Culpa
Fechei a porta atrás de mim e busquei forças para encará-la e deixar as palavras certas saírem.
-Júlia, meu pai não está bem de saúde, nós teremos que nos afastar um pouco.
-Você e seu pai? -me questiona com toda a inocência partindo ainda mais meu coração.
-Não, eu e você.
-Por que Thomas? -seus olhos não escondem a dor.
-Porque é preciso anjo. -Fui o mais firme possível.
-Ontem mesmo você falou que não me queria longe. Outro dia eu quis dormir em outro quarto e você me pediu para ficar, e agora diz que precisamos nos afastar?
-É somente por um tempo Júlia. -controlava em mim a vontade louca de beijá-lá.
-Eu não quero tempo Thomas. Eu quero você. -Deus me ajude!
-Já te expliquei que meu pai não está bem.
-Podemos cuidar dele juntos. Não me tire da sua vida. -seus olhos cheios me quebraram.
-Eu te amo, podemos continuar juntos -ela me olha cheia de esperanças. -mas cada um em sua casa.
-Justo agora que eu pensei que com a chegada do seu pai poderíamos ser livres para nós assumir aqui na empresa.
-Talvez isso demore muito para acontecer Júlia.
-Como assim? Eu pensei que em breve teríamos nossa família. O que me esconde Thomas? -se aproximou e olhou bem dentro dos meus olhos.
-Júlia, por enquanto é isso que posso te oferecer. Entenda que precisamos desde espaço.
-Não Thomas. Quem precisa de tempo Ou espaço é você -secou as lágrimas que tomavam em sua face. -Chega de ser tão compassiva, eu não quero isso, não quero esconder de ninguém o nosso amor.
-Eu não posso Júlia.
-Então já se decidiu?
-Não posso te dar o que você quer agora meu anjo.
-Não me chame mais assim. Fique tranquilo que terá todo o espaço que deseja.
-Obrigado amor. -ousei respirar aliviado.
-Por nada, vou a sua casa buscar minhas coisas. Vou tentar sair antes de você chegar.
-Não tem porque tirar suas coisas, podemos dormir juntos uma ou duas vezes na semana lá em casa.
-Não Thomas, não vou ficar esperando sem nem ao menos saber o motivo real de seu pedido. Ou me assume agora para todos ou acabou tudo entre nós.
-Júlia você não está pensando direito. -o desespero começa a me possuir.
-Estou sim, aceitei viver escondida quando disse que era preciso. aturei ser apresentada como assistente...
-Nunca mais te apresentei assim...
-Não importa. Não vou aceitar regredir em nosso relacionamento, se é que tivemos um...
-Não seja criança...
-Nunca fui, não tive chance de ser, você confunde meu jeito meigo com idiotice. Sei que não me assume por medo do seu pai e me chama de criança? Quem tem que crescer é você Thomas. Ou me assume como meu homem ou paramos por aqui.
-Agora eu não posso. -não consigo enviará-la.
-Okay! Lembre-se que você decidiu isso. -andou para a porta e eu entrei em sua frente.
-Não faça isso conosco Júlia.
-Você fez. Isso tudo por medo do seu pai? Por que ele me odeia?
-Ele não te odeia, ele odeia sua raça. Meu pai é racista e nunca aceitará seus filhos casados com mulheres negras. -assumo
-É justo. Então procure uma branca e apresente a ele já que minha raça não é aceitável pra você.
-Não vou procurar ninguém, estou apenas te pedindo um tempo
-Eu não quero tempo merda! -gritou.
-Fale baixo.
-Me desculpe chefe. -gritou novamente.
-Estamos conversando, você não é assim.
-Eu não era. Me de licença.
-É somente um tempo Julia. -insisto vendo ela abrir a porta.
-Acabou Thomas.
Ela saí batendo a porta com força e eu me sentei tentando entender onde tudo desabou.
JULIA
Meu corpo tremia e eu me sentia assustada com minha reação.
Fui direto pro banheiro e acabei encontrando Theodoro no caminho.
