Intruso

"Cada amanhecer é feito de novidade e oportunidade."

Lucas caminhava sonolento em direção ao banheiro quando sentiu um cheiro amadeirado conhecido, ao olhar para dentro do banheiro encontrou o irmão gastando o seu perfume importado que normalmente usava para azarar.

— Pensa em usar tudo ou posso ter a esperança de que vai sobrar um pouco pra mim?

Miguel fez uma cara feia para o irmão, que se encostou no batente da porta e o encarou descontente com o que via.

— Só tava experimentando — resmungou colocando o perfume no lugar.

— Posso saber pra que?

Podia dizer o que sempre dizia: "Vai cuidar da tua vida". Mas daquela vez achou melhor ficar quieto, tinha que se aprontar para buscar Sophia.

— Isso tudo é pra Sophia?

Lucas parecia mulher, tinha um sexto sentido certeiro, pior que só servia para irrita-lo, novamente o ignorou, queria evitar uma briga, o que com toda certeza era o objetivo do irmão.

— Quem diria, meu irmãozinho, o inabalável Miguel Rodrigues, apaixonado pela santinha Sophia Almeida. Ainda não consigo acreditar — Lucas declarou rindo.

Miguel ficou vermelho de raiva.

— Ah, cala a boca, imbecil!

Saiu do banheiro empurrando o irmão.

— Tava brincando Miguel, se continuar com esse mau humor vai levar um fora da Almeida.

— Só pra sua informação ela não vai me dar fora algum — replicou Miguel sem olhar para o irmão, para logo depois murmurar para si mesmo. — Acontece que ela é... Droga nem sei por que fico pensando nisso...

Lucas se segurava para não zoar o irmão, era engraçado demais vê-lo confuso por causa de uma garota, principalmente quando a garota em questão era Sophia. Havia sido raras às vezes em que a vira, na maioria ela se encontrava comendo o André com os olhos, que por sua vez corria atrás da Marinazinha que morria de amores por Miguel, mas algo sempre ficara claro para Lucas em meio aquela confusão: a herdeira dos Almeida parecia seguir rumo a uma vida religiosa ou coisa do tipo, talvez por esse motivo Miguel estivesse um pouco inseguro... na verdade bem inseguro, isso era cômico.

— Não sou bom em dar conselhos amorosos, afinal só preciso dar uma piscada ou um sorriso sexy que uma legião de garotas me segue sem pestanejar, mas como você não tem o meu magnetismo natural...

"Convencido", pensou Miguel mentalmente, mas se voltou para o irmão curioso em saber o que Lucas pretendia lhe dizer.

— Se está mesmo apaixonado por ela, tente ser gentil, carinhoso. Garotas como ela apreciam isso.

— APAIXONADO? EU NÃO ESTOU APAIXONADO. ESSA IDÉIA É ESTUPIDA.

— Como queira... Não precisa se espernear todo — retrucou Lucas entrando no banheiro, a mão balançando no ar. — Mas, sabe o que dizem né? O maior cego é aquele que não quer ver.

Decidido a não perder seu precioso tempo com o irmão, Miguel pegou sua mochila e rumou em direção à casa dos Almeida que não era muito longe da sua casa, embora ficasse do lado oposto e Miguel tivesse que passar em frente o colégio onde suas fãs com certeza já estavam amontoadas a espera da abertura dos portões. Para sua sorte elas só olharam para sua direção com os olhos marejados. Namorar Sophia até aquele momento estava sendo a sua melhor ideia.

Chegou à casa dos Almeida e encontrou Nathan bem na porta de entrada, com os braços cruzados na frente do corpo barrando sua passagem.

— O que venho fazer aqui, Rodrigues?

— Olhar a sua cara feia é que não é.

Tentou passar mais Nathan o impediu.

— Não sei como os meu tio permitiu seu namoro.

Miguel se segurou para não dar uma resposta malcriada.

— Oie, Miguel!

Olívia passou correndo pela porta e o abraçou com tanta força que Miguel agradeceu aos céus que a garota não fosse outra lunática de seu fã clube. Depois de larga-lo ela se colocou ao lado do primo carrancudo.

— Já estamos saindo, que pena, da próxima vez tem que chegar mais cedo para nos acompanhar no café — ela falou sorridente.

— Não faça convites sem a autorização do tio, Olívia.

— Deixa de besteira, Nathan, o Miguel é praticamente da família.

— Não diga besteira você, Miguel não é nada nosso.

— É namorado da Sophia.

— Por enquanto... — declarou o rapaz encarando Miguel com desafio.

— Olívia, Nathan, parem de discutir — Tomás ordenou se juntando aos três. — Como vai Rodrigues?

— Bem, senhor Almeida.

— Espero que venha mais cedo e compartilhe o café conosco.

Olívia ficou de costas para o pai e se voltou para Nathan mostrando a língua, por um breve momento Miguel teve vontade de rir da cara do jovem Almeida, mas se distraiu ao ver Sophia aparecer com seu inseparável casaco de frio segurando a pasta escolar em frente ao corpo, a franja cobrindo seus olhos e as faces rubras, deixando claro que se sentia um pouco envergonhada.

