Generosidade

Ela respirou fundo, desviou os olhos dos meus e se ajeitou melhor na cama.

-Pode.

Meu semblante antes preocupado, deixou pela primeira vez em 24e horas, escapar um sorriso. Dei um passo, estiquei minha mão e vi elas tremerem. Tudo parecia em câmera lenta... Primeiro encostei as pontas dos meus dedos trêmulos e finalmente a palma da mão. Meu sorriso se alargou, meus olhos se encheram e meu coração parecia a bateria de uma escola de samba sem ritmo. Naquele instante tudo a minha volta sumiu. No mundo parecia existir somente Júlia, eu e nossa filha.

-Oi princesinha do papai! -aproximei meu rosto do ventre de Júlia. -Papai promete fazer todo o possível para que você seja muito feliz meu amor.

Senti na mesma hora a barriga de Júlia se mexer e minhas lágrimas contidas escorrerem. Escorreguei minha mão pra outra direção e outra vez ela se mexeu.

-Sentiu isso? -perguntei com os olhos inundado de emoção.

-Sim, eu senti. -respondeu pondo sua mão rapidamente sobre a minha que repousava em seu ventre redondo.

Durante todo o horário de visita, não escutei ninguém dizer que minha princesa tinha se mexido. Então...

-Ela sabe que sou eu? Isso dói? Ela sente a importância que tem em minha vida? Ela já percebe o quanto a amo?

Júlia não me respondeu e fitei novamente seu rosto em busca de respostas. Ele continha um sorriso tímido enquanto suas lágrimas desciam livremente.

-Ela é encantadora como você e será tão linda quanto. -falei secando suas lágrimas e depois pousando meu rosto suavemente sobre sua barriga.

Julia respirou fundo e eu a envolvi pela cintura mantendo meu rosto no mesmo lugar e olhando para ela. Os batimentos cardíacos dela, era ouvido por mim junto a sons estranhos. Minha princesa parecia ter se acalmado. No entanto, mais lágrimas rolavam dos meus olhos por tudo que perdi e as fiz passar. Foi aí que tive a segunda melhor sensação do dia. Júlia passou a mão em meus cabelos e sorriu para mim me forma afável.

Meu amor por ela triplicou e eu suspirei sabendo que provavelmente a perdi. Mas jamais aceitaria que fosse pra sempre.

Eu sabia que deveria me afastar, pois minha posição derrepente lhe pareceu muito incômoda. Entretanto, antes de fazê-lo, não resisti e beijei seu ventre me dirigindo a elas, de forma carinhosa:

-Vocês são meu bem mais precioso -me afastei relutante. -Obrigado por sua generosidade meu anjo. Vou em casa tomar um banho e volto logo.

-Não precisa voltar.

-Sei que não precisa, mas voltarei. -dei um beijo em sua testa e saí.

Somente quando me sentei em meu carro com um sorriso no rosto, minha barriga reclamou. Eu não havia comido nada por mais de 24 horas, estava apenas com um café expresso no estômago.

Assim que virei a rua, vi Michele parada na entrada do meu prédio.

-Boa noite Michele. -cumprimentei sem descer do carro.

-Saí mas cedo do hospital e resolvi passar pra ver se te encontrava. Fiquei preocupada. Você me pareceu abatido ao telefone.

-Eu estava cansado, porém muito feliz.

-Almoçou ou comeu algo de verdade?

-Na verdade não.

-Posso subir e lhe preparar algo, ou podemos sair para jantar.

-Sinto muito Michele, mas vou apenas tomar um banho e voltar para onde eu estava. -Eu sabia que se desejava ter minha mulher de volta. O melhor a fazer era manter Michele distante.

-Posso ir com você e te dar apoio no que for necessário. Deve ser horrível saber de uma hora pra outra que vai ser pai de um casinho passageiro.

-Casinho passageiro?

-Sempre acompanhei as coisas que divulgam sobre você na internet. Sempre bem acompanhado em lugares caros e badalados, também sei que seus namoros não duram mais que três meses e que nesse quase um ano, nunca mais saiu nada do tipo, então acredito ter sido alguém sem grande importância. -ela falava e eu apenas conseguia me questionar se Júlia também pensou não ter importância? Deus! Como errei com meu anjo.

