Somos racistas.
Acordei em cima da hora, tomei um banho rápido, vesti uma camisa qualquer e fiz um coque em meus cabelos. Tomei meu café no caminho para a empresa.
Tudo por que Maluca depois de pronta para partir, pulou na cama e me presenteou com o melhor dos boquetes. Fato que me fez perder o sono e só voltar a dormir bem mais tarde. Ela bebeu tudinho e ainda saiu rindo e rebolando, falando que era o seu café da manhã. A lembrança de tal cena me deixa duro novamente.
-Se eu não abrir meus olhos essa Maluca vai foder com a minha mente, isso sim.
Quando entrei na sala de reunião, todos já estavam a minha espera.
Nos olhos do meu pai uma desaprovação foi facilmente notada, tanto por meu atraso e também por minha vestimenta.
-Bom dia! Me perdoem por meu atraso. Senhor Cláudio podemos começar.
-Estava explicando ao seu pai o por quê de eu querer abrir aqui meu frigorífico.
-Permita-me. O senhor entrou recentemente no ramo de exportação, correto?
A reunião durou até a hora do almoço, e acabamos indo almoçar com meu pai em um restaurante aqui mesmo na Lagoa.
O papo estava tranquilo até que meu pai resolveu destratar o garçom, chamou o homem de burro, somente parque o pobre rapaz trocou os copos do pedido na hora de nos servir.
-Por favor pai, fique calmo. -Pedi baixo, olhando para ele.
- O que foi? Agora resolveu defender essa gente? -Falou em um tom mais alto.
Me calei, para evitar que ele continuasse seu discurso ridículo. Thiago e Thomas, me olharam em um apoio velado. Isso porque me conheciam bem e naquele momento para mim, o almoço estava encerrado.
Sou extremamente ignorante, entretanto minha educação nunca me permitiu fazer escândalos em lugares públicos.
Minha mãe sempre nos ensinou que lugar de lavar roupa suja é em casa, e se for com um estranho, faça isso sem elevar a voz.
-Seu poder tem que vir do olhar e da firmeza, nunca dos gritos. -ela dizia.
Aprendi com ela que gritar é sinal de fragilidade. Um homem forte cala os outros com o olhar.
Me levantei da mesa, pedi licença. Porém, antes de eu sair do lugar meu pai ordenou com ferocidade.
-Sente-se, seu moleque atrevido.
Ignorei seu comando e me retirei. Sendo seguido por meus fiéis irmãos.
Me doeu deixá-lo sozinho, mas era isso ou abrir mão da educação que minha mãe me deu.
Percebendo o quanto eu estava aborrecido, Thomas nos chamou para um barzinho no Leblon.
Chegamos ao bar.
-Cara eu queria ter a metade do seu controle. -Falou Thiago ao se sentar.
-Não é controle irmão, é educação.
-Papai sempre foi um racista. -Explica Thomas olhando para o mar.
-Não concordo, hoje temos negros na empresa...
-Somente depois que você explicou para ele que isso deixaria os futuros sócios negros mais à vontade e ele só aceitou por achar que seria politicamente correto. -Me interrompe explicando Thiago.
-Era isso ou perderíamos algumas negociações.
Thomas me olha por um tempo e depois de fazer seu pedido, fala diretamente para mim.
-Você sempre foi um filho exemplar, entretanto tem muito do papai em você, o racismo velado e um desses pontos em comum.
Pensei sobre o que ele me dizia. E sim, ele tinha razão. no final do meu raciocínio declarei.
-Fala sério Thomas! Todos nós somos, a prova disso foi aquela bendita brincadeira para o baile.
-Nem vem, eu não sou. Tenho até um amigo negro. -justifica ele.
-Ter um amigo negro não quer dizer nada. A prova disso foi ser um desafio para nós dormirmos com mulheres negras, algo que sempre evitamos. -olho para os dois -Agora pergunto a vocês, por quê evitamos?
-Eu, por que um amigo falou que uma negra deu boa noite cinderela para ele e o roubou. -Justifica Thomas.