-Está chorando por quê? Meu filho te dispensou? -sua voz sai arrastada e sua boca perece m pouco torta. Mas não tenho dúvidas de seu tom debochado.
Me mantive calada.
-Achou que estava vivendo um conto de fadas menina?
Continuei calada
-Thomas jamais se casaria com alguém como você.
-Alguém como eu, ou alguém de minha cor?
-Pessoas como você nem deveriam trabalhar para nós, imagine dormir em nossas camas. O sonho acabou gata borralheira.
-Qual é a sua seu racista de merda? Alguma negra decepcionou o velhinho ou o esnobou mesmo.
-Eu não desceria tão baixo.
-Nossa! Quanta classe. -falei debochada.
-Já chega. Se coloque em seu lugar ou ficará sem emprego.
-Enfie sua empresa e seu filhinho covarde no rabo velho nogento -Viro a costa e o escuro rir.
No RH mesmo escrevi minha carta de demissão.
Saí dali apenas com minha bolsa. Fui direto para o conjugado do Flamengo, agradecendo mentalmente por eu ter levado as chaves.
Chorei sobre um colchão velho que foi deixado pelo antigo inquilino. Me senti novamente aquela menininha perdida de muitos anos à trás.
Busquei as palavras de carinho que minha vidinha me dizia, porém por hoje elas não eram suficientes para acalmar meu coração despedaçado e o medo do futuro.
Na madrugada tive forças de me levantar e jogar uma água no corpo. Sentada na privada velha e manchada, olhava com lágrimas e sem dúvidas, para o resultado de meu segundo teste de gravidez. Positivo, aqueles dois tracinhos, agora me deixavam em pânico. Sozinha, sem emprego e grávida.
Dói mais ainda pensar que durante à tarde, depois de ficar tonta, Rafaela me aconselhou a fazer o teste. Sorte que menti o resultado pra ela pois achei que aquele babaca merecia ser o primeiro a saber. Entrei na sala de Thomas radiante e temerosa saí seguida por Thomas.
Levo a mão em meu ventre. -a certeza de que esse bebê nunca seria bem aceito, confirma que ele é apenas meu. Chega de choro. A vida nunca foi fácil pra mim e eu contra tudo que a sociedade me impunha, sobrevivi. Agora luterei com unhas e dentes por nós dois. Deu a é bom, me presenteou com meu bebê para que eu não frequejasse. -A luta agora é por nós meu amor. -falei com um sorriso triste no rosto.
*
No sábado de manhã, fui ao meu apartamento. Separei minhas roupas e chamei dois vizinhos gente boa pra me ajudar a desmontar o guarda-roupa. Fretei uma Kombi e soquei tudo o que foi possível nela para minha mudança. Anunciei a venda dos móveis que ficaram em um site de móveis usados. E em uber com minhas roupas e utensílios da cozinha, segui a Kombi para o Flamengo. Às 20:00 horas, eu já estava em frente ao meu fogão fazendo uma comida descente. Já que passei o dia a base de lanche.
*
No domingo, dona Cidinha apareceu em minha porta com um bolo de fubá. Ela mora no primeiro andar e nos conhecemos há vinte dias quando vim pegar as chaves que ficaram com ela.
Uma senhora sorridente, cheia de vida e qua adora dançar. Em meio aos papos falei sobre o sonho que eu tinha de poder ser uma micro empresária e ela me mandou não desistir.
Mas como poderei tentar algo assim? Minhas economias mal darão para me manter até o bebê nascer e eu poder procurar um emprego de carteira assinada novamente. Isso se aquele velho me der uma carta de recomendação. Coisa que duvido muito. Porém, talvez Thales ou Thiago o façam.
Chamei minha simpatica visinha para jantar comigo. Acabei falando um pouco mais sobre mim e revelei meu início de gravidez. Ela elogiou muito minha comida, mas se encantou mesmo foi pela torta de limão que servi no final. Depois ficou me olhando de forma pensativa e saiu sorrindo dizendo que era para eu ter calma que coisas boas iam acontecer.