-Ao contrário Michele. Minha mulher me fazia querer passar todas às horas disponíveis apenas ao lado dela.

-Entendi, ela está de quantos meses!

-O que isso importa?

-Se demorou a contar, pode ter dúvidas.

-Michele, vou subir porque estou com pressa. Mas se pensa em manter o mínimo de amizade comigo. Nunca mais fale da minha mulher ou da minha filha. Bom descanço.

-Pra você também meu amigo. Se precisar, sabe onde me encontrar. -se debruçou sobre a janela e beijou meu rosto.

Michele era o perfil da mulher me atraia antes de Júlia entrar em minha vida. Bonita, fútil e fácil de se livrar depois com um presente caro. Mas homem algum depois de ter Júlia, se contentaria com alguém que não fosse a mesma. E eu era o felizardo de ter aquele doce de mulher, linda e generosa como mãe da nossa filha.

-Michele, quero lhe pedir para não vir novamente à frente de meu prédio me esperar. Agora sou um homem de familia e isso não fica bem -não nego que gostei de ver a cara de ofendida que ela fez. -Me desculpe se estou sendo grosso, mas meu único objetivo agora é me dedicar inteiramente em recuperar o amor da única mulher que amei e amo. Ter você me rondando não vai facilitar isso.

-Nossa Thomas! Homens e mulheres também podem ser amigos.

-Eu sei. E agradeço as vezes que me fez companhia em um café ou até mesmo em um bar discreto quando eu não estava me sentindo tão bem. Mas apesar de me fazer companhia, não fomos confidentes e eu sempre soube que era vantajoso pra nós dois. Eu queria alguém que não conhecia meus problemas internos e você alguém pra pagar as contas.

-Está me excluindo da sua vida?

-Minha vida? Você nunca fez parte da minha vida Michele. Estou apenas impondo limites. Se, Se diz tão minha amiga, entende a necessidade de se manter afastada. A propósito, semana que vem, vou mandar aquela bolsa, que disse querer daquela grife famosa, pra você em agradecimento por nossa passageira amizade. -ela sorriu largo. Pronto! Problema resolvido.

-Você é muito generoso Thomas.

-Passar bem Michele. Preciso ir pois estou atrasado.

E assim abri o portão automático e a deixei lá fora.

Na verdade nem sei se Júlia é ciumenta, mas preferi não arriscar colocando algo tão insignificante em nossos caminhos.

Enquanto tomei banho, deixei a comida aquecer no micro-ondas. Em meu celular mensagens do meu pai. Querendo notícias de Júlia.
Que mundo louco! Meu pai não era meu pai e sim pai de Júlia. O melhor foi eu já ter me apaixonado por ela antes. Sim, um amor de menino, mas era o amor mais puro de todos. Agora o amor em mim, era de um homem que finalmente sabe exatamente o que quer e com quem quer.

Cheguei no hospital e sorri me identificando como noivo dela e pai de sua filha. Na ficha dela, já constava meu nome e a recepcionista acrescentou que a informação foi confirmada por Júlia. Não eu ser seu noivo. Mas sim ser o pai da nossa filha. Eu estava na lista de acompanhantes e tive facilmente minha entrada liberada.

Eram nove da noite. Mas enquanto eu andava pelos corredores do hospital, parecia bem mais tarde. Devido ao silêncio dos andares da enfermaria.

Bati suavemente na porta sem obter resposta. Entrei, as luzes principais estavam apagadas e apenas um abajur iluminava o quarto. Entrei sorrateiramente e me sentei na poltrona ao lado da cama dela, me segurando para não beijar seus lábios ou passar a mão em seu ventre. O ar condicionado era potente e desdobrei o cobertor que estava ao seus pés e a cobri. Ganhei um sorriso sonolento que valeu muito mais que qualquer presente.

-Desculpa te acordar anjo. -alisei seus cabelos.

-Tudo bem, eu só estava cochilando um pouco.

-Então tenta dormir de verdade agora.

-Vou fazer isso. Se vai ficar aqui, deita naquela cama. Ela é para o acompanhante.

-Ela fica muito longe de vocês. Aqui está bom pra mim.

-Vai ficar com o corpo doído se dormir assim.

