Cuidados

"Toda brutalidade se esvai com uma palavra de carinho."

João Vitor Rocha

Tentando sem muito sucesso prestar atenção somente em cuidar dos ferimentos de Miguel, para que pudessem conversar sobre o ocorrido de manhã, Sophia sentia uma grande dificuldade. Suas mãos e pernas tremiam, mal respirava e era evidente, pela quentura em sua face, que estava mais vermelha que um pimentão. O motivo era que, do momento que se colocara na frente Miguel, sentado sobre a cama, tivera a cintura presa por duas mãos que não paravam quietas. Era torturante sentir os dedos do Rodrigues percorrendo o cós de sua calça.

Recebendo os cuidados de Sophia, Miguel se segurava para não joga-la sobre a cama e beija-la, entre outras coisas que passavam por sua mente. Mesmo aparentando concentração total no que fazia, o rosto carmim de Sophia e o fato de que a algum tempo o ato de passar um remédio em seu rosto se tornara uma carícia deixavam claro para Miguel que ela não ignorava por completo as mãos que deslizavam devagar pela cintura. Sentia-se satisfeito em saber que Sophia não era imune ao seu toque, assim como era um tormento admitir não ser imune ao dela.

— Sophia, sem querer ser mal agradecido, mas não estou tão ferido assim. — Procurou manter o tom neutro, mas sua voz saiu rouca, desejosa.

— É... que te-tem alguns arranhões... da bri-briga com o Davi... Para com isso. — Terminou por pedir deixando de lado o que fazia e afastando as mãos de Miguel.

— Parar? Estou apenas começando. — Miguel a puxou para cima de seu colo em um abraço. — Queria saber o que faz aqui afinal? Pensei que não queria mais me ver.

Dessa vez sua voz saiu com mais frieza do que pretendia, para compensar beijou carinhosamente o canto da boca de Sophia.

— Você estava certo sobre Davi... — Desviou o olhar ao declarar sem graça. — Depois que você foi embora... ele contou que me ama e... me pediu em namoro... mas eu recusei... — confessou fitando Miguel, disposta a ser honesta mas sem coragem suficiente para dizer que Davi a beijara.

Com esforço Miguel evitou emitir qualquer opinião desagradável sobre Davi, de qualquer forma Sophia recusara o amor dele.

— Mesmo assim, não se pode resolver nada com violência — reclamou Sophia ouvindo Miguel bufar. — Bem... eu vim aqui pedir desculpas e dizer que se... quiser terminar comigo depois do que te disse... eu entendo...

Desviou novamente o olhar, não queria que Miguel percebesse o medo de perdê-lo estampado em seus olhos, porém teve o rosto movido novamente em direção aos olhos negros. Sentiu como se possuísse dezenas de borboletas na barriga ao notar nos lábios de Miguel o sorriso de lado que tanto amava.

— Não quero terminar — Miguel declarou acariciando a face de Sophia.

Entusiasmada Sophia selou seus lábios nos de Miguel rapidamente, ao se afastar o fitou envergonhada.

Era a segunda vez que Sophia fazia algo assim, mas dessa vez Miguel decidiu que não a deixaria fugir, a puxou pela nuca e começou a beija-la, brincando com seus lábios, mordendo-os e roçando-os com a língua. Por alguns instantes Sophia ficou imóvel, ondas elétricas percorriam seu corpo, por fim enlaçou o pescoço de Miguel com seus braços e pressionou o corpo contra o dele, entreabrindo seus lábios, dando passagem para que a língua dele a provocasse. Satisfeito, Miguel inclinou sua cabeça para aprofundar a penetração de sua língua enquanto introduzia sua mão por debaixo da camisa que Sophia usava e a deslizava possessivo da cintura até as costas pressionando-a com mais força contra si. Apreciando as sensações que as mãos e os lábios de Miguel lhe faziam sentir Sophia deixou-se levar, não demonstrando qualquer resistência.

Mesmo tentado a acomodar ambos sobre a cama, Miguel se forçou a controlar seu corpo que queimava de desejo pelo dela ha muito tempo. Não queria ser acusado de ter se aproveitado dela. Sophia era especial, o que a tornava especial era algo ainda desconhecido para o Rodrigues, porém tinha consciência de que se acontecesse algo entre eles e percebesse uma minúscula sombra de arrependimento sobre os olhos ambares se sentiria o pior dos homens sobre a face da Terra. Com esse pensamento se afastou somente o suficiente para chamar a atenção dela que se encontrava com os olhos fechados.

— Soph... — Afagou a face e os lábios inchados, pelos beijos trocados, e sem resistir a beijou uma vez mais antes de declarar: — Por mais que te deseje, não passarei dos beijos sem sua permissão, entendeu?

Ao ouvir a pergunta de Miguel, Sophia abriu os olhos e o fitou meio aérea, ficou olho a olho com o Rodrigues, o coração batendo rápido dentro do peito querendo que ele voltasse a beija-la. Piscou uma, duas, três vezes antes de acordar do encantamento que os beijos de Miguel sempre exerciam sobre si e entender a mensagem que as palavras e os olhos negros dele transmitiam.

— E-eu... eu... — Se sentia um tola por gaguejar em vez de ser firme e dizer...

O que diria afinal? Que sim, que permitia que fossem além dos beijos? As lembranças dos avisos que recebera de Nathan, Yasmin e Davi ainda estavam bem vívidos em sua mente, todas com a mesma informação: Era uma questão de tempo para Miguel deixa-la e seu tempo já estava se esgotando.

O amava de todo coração e queria ser amada de volta com a mesma intensidade. Não queria ser mais uma na lista de Miguel.

— Está tarde, tenho que ir pra casa — informou em um só fôlego.

Soltando um riso sem qualquer indicio de humor, alegria, Miguel se levantou junto de Sophia.

— Entendo... Eu te levo.

Caminhando ainda abraçado a Sophia, se deu conta que nunca fizera isso antes, ou pelo menos não se lembrava de ter deixado alguma garota sair ilesa de seu quarto. Nos últimos dias andava agindo de forma diferente por culpa da Almeida, não sabia se era bom ou ruim e nem queria pensar muito nisso por enquanto, tinha receio das respostas que viriam.

— Pensei que só desceriam amanhã de manhã — disse Lucas olhando de um para o outro com malícia quando chegaram ao fim da escada.

— Como sempre você está errado — Miguel resmungou antes de abrir a porta.

— Até mais, Lucas! — despediu-se Sophia.

— Espere! — Sem se importar com a carranca de Miguel, Lucas abraçou Sophia com força e a beijo no rosto antes de lhe entregar algo. — Seu casaco, linda.

— O-obrigada.

— Ela já agradeceu Lucas, então pode solta-la — mandou Miguel empurrando o irmão e se contendo para não devolver o soco que levara.

Acompanhou Sophia até o lado de fora, mas a Almeida não aceitou que ele a levasse.

— Eu vim de bicicleta, posso voltar sozinha — explicou com um sorriso envergonhado.

Não contestou a decisão dela, a beijou uma última vez antes de observa-la se afastar e sumir em uma curva no fim da rua.

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