Passado e tudo que perdi

Depois que o detetive me garantiu que Júlia continuava no Rio de Janeiro e morando no mesmo lugar. Voltei a loja e a atendente não fez rodeios em me dizer que Júlia não queria me ver. Saí dali meio cabisbaixo e tentando pensar em uma forma de encontrá-la sem a pressionar como um louco. Liguei para Fabiano e marquei de encontrá-lo na praça em frente a sua casa de festa. Eu pediria a ele para contratar os serviços dela para uma de suas casas de festas e assim, eu apareceria no final e teria a chance de ao menos vê-la.

Assim que cheguei nos abraçamos como nos velhos tempos. Eu dava voltas antes de contar a ele toda merda que fiz com minha amada e enquanto isso ouvia ele falar animado da sua afilhada que nasceria em mais ou menos um mês. Juliana era o nome que ele tanto falava e depois de sua mamãe gata.

-Está apaixonado amigo? -questionei forçando um sorriso.

-Amo minha amiga e minha afilhada. Mas é algo de irmão, meio paternal. Meu coração e de outra.

-Quem é a felizarda?

-Um dia te conto. Mas e ai? O que você manda?

-Como esta as festas? Eu preciso lhe pedir um favor.

-Pode falar. -me autorizou atendendo ao telefone.

Apartir desde momento, ele ficou quase sem fala e nervoso se dirigiu ao seu carro que estava próximo ao meu. O convenci a não dirigir naquele estado e ele aceitou de bom grado minha carona até o hospital que ele falara o endereço.

Entrei com ele e me assustei ao ver Thales tão nervoso. A partir daí... Meu mundo mudou e até desejei que o soco que ele deu na parede. Fosse em meu rosto.

Eu teria uma filha com a mulher que amo e faria qualquer coisa para ser presente na vida delas. Mesmo eu não merecendo esse presente.
*
Passei a noite naquela cadeira e a angústia me manteve acordado. Fabiano subia, descia e sempre evitava olhar me minha direção. Por duas vezes tentei subir, mas os seguranças do local impediam minha passagem. Eu poderia gritar e falar que eu era o pai. Mas Júlia não merecia um escândalo em um momento tão delicado.
Eu queria tanto vê-la.

Doutor Gilberto veio pessoalmente me contar que elas estavam fora de perigo, mas que assim mesmo precisavam permanecer em observação. Isso me tranquilizou um pouco. Chorei de alívio agradecendo a Deus.

Pela manhã Thales me trouxe uma troca de roupa. Ter seu abraço me fez bem, pois eu sabia que havia o decepcionado também. Quando ele saiu depois de falar com o médico, apenas troquei a camisa e depois fiquei horas sentado imaginando o rostinho da minha pequena Juliana. Ao mesmo tempo tive medo de Júlia não permitir que eu fissesse parte da vida delas ou ao menos da de minha filha. Minha filha! Caramba! Eu sou pai e não entendo nada sobre o assunto!

Meu celular estava descarregado e saí para pegar meu carregador no carro. Acabei comprando flores e uma revista sobre bebês. Li tudo com total atenção enquanto meu telefone carregava. Assim que o liguei. Vi as ligações perdidas e várias delas eram de Michele. Ela até era uma amiga ou devia dizer colega? Mas no momento  escolhi lhe manter distante.

Meu celular tocou e era Michele. Recusei a primeira e acabei atendendo a segunda. Ela mostrou preocupação com o meu sumiço e acabei lhe falando que iria ser pai e estava muito feliz em descobrir isso. Não dei mais detalhes e desliguei quando ela insinuou que eu deveria pedir o exame de DNA antes de assumir qualquer paternidade porque eu era um homem rico.
Michele é mesquinha e intereceira, isso não me incomodava até ela ousar insinuar algo sobre minha filha.

