Delicada

"Onde estiver, seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce flor."

Racionais MC's

Anoitecia quando Miguel retornou ao seu bairro, mas não foi para casa, andou até a residência do melhor amigo e tocou a campainha, decidido a dar a Sophia uma nova chance de ser feliz. Precisava devolver a ela o sorriso iluminado que roubara.

Breno abriu a porta e disse que André estava no quarto, dando passagem para o Rodrigues entrar. Como de costume, entrou no quarto do Marinho sem se anunciar, encontrando-o deitado sobre a cama, cantando uma música melosa que tocava no aparelho de som. Sem cerimonia desligou o aparelho e observou André sentar e encara-lo com espanto a principio e depois vergonha.

– Às vezes você parece uma garotinha — comentou puxando a cadeira da mesa do computador para sentar-se. — Ainda me pergunto o que Sophia viu em você.

– Hein?!

– Não tem importância, o que interessa é que quero que namorem.

As sobrancelhas de André quase se juntaram, enquanto ele tentava, sem sucesso, processar e entender o que o amigo dizia.

– Embora seja cego, tapado e feio demais perto de mim...

– HEY! – Berrou encarando Miguel com raiva, porém o amigo não se alterou.

– Você é um grande amigo, leal e perfeito para a Soph — Miguel completou desviando o olhar para a porta. — Vai fazê-la feliz.

– Cara, ficou maluco? A Sophia é sua namorada.

– Terminamos hoje cedo.

A boca de André despencou com a novidade.

– Hã? O que aconteceu?

– Ainda pergunta? Ela quase morreu por minha culpa.

– Não foi sua culpa...

– Claro que foi. Aquelas loucas fizeram isso por ciúmes. Por que acham que ficarei com uma delas se tirarem a Sophia do caminho.

– Sim... – André concordou em um murmúrio, se corrigindo ao notar o desgosto na cara do Rodrigues. — Deve ter outra solução.

– Não posso arriscar. Se tiver que me separar dela pra que fique segura, é exatamente isso que irei fazer.

Encarou André com seriedade.

– Antes de aceitar ser minha namorada, Sophia era apaixonada por você – contou sem estranhar a surpresa do amigo. — Tenho certeza que se pedir ela aceitará namora-lo.

– Só que eu namoro a Marina – André retrucou ainda sem acreditar no que ouvira.

Os punhos de Miguel se fecharam ao questionar com os olhos faiscando de raiva.

– Pretende continuar com a Marina depois do que aprontou com a Sophia?

– Pensei muito sobre isso. Não faz sentido ela contar o que planejara com a Yasmin, dizer que se arrependeu e depois fazer isso. Mesmo que não houvesse uma filmagem, suspeitaríamos dela. Além disso, naquele dia a Marina ficou comigo o tempo todo, não havia como causar a alergia da Sophia sem que eu percebesse – comentou e, quando Miguel se levantou irritado, completou: — Preciso conversar com a Marina antes de decidir. Mas, de qualquer forma, não posso namorar a Sophia.

– Por quê?

– Porque você a ama. Namora-la seria o mesmo que trair a nossa amizade — argumentou.

– Não ligo se namorarem, tem a minha aprovação total – pronunciou com aflição.

André encarou o amigo com pena, o que não passou despercebido pelo Rodrigues, cujo orgulho estava suficientemente ferido desde que assistira ao vídeo e percebera o mal que causara a Almeida.

– Certo! Faça o que quiser. Só digo uma coisa: Continuar com a Marina é uma traição maior – sentenciou e, sem ligar para o chamado do amigo, partiu pisando fundo.

~*S2*~

Da janela de sua casa, Marina observava o movimento da rua, especificamente a casa de seu namorado, ou ex. Ainda não sabia o que a esperava na segunda, além de uma diretora e uma mãe, ambas furiosas, prontas para tornar um dia pior que seu fim de semana.

Assim que contará aos pais o que acontecera no colégio e a decisão de Patrícia, sua mãe a colocara de castigo no quarto, sem tevê, sem computador, sem celular e, principalmente, sem visitas do namorado - ou ex - e de qualquer amigo. Incomunicável.

Não teria se incomodado se pelo menos pudesse fazer um telefonema, um só, mas nem isso, um direito básico de prisioneiros, sua mãe a deixara fazer. E nem era para André como sua mãe concluirá. Queria conversar com Sophia, tentar amenizar a situação - se fosse possível - e reafirmar que não participara do plano que causara a alergia, que não seria capaz de tamanho absurdo, pelo menos não agora que se apaixonara pelo namorado, ou ex...

Mordeu o lábio inferior ao ver Miguel sair apressado da casa de André com expressão furiosa.

Não era um bom sinal.

~*S2*~

Sentada no longo sofá branco da sala, Leona assistia sozinha um filme de ficção científica, seu gênero preferido. Seus pais aproveitavam o final de semana para encontros românticos longe dos filhos. E seus irmãos saíram sem comunica-la, o que era estranho, não por Cássio que era um ignorante incapaz de se importar com alguém, mas por Júlio que era gentil e sempre a convidava para onde quer que fosse.

Ao ouvir o barulho de passos se aproximando e o som de vozes animadas, desviou a atenção da tela para o portal que separava a sala do salão de entrada. Cássio e Júlio vinham em sua direção juntamente com duas outras pessoas, um rapaz de cabelo loiro na altura dos ombros e uma garota de longo cabelo avermelhado. Ela segurava a mão de Cássio...

Levantou e encarou o grupo, em especial a ruiva, com altivez.

– Fizeram novas amizades?

Júlio ignorou a pergunta, incomodando Leona com o comportamento avesso ao normal.