Olhei novamente pra cama em questão. Fui até ela e a arrastei para o lado dela. Coloquei meu celular no carregador. Tirei minha camisa e a vi, desviar o olhar quando o fiz. Peguei uma bermuda na bolsa e fui para o banheiro. Lá, fechei os olhos ao sentir o cheiro do seu creme de pentear de morango.

Quando voltei a televisão estava ligada e ela me entregou o controle assim que me deitei ao seu lado, tendo duas grades nos separando. Não ousei descê-las. Mesmo desejando muito.

-Pode assistir o que desejar.

-Não quero assistir nada. Acho que você realmente precisa de uma boa noite de sono.

-Você também, sei que passou à noite passada sentado lá em baixo na sala de espera. Tente dormir Thomas. Boa noite! -fechou os olhos e virou de costa pra mim. Eu fiz o mesmo. Não para dormir, mas para agradecer por ela não ter me mandado embora.

Acordei com a entrada da copeira. Me levantei para a ajudá-la se levantar.

-Bom dia meus amores!

-Bom dia Thomas.

Vê-la, apenas com uma camisola de algodão, em pé com a barriguinha linda. Me fez suspirar e dar um beijo em sua testa antes dela entrar no banheiro. Seu hábito de tomar banho ao acordar permanecia o mesmo.

Quando saiu vestindo um Baby doll, também de algodão. A parei no meio do caminho levando a mão ao seu ventre. Ela paralisou e meu corpo estremeceu. Tão perto e ao mesmo tempo tão distante de mim. Fiz de desentendido e a abraçei. Vibrei internamente quando ela retribuiu meu abraço. Talvez tudo não estava tão perdido assim!

Ela logo se afastou e se sentou para o café, me oferecendo a metade de seu pão. Lógico que não aceitei. E tive que lhe lembrar do que o médico falou sobre se alimentar direito. Mas ela estava fazendo isso. Tinha sido apenas mais um dos seus gestos generosos. A deixei com seu café é fui usar o banheiro.

A enfermeira entreou e ficou minutos me encarando. Depois deu uma revogada de olho e saiu.

-Acho que não acreditam que você é o pai da minha filha?

-Entendo, deve ser porque demorei a aparecer.

-Acho que é por eu ser negra e você...

-Não é por isso. Tem muitos casais assim em todos os lugares.

-Na zona Norte e bem comum. Mas muita gente sabe quem é você e seus irmãos.

-Então já perceberam que amamos mulheres lindas e negras.

-Thomas, sei que não me ama. Não precisa tentar ser politicamente...

-Amo. Amo muito Júlia. Sei que já falei te amar antes. Sei que tem o direito de não acreditar em mim agora. Mas, eu amo vocês duas. Amo e vou me arrepender todos os dias de ter sido burro o suficiente em te e afastar e ainda achar que estava fazendo o certo.

-O doutor Gilberto passará às 10:00 horas. Provavelmente terei alta -me comunicou mudando de assunto. -por que não desce pra tomar um café.

-Quando te levar pra casa, eu tomo.

Como previsto. Gilberto passou no horário e depois de algumas recomendações, lhe deu alta. A primeira coisa que ela fez foi ligar para Fabiano. Que se eu bem conhecia, ainda devia estar dormindo.
Sei que ele se ofereceu para buscá-lá, mas ela de forma doce, respondeu que eu a levaria e que ele a esperace em casa. Era incrível, mais essa consistência em nosso destino.

Arrumei sua bolsa enquanto ela se trocava no banheiro, saindo em seguida com um lindo vestido longo e florido. Mesmo com protestos ela acabou aceitando deixar o hospital em uma cadeira de rodas. Era a norma. A ajudei se sentar em meu carro e dirigi a 50 km até o seu prédio, que não ficava distante.

Fabiano já estava na portaria. E me cumprimentou com um aperto de mão, sem abraço. Subimos os três naquele elevador velho.

Era minha primeira vez naquele lugar e não gostei do que vi. Ali não tinha espaço para uma criança. Mas talvez até Juliana nascer, elas já estejam morando comigo. Ou melhor. Talvez ela ja estaja casada comigo. Sorri com esse pensamento.

-Thomas, muito obrigada pela companhia e pela carona.

-Não vou embora anjo. Vou ficar aqui e cuidar de vocês.

-Obrigada, mas não é preciso. Realmente não vejo necessidade e também não me sentirei à vontade com isso.