Júlia era única e a prova disso era ter enfrentado tudo sozinha sem me pedir nada. Isso também provava o quanto ela era forte e o tanto que a magoei ao ponto dela nem desejar dividir comigo algo tão sublime.
*
Agora me sentia pior por tudo que Júlia passou enquanto eu vivia no luxo. Merda! Esse lugar era dela e não meu. Meus irmãos estavam comigo, mas ambos não escondia em seus rostos a decepção.
*
Não subi por meu pai mandar. Eu estava demorando por não saber como chegar.

Não esperei o elevador. Subi os dois lances de escada; bati suavemente na porta do quarto. Meu coração dispara temendo outra rejeição. Fabiano à abriu e me deu passagem. Saiu sem falar comigo e avisou a ela que estaria no corredor se ela precisasse. Suas palavras doeram, mas eu sabia que ele estava certo.

Júlia estava sentada na cama e não estava mais no soro. O lençol cobria sua barriga e ela desviou rapidamente os olhos dos meus.

Meu coração continuava acelerado enquanto eu dava passos calmos em sua direção. Inevitavelmente, sorri com aquela visão de meu amor grávida da nossa filha.

-Oi! -parei ao seu lado e coloquei as flores sobre a mesinha.

-Oi!

-Posso me sentar?

-Pode. -respondeu sem me dirigir o olhar.

Me sentei na cadeira que já estava ao lado da cama e instintivamente segurei suavemente sua mão. Eu tinha vontade de apertá-las para ter certeza de ser real. Meu coração continuava acelerado ao mesmo tempo que minhas mãos ficavam geladas e eu sentia algo como uma pequena dorzinha de barriga. Linda e perfeita! Era tudo que eu conseguia pensar.

-Thomas me desculpe por...

-Não tem nada para se desculpar anjo. Eu que lhe devo muitos pedidos de desculpas -beijei sua mão e acariciei a mesma. -Espero que ela puxe sua força. Na verdade acho que essa princesa já te puxou. -falei me controlando para não passar a mão em sua barriga, quando ela tirou a mão das minhas.

-Ela puxou mesmo -alisou a barriga. -Eu fui tão imprudente em dançar com oito meses...

-Não foi não, isso foi um acidente, mas graças a Deus então bem. Só precisa fazer repouso para ela nascer no dia correto.

-Eu vou fazer. Devo ter alta amanhã e já estou cuidando de tudo para repousar devidamente.

-Me deixa participar da vida de vocês? Me deixa ajudar também?

-Eu não vou te afastar dela Thomas, errei em esconder, mas no fundo sempre quis que soubesse.

-Entendo finalmente o quanto te magoei. Mas preciso entender o por quê me escondeu algo tão importante!? -perguntei num tom bem suave.

-Receio de você não aceitar, medo que me pedisse pra tirar...

-Eu jamais te pediria isso. -afirmei finalmente tendo o olhar dela sobre os meus.

-Fez coisas que jamais imaginei que você faria. -foi direta.

-Eu sei o babaca que eu fui. E em um outro dia te contarei toda confusão que minha mente se tornou nesses últimos meses. Mas agora quero que você saiba que estou aqui para tudo que você é nossa filha precisar.

-Obrigada!

-Não me agradeça. Eu que te agradeço por me permitir receber esse lindo presente. -olhei para sua barriga e depois voltei aos seus olhos.

-Fabiano me falou que seus irmãos estão aqui. Pode pedir para eles subirem? -pediu, deixando claro que não se sentia confortável em estar sozinha comigo.

-Claro anjo! -na mesma hora liguei para Thales. -Eles estão vindo. -comuniquei enquanto ela olhava para a televisão que estava sem som.

Com rostos emocionados, ambos entraram. Fabiano também voltou. Thales sorriu largo ao beijar sua testa e depois alisar sua barriga. Thiago também beijou sua testa e depois deixou um beijo em sua barriga ainda protegida pelo fino lençol.

Fabiano anunciou que iria para casa e passaria na confeitaria para ver como estava tudo por lá. Ela agradeceu e lhe deu algumas coordenadas, o mandando descansar pois ela não precisava de acompanhante 24 horas e que já estava se sentindo culpada, por ele ter ficado ao seu lado tanto tempo. Antes de sair, ele beijou seu rosto, alisou sua barriga e me surpreendeu ao me dar os parabéns e dar dois tapinhas em minha costa. Foi o primeiro parabéns que recebi. Mas também, eu não fiz por merecer algo diferente disso.

