Devolva meu gato!

Estou desesperado! Meu gato simplesmente deu chá de sumiço faz duas semanas. Procurei por todos os lados, gritei por ele aqui no telhado, coloquei um potinho de ração na entrada de casa e espalhei cartazes pelo bairro inteiro perguntando se alguém o viu, mas as pessoas são idiotas e estão vindo até mim somente para perguntar quem é o garoto bonito que está segurando-o na foto.

Meu gato, assim como eu, é muito caseiro. Passa o dia dormindo na cama e só sai para fazer as necessidades na caixa de areia, não gosta de sair na rua; uma vez esqueci a porta aberta quando fui comprar pão e quando voltei o bichinho estava esperando por mim com a maior cara de perdido na calçada. Não acho que alguém o sequestrou, pois a essa altura, a pessoa estaria toda desfigurada com os arranhões. Tento ser positivo, mas só consigo pensar no pior.

Faz alguns meses que terminei o meu relacionamento, namorávamos desde o segundo ano do ensino médio e decidimos morar juntos quando entramos na faculdade, mas não foi uma boa ideia. Tínhamos pequenas manias que irritavam um ao outro, e isso sempre acabava em brigas feias por coisas bobas. Meu ex falava que eu dava mais atenção ao gato do que para ele, o que não passa de uma grande mentira visto que Hobak preferia o colo dele ao meu.

Dispusermos a dividir nossos bens; deu muito trabalho separar tudo porque passamos dias brigando sobre quem iria ficar com televisão e com o video game. O cara de pau ainda teve a coragem de roubar meus moletons, não deixei barato e peguei todos os ursinhos que dei de presente. Ele queria ficar com o meu gato, um absurdo! Óbvio que o Hobak escolheu ficar comigo – não foi bem uma escolha, apenas veio pra mim porque comprei a ração preferida dele – e assim, nos mudamos para uma casinha no subúrbio.

A vida aqui é tranquila, o aluguel não é muito caro e até tenho um quintal para chamar de meu. Diferente do nosso apartamento no centro, aqui não tem barulho a não ser dos passarinhos cantando. Todavia, sinto que tudo ficou extremamente fatigante desde que meu gato se foi. Isso acabou me trazendo lembranças e passei a reviver os queridos momentos que tinha com meu ex.

Era engraçado como ele constantemente tinha algo novo para fazer ao longo do dia, assim não parando quieto um minuto sequer. Perdi as contas das vezes que acordei com ele dançando na cozinha preparando o café, fazendo os trabalhos ouvindo músicas e bagunçando toda a varanda enquanto brincava com o Hobak. Ele dizia que a vida era muito curta para jantarmos todo dia em casa e me convencia a ir para o restaurante da esquina comer frango com batata frita. Ele parecia incansável e sua energia era contagiante, não importava onde quer que fosse, iria espalhar sua vibração naquele lugar fazendo todos sorrirem. Às vezes, sentia que era o único que podia trazer calmaria para aquele furacão chamado Choi Beomgyu.

Agora pensando nisso, me pergunto se Hobak cansou e apenas fugiu da monotonia que carrego comigo. Seria muito inconveniente ir até a casa do meu ex perguntar se meu gato está por lá? Talvez, mas perdi um pouco de juízo na mudança, visto que realmente estou indo até a casa dele. Não, isso não é uma desculpa porque senti saudades.

Assumo que estou nervoso, cortamos total contato pois exclui ele de todas as minhas redes sociais com a ideia que assim seria mais fácil esquecê-lo. Ele também fez de tudo para não esbarrar comigo na faculdade e até trocou de turno. Pensei em desistir e voltar pra casa, mas não iria conseguir dormir em paz.

[ BG ]

Quando eu ouvi aquele miado no meu pé, soube na hora que meu bebê havia voltado pra mim!

Era uma manhã de domingo sem nada pra fazer, decidi ir até a lojinha para comprar alguns produtos de limpeza, dado que o apartamento estava precisando de uma boa faxina para limpar toda a zona de poeira que criava por estar fechado na maior parte do tempo. Como meus amigos diziam, passava tanto tempo apossado em suas casas que havia esquecido que tenho um lar.

Na verdade, não posso chamar de lar desde que Taehyun foi embora. Estava vazio e não era só porque ele levou consigo a metade dos móveis, também tinha levado um pouco de mim. Era como se os raios de sol não entrassem mais pela janela, se bem que o loiro de olhos amarelo-alaranjado não fazia ideia que seu sorriso radiante esquentava meu coração toda vez que sorria.

Tudo ficou estranho, não tinha mais com quem tagarelar, rir ou brincar, o boboca até levou nosso gato com a desculpa que eu não iria ter dinheiro suficiente para comprar a ração que ele gostava morando no centro da cidade e pagando uma TV nova. É realmente um saco assumir que Taehyun sempre tem razão.