— Oi... Miguel...!

— Vamos Olívia, senão vou chegar atrasado no trabalho e você na escola — comunicou Tomás com os olhos grudados em seu relógio de pulso.

— Até, Miguel!

Ao receber o beijo estalado de Olívia no rosto, Miguel se perguntou como duas irmãs criadas no mesmo ambiente podiam ser tão diferentes. Tentou se aproximar de Sophia, mas Nathan o barrou novamente, se encararam com ódio, era palpável a tensão entre os dois.

— Nathan...

— O Rodrigues é um mulherengo, só vai se aproveitar de você, Soph. Tenho que protegê-la de tipos como ele.

Miguel se segurou para não arrebentar a cara do Almeida. Sabia muito bem que tipo de proteção ele queria dar a sua prima.

— Se quisesse só me aproveitar não a pediria em namoro.

— O que tá insinuando, Rodrigues?

— O que você acha, Almeida?

Era visível uma corrente de raiva passando dos olhos de um para o outro, ambos se encontravam mais que dispostos a arrebentar a cara do outro, os punhos fechados ansiosos em entrar em ação.

— Nathan! Miguel! Parem de discutir! — pediu Sophia com a voz doce se colocando no meio dos dois, as pequenas mãos apoiadas no peito deles para separa-los.

Miguel e Nathan fizeram uma careta de desgosto, em uma coisa concordavam, odiavam perturbar Sophia.

Nathan bufou, era melhor esquecer o "intruso" Rodrigues e ir logo para a faculdade antes que se atrasasse.

— Eu te levo pro colégio, Sophia — falou Nathan segurando o braço da prima e puxando-a para o seu lado.

— A namorada é minha, eu levo — retrucou Miguel abraçando-a pela cintura e afastando-a de Nathan.

— Eu tô de carro vai ser mais rápido — replicou Nathan tentando tirar a mão de Miguel da cintura de sua prima.

Prevendo uma briga onde no mínimo a dividiriam ao meio, Sophia teve uma ideia.

— Leve nós dois no carro, Nath.

— Isso mesmo, Nath — provocou Miguel.

— Oras, seu...

— Nath, por favor — pediu Sophia se pondo na frente de Miguel, na face uma expressão suplicante.

Mesmo não fazendo ideia do motivo que deixara os dois hostis daquela forma, Sophia estava decidida a evitar qualquer confronto.

— Tudo bem, mas é por você Sophia, por que se fosse por esse...

Nathan se segurou para não dizer o que lhe vinha à mente e magoar a prima. Odiava Miguel, odiava saber que o desgraçado lhe roubara o amor de Sophia. Encarou o Rodrigues com ódio, recebendo em troca um sorriso de zombaria, queria quebrar os dentes daquele imbecil arrogante, mas se controlou e caminhou na frente de Sophia e Miguel até seu carro já estacionado em frente à residência. Abriu a porta do lado do passageiro da frente pra Sophia, deixando claro que a queria ao seu lado, o que gerou nova discussão.

— Sem chance, Nathan, ela vem comigo no banco de trás — anunciou Miguel impedindo a namorada de subir no carro.

— Não vou posar de motorista pra você.

— Ela não vai sentar do seu lado de jeito nenhum.

Sophia suspirou cansada. Aqueles dois agiam como crianças. Não, até mesmo crianças sabiam ser civilizadas.

— Não briguem. Vou no banco de trás, sozinha — anunciou, acrescentando para horror dos rapazes: —, o Miguel vai do seu lado Nath.

Enquanto falava, Sophia empurrou Miguel para o banco de passageiros da frente, abriu a porta de trás, entrou e bateu a porta com força.

— Viu o que você fez, Rodrigues? A deixou chateada — resmungou Nathan entrando no carro.

— Eu? Você que é um...

— Parem já de brigar! — interrompeu Sophia com um tom mais elevado chamando a atenção de ambos.

Até mesmo Sophia se surpreendeu por ter levantado a voz para repreendê-los, envergonhada diante do olhar dos dois ela se encolheu no banco com as mãos sobre a boca.

Miguel e Nathan se voltaram para frente, colocaram o cinto de segurança e se encararam por um momento, nos olhos a promessa muda de acertarem as contas depois.

Durante o pequeno percurso até o colégio houve silêncio total, o que fazia a culpa de Sophia aumentar. Tinha quase certeza que Nathan fora grosseiro por não apoiar seu namoro com o Rodrigues. Agradeceu aos céus quando chegaram ao colégio, abriu a porta e saiu ansiosa em esquecer durante as aulas toda loucura dos últimos dias, porém Miguel a puxou pelo braço contra si, abraçando-a pela cintura e a beijou rapidamente.

Como das outras vezes, Sophia sentiu o corpo amolecer e se apoiou no Rodrigues para não cair. Não notou o sorriso debochado e vitorioso de Miguel para Nathan, que por sua vez saiu cantando pneus.


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