Crise
"Da covardia nem Jesus escapou, imagine nós!"
Visão de Progresso
Miguel olhou as horas pela décima vez desde que sentara junto aos amigos no intervalo, arrumou o lanche da namorada, um suco de caixinha e uma maça, e terminou de comer o bolinho que ela lhe fizera antes de voltar a verificar o relógio.
Marina e André observavam com curiosidade a agonia do colega, divididos entre a vontade de rir e de despreocupá-lo.
– Qual é cara, Sophia disse que chegaria em até dez minutos, não precisa se estressar.
Miguel encarou o colega com raiva, ainda não perdoara o Marinho pela situação difícil em que o colocara dois dias antes.
– Afinal, sobre o que ela foi falar com a Suzana? – Marina quis saber após terminar de beber seu suco.
– Não sei. Parecia bem e até pediu para não acompanha-la.
– Olhe, ela chegou. — Marina apontou a entrada do refeitório, a alguns metros de onde estavam, onde Sophia acabara de passar e sorriu ao ver o Rodrigues, em vez de aguardar a Almeida se aproximar, preferir ir ao encontro dela.
Atentos, Marina e André perceberam, mesmo distantes, o quanto Miguel zelava pela namorada, a forma como segurou suas mãos dela junto ao peito, e a preocupação com que a olhou ao falar algo, provavelmente querendo saber o motivo dela ter procurado a enfermeira do colégio.
Sophia corou e disse algo, provavelmente muito baixo, pois Miguel inclinou o corpo na direção dela como para ouvir melhor. Ao voltar à posição de antes, sorriu e abraçou a namorada, embalando-a em seus braços e aguçando a curiosidade dos amigos.
– Como vai Marina?
Marina voltou à atenção para a mesa, que Leona ocupara quase que totalmente ao praticamente deitar sobre o móvel.
– Estava ótima até você aparecer.
– Não seja tão cruel. — Se inclinou em direção à jovem, o rosto praticamente encostando ao dela. — Ou pode acabar se arrependendo.
– Isso é uma ameaça?
– Um aviso. – Voltou à atenção para André, que estava concentrado na conversa entre as duas. – Sua namorada é bem estressadinha, não acha querido?
– Garota é melhor sumir da minha frente ou a arremessarei daqui até a lata de lixo — Marina avisou ao levantar irada com o descaramento de Leona.
– Calma Marina! – André pediu segurando os ombros da namorada para chamar-lhe a atenção. – Ela só quer te irritar, esqueça.
– E conseguiu. Quem ela pensa que é pra te chamar de querido? – Voltou à atenção para Leona, disposta a levar a briga adiante, porém a ruiva já sumira de seu campo de visão. – Onde ela foi?
– Que diferença faz? – André beijou a face da namorada e sorriu de orelha a orelha. – Você fica linda com ciúmes.
– Te arrebento se proteger novamente uma garota que te chamar de querido na minha frente.
André riu sem graça, coçando a nuca com desconforto. Às vezes Marina era assustadora.
*S2*
O sinal tocou estridente ao mesmo tempo em que Sophia chegou à mesa com Miguel. Sem alternativa, Sophia pegou seu lanche e saiu caminhando enquanto bebia seu suco de uva e mordia apressada sua maçã. Antes de chegar a sua sala, sentiu o braço molhado, reparando que o suco vazara da embalagem e sujara a manga de sua camisa e a saia, por isso jogou fora o suco e o que restou da maça, parou em um bebedouro para lavar as mãos e seguiu para a classe. Ao chegar a sua casa cuidaria do uniforme.
Sentou em seu lugar e instantes depois o professor de matemática entrou.
Na metade da aula sua garganta começou a coçar e, mesmo se esforçando, não conseguiu conter a vontade de tossir.
Miguel a olhou e Sophia sorriu para tranquiliza-lo. Odiava atrair olhares para si, mesmo que de forma involuntária, mas à medida que os minutos foram passando a tosse foi ficando mais forte e prolongada, além disso, sua face começou a coçar, sua boca formigava e a língua parecia dobrar de tamanho.
Percebendo o que tinha puxou de leve o braço de Miguel.
– Mi-Mi-guel... – Colocou a mão sobre o estomago, que começara a doer e revirar, e se apoio em Miguel quando tudo pareceu girar.
Tirando a atenção da explicação do professor para a namorada, Miguel se surpreendeu ao ver a face avermelhada, os lábios inchados e os olhos lagrimejando. Já vira aquilo antes, quando tinha nove anos e fora parar na enfermaria ao se machucar durante uma partida de futebol. Sophia fora colocada ao seu lado quase desfalecida por ter comido um doce a base de amendoim que outra colega oferecera. Lembrava-se de ter ficado impressionado com a forma que a face normalmente branca ficara cheia de marcas avermelhada, assim como se assustara ao ouvir que se não tivessem percebido a tempo Sophia poderia ter morrido.
– Merda! – Miguel a ergueu nos braço e saiu correndo em direção à porta para surpresa dos colegas e do professor, que só ouviu o Rodrigues gritar antes de desaparecer de sua vista. – A Sophia esta tendo uma crise alérgica.
O caminho até a enfermaria nunca parecera tão longe para Miguel. Correu pelos corredores ignorando quem se colocasse em seu caminho, precisava chegar logo ao seu destino, o único lugar no colégio que sabia que salvaria Sophia.
Entrou na enfermaria sem bater surpreendendo Suzana.
– O que...?
– Crise alérgica – Miguel disse colocando Sophia sobre a cama.
Vendo o estado da Almeida, que continuava a tossir e parecia ter falta de ar, Suzana pegou o molho de chaves que deixava preso no cinto, abriu o armário de remédios, pegou uma ampola de adrenalina e uma seringa que encheu com o líquido, indo apressada até Sophia para aplicar o medicamento na perna dela.
– Isso vai interromper os sintomas, mas terei que leva-la ao hospital para mais exames e acompanhamento.
– Eu vou com você.
Suzana concordou e chamou por interfone sua auxiliar na enfermaria, para informar a diretora de sua saída e solicitar que avisasse os parentes de Sophia.
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