Não tem volta
Me perdoem pelos erros.
Estava fazendo trufas para amanhã, quando o interfone tocou. Estranhei, mesmo assim atendi.
Ouvir a voz dele ciente que ele estava a poucos passos de mim, me deixou perturbada. Preferi não deixá-lo subir, aqui é meu canto e não quero que sua presença imunde o local com seu cheiro.
Tirei a redinha dos meus cabelos e conferi se minha blusa não marcava minha barriga. Uma piada, já que ela era apenas um minúsculo ovinho.
Ainda dentro do elevador velho, pedia forças aos meus anjos da guarda pra não fraquejar se acaso, ele ousase tentar algo.
Parada em frente ao portão, pude vê-lo sentado na calçada ao lado de tia Cida. Parecendo sentir minha presença, ele se levanta assim que o abro e vem rapidamente em minha direção.
Minhas mãos suam, minhas pernas parecem querer fraquejar e meu coração idiota, bate acelerado.
Ao meu primeiro passo, vejo seus olhos vermelhos e quando ele me toma nos braços, em um abraço apertado. Respiro fundo, talvez na tentativa de poder guardar para sempre seu cheiro em minha memória. Contraditório! Depois de fazê-lo, me afasto dois passos e convicta o encaro.
-O que quer aqui? -ele se aproxima.
-Eu precisava tanto te ver, sentir seu cheiro, sentir sua pele e seu abraço reconfortante. -dou mais um passo pra trás e ele permanece no mesmo lugar.
-Já fez tudo isso, agora pode ir embora.
-Não faz desde jeito Júlia. Meu pai está doente e você sabe.
-Melhoras para ele.
-Soube hoje que ele não é meu pai. -seu olhar não esconde a mágoa e dor.
-Pai é quem cria Thomas. Qualquer imbecil pode fazer um filho. -você é a prova viva disso. - pensei.
-Thales acha que meu pai lhe falou algo? Ele te disse alguma coisa Júlia?
-Não. -é besteira contar algo que tenho certeza que ele já ouviu seu pai várias vezes falar, mesmo que não fossem diretamente ligadas a mim e sim minha raça.
-Fico aliviado com isso.
-Bom pra você.
-Não me trate assim, Você não é assim.
-O que quer de verdade Thomas?
-Saber se você está bem.
-Curioso que somente quis saber quando se sentiu perdido. Você não veio por mim. Veio por você. Veio por ousar pensar em mim como um ombro amigo e compreensivo. Isso apenas me mostra mais uma vez o ser egoísta que você sempre foi.
-Nunca fui egoísta com você Júlia.
-Receber sem dar em troca é egoísmo.
-Está sendo injusta, nunca tratei uma mulher com tanto carinho como tratei você. Nunca fiz café da manhã para ninguém...
-Esquece o que eu disse.
-Eu te...
-Não ama. Até acredito que esteve por um período apaixonado, mas amor por mim, você nunca sentiu.
-Você não sabe o que diz anjo.
-Já lhe proibi de me chamar assim.
-Realmente não quer dar uma chance pra nós? Amanhã meu pai tem médico e tudo pode mudar. -essas palavras me trazem ira.
-Nada mais vai mudar entre nós dois. Você fez sua escolha e agora conviva feliz com ela.
-Não é justo você querer que eu escolha entre você e ele. -fala alterado.
-Eu não mandei você escolher entre nós dois, não ponha palavras em minha boca. Apenas que me deixou ir.
-Queria que eu corresse atrás de você naquele maldito dia? -ainda alterado.
-Não, queria que tivesse segurado minha mão e me apresentado a seu precioso pai como a mulher que você dizia amar e desejava formar uma família.
-Eu sei que você não tem família Júlia -sua voz sai descontrolada. -Mas por hora, não posso lhe oferecer isso.
-Não pôde antes e nem agora, então não poderá no futuro.
-Pode demorar mas...
-Não. Suas chances comigo se esgotaram e você já tem sua família perfeita e alva. -ele suspira.
-Eu sinto tanto a sua falta.
-Pois eu não sinto nem um pouco a sua.
-Está mentindo, sei que está. Como podia dizer me amar e dizer isso.