-Posso vim ver vocês todos os dias?

-Pode sim. De preferência quando sair da empresa.

-Okay, vou somente por suas coisas no quarto e saber o que providenciar para seu almoço, café e jantar. Acho melhor mandar Mada pra cá.

-Não precisa. Eu compro quentinha.

-E vai ficar levantando toda hora?

-Eu posso me levantar Thomas. Somente preciso fazer isso com calma e não fazer movimentos bruscos.

-Não acho uma boa Idéia você ficar aqui sozinha. E se passar mal? Se sentir dor? -ela olhou para Fabiano e ele fingiu não ver. Fiz merda, mas ele ainda era meu amigo. Seu ato provou isso.

-Não tenho espaço para abrigar Mada aqui e logo tia Cida chega de viagem.

-Então fique lá em casa até ela voltar. Pode ficar no meu quarto que eu fico no de hóspede.-Ela olhou novamente para um Fabiano calado.

-O que você acha Fabiano?

-Acho uma boa Idéia Julinha. Mas antes vou ter uma conversa a sós com meu amigo aqui -bateu três vezes forte em minha costa. -Vamos lá fora Thomas.

-Não me demoro anjo. Qualquer coisa me chama. Estarei no corredor. -Ela assentou.

Mal fechei a porta e ele começou:

-Olha aqui Thomas, Você é meu amigo de longa data. Me segurei pra não arrebentar sua cara naquele hospital...

-Fabiano eu...

-A ama, eu sei, vi isso em seus olhos durante toda aquela madrugada cada vez que eu descia. Vi também quando você entrou no quarto e somente por isso, saí e deixei você ficar como acompanhante dela. Foi eu quem alterou a ficha e ela aprovou.

-Obrigado!

-Mas isso não vai me impedir de quebrar sua cara se a magoar novamente. A obra lá de baixo estará pronta em dois dias. Mas vou atrasar por uma semana. Não me faça se arrepender?

-Que obra?

-Dona Cidinha, lhe cedeu metade do primeiro andar e ela construiu uma cozinha industrial e está reformando um apartamento maior. Com dois quartos, para ela e minha afilhada.

-Ela conseguiu pagar tudo? De quanto está a dívida?

-Eu emprestei.

-Me mande a nota, vou te ressarcir.

-Idiota! Júlia não quer o dinheiro de ninguém. Ela me deu 10% da empresa e vai me pagar aos poucos. Ela precisa disso.

-Thales me falou algo parecido, meses atrás.

-Sim. Ela precisa vencer sem você. Respeite isso.

-Tentarei. -Seria difícil, pois agora tenho necessidade de cuidar delas.

-Ela está magoada e nunca nem ao menos me falou seu nome Thomas. Mas também sei que a generosidade dela e imensa e não te privara de estar na vida da filha de vocês. Agora o resto e com você meu amigo.  Cuide delas com a própria vida se preciso for.

-Não tenha dúvidas que o farei.

-Sei que é verdade. Nunca em todos esses anos te vi assim. E ao mesmo tempo não entendo como a deixou partir a amando tanto.

-Não reconheci a grandeza desse. Sentimento. A culpa me dominou e outras coisas que depois com mais calma lhe explico.

-Okay. Vamos entrar.

Insisti que Julia descançase mais um pouco antes de sairmos. Na descida ela quis ver a obra e me admerei em ver como ela estava bem. Também fiquei orgulhoso por ela.

Na cozinha uma equipe. Comandada por uma ex doceira de Fabiano. Lhe deu boas vindas, pelo visto elas já se conheciam.

Júlia pareceu satisfeita e finalmente partimos pra minha casa. Ela preferiu o quarto de hóspede. Combinei de Mada ficar todos os dias e para isso precisei duplicar seu salário. Era justo.

Tom fez festa com sua chegada e ela se emocionou. Assim como eu, ele nunca a esqueceu.

Somente Deus conhecia a felicidade em meu peito quando me sentei a mesa para almoçar com ela.
*
Levei seu café na cama e saí lhe dando um beijo na testa e outro em seu ventre. Apesar de tudo eu sorria feliz. Na empresa meus irmãos me esperavam para uma conversa seria.

🌺🌺🌺

Por favor! Não esqueçam de votar e comentem à vontade.

💋Beijos da Aline💋💋.






Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top