Como os supermercados estavam fechados, tive que procurar uma lojinha de conveniência em outro bairro para poder comprar, voltei depois de uma longa caminhada e só depois do almoço comecei a limpar. Terminei tarde da noite e quando fui jogar o lixo, notei um gatinho miando no meu pé, olho para baixo e quando menos espero, era o Hobak!

Estava tão emocionado que ele veio me visitar que chorei assim que o peguei nos braços. Kang Taehyun é totalmente irresponsável, meu bebê poderia ter morrido! Levei ele para dentro e assim que o coloquei no chão, começou a miar com saudades de mim. Larguei tudo e passei o resto da noite dando carinho e atenção; se o gato escolheu voltar, só mostra que o verdadeiro dono dele sou eu!

Passaram-se dias e acabei me sentindo triste ao pensar como Taehyun provavelmente estava desesperado procurando pelo gato – e também o fato que o aluguel iria vencer e nós dois iríamos parar na rua. Tentei entrar em contato com nosso amigo em comum para saber alguma informação, mas nada. Não achei que o idiota iria lembrar de mim, mas acabou que ele está batendo na minha porta e eu não sei como vou encará-lo depois de tanto tempo.

Decidi esconder o gato. Por quê? Porque sou um besta que quer passar um pouco de tempo com meu ex.

— Taehyun? — Perguntei ao abrir a porta depois de longos minutos. Assumo que meu coração foi até a boca quando vi seu rosto novamente. — O que faz por aqui? — Questionei como se não soubesse.

— Aconteceu uma coisa, meu gato sumiu — respondeu sendo curto, travei por uns segundos.

— Uh, sobre isso... — Ele me encarou de cima para baixo, como se estivesse verificando se eu havia mudado. Fiz o mesmo, Taehyun continuava baixinho, loiro e como um esquilo zangado. Fofo. — Entra.

Ao entrar no apartamento, presumi pelo seu olhar que estava se sentindo nostálgico ao sentir o aroma de jasmim e lavanda que espalhei pela sala, essências de flores são as minhas favoritas e ele dizia que eu cheirava a jardim – ele também brigava comigo porque era uma forma de esconder o fedor da bagunça, mas isso não vem ao caso. Levei-o até o sofá e pedi para ele sentar enquanto tirava um copo de miojo do chão, entregando que ainda não tinha largado aquela mania de deixar o prato onde como.

— Vejo que ainda continua o mesmo porco de sempre — Ele disse me olhando com desdém.

— E você o mesmo insuportável — respondi revirando os olhos — Veio aqui só pra me fazer raiva?

— Não, só quero saber do meu gato.

— Não estou disponível.

— Eu disse gato, não rato.

— Você não vai ficar me ofendendo dentro da minha própria casa não, Taehyun. — Arquei as sobrancelhas na defensiva.

— Beleza, posso te ofender lá fora — levantou do sofá indo até a varanda, mas a porta estava emperrada e tive que correr para abrir antes que ele a derrubasse — Que merda, sério que você ainda não consertou essa porta?

— Primeiro que não é da sua conta o que eu faço na minha casa ou não, e segundo, como pode ver, estou arrumando minhas coisas para sair daqui, logo, problema do novo morador.

— Uh, não que eu esteja interessado, mas por que vai sair?

— O aluguel está ficando caro para pagar sozinho.

— Deveria procurar alguém para morar contigo, é um bom apartamento e não é tão caro se dividir com um amigo. Ah é, esqueci que ninguém iria te aguentar.

— O que veio fazer aqui mesmo? — disse cruzando os braços e me encostando na porta — Porque eu já cansei da tua presença, chato do caralho.

— Já falei, meu gato desapareceu. Procurei pelo bairro inteiro e nem sinal dele — revelou limpando os pés no tapete — Acabei lembrando que os gatos se perdem e voltam pra casa, questionei se ele teria errado o caminho e veio até aqui, mas com certeza ele não viria parar nesse muquifo.

— Depois eu que sou o irresponsável, você deixou ele fugir!

Taehyun ficou em silêncio, acho que talvez eu tenha falado grosso demais. Ele começou a vistoriar todos os cantos da minha varanda e acabou encontrando a caixa de areia que havia esquecido de tirar. Droga.

— Cadê ele?

— Ele quem?

— Não se faça de besta, sua anta. Cadê o meu gato?

— Eu não sei — Ele me encarou com expressão de quem iria me matar, tive que respirar fundo para manter minha cara de blefe. — O quê?

— Tem cocô aqui, e é recente!

