de palhaçada. E desce logo, tá empacando a fila. — Armando o puxa pela manga do paletó.
— Já vou. Aliás, eu tô doido pra ir pra festa, pra fazer a festa, se é que você me entende, pai! — Ele sorri e sai andando.
— Cuidado, moleque! Eu tô novo demais para ser avô! — Armando brinca.
— Pois vá se preparando, papai! — Candara avisa, e eu fico lívido.
Ainda estou pensando nisso quando nós dois entramos na limousine que nos levará à festa.
— Você está muito estranho — ela comenta, pegando a minha mão. — Estou achando que Roman tem razão. Você se arrependeu de ter se casado comigo. — Há diversão em seu timbre, mas, quando olho para ela, vejo um quê de preocupação em seus olhos castanho-escuros.
— Não diga besteiras. — Tento desanuviar minha expressão com um leve repuxar de lábios.
Candara se inclina em minha direção, e eu percebo que pretende me beijar. Movo o corpo primeiro, puxo sua nuca para desviar sua cabeça e deixo um beijo em sua testa.
— Ravel... — Ela fica séria ao me fitar. — Eu sempre achei bonitinho esse seu jeito respeitoso e, apesar de não ser a pessoa mais religiosa do mundo, sempre respeitei essa sua vontade de se casar virgem, por causa da criação que você teve e tal, mas... ainda bem que já nos casamos, porque eu não aguento mais! Finalmente vamos transar! Nem acredito que esse dia chegou! Tô tão ansiosa para a nossa noite de núpcias, e você?
Assinto, enquanto um pânico crescente toma conta do meu corpo.
— Você não parece muito empolgado. — Sua boca se retorce um pouco.
— É claro que estou — minto.
— Sua mão tá gelada. Isso tudo é nervosismo? — Ela dá uma risadinha.
— Sim. — Uso a desculpa em meu favor, apesar de ter perdido a virgindade há um bom tempo.
— Você é fofo demais! — Ela dá um beijo em minha bochecha. — Relaxa, vai dar tudo certo. Já te contei que não sou virgem, né?
— Já — confirmo e, por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Mirando a divisória fechada, que nos separa do motorista, deixo minha mente viajar.
O que será que Verdana está pensando neste instante? Como está se sentindo? O quanto ela me odeia?
— Por que você nunca me pergunta com quem eu perdi a virgindade? — Candara solta a minha palma, aparentando certa frustração. — Ou... sei lá, com quantos caras eu já transei? Quantos paus eu já chupei? Se eu já dei o cu? Parece que você não se importa com essas coisas! Só eu pergunto, e você nunca responde! Até hoje não sei se alguém já chupou o seu pau ou qual foi a primeira menina que você beijou, por exemplo!
— Que diferença isso faz, Candara? — Coço a nuca, incomodado.
— Só responde. — Ela ignora a minha pergunta.
— Eu já disse um milhão de vezes que não lembro! Foi em uma daquelas festas de Roman. — Dou-lhe a resposta de sempre, porque foi a que eu dei um tempo atrás, no ápice da minha burrice.
Deveria ter inventado um nome qualquer. Mas fui pego desprevenido e não pensei direito. Falei a primeira coisa que me veio à cabeça e, agora, estou preso a essa resposta estúpida.
— É um momento importante! Não tem como esquecer uma coisa dessas, Ravel! — Ela oferece o argumento usual.
Foi realmente importante. E inesquecível. Ah, Candara, foi tão inesquecível quanto a minha primeira vez. E todas as outras.
— Não é tão importante assim para a maioria dos homens. E, além disso, eu estava... bêbado — resolvo acrescentar.
— Você não bebe — ela observa, desconfiada.
— Geralmente, não. Mas, naquele dia, eu bebi — improviso. — E... quero beber hoje. Vamos só... curtir a noite, tá bom? Sem estragar o momento com essas conversas que não servem para nada. O que acha de abrirmos o champanhe para comemorar? — proponho, relanceando a garrafa e as taças cercadas por pétalas de rosas.
— Boa ideia. — Ela solta um suspiro e, meio a contragosto, abandona o assunto.
Então, eu me preparo para abrir o espumante.
Não tenho experiência alguma com bebidas. Nunca coloquei uma gota de álcool na boca, mas já vi Roman abrindo tantas garrafas de cerveja, de uísque, de vinho e de qualquer outra coisa que conheço a teoria suficientemente para colocá-la em prática.
Assim que inicio a tarefa, percebo que é muito mais complicada do que eu supus. Não sei como aquele arrombado consegue abrir essa merda com tanta facilidade. É difícil pra cacete.
Estou tentando arduamente quando o barulho característico da rolha se libertando do vidro ecoa no interior do automóvel espaçoso. O líquido jorra do bocal com uma impetuosidade inesperada, e um grito agudo fere os meus tímpanos.