-Entendi bem onde era meu lugar e...
-Seu lugar é ao meu lado.
-Escondida não é ao lado Thomas. Me deixe em paz e suma da minha vida de uma vez por todas.
-Não posso, eu te...
-Se realmente sente qualquer coisa por mim, apenas se afaste e respeite meu espaço da mesma forma que fiz quando me pediu -pisquei os olhos na tentativa de segurar minhas lágrimas. -Se não me deixar em paz, vou embora para Manaus ou outro lugar qualquer.
-Tem certeza que é isso que quer? -me encara.
-Eu sempre soube o que quis e agora não é diferente. -respondo de cabeça erguida e olhando em seus olhos.
-Júlia, nem sempre a vida é preto no branco. Vamos namorar...
-Eu já falei que não quero. -me altero.
Ele respira fundo e se vira de costa pra mim.
-Vou te deixar em paz. Quem sabe um dia nos esbarramos por aí.
-É, quem sabe um dia. Passar bem. -me viro para sair.
-Tom está no carro, não quer vê-lo. -estamos um de costa pro outro.
-Não preciso, sei que ele está bem.
-Ele também sente sua falta. -percebo que ele se vira pra mim novamente.
-Lamento. Boa tarde! -tia Cida, se coloca ao meu lado e segura minhas mãos frias e suadas.
-Vamos entrar Júlia.
-Adeus anjo.
-Adeus.
Caminho me segurando para manter a postura e não olhar pra trás. Mas quando o portão bate atrás de mim, tia Cida me abraça e deixo minhas lágrimas caírem.
Acabo ficando na casa dela até anoitecer. Na segunda tenho minha primeira consulta e ela tenta me animar falando sobre isso.
*
Na segunda, depois de entregar minhas encomendas e vender boa parte das trufas, passei em casa para um banho rápido e para pegar Tia Cida. Acabei levando para a clínica as trufas que sobraram.
Chegamos com quase meia hora de antecedência e a sala de espera estava bem cheia. Já que aqui tem várias salas com várias especialidades.
Peguei minha pequena bolsa térmica e fui oferecer trufas para as recepcionistas. As quatro compraram e alguns pacientes também. Voltei a me sentar sorrindo feliz por ter sobrado apenas oito.
-Ainda tem Trufa morena? -levantei a cabeça.
-Oi! Tem sim. -me segurei pra não corrigir o morena.
-Tem de que?
-Maracujá, morango e uma de chocolate.
-Quero uma de cada. -lhe sorri e ele sorriu de volta. Entreguei as trufas e em seguida, agradesci lhe entregando seu troco.
Ele se sentou na poltrona de frente pra nós. Eu fiquei olhando para ver se ia comer e gostar.
-Ele é bonitão. -fala tia Cida me cutucando.
Realmente o cara era bonito. Um negro bem alto, com um sorriso lindo e um corpo que sobressaía ao agasalho. Deve estar febril. Pois está calor hoje.
Acompanhei sua primeira mordida e sorri quando ele fechou os olhos em apreciação.
-Quantas ainda tem? -Me perguntou de onde estava.
-Cinco.
-Quero as cinco e também falar com você.
Mas nessa hora, a porta do doutor Gilberto se abriu me chamando para a consulta. Lhe entreguei as trufas e entrei na sala acompanhada de minha tia.
-Como vai Júlia? Alguma alteração na medicação. -falou depois de apertar minha mão.
Doutor Gilberto é meu ginecologista, ele também é obstetra.
-Estou grávida, sei que o senhor falou que nenhum metodo contraceptivo era cem por cento seguro, mas eu realmente não esperava por isso.
-Olha! Se tomou direitinho e não vomitou ou tomou outra medicação junto, posso dizer que ganhou na loteria.
-Então ganhei. Quero começar o pré-natal e gostaria que fosse com o senhor, se tiver vaga em sua agenda.
-Se não tivesse, eu arrumava. Troque de roupa que vou te examinar e pedir alguns exames.
Me levanto e escuto uma leve batida na porta.
Depois que ele autoriza a entrada, me surpreendo em ver Michele, a vaca racista da faculdade. Ela entra e lhe dar um beijo no rosto.
