Eu preciso


Ela me perdoou e eu também estou conseguindo me perdoar.

A semana passou tranquila, mesmo eu notando que muita das vezes o olhares dela desviavam dos meus. Por esse motivo resolvi não pressionar, porém nunca me esqueço que nosso tempo está passando.

A ida a academia foi adiada e acabamos malhando juntos em casa mesmo. Acho que é um modo silencioso de passarmos todos os segundos disponíveis juntos.

Nunca em momento algum, imaginei que eu poderia sentir algo assim, sei que esse sentimento não é somente por ter um prazo. No momento que acordei após o baile eu já sabia que tinha sido diferente, era como se estivesse escrito no livro da minha vida, que eu me apaixonaria por uma bela e sorridente negra. Minha mãe certamente estaria feliz em me ver assim tão apaixonado. Já meu pai! Prefiro nem pensar. Passei tanto tempo me tornando o filho perfeito que por pouco não acabei ficando igual a ele, o mais difícil é que eu sempre o admirei e seus atos antes me passavam despercebidos e até mesmo, normais.

Parece impossível que eu em tão pouco tempo mudei meu modo de ver a vida. Com apenas um beijo descobri que a nossa diferença de etnia não impedia nada, ao contrário, nossa mistura é perfeita e o tom dela parece completar o que falta no meu. Chega a ser difícil de acreditar que eu um dia fui tão babaca.

Todo dia sinto um misto de plena felicidade e tristeza. Tristeza quando estou longe dela e felicidade quanto estou com ela. Ao seu lado esqueço  tudo, sei que não vou deixá-la ir sem me explicar direitinho seus motivos e juntos vamos achar uma solução, para seja qual for o problema.

...

Hoje é sexta, terá um coquetel em comemoração a um recente empreendimento.
Será em um hotel de luxo em São Conrado e meu pai resolveu se fazer presente.
Por esse motivo não convidei Becca e até achei estranho o modo como ela se comportou quando eu dei a desculpa de que seria chato e que logo eu retornaria. Ela me pareceu estar aliviada.

Não deixei de convidá-la por vergonha ou algo assim, ao contrário! Eu desfilaria orgulhoso com ela ao meu lado, porém a presença de meu pai transformaria esse evento em guerra e este não é o melhor lugar para isso.
Depois que ela resolver ficar, se preciso for, eu me afastarei feliz da empresa. Qualquer coisa é pouco em comparado a tê-la.

Assim como eu, meus irmãos foram sozinhos.

Uma hora após o começo do coquetel, Ricardo o convidado especial da noite e possível sócio, chegou acompanhado de esposa e de um bonito casal, um homem alto loiro e uma linda jovem senhora negra, que eu reconheci imediatamente das revistas.

Sorri com a chegada deles, pois ali  parecia ver Becca e eu no futuro.

Ricardo se aproximou e me apresentou a esposa Clara e o casal.

-Thales estes são Igor Batista e Luísa Werner, Igor é meu sócio em outros hotéis. -Falou Ricardo, todo orgulhoso.

-É uma honra conhecer o senhor. -Falei recebendo um aperto de mão firme.

-Igualmente. -Falou ele sério.

-Senhora é um prazer conhecê-la. -Falei apenas segurando sua mão, já que o marido me observava atentamente.

-Prazer Thales. -Respondeu com um sorriso que não me era estranho, na certa por eu tê-lo visto muitas vezes em revistas.

Igor Baptista, aparenta ter no máximo cinquenta e cinco anos, um nome de peso na economia do Rio, um empresário com mãos de ferro e com uma grande porcentagem de ações no ramo de hotelaria e turismo. Também um implacável advogado que tem a melhor e mais caro escritório de advocacia do Rio de Janeiro. Já tentei contratar seus serviços uma vez para uma possível parceria, porém não tive retorno. A mulher ao seu lado é Luísa Werner que não aparenta ter nem quarenta anos, é uma modelo mundialmente conhecida, até hoje ela desfila. Tenho a sensação de conhecê-la e não é das revistas.

Os conduzi até a mesa que estava meu pai com meus irmãos, antes de lá chegar, a senhora Luísa se afastou levando Clara e dizendo que tinha visto uma conhecida. Segui com Igor e Ricardo, somente para ficar constrangido quando meu pai fez cara de repulsa e estendeu a mão com num sorrisinho debochado para Igor, este simplesmente o ignorou cumprimentando meus irmãos e se retirando em seguida, juntamente com Ricardo.

-Pai o que foi isso? -Perguntei realmente indignado.

-Pergunte para ele e não para mim, esse povo acha que tenho que bater palmas por suas escolhas ridículas.

-Não entendi.

-Esse babaca não gostou quando eu disse na cara dele, que mulheres como ela só querem nosso dinheiro, eu odeio ver essa mistura que querem impor na nossa sociedade.

Tentei engolir isso, porém foi impossível.

-Custo a acreditar que minha mãe foi feliz ao seu lado, como ela conseguiu conviver com um racista doente como você?