— Ué, acho que algum gato entrou e fez — respondi mordendo os cantos das bochechas, uma parte de mim queria rir da sua cara de bravo mas com certeza ele me jogaria do sexto andar — Ele está comigo e não vou devolver!

Vi minha vida passar pelos meus olhos por alguns segundos quando Taehyun atravessou a porta passando para dentro de casa. Ele começou a revirar tudo, abriu os armários, jogou as almofadas pro alto e espalhou todos os meus produtos de limpeza da dispensa procurando pelo bichano. Havia dado tanto trabalho para organizar aquilo, teria lhe agarrado pelos cabelos e expulsado da minha casa se fosse outra situação.

— Beomgyu, devolve o Hobak!

— Só se você voltar pra mim.

— O quê? — Taehyun me encarou confuso, olhei pro lado me perguntando como havia deixado aquilo escapar.

— Digo, só se você deixar o Hobak voltar pra mim. Ele também é meu gato, seu paspalhão!

— Desde de quando? Eu adotei e dei o nome dele!

— E daí? Eu também cuidei dele! E outra, ele veio me visitar por livre e espontânea vontade — sentei no sofá despreocupado — aceite dividir a guarda ou não devolverei.

— Ótimo, procuro por mim mesmo!

[TH]

Havia esquecido o quanto Beomgyu testava minha paciência, já haviam se passado mais de duas horas e eu ainda estava procurando meu gato. O desgramado apenas me olhava com cara de sono enquanto eu me enrolava nas suas caixas de papelão e plástico bolha, as coisas da mudança ainda estavam no mesmo lugar. Preguiçoso.

Ele não se importou quando comecei a vasculhar seu quarto, agora o colchão estava no chão já que eu havia levado a cama. A caminha do Hobak estava ao lado, então julguei que ele havia o deixado por ali, abri o guarda-roupa e vasculhei mas nada encontrei.

— Ô seu fedido, é a última vez que eu vou perguntar antes que eu chame a polícia — Lhe prendi contra a parede bufando de ódio — Onde está o meu gato?

— Calma, não precisa se exaltar — Ele sorriu de lado passando a mão pelo meu rosto — Escondi ele no guarda-roupa, meu doce de limão azedo.

— Idiota, ele não está lá! — rebati sua mão para longe.

— Como assim não está lá? Eu deixei... — Beomgyu correu para o quarto jogando todas as roupas no chão, apenas respirei fundo tentando manter a sanidade. Me olhou apavorado vendo a merda que fez. — Ele sumiu!

Naquele momento meu sangue ferveu, aquele garoto só podia estar de sacanagem! Caminhei até a cama e sentei fechando os olhos tentando me acalmar, mas uma vontade de chorar tomou conta de mim e antes que eu pudesse impedir, lágrimas caíram dos meus olhos. Beomgyu olhou para mim assustado, eu nunca fui de chorar na frente de ninguém, muito menos da dele. Acho que por sentir pena do meu estado, ele se aproximou e sentou do meu lado e com cuidado, segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Acabei por chorar mais ainda, percebendo como fui um idiota em ter sido tão impaciente com ele e acabar nosso relacionamento por coisas que poderiam ter sido resolvidas com diálogo. Estava me sentindo horrível, havia perdido meu gato e o meu único amor.

Fiquei um tempo ali chorando, estava muito estressado com tudo que havia acontecido, além de confuso com meus próprios sentimentos. Beomgyu trouxe para mim um chá de camomila e sentou ao meu lado me fazendo companhia.

— Não é muito tarde, vamos sair para procurar — ele disse levantando e estendendo a mão ao me acalmar — Nós vamos encontrá-lo.

Descemos pela escada checando todos os corredores, também procuramos pela garagem, pátio e a área de lazer, mas ele já havia saído do prédio. Fizemos uma volta no bairro caçando por todos os lugares e novamente, nada.

Perguntei a Beomgyu se tinha passado em algum lugar quando o encontrou e decidimos fazer o mesmo trajeto daquele dia. Coincidentemente, o mercadinho onde ele estava era bem perto da minha casa, então deduzi que ao sentir seu cheiro, Hobak resolveu o seguir.

— Vamos fazer uma pausa aqui, se ele estiver por perto pode sentir nosso cheiro. — Ele aceitou e entramos na loja para comprar sorvete. Sentamos na calçada para descansar. — Eu realmente não sei porque ele me abandonou, acho que enjoou de mim por ser tão chato.

— Claro que não! Lembra quando ele era filhote e desapareceu por dois dias? — Concordei com a cabeça — Ele estava escondido debaixo do sofá o tempo todo!

— Não acho que ele caiba mais debaixo do sofá — ele riu. Hobak havia engordado 2 quilos desde que nos separamos — Eu deveria ter mais cuidado com as coisas que eu amo.