-Boa tarde pai! Boa tarde senhoras! -Quando finalmente olha pra mim, sorri surpresa e ao mesmo tempo debochada. -Que mundo pequeno Júlia, veio acompanhar a patroa ao médico?
-Não. -limito-me a dizer.
-Michele é minha filha e está se especializando em obstetrícia, se você não se incomodar, gostaria que ela lhe acompanhasse junto comigo.
-Me incomodo sim. Sua filha é racista e não quero gente assim perto de meu filho.
-Júlia acho que deve haver algum engano, minha filha não é racista.
-Que seja. Mas não quero. Se isso lhe incomoda, posso procurar outro médico...
-Não será necessário Júlia. Cuidarei com carinho de vocês. Nos dê licença Michele.
Depois que ela saiu, com seu conhecido sorriso de deboche no rosto. Doutor Gilberto me questionou e lhe contei um pouco sobre como sua querida filha me tratava na faculdade, por eu ser negra e bolsista. O vi, várias vezes ficar de rosto vermelho.
Para minha total surpresa, estou de 13 semanas, quase 3 meses e ao que parece, o anticoncecional não fez mal ao bebê ou a mim.
Mas nada tinha me preparado para ver meu bebê naquela tela. Tia Cida, chorou comigo e meu coração se encheu de um amor que parecia transbordar. Eu realmente não estava sozinha no mundo. Deus me concedeu um precioso presente, que mesmo tão pequeno, já mudava a minha vida.
Quando saí da clínica, estava anoitecendo. Doutor Gilberto fez muitos exames e tive que aguardar o resultado de todos.
-Você não recebeu pelas cinco trufas. -levei um susto com aquela voz rouca atrás de mim.
-Que susto!
-Me perdoe! Prazer, sou Fabiano.
Theodoro
Thomas foi na consulta comigo, o médico falou que eu estava melhorando, mas que deveria fazer mais algumas seções de fisioterapia e ficar de olho em minha pressão arterial.
Depois do almoço fui para a empresa.
Entrei e fui direto falar com Ivan.
-A que devo a honra meu amigo?
-Pare de demagogia Ivan. Quero saber agora quem é meu filho.
-Acho que você caiu e bateu com a cabeça. Só vou contar quando nossos filhos se casarem.
-Não haverá casamento.
-Então contarei a eles que sou pai de Thomas.
-Eles ja sabem. Ou me conta agora quem é meu filho ou vou não verá o dinheiro desse mês. Sei que precisa dele para pagar o tratamento de sua esposa.
-Ainda posso contar para eles sobre seu filho.
-Isso é problema meu, mas não me importo se contar. Porém, saiba que ficará sem um tostão.
-Perdeu o medo.
-Cedi as suas chantagens para proteger meus filhos e manter a imagem de Helena pura. Mas agora isso não é mais preciso. Me diz agora, ou adeus tratamento na Europa. -Ele me olha assustado, sabe que não estou blefando.
-Trasfere o dinheiro primeiro.
-Não mesmo, me conte e provê que fala a verdade que transfiro.
-Como saberei se o fará.
-Terá que apostar.
Ele se joga na cadeira detrás da mesa e eu de frente para ele. Me olha por um longo tempo antes de abrir o notebook e virá-lo para mim.
Uma espécie de slaid, se inicia lentamente.
A primeira foto é Silvânia grávida. Aparentemente, de poucos meses.
A segunda, sua barriga está imensa um pouco maior e ela está na porta de um hospital público, com Ivan ao seu lado segurando uma bolsa de viagem.
A terceira é a que ele me mostrou com ela em uma Praça com o bebê no colo.
A quarta, uma menininha de vestidinho amarelo, sorri ao lado de Silvânia, Ivan, sua esposa e sua filha. Em uma festinha simples de dois anos.
Engulo seco, pois aquele sorriso me causa algo que não sei explicar.