-Quero dizer que eu nunca quis realmente afastar vocês, mas foi a única opção até eu ter coragem de contar a Thomas sobre minha gravidez. -falou assim que Fabiano saiu.

-Não tem problema Ju, você é da família e estamos aqui para vocês -Thiago falou se sentando onde antes, eu estava. -Minha sobrinha mexe muito?

-Agora bem menos, o doutor explicou que é normal por causa do espaço.

-Você teve muitos enjoos ou desejos? -Questionou Thales arrastando uma poltrona para se sentar perto de Thiago, ao lado da cama dela.

-Não. Na verdade tinha dias que me sentia muito cansada pra sair e vender as trufas e os bolos de pote. Os enjoos eram apenas na hora de fazer a comida pras quentinhas. O cheiro do alho me deixava um pouco mal. Mas no geral foi tranquilo. Tia Cida sempre estave presente e Fabiano apareceu logo depois. -Respirei fundo e me virei pra janela com as mãos nos bolsos da calça tentando esconder meus olhos cheios enquanto ela explicava tudo com naturalidade.

Meus irmãos continuam a lhe fazer perguntas e assim eu consigo saber um pouco de tudo que o ela passou nesses últimos meses.

Se eu não a tivesse afastado de mim, ela não teria passado nada disso e eu poderia tê-la mimado um pouco. Eu não teria perdido nada de sua gravidez. Teria sentido a primeira vez que nossa filha mexeu, teria lhe acompanhado na primeira consulta e visto sua primeira ultrassom. Mas agora, eu não tinha nem mesmo coragem de lhe pedir para acariciar sua barriga.

Com um telefonema, Thales autorizou a subida de todos. Grazi chegou com balões, Becca com um urso de pelúcia, Malu entrou puxando discretamente meu pai pela mão.

Ela sorriu pra todas e ignorou totalmente a presença de meu pai.

-Bem vinda a família Júlia. Em breve teremos tempo para conversamos, mas quero que saiba que me arrependo de tudo que lhe fiz intencionalmente e sem intençao também. -meu pai falou ignorando que ela o ignorava e beijando sua testa com os olhos cheios. Ela somente balançou a cabeça positivamente.

Grazi lhe contou sobre a chegada de Malu na família e depois falou sobre Maria, que ainda estava no orfanato esperando a conclusão do processo de adoção. Lhe mostrou fotos dela no celularar e depois ligou para pequena, a colocando no viva voz pra falar com a tia Ju. Becca falou sobre sua gestação, enjos, desejos e a dificuldade em achar uma boa posição pra dormir. A diferença de uma pra outra, era de apenas uma semana. A filha de Thales nasceria primeiro.

Júlia acabou falando que conhecia o orfanato e isso levou Thales a falar que se lembrou dela quando viu a foto dela pequena. Mas nada. Nada mesmo nos preparou para as foto que meu pai tirou de dentro da sua pasta.

Eu, que agora estava sentado no lugar de Thiago. Vi algo parecido com um filme em minha mente, ao segurar junto com ela, a foto de nós dois juntos. Olhei em seus olhos e tenho quase certeza que ela de alguma forma inexplicável, de lembrou do mesmo que eu.

off

-Jujuba, não fica triste por não ter família. Aqui tem muita criança pra brincar e vou vim sempre ficar com você.-falei secando suas lágrimas e me deitando ao lado dela no pátio do orfanato.

-Eu não tenho mamãe e nem papai. Vou ser sozinha pra sempre...

-Não vai não. Quando eu for grandão. Eu vou casar com você E te cuidar igual meu papai cuida da minha mamãe.

-Você jura juradinho?

-juro juradinho de mindinho. -entrelaçados nossos dedos lindinhos e eu a abracei a fazendo sorrir timidamente, assim como eu.