Candara leva as mãos ao rosto e, imediatamente, giro o gargalo para o outro lado, mas, quando o espumante para de sair, é tarde demais.
— Ai, meu Deus... Meu vestido... E a minha maquiagem! — Sua expressão chorosa me faz acreditar que os anjos acabaram de tocar as trombetas que anunciam o Apocalipse. — E agora? Como eu vou pra festa assim, Ravel? Como?
De repente, um alívio imensurável me atinge. Ela não vai, o que significa que eu vou sozinho. Posso passar a madrugada toda lá e evitar a noite de núpcias. Amanhã é outro dia. Depois eu penso em outras saídas e soluções.
— Desculpa, foi sem querer — peço, tentando não parecer tão aliviado.
Ela deixa um choramingo escapar e experimenta passar as mãos no tecido cravejado de pedras.
— Acho que não molhou tanto assim — conclui, ao inspecionar o estrago. — É... nem dá para perceber direito. — Ergue a cabeça e me encara. — Estou parecendo um panda?
— Um panda? — indago, sem entender.
— Está preto debaixo dos meus olhos? — Candara indica a região das olheiras.
— Não. Está... normal — respondo, hesitante.
— Ah, que bom! A maquiagem é à prova d'água. Está tudo certo, então. — Uma curva suave se forma em seus lábios.
— Então você vai à festa? — questiono, sentindo que minhas esperanças estão prestes a se esvaírem.
— É claro! — Ela ri, como se tivesse acabado de escutar a pergunta mais estapafúrdia do mundo. — Mas vou precisar do seu lenço para me secar. — E o puxa do bolso frontal do meu smoking.
Frustrado, pego uma taça, encho até a borda e decido beber de uma vez só.
É estranho. Não acho gostoso, mas gosto das bolhas. Elas tocam o céu da minha boca, me dizendo que vai ficar tudo bem. Só o que eu preciso fazer é tomar mais bolhas. Muitas, muitas bolhas.
É exatamente o que faço e o que continuo fazendo assim que chegamos ao luxuoso salão. Pego uma taça da bandeja do primeiro garçom que passa por mim, enquanto Candara vai direto para o banheiro, em busca de um espelho.
Começo a procurar por Verdana, mas o local é tão amplo e há tantos convidados que não consigo avistá-la em meio às pessoas que perambulam entre as mesas repletas de talheres de prata, louças caras e flores exóticas. Saias farfalham para todos os lados, e vozes se misturam ao som da música que reverbera pelo grandioso saguão.
Decido procurar por Roman, porque presumo que Verdana tenha vindo com ele. Enquanto tento encontrá-lo, paro alguns garçons e sou parado por inúmeras pessoas que deixaram para fazer seus cumprimentos durante a recepção. Muitas delas eu sequer conheço, porque são empresários ricos, que fazem parte do círculo social de Armando Fontes.
Quando finalmente avisto Roman, o desgraçado está em um canto, próximo à pista de dança, com a língua dentro da boca de uma das madrinhas e as duas mãos cravadas na bunda dela.
Em outras circunstâncias, eu deixaria pra lá. Mas realmente preciso ver a irmã dele, para ter certeza de que ela não se foi para sempre.
— Roman! — berro, ao me aproximar.
Ele dá um pulo brusco para trás e, ao me ver, fecha a cara.
— Mas que caralho, Ravel! — Seus olhos escuros me fuzilam.
— Que susto! — Ao mesmo tempo, a garota leva a mão ao peito.
— Verdana... cadê ela? — pergunto, percebendo que a minha voz está um pouco diferente.
— Verdana? Eu sei lá, porra! Vê se tá aqui! — E me mostra os dedos médios.
— Ela não veio com você? — Ignoro o gesto obsceno.
— Não. Deve ter vindo com meu pai. Vem, gostosa, vamos achar um lugar mais reservado pra gente. — Ele pega a mão da menina, e os dois começam a se afastar.
Vasculho o salão inteiro à procura do pai de Verdana, mas não o encontro em lugar nenhum. Tudo o que consigo são mais cumprimentos e mais algumas taças de champanhe.
Decido ir para a área externa e encontro Armando no jardim, aos beijos com a nova namorada. Tal pai, tal filho.
A situação se repete. Ele diz que Verdana veio com Roman.
Então, eu compreendo. Ela não veio. Já me odeia além da conta e realmente se foi para nunca mais voltar.
Acabou. A minha vida, a nossa vida. Tudo.
Enfim a realidade despenca sobre os meus ombros e desaba com o peso de uma mortalha de chumbo.