Agora deitada em minha cama a tristeza novamente me encontra. Sem forças pra lutar. Me entrego ao choro.
Dói demais pensar em como me iludi. Em como me entreguei mesmo quando algo em mim, me mandava ter cuidado. Chorei pela perda de minha vizinha, de minha mãe e de um pai que nunca conheci. Chorei até mesmo por ser filha única.
Acordei de olhos inchados, já passavam dás dez da manhã. Peguei um ônibus para o apartamento de Thomas. Eu sabia que ele não estaria. Tom veio ao meu encontro. Peguei apenas roupas que já eram minhas. Em meia hora o que fui fazer verdadeiramente ali, me pareceu sem sentido. Meu novo lar era pequeno e no futuro próximo terei um bebê, que poderá até ser alérgico. Tom era amado onde estava e ele parecia gostar mais de Thomas do que se mim. Afaguei seu pelo sedoso e parto com lágrimas nos olhos. Na portaria entreguei minhas chaves dentro de um envelope endereçado a Thomas.
Meu trajeto foi feito com lágrimas.
Desde mesmo jeito, passei o restante da minha segunda-feira.
Thomas
Thales terá que se casar com uma víbora mimada. Até me ofereci para fazer isso por ele. Sem Júlia não me importo com mais nada e eu já estou farto de ver Thales sempre cuidar de nós e sacrificar sua vida pela gente.
Os olhos de meu pai parecem me acusar a todo instante e quando fiquei sozinho com ele, confirmei que realmente passou mal exatamente no dia que lhe falei aquelas coisas.
Na segunda, assim que o porteiro me avisou que Júlia estava em casa. Eu sorri. Ainda estava preso em uma reunião com meus irmãos, fazendo contas junto com Thales. Mas assim que foi possível, saí dali para poder estar com ela.
Um envelope me foi entregue com as chaves dela. No closet apenas algumas peças foram retiradas. Tom se lambia triste sobre a cama.
O que eu estava pensando!
Foi melhor assim, ainda mais que terei que morar com meu pai e vender meu apartamento para cobrir suas dívidas de jogo.
A vida estava vazia. Era difícil abrir mão dela, justamente para protegê-la das ofenças de meu pai.
Eu sorria vazio tentando esconder minha dor e não preocupar ainda mais meus irmãos. Claro que ela ter se legado a esperar um tempo me machucada. Mas não sou um total idiota e sei que o que ela queria, no momento eu não posso dar.
Thales acha que ela partiu por algo que meu pai disse, eu sei que não foi.
*
Sem resistir, lhe liguei na terça-feira. Chamou até cair na caixa postal. Depois de cinco vezes o número deu insistente.
Às noites estão tão difíceis e para piorar sempre que dormo um pouco, acordo com os olhos cheios e a lembrança da mágoa nos dela. Acho que ela me odeia.
Assim que meu pai estiver melhor, o chamarei para uma conversa sincera. Se ele realmente me ama, não vai querer me ver infeliz por estar longe dela.
Mesmo com sua carta de demissão, mandei o RH lhe pagar o certo por seu tempo de serviço e dar baixa em sua carteira como se ela tivesse sido mandada embora. Assim terá direito ao seguro desemprego. Depositei um pouquinho a mais, para ela não perceber. Júlia é orgulhosa e jamais aceitaria qualquer dinheiro meu. Até mesmo o arranjo do RH, fiz com que Thales assinasse.
Minha vida se tornou triste e Tom é o único a ouvir meus lamentos.
Foi demais ficar sem ela é por isso, a noite fui ao seu apartamento. Depois de horas esperando algum sinal dela, soube pela vizinha que ela se mudou.
Eu preciso saber pra onde.
🌺🌺🌺
Estou bem melhor. Obrigada a todas pelo carinho comigo e com meus pais. Juro que vou tentar escrever ao menos dois capítulos por semana.
Por favor! Não esqueçam de votar e comentem à vontade.
💋Aline Victal💋💋.
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