Nos soltamos com a presença de minha mãe, com uma máquina fotográfica em mãos.

On

Como era possível nos lembrarmos de algo quando tínhamos apenas três anos? Algo que até esse momento, nunca tinha voltado a minha memória.
Ela soltou a foto como se tivesse levado um choque e se antes eu tive dúvidas, elas não existiam mais. Ela também se lembrou.

A foto passou na mão de todos. Mas nossos olhos nos manteram presos um no outro. Nossos olhos estavam cheios e quando me aproximei para secar as lágrimas dela que ameaçavam cair. Ela virou o rosto se recompondo.

Depois vieram as outras em um quarto silencioso. A dela com meu pai, a fez o encarar pela primeira vez. Mas ela não retribuiu o sorriso que ele lhe deu. As dela com toda a família a fez esboçar um sorriso, mas a com Thales e Thiago verdadeiramente lhe fez sorrir fazendo eles dois ir até ela e lhe abraçar cuidadosamente enchendo os olhos de todos os presentes de lágrimas. Menos os da Malu, que olhava preocupada para meu pai que tentava esconder suas emoções.

O horário de visita que era relativamente extenso. Me pareceu curto quando a enfermeira bateu na porta. Me levantei dando espaço para as despedidas.

Meu pai foi o primeiro a sair. Beijou sua testa novamente se desculpando. Ela novamente, apenas balançou  a cabeça positivamente sem olhar para ele.
Um, por um, todos saíram -lhe dando beijos e passando a mão em sua barriga.

Eu não saí, e quando a enfermeira me chamou a atenção...

-Eu sou o pai. -foi o que lhe respondi Fazendo assim, ela sair fechando a porta.

Tornei a me sentar.

-Você também se lembrou?

-Lembrei. -respondeu seria.

-Estamos...

-Me lembrei que não foi a primeira vez que mentiu pra mim...

-Nunca menti. Da primeira eram os crianças e da segunda... Eu fui um babaca covarde.

-Já não importa.

-Importa sim. Importa muito. Não sei se um dia poderá me perdoar anjo -me levantei. -anos nos separaram e o destino nos trouxe de volta de uma forma que... Um dia você vai saber- passei as mãos em meus cabelos. -O destino sempre conspirou a nosso favor e a prova disso. É a nossa filha.

-Não foi destino. Foi ilusão.

-Não. Nossa filha foi concedida com amor. Um amor que eu só compreendi ao perceber que...

-Thomas, nunca mais vou te afastar dela. Mas entre nós... Não existe nós.

-Eu vou esperar. Vou ser paciente como nunca fui. Mas teremos a nossa família unida um dia.

-Não viva a espera disso. Você é o pai da Juliana e ponto. Nada além disso.

Me calei diante de suas palavras.e calados assistimos a televisão. Isso até ela me dizer que já estava na hora de eu ir e que ela não necessitava de uma babá.

Cada palavra sua, me fez olhar para seus lábios perfeitos. Cada palavra sua, me fez ter certeza do quanto eu a amava e que lutaria todos os dias de minha vida para ter seu amor de volta. Por que fosse como, como fosse. Nunca duvidei que um dia ela me amou. Apesar de ter dúvidas e do meu amor por ela, hoje essa dúvida era ridícula. Somente ela foi capaz de me fazer feliz apenas em ver os sorrisos tímidos dela. Somente ela foi capaz de me fazer querer ficar dia após dia curtindo a vida juntinhos no sofá e compartilhar todos os dias o café da manhã e o jantar. Como fui capaz de duvidar que isso era amar?

-Posso te pedir para tentar sentir nossa filha em seu ventre? -arrisquei ansioso e temeroso.

🌺🌺🌺

Votem, votem...

Vocês me deixam muito feliz com tantos comentários. Eles me inspiram. Amo muito tudo isso❤. Tanto que estou escrevendo às 4:43 am😉

Obs: Maria também é do orfanato. Ela é a segunda menina que Thiago e Grazi adotaram.

💋Beijos da Aline💋💋.

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