-Não é um filho Theodoro, sempre foi uma menina. -fecho os olhos e me encosto na minha cadeira. Ele nem precisa me dizer quem é ela. Imediatamente percebi que ela estava ali o tempo todo em minha frente e ate mesmo o porquê de seus sorrisos me incomodar tanto. Ela tem o mesmo sorriso de meu pai, o mesmo que eu mesmo já tive quando jovem. E de forma louca o mesmo que eu vi em uma menininha anos atrás no orfanato, que Helena tanto quis adotar e eu interferi mesmo tento ficado encantado com ela.
-Abra os olhos Thoedoro. Essa foto é a que eu mais gosto.
A menina está no colo de Helena e Thomas parado, olhando com os olhos brilhantes para ela. A seguinte e ela sentada entre Thales e Thiago no orfanato, ela tinha no máximo três anos. Mas a que me choca e que eu ouso dizer que nem me lembrava e uma com ela em meu colo, dormindo com a mão envolta do meu pescoço.
Uma lágrima desce em meus olhos e não consigo assimilar que mesmo com meu preconceito aquela foto mostrava um carinho que eu não sabia ter demonstrado e outra rola pelos anos que perdi por meu preconceito.
-Helena sabia que era ela?
-Não.
-Me envie esses documentos.
Ele vira pra si o notebook e depois o vira pra mim, mostrando que enviou para meu email.
-Como esteve tão perto dela e a deixou ser entregue ao orfanato quando a mãe morreu?
-Eu era seu padrinho. Mas se eu contasse a todos sobre ela, Você e Helena contaria aos filhos o passado de vocês e eu perderia minha fonte de renda.
-Desgraçado.
-Para de história Theodoro, Você nunca quis essa criança.
- Eu pedi para Silvânia não fazer o aborto. Eu sofri com aquilo.
-Eu vi, mas também te vi aliviado, pouco tempo depois. Não se engane dizendo que seria capaz de amar essa neguinha.
-Não fale assim dela. -ele ri alto.
-Por que não devo repetir o que você sempre fala ao ver uma mulher negra?
Suas palavras me cortam, levando-me ao meu último encontro com ela. Ela nunca irá me perdoar.
-Ela sabe que sou seu pai?
-Não. Eu menti sobre isso também. Ela não sabe nem que sou seu padrinho. Ela não se lembrou de mim quando me viu aqui semana passada. Ela era muito pequena. -Passo a mão em meu rosto e me levanto. -Meu dinheiro Theodoro?
-Apostou alto e perdeu.
-Vou contar para seus filhos.
-Me faça esse favor, aproveite e conte a ela também. Agora saia da empresa dos meus filhos.
Ele fecha o notebook com força e espero o que mais pode vir. Mas não vem nada. Ele simplesmente se retira.
Voltei pra casa e abri meu e-mail, assisti tudo é lágrimas relatavam em minha face em vê-la em varias fazes de sua vida. Ivan a manteve vigiada e alguns documentos estavam anexados. Como a certidão de Nascimento dela. As notas da escola ate mesmo o nome do primeiro namorado.
Júlia sempre me incomodou de uma maneira diferente e eu nunca nem ao menos pensei em tal hipótese. Essa menina nunca vai me perdoar, ela me odeia e eu nem sei o que sinto por ela.
A noite chegou e eu queria muito falar com Thales sobre o que eu tinha descoberto, eu sabia que meus filhos eram ligados a irmã, mas não tive coragem e acabei ligando para Igor e falando por alto o que aconteceu. Ele apenas me escutou calado. No entanto eu sabia que ele estava se controlando para não esbravejar.
Já era tarde da noite quando Thomas chegou em casa.
-Tudo bem filho.
-Tudo. Vou descansar e amanhã falamos. -me seu um beijo em minha cabeça e subiu as escadas.
Ele vai me odiar também. Foi meu último pensamento antes do calmante fazer efeito e eu dormir ali mesmo no sofá.
🌺🌺🌺
Sei que não estou respondendo, mas garanto que leio todos os comentários.
Não vai rolar sítio na comemoração das bodas de ouro de meus pais, mais vai ter festa na lage. Adoro! Estou agarrada fazendo as lembrancinhas.
Sou prendada. Kkkk
Por favor Não esqueçam de votar e comentem à vontade.
💋Aline Victal💋💋
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