Trôpego, caminho um pouco, até desmoronar na entrada do salão. Caio sentado no degrau. Afundo a cabeça entre os joelhos e, então, os soluços chacoalham meu corpo. As mãos afundam no meu cabelo, e as lágrimas tombam no chão.
Estou chorando ruidosamente quando um súbito e leve toque nas costas me sobressalta. Meu coração para. É ela.
Eu me viro no mesmo segundo e vejo que não é Verdana.
— Tá tudo bem? — É uma mulher uniformizada, que suponho que faça parte do pessoal da agência que produziu a festa.
Fico de pé e saio andando às pressas, sem dizer nada.
Enquanto seco os olhos, esbarro em um garçom, que quase derruba os copos de sua bandeja. Aproveito para abandonar minhas amáveis bolhas transparentes, trocando-as por um líquido âmbar. Presumo que seja uísque.
Tomo um gole, e a bebida desce lacerando minha garganta. É ruim e dói pra cacete, mas também entorpece. Não gosto do gosto, mas gosto tanto da sensação que repito a dose. Tomo outras em seguida. Noto que o álcool nubla um pouco os meus sentidos e que, lentamente, vai diluindo a minha tristeza. Bebo mais. E mais e mais. E de novo, de novo e de novo.
Que engraçado... Estou com vontade de rir. Acho que isso é obra de feitiçaria. É muito, muito, muito bom.
— Onde você se enfiou? Estou há séculos te procurando! Está quase na hora da nossa primeira dança! — Em algum lugar distante, reconheço a voz de Candara. — Ravel? — Ela parece estar mais perto agora. Que estranho... Eu não sabia que Candara tem uma irmã gêmea... Espera. São... trigêmeas? — Você está bêbado?
— Não. — Balanço a cabeça enfaticamente, sem conseguir conter os lábios frouxos. — Estou feliz... Estou tão feliz, Candara... Eu tomei a felix felicis...
— Tomou o quê? — Ela acha graça.
— A felix feli... — Paro de falar. — Não, não... Você não entende. Cadê Verdana? Ela entende. Ela me entende.
— Ah, isso é de uma daquelas coisas que vocês curtem, né? É o filme do anel? — ela indaga, segurando o meu braço.
— O anel... — Ergo a palma esquerda, os olhos esbugalhados contemplando o aro de ouro. — Eu preciso destruir o anel... — Tiro a aliança do dedo.
— Esse não é aquele anel, amor. — Ela ri, pegando a argola da minha mão.
— Você é uma hobbit. Verdana é uma elfa. Eu também sou um elfo. — Começo a rir sem parar.
— Ser uma hobbit é uma coisa boa, né? — questiona, receosa.
— É claro. — Fico subitamente sério. — Os hobbits são os personagens principais da história.
— Então você também tem que ser um hobbit! — Ela se empolga.
— Eu sou alto... Que nem Verdana. — Penso nela, na minha linda elfinha.
— É por isso que vocês dois são elfos? — Candara investiga.
— Sim. — Tenho uma crise de riso.
— Você fica engraçado bêbado. — Ela também ri. — Mas tô um pouco preocupada. Será que vai conseguir dançar?
— Eu... — Paro de falar quando algo esquisito ondula em meu estômago, serpenteia minhas entranhas e sobe abruptamente até a minha garganta.
Então, acontece. O jato escapa da minha boca e deságua em Candara. Nossa diferença de estatura faz com que o vômito amarelado atinja sua cabeça, sujando seu cabelo, escorrendo pelo rosto e pingando no vestido.
Ouço um grito e, depois, acontece um monte de coisas.
Dessa vez, ela fica realmente chateada comigo. A gente não dança. Candara não escuta as mulheres da agência, sobre a possibilidade de tomar banho e se arrumar de novo. Decide ir embora. Ela chora no carro e continua chorando na suíte. Peço desculpas, mas estou sorrindo. Não consigo parar de rir. Parece que tenho a mesma coisa que o Coringa.
Ela fica furiosa. Marcha até o banheiro. Ouço o barulho do chuveiro e me deito na cama.
Olho para o teto do meu novo quarto. Ele gira e gira... Toda a minha nova casa gira.
Fecho os olhos por um instante, e isso basta para que eu caia em um sono profundo.
Então, a pior noite da minha vida se transforma em uma noite mágica; sonho com a Terra Média, onde Verdana e eu somos elfos imortais que vivem felizes para sempre.
♡•♡
E agora, quais são os sentimentos de vocês em relação a Ravel?
Querem tacar fogo nele? Hahahahaha!
Ou colocar no colo e dar muito amor?
E o que acharam de Candara?
Por favor, não deixem de me dizer o que estão achando da história, tá bom?
★ Quem gostou do capitulinho, clica na estrelinha! ★
A gente se lê em breve!
♡ m i l b e i j o s ♡
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