-Sim, e uma loira tentou o mesmo com Thiago. Você por um acaso deixou de sair com elas? Pelo seu jeito na segunda pós baile, percebi que adorou o fim de semana, agora eu te pergunto. Vai ficar com ela três meses do mesmo jeito que fez com as outras? Vai levá-la ao clube? Vai sentar com ela em um restaurante badalado e se deixar ser fotografado? O mesmo serve para você Thiago e também pra mim.
Eles não falam nada e assim como eu, estão avaliando minhas palavras.
Racismo nunca foi pauta de nossas conversas, o mal hábito entrou em nossas vidas e firmou residência.
-Foi um negro que matou nossa mãe. -Fala em tom baixo Thiago.
-Eu sei e isso só nos fez achar desculpas para nossos comportamentos racistas. Antes disso já éramos e com certeza se mamãe fosse viva teria vergonha de nós.
Esse pensamento nos trouxe tristeza.
Sabíamos que era verdade, como também tínhamos consciência dê quê, não era algo tão fácil de ser mudado.
Ter uma negra em minha cama também não mudava em nada esse fato.
Sei que neste momento cada um de nós avaliava se era racista ou não, o que foi visto por mim em seus olhos com certeza era reflexo dos meus.
Ninguém queria aborrecer papai com uma causa que não era nossa.
Quantas vezes assisti meu pai limpar as mãos após um aperto de mão a um negro, quantas vezes eu o vi destratar um negro subalterno. Nunca os destratei diretamente, salvo pelo episódio da praia há muitos anos. E mesmo assim, foi para fazer graça com os amigos que me cercavam. Fato que hoje não justifica nada.
Quantas piadas fora ditas entre amigos, quanto olhar desconfiado foi lançado?
A morte de nossa mãe foi somente mais uma desculpa para mantê-los distante. Porque se o assassino fosse Branco, isso não teria nos tornado desconfiados de todos eles. E! Porém, foi um negro.
É realmente complicado.
Bebemos e comemos em silêncio, cada qual com seu pensamentos e perguntas difíceis de responder.
Depois de nós despedirmos com um abraço apertado, tentando aliviar a dor do outro. Rodei um pouco de carro e depois fui ver o belíssimo por sol nas pedras do Arpoador.
Olhei para o lado e ali não havia essa separação gritante de raça. A galera das bikes estavam misturadas e sorrindo, um homem negro beijava apaixonado uma mulher branca.
Mais adiante, uma negra descansava a cabeça no colo de um branco.
Em qual momento de minha vida isso pareceu ser tão errado? Por quê motivo deixei esse sentimento entrar?
Minha mãe tantas vezes me ensinou a respeitar a todos independente de sua origem ou cor.
Quando e por que passei a desacreditar tanto no amor?
A noite chegou e eu só queria poder me jogar nos braços de Rebeca e esquecer tantas perguntas que eu não tinha capacidade de responder.
Fiz um suco, liguei o som e abri meu not para trabalhar mais um pouco. Dei uma olhada no mercado de ações é o sono já estava bem presente.
Ainda faltava quase uma hora para meia-noite. Horário que a Maluca falou que passaria e se eu quisesse vê-la era só destravar o portão.
Faltando menos de vinte minutos para meia-noite, me sentei na varanda com as luzes apagadas. Curioso para saber dê que direção ela viria.
Faltando um minuto para o horário combinado, um Porsche branco parou em frente ao meu prédio.
Um homem alto e branco, desceu e depois abriu a porta do carona, senti um enorme incômodo quando ela saiu e o abraçou, deixando em seu rosto um beijo carinhoso demais.
Ele voltou ao carro e continuou parado lá, enquanto meu interfone tocava.
Na certa esperando para saber se eu a receberia. Minha vontade era não abrir o portão, mais quando a vi voltando para o carro. Corri até o interfone e sem palavra alguma liberei sua entrada. Voltando rapidamente à varanda, vi o sujeito partir bem devagar.
Quem era esse homem? Será mais um cedendo aos poderes de sedução dela? -Me questionei enquanto abria porta. Resolvi também, que essa seria nossa última noite juntos.
Para mim, já bastava de tantas dúvidas, isso já estava indo longe demais.
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