— Taehyun, você tem cuidado sim — ele falou mordendo o sorvete e fazendo uma careta — Sabe, as vezes sinto falta de você pegando no meu pé para fazer isso e aquilo, posso ter me irritado muitas vezes mas eu sei que você fazia pelo meu bem.

— Não diga isso — abaixei a cabeça — Eu poderia ter sido um pouco mais compreensivo. Estava acostumado a ter as coisas exatamente como eu queria já que sempre morei sozinho, então quando fui morar com você, qualquer coisa fora do lugar me irritava e acabava enchendo seu saco o dia inteiro — suspirei fundo — mas a casa também era sua, eu não tinha o direito.

— Falamos a verdade, eu também fazia muitas coisas de propósito pra te irritar — ele deu uma risadinha e me empurrou com o ombro — Éramos dois bobocas.

— Ainda somos dois bobocas, já é tarde da noite e aqui estamos procurando nosso filho rebelde. — Ri. — Sinto sua falta, Beomgyu.

— Também sinto sua falta, Taehyun.

Ficamos alguns minutos em silêncio apenas sentindo o vento frio bater contra nossos rostos. Tive coragem para encará-lo e ele me observava com um olhar terno me fazendo lembrar do dia em que me apaixonei por aqueles olhos azuis oceano. Era difícil assumir que mesmo depois de ter feito tudo para afastar esses sentimentos, ainda estava apaixonado por Beomgyu. Porém, o que poderia fazer? Eu que fui embora sendo um pateta egoísta.

— Taehyun, eu posso... — antes que terminasse a frase, ele se aproximou e selou nossos lábios, me surpreendo.

Era apenas um selar de bocas, mas que fez meu coração pulsar enlouquecidamente. Não hesitei em fechar os olhos e levar as mãos até o seu rosto, iniciando ali um beijo lento e cheio de saudades.

Muitas vezes agradeço por Beomgyu ser tão louco das ideias, jamais o beijaria sem mais nem menos assim do nada, mas naquele momento parecia ser a única coisa sensata a fazer. Nosso beijo foi repleto de amor, falando mais do que nós dois poderíamos dizer. Beomgyu continuava sendo meu primeiro e único amor e fiquei extremamente feliz por saber que eu ainda era o dele.

Depois do beijo ficamos encabulados, queríamos dar uma volta pelo bairro, mas já estava ficando tarde. Combinamos de sairmos cedo da manhã para procurar pelo Hobak e ele resolveu me deixar em casa. No caminho, tivemos uma conversa sincera sobre o que sentimos um pelo outro e resolvemos ir com calma dessa vez.

— Obrigado por vir até aqui, Beom — disse quando paramos em frente a minha casa — Volte para casa em segurança.

— Não se preocupe — respondeu e passou os braços ao redor do meu pescoço, queria me dar um abraço antes de ir — Vamos achar o Hobak, ok? Meu número ainda é o mesmo, se qualquer coisa acontecer, basta me ligar.

— Certo — sorri e ele me abraçou como de costume, afundando o rosto em meu pescoço. Senti que poderia ser um pouco ousado e lhe dar mais um beijo, mas de repente, ouvimos um miado de longe.

Corremos para a árvore do outro lado da rua, estava escuro e tivemos que ligar a lanterna. A árvore estava cheia de arranhões e bastou olhar pra cima e lá estava Hobak todo esticado no galho junto com uma gatinha de pelo tricolor.

— Seu sem vergonha! — disse com as mãos na cintura enquanto sorria e chorava ao mesmo tempo pela emoção — Hobak, desce daí!

— É ruim, hein! — Beomgyu riu me dando um abraço por trás — Nosso bebê cresceu e já tá namorando.

— Esse gato ainda me mata! — Exclamei.

— Só se for de amor! — respondeu.


Tivemos todo um trabalho para tirar Hobak dali junto com a gatinha, que ao contrário dele, não queria descer facilmente e ainda nos deu uma bela mordida. Beomgyu ficou desesperado quando disse que ia levá-la pra casa e se caso não tivesse dono, iria pegar para cuidar. Teríamos que aprender a ser avôs responsáveis e cuidar dos nossos netinhos e sugeri que deveríamos voltar a morar juntos para sustentar as contas.

Passou algum tempo até ele aceitar voltar a morar comigo, continuamos irritados com nossas manias, mas agora, passamos a amar. Hobak e Eunbi viveram um romance sem nos deixar dormir por três noites, e não demorou muito tempo para mais duas bolinhas de pelo acabar com nosso sofá. Quem diria que no fim acabaria assim, tendo o namorado mais perfeito do mundo ao meu lado e sendo pai de quatro pets, graças ao meu gato ter feito uma visita ao meu ex.

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