– São colegas de classe do Júlio. – Cássio respondeu fazendo as apresentações. — Benjamin Ferreira. – Apontou para o rapaz de olhos verdes e depois beijou a mão da garota... – E essa é Linete Mendez.

– Nossos pais não gostam que pessoas estranhas entrem sem permissão.

– Eles têm a nossa – Júlio resmungou entredentes com um olhar maligno, surpreendendo Leona que raramente o via naquele estado.

Benjamin colocou a mão no ombro de Júlio, que fechou os olhos, respirou profundamente e ao voltar a abri-los parecia mais calmo, embora Leona não tivesse certeza, pois o irmão lhe deu as costas e pediu para o colega acompanha-lo até seu quarto.

– Cássio, em que lugar fica o banheiro?

Leona voltou a sentar, observando de canto Cássio indicar todo meloso o local para a garota. Quando ficaram as sós não estranhou quando ele sentou ao seu lado, um braço caindo preguiçoso no encosto do sofá, a mão próxima ao seu rosto.

– Nova namoradinha? – Não resistiu em pergunta, censurando-se quando Cássio a encarou com um sorriso triunfante na boca larga.

– Com ciúmes? – questionou acariciando a lateral de sua face.

– Nunca – negou desviando o olhar para as cenas que se desenrolavam no televisor. — Você não me interessa para nada.

– Não seja tão má – reclamou com um beicinho magoado. – Pelo menos comigo não precisa envenenar ninguém.

– Não sei do que fala – retrucou empurrando-o.

– Tem certeza? – Cássio perguntou envolvendo uma mecha do cabelo vermelho com os dedos, puxando aos poucos para forçar Leona a se aproximar. — Qualquer um que entrou no seu quarto nota que o vídeo que circulou no colégio foi gravado lá. Júlio percebeu e está furioso com você. Nosso irmãozinho, ao contrário de nós dois, tem princípios. – concluiu beijando o pescoço dela.

– É uma coincidência. – Voltou a negar sem se afastar, gemendo quando ele deslizou a mão por sua coxa descoberta.

– Claro, e aquelas duas terem passado horas no seu quarto nos últimos meses também deve ser.

– Sim...

– Que putaria é essa?!

Cássio levantou, deixando Leona desnorteada com a interrupção dos carinhos, e caminhou até Linete, que revezava o olhar de um para o outro.

– Você disse que ela era sua irmã.

– É.

– Sou.

Os olhos castanhos da jovem estreitaram.

– Esqueçam – ela exclamou balançando as mãos no ar como se quisesse afastar algo. – Prefiro não entender – decidiu seguindo para a porta.

Após sair, batendo a porta com toda força que conseguiu, Linete parou para processar o que vira e ouvira.

~*S2*~

As batidas o irritavam, obrigando-o a colocar o travesseiro sobre a cabeça, tentando abafar o som.

Do outro lado, cansado de bater e não receber nenhuma resposta, Lucas decidiu mudar de abordagem. Encostou o corpo na parede e comentou com voz alta suficiente para o irmão trancado ouvir:

– O encontro deve ter sido péssimo... Em contrapartida o lanche que a Sophia preparou estava ótimo. Embora, após beija-la, ele perdeu o sabor. Nada se compara aqueles lábios doces, não concorda irmãozinho?

Silêncio.

– Deprimida como estava não consegui uma reação apaixonada, mas, com um pouco de insistência e o meu charme, poderei acariciar aquele corpo delicado e tentador sem grandes problemas.

– Fique longe da Sophia! – Miguel exigiu escancarando a porta.

Lucas sorria com deboche, fazendo o irmão compreender que mentira para conseguir alguma reação sua.

– Você nunca a tocou, não é?

– Deixe-me em paz – resmungou voltando ao quarto, porém não conseguiu evitar a entrada de Lucas.

– Tenho certeza que você nunca a tocou com intimidade, nunca transou com ela. Tinha que ver a cara da Sophia quando insinuava algo mais picante. Aquela menina não sabe esconder o que sente e muito menos o que é.

– Você insinuou coisas picantes pra minha namorada?

Não reparou que chamara Sophia de namorada, mas Lucas, sempre atento, notou e satisfeito tentou esclarecer seu comentário.

– Era um teste...

Irado, Miguel agarrou a camisa do irmão e o empurrou contra a parede.

– TESTE? QUEM PENSA QUE É? É BOM NÃO TER TOCADO NELA... Do que está rindo?

– Da sua ceninha de ciúmes. Do que mais seria?

– Eu não estou com ciúmes.

– Pode negar, mas quando o assunto é a Sophia, você se torna ciumento e possessivo. Chega a ser engraçado quando tenta disfarçar e não consegue. Porque não admiti de uma vez que a ama e pede perdão? Ela merece ser amada. É uma garota sincera, bem humorada, delicada e fiel, não caiu nos meus encantos por mais que me esforçasse. Se ela fosse mais velha arriscaria minha vida desregrada para namora-la.

– ELA É MINHA, ENTENDEU? – esbravejou sem notar que sua atitude não coincidia com o que dissera para Sophia de manhã.

Lucas encarou Miguel com satisfação. Seu irmãozinho era facilmente manipulável quando tinha raiva.

– Ah, entendi, mas... Você entendeu?

Sem esperar uma resposta Lucas saiu. Miguel precisava ficar sozinho com seus pensamentos.

Miguel retirou do bolso a foto dele com Sophia.

– O que tem pra entender? — murmurou com os olhos fixos na fotografia, deslizando o polegar sobre a face dela registrada na pequena foto. – Não posso ficar com você.

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