-Falou o homem que vive cercado de neguinhos, se enxerga Thales, você é somente uma versão mais civilizada de mim, e bem sabe que essas negras vivem atrás de alguém para bancá-las. -Respondeu ele, fazendo Thiago abaixar o olhar.

-Até acho que eu era assim, afinal você sempre tentou por isso em nossas cabeças, no entanto agradeço por ter acordado antes de me transformar em alguém tão insuportável como você.

Seu rosto ficou vermelho e eu já estava preparado para o escândalo. Antes dele explodir, meus irmãos discretamente o tiraram dali.

Na sacada respirei fundo e mais uma vez tentei entender como havia me tornado tão preconceituoso no passado, como minha mãe deixou que este homem fosse tão presente em nossa criação?

Eu preciso sair daqui e voltar para os braços de Becca, somente com ela posso ter a certeza que jamais serei como meu pai.

Estava decido a partir quando Igor se aproximou.

-Está tudo bem rapaz?

-Sim, me desculpe.

-Pelo o quê?

-Pelas babaquices que meu pai já deve ter lhe falado.

-Então ele te contou que já tivemos problemas.

-Sim, foi por isso que não aceitou minha tentativa de parceria no passado?

-Foi sim. -Se limitou a dizer.

-Eu não sou um racista como ele. -Esclareci.

-É bom saber, se precisar novamente e for para você e não para a empresa, me procure. -Falou se afastando e indo de encontro a esposa que nos observava atentamente de longe.

Por mim o coquetel já poderia ter chegado ao fim, eu queria mesmo era estar nos braços de Becca.

Admirei de longe a postura de Luísa, que simplesmente agia como se meu pai não estivesse presente. Espero que Becca consiga ser assim no futuro, se por algum motivo eles frequentarem o mesmo local, ela possa ignorá-lo totalmente.

Finalmente eu já podia me retirar, já que Cláudio acabou de partir. Entretanto, na saída meu pai me abordou.

-Se resolver defender essa gente, esqueça que tem pai e arrume outro emprego.

-Pode deixar que na segunda mesmo começo a procurar.

-Segunda tem reunião com aquele grupo do Maranhão.

-Faça você a reunião. -falei me retirando.

Cheguei em casa quase dez horas da noite, a encontrei deitada na cama lendo um livro. Ela me olhou diferente, perecia querer saber se tudo foi bem.

Em silêncio me aproximei, ela saltou da cama e me abraçou. Uma certeza de que tudo ficaria bem me dominou.
Ao lado dela não senti receio do futuro incerto que se instaurou em minha vida, ganhei forças em seus sorrisos e se é assim que meu pai escolheu, que assim seja.

Ela me perguntou o que me afligia e por vergonha do comportamento de meu pai, não contei.

Na segunda eu ainda estava dormindo quando ela saiu, justo hoje que eu queria levá-la até o serviço.
Na cama um bilhetinho carinhoso de bom dia.

Às três da tarde meu celular tocava sem parar, eu somente o desligava sem atender, já sabendo que era meu pai quem insistia.
Não satisfeito ligou para o residencial e para não fazer Ruth mentir, atendi sem paciência alguma.

-Fala.

-Filho, você está bem? -Perguntou o dissimulado do meu pai.

-Estou ótimo.

-Fiquei preocupado, pois não veio trabalhar.

-Que piada! Esqueceu que o senhor me demitiu?

-Não foi bem assim, eu estava chateado, você sabe que é dê suma importância sua presença aqui na empresa.

-Ninguém é insubstituível.

-É sim, me desculpe filho, por favor venha para a reunião, estou perdido em meio às suas anotações.

-Eu vou, porém irei por meus irmãos. Chego em meia hora.

Joguei uma água no corpo e fui.

Na volta encontrei Becca, que mesmo tentando disfarçar parecia aborrecida.
Ela disse que tinha se aborrecido no trabalho.

Me amou com loucura e exigiu tudo de mim.

...

Entramos em nossa possível última semana, e está começou com ela menstruada, mais um motivo que me deixou triste, pois eu realmente mesmo sem perguntar ou falar nada, tinha a esperança de ter um bebezinho nosso em seu ventre.

Por essa semana me mantive mais perto dela, saía cedo para a empresa. Entretanto, à noite eu quase não dormia, somente para ficar mais tempo com ela em meus braços.

Na sexta-feira pela manhã, nos amamos intensamente, hoje seria nossa suposta última noite.
Antes de eu sair atrasado para trabalhar, notando o nervosismo dela, falei dando num beijo em seus lábios deliciosamente carnudos:

-Não fique assim, tudo vai se resolver.

-Acho que você não vai me entender, porém à noite conversaremos.

Saí ansioso e também feliz, por ter partido dela a iniciativa de me contar qual era o problema. Independente do que fosse, eu à convenceria a ficar.

Hoje nada me impediria de dizer a ela o quanto a amo.

                             🌸🌸🌸

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💋Beijos da Aline💋💋.

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